Ponto de Vista: Clara Tavares
Arthur chegou em casa e encontrou uma zona de guerra. O decantador de cristal que ele amava, um presente de um investidor japonês, jazia em mil cacos brilhantes no chão de mármore, seu conteúdo âmbar manchando o tapete branco como sangue seco. Os retratos de nós dois, sorrindo em vários eventos de caridade e capas de revistas, estavam rasgados, meu rosto um vazio ao lado do dele.
Ele caminhou pelos destroços sem dizer uma palavra, sua expressão não de raiva, mas de uma decepção exausta. Ele afrouxou a gravata, seu olhar varrendo a destruição como se estivesse avaliando um pequeno inconveniente de negócios.
"Se sente melhor?", ele perguntou, a voz calma, o que apenas alimentou o inferno dentro de mim.
Eu estava sentada no sofá, perfeitamente imóvel em meio ao caos que eu havia criado. "Você não acha que eu mereço uma explicação?"
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo perfeitamente penteado. "Clara, eu já te disse. Ela é jovem. Está apaixonada. Ela não sabe o que está fazendo."
"Ela sabia o suficiente para me ligar. Sabia o suficiente para me mandar fotos. Sabia o suficiente para me dizer que está grávida do filho do meu marido." Cada palavra era um caco de vidro que eu o forçava a engolir.
Ele teve a audácia de parecer magoado. "Eu ia te contar."
"Quando? Depois que o bebê nascesse? Depois que você a mudasse para a nossa casa?"
Ele foi até o bar, contornando cuidadosamente o vidro quebrado, e se serviu de um uísque de outro decantador. "Não precisa ser assim. Foi um erro."
Uma risada fria e sem humor escapou dos meus lábios. "Um erro? Ou uma substituta?"
Levantei-me e caminhei até ele, meus movimentos lentos e deliberados. Enfiei a mão no bolso e tirei um pedaço de papel dobrado. Deixei-o flutuar sobre o bar, ao lado de sua bebida.
Era um laudo médico do meu ginecologista. Uma conta detalhada de um procedimento de curetagem.
Seus olhos percorreram o papel, a testa franzida em confusão. Então seu olhar se fixou na data. Três semanas atrás. Um músculo em sua mandíbula se contraiu.
"O que é isso?", ele perguntou, a voz um sussurro baixo.
Inclinei-me para perto, minha voz tão baixa quanto a dele, mas carregada de veneno. "Era o seu filho, Arthur. Ou talvez sua filha. Nunca saberemos, não é?"
O copo escorregou de sua mão, estilhaçando-se no chão. Seu rosto, que tinha sido uma máscara de fria indiferença, se desfez. Seus olhos, pela primeira vez naquela noite, mostraram uma emoção crua e sem filtros. Pura agonia.
"Você... você não faria isso", ele gaguejou, o corpo tremendo. "Você não poderia."
"Eu pude", eu disse, minha voz suave como seda. "Eu dei um jeito."
Ele avançou, suas mãos se fechando em meus ombros como garras de aço. Seu aperto era brutal, a mesma força bruta que ele usara no meu padrasto todos aqueles anos atrás. "Por quê?", ele rugiu, o rosto a centímetros do meu, o hálito quente de uísque e fúria. "Por que você fez isso, Clara?"
Olhei em seus olhos furiosos, os mesmos olhos que um dia me olharam com adoração, com uma promessa de proteção. E senti uma estranha e desapegada sensação de satisfação. Eu finalmente tinha sua atenção total e indivisa.
Esta era apenas a terceira vez na minha vida que eu o via perder o controle. A primeira foi na noite em que ele matou por mim. A segunda foi quando uma corporação rival tentou uma aquisição hostil, e ele quase espancou o homem até a morte em uma garagem.
E agora, isso. Por uma criança que ele nunca conheceu, com uma mulher que ele dizia não significar nada.
"Por quê?", repeti, minha voz zombeteira. "Foi você quem quis isso, Arthur. Você estabeleceu os termos."
Estendi a mão e toquei suavemente sua bochecha, meus dedos traçando a linha de sua mandíbula cerrada.
"Até que a morte nos separe, lembra?", sussurrei. "Não há espaço para ela. Ou para isso. Se você tentar trazer mais alguém para este casamento, eu não vou apenas me livrar deles."
Minha voz baixou, as palavras uma promessa arrepiante. "Eu mato vocês dois."
Ele me encarou, sua raiva sendo lentamente substituída por um horror crescente. Ele viu a verdade em meus olhos. A convicção fria e dura. Ele viu a garota que ele havia criado naquela noite no barraco, a garota que aprendeu que a violência era a única solução definitiva.
Seu aperto afrouxou ligeiramente quando seus olhos caíram para minha mão, ainda pousada em sua bochecha. Ele notou a fina linha de sangue que brotava na minha palma, onde um caco de vidro do decantador a havia cortado.
Toda a sua postura mudou. A fúria desapareceu, substituída por um vislumbre do antigo Arthur, o protetor. Suas mãos, que me machucavam momentos antes, suavizaram. Ele pegou meu pulso gentilmente, virando minha mão para inspecionar o corte.
"Você está sangrando", ele murmurou, sua voz agora tingida de preocupação.
Ele me levou ao banheiro, seu toque surpreendentemente gentil. Sentou-me na beirada da banheira e abriu o armário de remédios, seus movimentos práticos e familiares. Ele havia feito isso centenas de vezes antes, cuidando de mim depois que eu me esforcei demais, depois de uma queda durante uma corrida noturna, depois que me cortei cozinhando porque estava exausta demais para me concentrar.
Ele limpou a ferida com um lenço antisséptico, seu toque tão cuidadoso, tão terno, que pareceu uma violação. Ele estava tentando consertar a ferida que ele havia causado, um pequeno corte que não era nada comparado ao abismo que ele havia rasgado em minha alma.
Quando ele pegou um curativo, puxei minha mão de volta.
Ele olhou para cima, confuso.
"Não me toque", sibilei, as palavras parecendo ácido na minha língua. "Você está imundo."
A dor em seus olhos foi imediata e profunda. Foi uma ferida mais profunda do que qualquer uma que eu pudesse infligir com uma faca. Ele não discutiu. Não protestou. Ele simplesmente se endireitou, seus ombros caindo em derrota.
Ele saiu do banheiro e falou com uma das empregadas que pairava nervosamente no corredor.
"Chame a Maria", disse ele, a voz seca e desprovida de emoção. "Diga a ela para trazer o kit de primeiros socorros e cuidar da mão da Sra. Cardoso."
Ele não olhou para mim novamente antes de se afastar, me deixando sozinha no banheiro branco imaculado, meu próprio sangue uma mancha gritante e condenatória contra a porcelana.
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Ponto de Vista: Clara Tavares
Nos dias que se seguiram, uma trégua gelada se instalou em nossa cobertura. Movíamo-nos um ao redor do outro como fantasmas, o silêncio entre nós mais pesado do que qualquer discussão. Contratei um detetive particular para investigar a vida de Amanda Alencar, mas todos os arquivos voltavam limpos, cada pista um beco sem saída. Arthur havia construído uma fortaleza de segredos ao redor dela, protegendo-a do mundo e de mim.
Encontrei-o em seu escritório uma noite, olhando para as luzes da cidade.
"Por que você a está protegendo?", perguntei, dispensando qualquer pretensão de civilidade. "Se ela não significa nada, por que escondê-la?"
Ele se virou, o rosto marcado por um cansaço que ia até os ossos. "Clara, por favor. Apenas deixe isso para lá."
"Eu vou", eu disse, caminhando até sua mesa e colocando uma cópia recém-impressa do acordo de divórcio sobre o mata-borrão de couro. "Assine isso, e você nunca mais terá que ouvir o nome dela de mim."
Ele olhou para os papéis, depois de volta para mim. Um sorriso lento e triste tocou seus lábios. Era o sorriso de um homem que sabia que tinha todas as cartas. Ele pegou o documento, mas não para assinar. Com um único movimento decisivo, ele o rasgou ao meio, depois em quartos, deixando os pedaços caírem no chão como flocos de neve.
"Eu te disse", ele falou, a voz suave, mas inflexível. "Só existe uma saída deste casamento para você. E é dentro de um caixão."
Algo dentro de mim se partiu. O frágil fio de controle ao qual eu vinha me agarrando por dias simplesmente... arrebentou. Peguei o pesado peso de papel de cristal de sua mesa e o atirei em sua cabeça. Ele se abaixou bem a tempo, e o objeto se espatifou contra a janela atrás dele, criando uma teia de aranha de rachaduras no vidro reforçado.
Antes que ele pudesse reagir, peguei um abridor de cartas da mesa — uma lâmina de prata, afiada e fina. Avancei contra ele, o aço polido brilhando sob a luz da lâmpada.
Ele agarrou meu pulso, seu aperto como ferro. A lâmina parou a um centímetro de seu coração. Ficamos ali, presos em um abraço mortal, nossos peitos arfando. Seus olhos buscaram os meus, não com medo, mas com uma confusão desesperada e suplicante.
"Você realmente acha que eu não vou fazer isso?", sussurrei, minha voz tremendo com uma mistura de fúria e dor.
Sua mão apertou a minha, forçando meus próprios dedos a se fecharem com mais força ao redor do cabo do abridor de cartas. Nossas mãos tremiam juntas, um tremor violento e compartilhado.
"A escolha é sua, Arthur", eu disse com os dentes cerrados, empurrando contra sua resistência. "Me dê o divórcio, ou eu mesma me torno viúva. De um jeito ou de outro, eu vou sair."
Por um longo momento, ficamos congelados naquele impasse. Então, sua expressão mudou. A resistência em seu braço afrouxou. Ele guiou minha mão, e a ponta da lâmina, em direção ao seu próprio ombro.
"Não", disse ele, a voz um sussurro rouco. Com um movimento súbito e chocante, ele empurrou minha mão para frente.
Senti a lâmina afundar em sua carne. Uma perfuração aguda e nauseante. Um suspiro escapou dos meus lábios enquanto ele a cravava mais fundo, seu rosto se contorcendo de dor. Sangue, escuro e espesso, floresceu através do tecido de sua camisa branca, encharcando-a em uma mancha carmesim que se expandia rapidamente.
Uma única gota respingou na minha bochecha, quente e pegajosa.
"Eu não vou deixar você morrer primeiro, Clara", ele engasgou, os olhos fixos nos meus, cheios de uma devoção aterrorizante e distorcida. "Nunca."
Arranquei a lâmina, um som visceral e rasgante que fez meu estômago revirar. Ele soltou um gemido baixo, cambaleando para trás contra a mesa.
O cheiro metálico de seu sangue encheu minhas narinas, espesso e enjoativo. Era o mesmo cheiro daquela noite no barraco. O cheiro da minha liberdade. O cheiro do pecado dele. O cheiro de nós.
Minha cabeça girou. A sala inclinou. O passado e o presente estavam colidindo em uma onda sangrenta e horrível.
"Não...", gaguejei, recuando dele, minhas mãos tremendo incontrolavelmente. Ergui o abridor de cartas ensanguentado como se para afastá-lo. "Não me toque."
Ele me observou, o rosto pálido, a respiração saindo em arfadas irregulares. Ele não tentou me impedir enquanto eu tropeçava para fora do escritório, deixando-o sangrando no escuro. Fugi pelo corredor, o gosto de cobre de seu sangue ainda em meus lábios, uma comunhão profana que nos unia, mesmo em nossa destruição mútua.
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