Capítulo 2

Olivia

— Me conte tudo! — A empolgação na voz d minha irmã é palpável. Isso é aceitável, já que a rigidez da nossa família não nos permite ir a festas e menos ainda a clubes ou danceteria.

— Minha nossa, Kim, o que você quer saber? — retruco achando graça da sua ansiedade e a fito deitada na sua cama de solteiro que fica ao lado da minha.

— Eu quero saber sobre tudo. Você sabe, as luzes, as músicas. Quero que me conte sobre o sabor das bebidas e sobre como é dançar com um homem. Ai Ollie, me conte! Não me esconda nada! — Termino de escovar os meus cabelos e vou imediatamente para a minha cama, para debaixo do cobertor, virando-me no colchão para ficar de frente para ela.

— A boate é exatamente como vimos nos filmes — falo e o seu sorriso se amplia. — Tinha toda aquela fumaça esbranquiçada, as luzes que corriam de um lado para o outro causando uma sensação esquisita na nossa cabeça. As minhas amigas optaram por beber cervejas e nossa, elas são horríveis! — Rimos do meu comentário. — Mas a bebida me deixou mais à vontade, então não reclamei.

— E o estranho, como ele era? — Puxo a respiração e me lembro dos olhos claros sempre intensos e rígidos. Da sua boca que falava palavras firmes mescladas de meiguice e de compreensão, porém, elas eram envolventes demais. Do seu toque sempre possessivo na minha cintura na hora da dança e também nos momentos quentes naquele quarto. E até da maneira como ele respirava perto demais da minha pele.

— Ah, ele era lindo, realmente muito lindo! E era alto, tão alto que eu me sentia minúscula perto dele.

— E ele te não disse o nome? — Fiz não com a cabeça.

— Ninguém disse. Na verdade, eu não sabia nada sobre ele e nem ele sabia nada sobre mim.

— Você é maluca, sabia? — Rio. Talvez eu seja mesmo. Penso. Um leve giro no trinco nos faz apagar as luzes dos abajures e se deitar imediatamente, fingindo estar no décimo sono. Então a luz do corredor invade o nosso quarto e logo a porta se fecha outra vez.

— Quando vai arrumar um emprego? — Kim inquire agora mais baixo e com um tom frustrado.

— Na próxima semana começo a procurar um. — Ela abre outro sorriso, esse esperançoso.

— Tá! Eu te amo, Ollie!

— Também te amo, Kim! Boa noite!

— Boa noite!

Sair de casa para ir atrás de emprego será mais um desafio para mim, pois é incrível como o meu pai exerce grande influência sobre as pessoas aqui do bairro, principalmente os comerciantes. Então, se tiver de arrumar algo que valha a pena terei que procurar fora desse lugar. Mas como farei isso será um problema. Eu preciso encontrar o momento certo para sair de casa e voltar antes que eles percebam a minha ausência em casa. Ou seja, terei poucas horas para me dedicar a procurar um bom emprego e quando conseguir, terei que procurar um lugar para morar. Contudo, o desafio maior virá quando eu realmente conseguir algo para fazer e será nesse momento que comprarei uma briga séria com eles. Inquieta com os meus pensamentos saio da cama e me sento na pequena e envelhecida poltrona perto da janela. Lá fora o bairro ainda está acordado, mas parte do comércio começa a se fechar. Bufo quando penso que apenas a nossa família dorme junto com as galinhas, quando alguns jovens da minha idade fazem coisas de jovens da minha idade. Sem ter muito o que fazer, pego o velho celular que a minha tia Julian me deu escondida dos meus pais antes de partir e decido praticar um pouco de francês.

***

Um mês depois...

Não é possível que o destino queira me maltratar tanto assim, pois estou à beira de um colapso só de pensar em me aventurar por esse bairro em busca de algo que me ajude a conquistar os meus objetivos e por mais que eu implore por uma mísera vaga de emprego, ela me é negada ou me oferecem uma ninharia pelo meu trabalho. Eu não me esforcei por tantos meses, arriscando ser severamente castigada para ser explorada por esse sanguessugas.

— Meu Deus, Ollie, você demorou dessa vez! — Kim reclama nitidamente nervosa assim que entro em casa, mas estou desanimada demais para rebater.

— Eles ainda não chegaram? — Livro-me dos meus sapatos e os seguro com dois dedos. Em resposta ela faz um não para mim.

— Vá para o quarto e troque de roupa antes que eles passem por essa porta.

— Tá, prometo que serei rápida! — digo, porém, antes de correr para as escadas, beijo o seu rosto e lhe agradeço. — Obrigada por me cobrir, sei que ficou sobrecarregada com a minha parte nas tarefas de casa.

— Só, vá se trocar antes que ponha nós duas em apuros.

— Eu te amo! — sibilo e faço o que me pede. Em três dias Kim fará vinte e um anos e se eu realmente conseguir algo que nos garanta um lugar confortável para ficar e o nosso sustento, ela virá morar comigo. Assim que entro no quarto, livro-me das minhas roupas e rapidamente ponho outra mais simples e comportada. Contudo, ao caminhar apressada para a porta a minha cabeça dá um leve giro e eu me apoio em uma parede, puxando lentamente a respiração, sentindo as batidas do meu coração descompassar.

— Por Deus, Ollie, você quer me castigar?! — Kim adentra o quarto completamente esbaforida. Entretanto, o mal-estar parece me absorver e eu corro imediatamente para o banheiro. — O que foi? O que há de errado com você? — Ela inquire vindo atrás de mim. No entanto, não tenho tempo para responder, pois logo me prosto diante do vaso sanitário e simulo um vômito que não vem, a final, estou de estômago vazio. — Você está gelada, Ollie! — Kim parece bem preocupada.

— Eu não entendo o que está acontecendo comigo — digo com um pouco de dificuldade, quando mais uma ânsia vem subindo pela minha garganta.

— Céus, você está doente, irmã? — faço não com a cabeça e respiro fundo algumas vezes, na esperança de que essa agonia passe logo.

— Me ajude a ir para a cama, Kim — peço lhe estendendo a minha mão. Minha irmã, me ajuda a ficar de pé e na sequência, ela envolve a minha cintura e me leva para me deitar um pouco.

— Eu vou chamar a mamãe! — Ela pensa em se afastar, porém, seguro na sua mão e ela me olha aturdida.

— Não precisa, Kim, já está passando.

— Você tem certeza? — Faço um sim, sentando-me no colchão e respiro fundo, sentindo o calor voltar a aquecer o meu corpo gradualmente. Não demora para estarmos descendo as escadas com cuidado para irmos à cozinha, onde mamãe me recebe de cara fechada e o meu pai olha de mim para Kim com um olhar repreensível.

— Por que demoraram tanto? — Ela ruge irritada. Kim balbucia sem saber o que dizer e eu resolvo falar a verdade.

— Me desculpe, mamãe e papai, eu não estava me sentindo bem e a Kim ficou para me ajudar.

— O que você tem, está doente? — Imediatamente a Senhora Martin se levanta da sua cadeira, para levar uma mão a minha testa, verificando a minha temperatura.

— Eu não estou doente, foi só um mal-estar.

— Sente-se, venham tomar café da manhã. E coma bem, Olívia. Quero que fique bem forte, a final, para se casar com um homem como o Edie, você precisa ter forças para agradá-lo. — Praticamente me engasgo com o café quando escuto essa sandice.

— Que história é essa de casamento? — Olho para a minha mãe e depois para o meu pai.

— O Senhor Durand virá nesse final de semana com a sua família aqui em casa para pedir a sua mão, filha.

— Eu não quero! Eu não vou me casar nem com ele e nem com ninguém! — rebato baixo, porém, impulsiva.

— Você não tem de querer, Olívia. O mundo não está fácil e dê-se por feliz por encontrarmos um bom homem para cuidar de você. — Irritada com essa conversa me ponho de pé e fito os dois.

— Eu não preciso que cuidem de mim! — rosno entre dentes.

— Sente-se ai, garota insolente! — Papai ordena quando penso em me retirar e bufando por dentro o obedeço. — Escute bem o que vou lhe dizer, Olívia. Eu sou o seu pai e enquanto viver debaixo do meu teto, você fará tudo como eu bem quiser. E quando a família Duran entrar nessa casa quero que a receba com sorrisos, e que sirva o seu futuro marido com muito amor, entendeu bem?! — Apenas trinco o maxilar e engulo o choro.

— Eu posso ir para o meu quarto agora? — retruco, segurando uma malcriação e ele faz um gesto desdenhoso me liberando. Saio do cômodo com passos largos e corro pelos batentes da escadaria, direto para dentro do meu quarto.

Capítulo 3

Olívia

— Não acha que deveria ir a um médico? — Kim pergunta preocupada andando de um lado para o outro. No entanto, não tenho condições de respondê-la, porque a ânsia não me permite. — Que droga Olie, algo está se passando dentro da minha cabeça e eu não estou gostando dos meus pensamentos! — Ela respira alto e profundo, se encostando em uma parede e se arrasta por ela, até sentar-se no chão. — Me diga, quando menstruou pela última vez? ok, essa foi a pergunta do século e sinceramente eu não entendo por que não me atentei a esse detalhe antes. Quer dizer, eu não tenho uma menstruação regulada com dia e hora marcados para descer. No entanto, ela nunca falha. Seja no início, no meio ou no final do mês ela sempre surge, mas não esse mês.

— Por Deus, Olívia por que você não exigiu que ele usasse a droga da camisinha?! — Minha irmã ralha sem conter o seu desespero e volta a andar dentro do banheiro, onde continuo prostrada, esperando uma nova onda de ânsia de vômito me acometer.

— Estávamos tão afobados com o momento que nem se passou pela minha cabeça...

— Ah claro, vocês estavam afobados! — Ela me interrompe. — E agora, o que vamos fazer?

— Eu não sei, Kim. Só sei que tenho mais um motivo para sair dessa casa e procurar um emprego.

— E quem vai te empregar nessas condições, Olie, me diz? — Desanimada, minha irmã volta a se sentar no chão e eu faço o mesmo, me encostando na parede atrás de mim. O pior é que ela tem razão. Ninguém em sã consciência vai querer me empregar sabendo que estou grávida. E como farei quando o bebê vier ao mundo? Céus, eu estraguei tudo, todos os nossos planos e sonhos estão escapando por entre os meus dedos e eu não sei o que fazer para evitar que isso aconteça!

— O que vamos fazer, Olie?

— Eu vou dar um jeito, querida. Eu prometo — digo indo para perto dela e a abraço demoradamente.

Os dias seguintes ficaram cada vez mais difíceis para controlar os sintomas dessa gravidez completamente inesperada, pois além dos enjoos, vieram também a fraqueza que roubava todas as forças do meu corpo e a sensação de sono que parecia não querer me largar nunca. Os dias estavam se passando e consequentemente o meu tempo estava se acabando, e eu já não podia mais esconder essa situação dos olhos perspicazes dos meus pais. Contudo, não demorou para Edie colocar uma aliança de noivado no meu dedo e todos já estão falando em casamento. Droga, eu não consigo mais dormir e me alimentar é quase uma tormenta, porque o cheiro da comida me faz enjoar. No meio da noite eu já estava pronta para ir para o quarto quando fiquei tonta e a minha vista escureceu. Nervosa, Kim me segurou como pode e me ajudou a ir para a cama. Entretanto, na manhã seguinte, mesmo desanimada desci para tomar o meu desjejum e estranhamente a minha irmã não estava na mesa. Os meus pais estavam sérios demais e isso era um péssimo sinal.

— Bom dia! — digo forçadamente normal e desconfiada, me acomodando em uma cadeira, sem olhá-los direto nos olhos. — Onde está a Kim?

— Ela foi buscar algo que pedi. — O tom seco da minha mãe não passou despercebido, porém, procurei me concentrar em servir uma xícara de café para mim. — Você está grávida, Olivia? — A indagação surge repentina e de susto, erro a borda da porcelana branca.

— Aí, droga! — rosnou quando parte do café quente entorna na minha roupa e trêmula, pego um pano para me secar.

— Pensa que não tenho percebido? Os enjoos matinais, a fome excessiva e o excesso de sono? E você nem me pediu para comprar o absorvente desse mês! — Fecho os meus olhos, me repreendendo por esse mínimo detalhe. Uma pancada forte na mesa me faz sobressaltar e eu finalmente olho nos olhos dos dois.

— Responda a sua mãe, garota! — Papai ordena e eu engulo em seco.

— E não minta pra mim, porque eu saberei se estiver mentindo, Olivia Martín! — Respiro fundo, talvez tentando ganhar tempo, mas eu bem sei que não terei como escapar dessa conversa.

— Eu estou. — As palavras passam receosas pela minha boca. Papai se põe de pé com um rompante e com medo, fico de pé também.

— Por Deus, Olivia, como isso aconteceu?! — Mamãe inquire, porém, estou com os olhos fixos nos movimentos do meu pai, que começa a desafivelar o seu cinto da sua calça. _ COMO?! _ Ela grita e eu estremeço, afastando-me um pouco mais.

— E-eu não sei.

— COMO NÃO SABE, OLÍVIA?! COMO NÃO SABE QUE ENGRAVIDOU? POR ONDE ANDOU, COM QUEM?! Oh meu Deus, todos vão falar dessa sua promiscuidade, minha filha! Todos vão nos apontar como pais irresponsáveis. Oh, Deus onde foi que eu errei? ONDE EU ERREI COM VOCÊ, OLÍVIA?! — Seus gritos parecem fazer as paredes da casa estremecerem.

— Mãe, eu não...

— Não me chame de mãe, sua vagabunda! — Ela rosna em um misto de decepção e raiva, acertando uma tapa forte no meu rosto e depois, uma sequência de tapas que eu procuro evitar, até ela se afastar e chorar copiosamente em um canto de parede. As lágrimas descem quentes no mesmo instante.

— Quem é o pai dessa criança, Olívia? — Papai inquire rudemente e os meus olhos correm agitados para o couro escuro enrolado em uma de suas mãos.

— Eu não sei. Papai, por favor!

— NÃO MINTA PRA MIM SUA INSOLENTE! EU QUERO O NOME DESSE DESGRAÇADO, OLÍVIA! Ele terá que ser homem para aceitar o que fez e se casar com você!

— Por Deus, eu não estou mentindo! — rebato em um misto de medo e impertinência. — Eu não sei o nome dele...

— Ora, sua... — Ele ergue o cinturão e eu fecho os olhos esperando o couro estralar na minha pele.

— Papai, não faça isso! _ Kim interpele, parando entre ele e eu.

— Kimberly, saia da frente agora!

— Não! Papai, ela está grávida e o senhor não pode bater nela assim!

— Se você não sair daí eu vou bater nas duas! — Ele berra, erguendo o cinto outra vez e novamente fecho os meus olhos, esperando pela ardência cortante na minha pele. Contudo, ela não veio e mesmo sem coragem resolvo abri-los. Para a minha surpresa mamãe está segurando no braço do meu pai e esperançosa procuro os seus olhos.

— Quero que saia da minha casa, Olívia.

— Mamãe, por favor...

— Saia da minha casa agora! _ Ela ordena com um tom baixo, porém, imperativo. Kim me lança um olhar piedoso. Entretanto, olho para os meus pais em uma suplica muda.

— Por favor, para onde eu irei?

— Isso não me importa. Eu não vou acolher aqui uma vagabunda promíscua dentro da minha casa. Quero que arrume as suas coisas e suma daqui!

— Mamãe... — Tento pedir por sua misericórdia, mas ela me dá as costas e a única coisa que sobrou para mim foi o olhar rígido do meu pai.

— Kimberly, vá para o seu quarto.

— Mas, papai...

— MANDEI SUBIR, VÁ AGORA!

— Eu sinto muito, Ollie! — Minha irmã sibila sem emitir som e corre para as escadarias.

— E você, esqueça que tem uma família aqui, porque a partir de hoje você não tem mais um pai e nem uma mãe. Eu estou saindo agora e quando voltar não quero vê-la aqui. — Ele me dá as costas e arrasada, eu volto a me sentar na cadeira e começo a chorar. Não foi assim que planejei a minha saída dessa casa. Eu deveria estar trabalhando, ganhando o meu próprio sustento e escolhido uma casa aconchegante para acolher a mim e a minha irmã. No entanto, estou arrumando algumas roupas dentro de uma bolsa e entre lágrimas dolorosas, me despeço da minha irmã.

— Quero que leve isso com você. — Ela me estende um pano colorido como se ele fosse um embrulho.

— O que é?

— São as minhas economias, Ollie. É pouca coisa, mas vai te ajudar.

— Ah não, Kim, eu não posso aceitar isso!

— Por favor, Olívia, leve consigo, você vai precisar, minha irmã. — Ela insiste e emocionada, recebo o pequeno embrulho de suas mãos e volto a abraçá-la. Dessa vez forte e demoradamente, e por fim, olho ao meu redor. Para cada canto desse quarto que guarda boa parte da minha história.

— Eu volto para te buscar — prometo fitando-a com esperança de conseguir vencer lá fora.

— E eu estarei esperando por você bem aqui. — Faço um sim com a cabeça e forço um sorriso para ela.

— Eu te amo, não esqueça disso.

— Também te amo, Ollie, mas você precisa ir antes que eles...

— Eu sei, eu sei. — Respiro fundo. — Eu não sei como, Kim, mas vou conseguir vencer por mim, por nós duas. Não pensei que seria tão difícil sair, mas é. De qualquer forma eu nasci nessa casa e me criei nela também. E tenho muitas, muitas lembranças nesse lugar. Do lado de fora, olho para os lados da rua sem saber para onde ir realmente e quando começo a caminhar pela calçada, decido ir até o Edie e pedir-lhe que me ajude.

— Eu só preciso de um quarto por alguns dias. Preciso procurar um emprego e um lugar seguro para ficar. — Ele bufa audivelmente.

— Eu não posso, Ollie. O seu pai me destruiria se fizesse isso.

— Edie, por favor, prometo que será alguns dias apenas. E ele não precisa ficar sabendo. — O rapaz força um sorriso.

— Você o conhece mais do que ninguém, Olivia. O seu pai me deixaria sem clientes do dia para noite. Você sabe da influência dele sobre todos aqui. — Apenas confirmo balançando a cabeça.

— Tudo bem! — Largo a bolsa no chão para retirar do meu dedo o anel que me deu há alguns dias. — Isso lhe pertence. Eu nunca seria uma boa esposa pra você, Edie. Não nunca me encaixaria nesse padrão idiota que vocês insistem em manter nessa cidade.

— Olivia, eu...

— Até um dia, Edie!

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