Romy
Essa foi por pouco.
O que eu fiz tinha riscos inerentes. Eu sabia. Eu aceitei isso. Pesei os prós e os contras, os possíveis resultados e decidi que o que estava fazendo valia o que viria na minha direção.
Haviam piores consequências, piores resultados.
Além disso, para uma suposta fortaleza da máfia, a segurança havia sido surpreendentemente relaxada.
Ou assim eu pensei.
Mas nas três primeiras noites, fui capaz de andar de um modo relativamente livre, aprendendo as rotas gerais dos seguranças fazendo suas rondas. E, felizmente para mim, se alguém seguisse uma rota diferente em relação ao habitual, eram precedidos por seus passos estridentes e pelo cheiro quase constante de fumaça de charuto.
Foi brincadeira de criança evitá-los.
Quanto às câmeras, não pensei muito nelas. Nunca planejei ficar por aqui por muito tempo. As informações que consegui disseram que o contêiner que eu procurava já deveria ter atracado, descarregado e colocado em uma pilha.
Eu deveria ter sido capaz de encontrá-lo, abri-lo e recuperar o que precisava dele, e depois sair antes que importasse se me vissem nas câmeras, antes que pudesse ser levada a interrogatórios desagradáveis. Ou pior.
Afinal, era da máfia que estávamos falando.
E eu não era mais que uma estranha invadindo seu território.
Eu tinha feito algumas pesquisas durante a viagem de avião da Venezuela, imaginando que seria inteligente saber no que estava me metendo, se ia fazer algo ilegal, algo tão perigoso quanto invadir o território do crime organizado.
As docas, como eram comumente chamadas, mesmo que o nome oficial do local fosse o Porto Central de Jersey, eram de propriedade e operadas pela Cosa Nostra de Nova Jersey por trinta e nove anos, compradas em um lance impressionante por Antony Grassi.
Não havia muito para encontrar sobre a família Grassi, ao contrário de suas conexões com as Cinco Famílias da máfia – a cidade de Nova York -, eles conseguiram ficar relativamente fora dos jornais, fora do sistema prisional. Portanto, não havia muito a relatar. Embora houvesse alguma conversa sobre pessoas desaparecidas que tinham laços com a máfia. Qualquer um que soubesse algo sobre a máfia sabia que não havia coisas como 'pessoas desaparecidas', apenas corpos que ainda não haviam sido encontrados.
Estar em suas docas sem permissão poderia facilmente justificar um assassinato no estilo execução, em seguida, um corpo jogado no oceano.
Botas de cimento, como dizia o ditado.
Eu não tinha medo de morrer.
Eu tinha medo de morrer antes de fazer o que precisava.
Por isso não fui dissuadida.
Mesmo que meu coração estivesse ameaçando romper os limites do meu peito enquanto eu dirigia pela estrada para longe das docas, tentando colocar alguma distância entre o homem que estava bem atrás de mim e eu.
Eu corria maratonas desde os quinze anos. Dizia algo que ele - um homem que pesava bem mais do que eu – conseguiu acompanhar quando eu estava a todo vapor. Dito isto, esse peso era claramente músculos, a julgar pela maneira que o terno se ajustava a ele.
Era um belo terno também. Preto, feito sob medida, uma camisa branca bem passada por baixo, abotoaduras nos pulsos. Enquanto seus braços balançavam, vi uma pulseira de platina. Uma que eu sabia custava mais do que algumas pessoas ganhavam em um ano.
Eu conhecia um chefe quando via um.
No entanto, este homem era jovem demais para ser Antony Grassi.
Aparentemente, ele tinha um filho.
Alguém que parecia ter sido esculpido por um dos mestres com a testa larga, sobrancelhas severas, maçãs do rosto afiadas e mandíbula cortada.
Embrulhe isso em uma pele bronzeada, olhos castanhos chocolate emoldurados por cílios grossos que combinavam com seu cabelo marrom escuro, quase preto?
Então tem uma ideia de como era esse homem. Mesmo correndo, suando, tentando me perseguir para que pudesse possivelmente me matar, sua imagem foi queimada na minha mente nos segundos antes de eu sair do estacionamento.
Respirei fundo algumas vezes, tentando acalmar um pouco meu sistema, saindo do meu pequeno veículo alugado atrás do hotel, estacionando atrás das lixeiras. Eu sabia que não seria um problema, porque quando peguei o recepcionista se esgueirando para fumar um cigarro e perguntei, ele me disse: - Não sou pago o suficiente para me importar com isso.
Então foi aí que o deixei.
Fora da vista.
De modo que, mesmo que esse cara Grassi mandasse seus lacaios fazer uma varredura na cidade, ele nunca me encontraria.
O hotel não chamava muita atenção. Um edifício de pedra marrom com um beiral ostensivo, como se alguém hospedado aqui tivesse um serviço de transporte para deixá-los.
Não era um buraco do inferno. Mas se viessem visitar, a maioria das pessoas ficaria em um dos hotéis chiques mais perto da praia. E este hotel parecia atuar para uma clientela simplesmente de empresários e mulheres ou familiares visitantes que preferia arrancar um braço a dormir no sofá da sala de seus parentes, com molas cutucando as costas, um lavabo no final do corredor, tudo cheirando estranho e desagradável.
Pelo menos hotéis tinham aquele cheiro estéril de água sanitária e produtos de limpeza industriais, colchões de verdade e alguém para quem ligar e reclamar se algo não estivesse funcionando no seu quarto.
Eu o escolhi porque era o hotel com a melhor vista do porto se conseguisse um quarto alto o suficiente e na parte de trás. O que consegui.
- Lar, doce lar, - eu resmunguei quando abri a porta, certificando-me de colocar a corrente, em seguida, puxando meu cinto, envolvendo-o em torno do dispositivo de pressão acima da porta, puxando-o com força. Paranoica? Talvez. Mas se alguém tentasse entrar neste quarto, levariam um bom tempo nela. E eu teria a chance de fazer um escândalo ou ligar para a polícia antes que chegassem até mim.
O interior era exatamente o que você esperava de um hotel barato, com seus feios tapetes marrons e castanhos, suas mesinhas de cabeceira brancas com lâmpadas baratas flanqueando a cama queen-size, coberta por um edredom marrom escuro e quatro travesseiros tristes e vazios.
Mas o banheiro azulejado estava limpo.
A TV funcionava, embora eu só a usasse para ruído de fundo, tentando acalmar meus pensamentos em turbilhão.
E, mais importante, havia as portas de correr de vidro e a pequena varanda com uma grade de ferro forjado de força questionável.
Tirando minha calça, procurando uma fita para amarrar meu cabelo comprido e tirá-lo do meu pescoço suado, peguei a cadeira da mesa, arrastando-a de volta para a janela onde a havia deixado antes que o serviço de limpeza viesse e arrumasse tudo.
Peguei o binóculo que comprei em um pequeno mercado na viagem pela cidade, abri as portas e me sentei.
De fato, eu deveria estar dormindo. Talvez tenha conseguido duas horas por noite desde que peguei um avião direto da Venezuela alguns dias antes. Minha mente se recusou a descansar, no entanto. Rodopiando constantemente com os "e se" e arrependimentos, até que me senti enjoada, nauseada, pegando o pacote de balas de hortelã da minha bolsa.
Isso já deveria ter passado agora.
E o estresse estava abrindo um buraco no meu estômago.
A pior parte era que eu tinha que voltar. Mesmo sabendo que eles estavam sobre mim, plenamente consciente de que a segurança provavelmente aumentaria.
Eu tinha que voltar.
Não havia como contornar isso.
Era mais uma razão pela qual eu deveria estar dormindo, certificando-me de que minha mente e corpo estivessem tão afiados quanto precisariam para ir até aquelas docas mais uma vez com a máfia me procurando.
A vida certamente havia mudado bastante na última semana.
Eu estava vivendo minha vida na Califórnia, dormindo no meu apartamento caixa de sapatos, dirigindo no tráfego e indo dia após dia para chegar a um trabalho que, apesar de satisfatório, tornava difícil planejar subir na vida. Meu maior problema era ter que arrastar minhas roupas pela cidade porque a lavanderia do meu complexo de apartamentos estava sempre fora de serviço.
E agora eu tinha ido e voltado da minha terra natal, estava escondida em um hotel em Jersey e sendo perseguida ativamente pela máfia.
O eu que eu era uma semana atrás teria rido da ideia, depois voltado a tomar o café caseiro tentando me convencer que era tão bom quanto o café chique que simplesmente não fazia parte do meu orçamento pelo resto do mês.
Estendendo a mão, passei sobre os olhos secos como lixa, de repente desejando ter me interessado em artes marciais na minha adolescência, em vez de correr pelos campos. Ou que tivesse alguma ideia de como conseguir uma arma por esses lados.
Em casa, eu sabia em que bairros deveria procurar, com certeza. Aqui? Não muito. E achei que seria ruim ir até um estranho e pedir uma arma se eles não estivessem nesse negócio em particular.
Irritar mais criminosos parecia uma má ideia neste momento. Não que eu achasse que seria boa com uma arma, mesmo que conseguisse colocar minhas mãos em uma. Eu sabia como funcionava, é claro. Não era exatamente ciência de foguetes. Mas não tinha certeza de quão boa seria em apontar para alguém e puxar o gatilho.
Além disso, quais eram as chances de que, se fosse cara a cara, eu fosse capaz de sacar e apontar uma arma mais rápido que um homem que provavelmente teve sua primeira metralhadora quando estava no ensino fundamental?
Eu só tinha que ser ainda mais cuidadosa, mais rápida.
E para ser mais rápida, precisava me certificar de não perder um único navio quando ele chegasse.
Levantei-me, tirando meu caderno da bolsa, ligando a TV e pegando a bebida energética à temperatura ambiente que havia comprado mais cedo, sabendo que precisaria de uma dose de cafeína e sem ousadia o suficiente para usar a cafeteira antiga que ficava no quarto do hotel. E, bem, descer as escadas para pegar um café no dispensador significaria colocar as calças. Quando me dada uma escolha, não vestir calça sempre era a melhor opção.
Especialmente neste calor.
Sentei novamente na cadeira com meu equipamento, examinando minhas anotações, conferindo algumas, sublinhando outras, fazendo um mapa dos contêineres, de onde eu sabia que as câmeras estavam, tentando criar um novo curso de ação para fugir a provável duplicação da segurança na próxima noite.
Eventualmente, apesar da cafeína, o sono me reivindicou, embora fugazmente.
Um alarme de carro disparou e me fez saltar da cadeira, com o coração batendo forte no peito, tudo ao meu redor parecendo nebuloso e estranho por um momento alarmante antes de lembrar onde estava, por que estava aqui.
- Merda, - eu disse, olhando por cima do ombro, verificando o horário.
Cinco e cinquenta da manhã.
Eu já poderia ter perdido um navio ou dois.
- Droga, - resmunguei, pegando o binóculo no meu colo, tentando forçar meus olhos ainda cansados a se concentrarem.
Navios estrangeiros.
Mas nenhum da América do Sul.
Isso significava que eu tinha tempo suficiente para tomar um banho rápido, trocar de roupa e descer até o primeiro andar para tomar um café da manhã continental quando abrisse depois das seis.
Munida com um café, suco, um bagel e uma única caixa de Honey Nut Cheerios para comer como lanche mais tarde, voltei para o quarto, fazendo um impressionante ato de equilíbrio para colocar o cartão-chave, se eu fosse me gabar.
Tudo por nada, é claro.
Porque um passo dentro com a porta batendo atrás de mim, deixei cair tudo, café espirrando por todo o tapete feio.
Porque lá, sentado na cadeira do meu quarto como se fosse dono do lugar, estava o homem da noite anterior.
Sr. Grassi, o filho.
- Parece um lugar apropriado para uma refeição como essa, - disse ele, sua voz suave, profunda, segura de si. - Não, - ele exigiu, batendo na perna, atraindo meu olhar para a arma situada lá. - Apenas relaxe, Romina, - acrescentou, e meu nome deslizou um pouco bem demais da sua língua.
- Romy, - eu corrigi, automaticamente.
- Romy, - ele repetiu. - Luca Grassi, - ele me disse, com um olhar frio enervante.
- Sr. Grassi, - eu disse, ouvindo o tremor na minha voz, sabendo de todas as maneiras possíveis que isso poderia ser muito, muito pior.
- Você sabe quem eu sou?
- Sim.
- Você sabe o que eu faço?
- Sim.
E ainda assim você achou que poderia invadir meus negócios.
- Talvez eu estivesse encontrando um cara.
- Uma mulher como você não trabalharia nas docas quando receber uma fortuna entretendo homens ricos com dinheiro mais do que suficiente de sobra.
Isso soou como um elogio. E com uma arma apontada para mim, eu não deveria ficar lisonjeada. No entanto, não havia como negar que eu estava. Bem, tão lisonjeada quanto alguém poderia ser quando chamada de prostituta.
- Mas eu não estou comprando que você seja uma prostituta. Gostaria de me alimentar com mais besteira, ou podemos chegar ao fundo disso?
- Eu me sinto fascinada por contêineres, - eu atirei, levantando uma sobrancelha. - Eu sou viciada em surtos de adrenalina como aqueles que vem de ser perseguida por uma equipe de segurança no meio da noite.
- Para quem você trabalha?
- O estado da Califórnia.
- Vou precisar de uma resposta direta.
- Essa é uma resposta direta. Eu trabalho para o estado da Califórnia. Eles assinam meus contracheques.
- Tudo bem. Eu vou morder a isca. O que você faz para o estado da Califórnia?
- Trabalho como intérprete no sistema judicial.
- Então o que você está fazendo em Nova Jersey?
- Período de férias. - Essa era tecnicamente a verdade. Eu precisei tirar algumas licenças médicas acumuladas e dias de férias para voltar para casa e depois para Nova Jersey. Eu não queria pensar no que poderia acontecer se eu fixasse sem aqueles dias remunerados. Eu não estava exatamente em uma situação onde poderia ficar sem emprego por qualquer período de tempo.
- Você está de férias, mas fica aqui?
- O que posso dizer? Interpretar não é tão bom assim.
Você tem praias na Califórnia.
- Elas são lotadas, - eu disse.
- As nossas também.
Eu estava sem argumentos.
- Olha, Romy, você não me parece uma profissional de nenhum tipo. Você está com algum tipo de problema?
- Porque as mulheres sempre devem ser donzelas em perigo, - eu atirei nele, braços cruzados sobre o peito.
- Conheço muitos homens que se acham demais. Eles acabam fazendo coisas que nunca acharam que fariam. Se essa for a situação, então posso deixar isso de lado, - disse ele, tocando sua arma. - E podemos descobrir algo.
Eu não sabia como responder.
Porque, sim, eu estava angustiada, por mais que me doesse admitir isso. E, sim, eu estava louca.
Mas também duvidava que pudesse confiar nesse homem.
Porque se ele estivesse envolvido no que eu sabia que estava, não tinha uma boa natureza para apelar. Ele certamente não me ajudaria a roubá-lo, tirar dinheiro do bolso dele.
Não.
Eu estava sozinha nisso.
E homens com cara de blefe como a dele não eram confiáveis.
- Agradeço sua oferta de ajuda, Sr. Grassi, mas não preciso disso.
Vou pedir para você sair ou vou começar a gritar.
A isso, seus lábios se curvaram para cima.
- Você quer apostar que ninguém viria para salvá-la? - Ele perguntou, me fazendo enrijecer.
Talvez eu tenha subestimado o poder que a máfia ainda tinha em certas partes deste país.
Agora que eu pensava sobre isso, era perfeitamente possível que ele tivesse posicionado seus homens ao redor, impedindo que alguém viesse intervir.
Fique fora do meu cais, Romy, - Luca exigiu, levantando da cadeira, atravessando o quarto na minha direção, parando perto do meu ombro. De perto, ele parecia ainda mais alto que do outro lado do quarto. E havia o cheiro persistente de uma colônia apimentada grudada em seu terno. Era ridículo, mas me vi respirando fundo, inspirando e aprovando. - Este é o seu primeiro e único aviso.
Com seu olhar intenso sobre mim, com seu corpo volumoso parecendo roubar todo o ar do quarto - e dos meus pulmões - eu estava achando difícil encontrar pensamentos e palavras coerentes.
Respirando fundo, engoli em seco, mal reconhecendo minha voz - baixa e sem fôlego - quando falei. - E se eu não o fizer?
- Você não quer saber a resposta para isso.
Com isso, ele se moveu para o corredor, sem se preocupar em guardar a arma.
Consegui deslizar a corrente e enrolar meu cinto em torno do suporte novamente antes de perder completamente a cabeça, deslizando pela parede, joelhos dobrados contra o peito, tentando me lembrar de que eu podia fazer isso, que faria isso. Independentemente das consequências.
- Recomponha-se, - eu disse, enojada comigo mesma, me forçando a sair do chão, limpar a bagunça que eu tinha feito, beber meu suco e comer meu cereal seco.
O senso comum dizia que eu precisava ficar quieta por alguns dias, deixar a segurança relaxar novamente, permitir que Luca Grassi acreditasse que suas ameaças haviam funcionado, que eu voltara para a Califórnia.
O problema era que esse era um assunto sensível ao tempo. Eu não poderia simplesmente me esconder neste quarto de hotel por alguns dias.
Eu tinha que voltar às docas naquela noite. E tinha que tentar não ser pega.
Luca
- Nova York não está feliz, - meu pai nos disse, movendo-se para sentar à mesa nos fundos do nosso restaurante, Famiglia, com um copo de uísque, captando a luz suave do teto.
Tudo estava pulando com energia ao nosso redor.
As facas do barman batiam nas tábuas enquanto cortavam frutas para as bebidas. As anfitriãs faziam as reservas, atendiam aos telefones. A equipe de funcionários e os ajudantes corriam vestidos de preto, fazendo trabalhos paralelos, preparando-se para o turno à frente.
Sua eficiência praticada fez meu cérebro lento e privado de sono parecer preguiçoso e inútil enquanto me sentava no estande com encosto alto, um dos vários que se alinhavam na parte de trás do restaurante, permitindo privacidade para casais ou - no nosso caso - reuniões familiares.
Matteo não estava em lugar nenhum, o que deixou de me surpreender uma década atrás. Quando Deus estava dividindo os genes da ética do trabalho, fiquei com todos eles, e Matteo ficou sem. Ele lidava com seu nicho - ainda que muito vagamente - e deixava todo o trabalho pesado para mim. E nosso pai, até certo ponto.
Então, essa reunião de família era meu pai, eu, Leandro, Dario e meu primo Lucky. Ele e Matteo tinham a mesma idade, eram próximos quando mais jovens, mas onde Matteo se esquivava de suas responsabilidades, Lucky mergulhou de cabeça nos negócios da família, sempre procurando oportunidades de provar a si mesmo. Certa vez, ele apareceu para uma reunião depois de três horas fora do hospital com um buraco de bala ainda fresco no ombro.
Alto e em forma, ele notoriamente se vestia todo de preto. Essa escolha, combinada com seus cabelos castanhos e olhos escuros, deulhe uma aparência ameaçadora. Se você o visse sombreando sua porta, sabia que tinha fodido tudo.
- Nova York já esteve feliz? - Lucky perguntou, recostando-se, sem se importar com as notícias.
Isso era justo.
Nova York estava sempre no nosso pé, apesar de nossa família fazer mais do que qualquer uma das Cinco Famílias, ou mesmo algumas delas agrupadas a cada ano.
Mais.
Eles sempre queriam mais.
Nós sempre queremos também. Mas tínhamos que fazer isso de forma inteligente. Havia muito em risco. Muitas pessoas queriam o que tínhamos. Um passo em falso deixaria todos nós com balas na parte de trás de nossas cabeças, corpos jogados das docas.
Se Nova York quisesse as docas de volta quando estivéssemos fora, eles teriam que ir à guerra por elas.
Por isso, precisávamos que nos deixassem com nossos próprios dispositivos.
- O que eles querem? - Eu perguntei, vendo meu pai me prender com olhos escuros, encolhendo os ombros.
- Eles querem fazer um acordo com os russos.
Claro que sim.
Porque esse tipo de dinheiro era difícil de recusar.
Mas um acordo com os russos significava arriscar nossa boa reputação com o comércio local de armas, um clube de motociclistas fora da lei chamado Henchmen, que negociava armas em nossa cidade desde que meu pai era jovem.
- Essa merda de novo, - Lucky assobiou, balançando a cabeça. - Quantas vezes temos que explicar isso a eles?
- Cuidado, - meu pai exigiu, sua voz firme.
Antony Grassi poderia ser o chefe do Navesink Bank.
Mas todo chefe tinha um chefe.
Meu pai era da velha escola quando se tratava do código. Você não falava nada sobre o capo dos capos.
Lucky, tendo visto seu pai ser assassinado diante de seus olhos pelo atual chefe quando tinha apenas onze anos, bem, ele era um pouco mais nova escola sobre isso.
Ele nunca diria, mas estava ansioso pelo dia em que outra pessoa ficasse doente de Arturo Costa e seu reinado de terror, e seu filho tomasse o lugar dele.
- Estamos esperando uma visita? - Eu perguntei ao meu pai.
- Lorenzo chegará aqui em algum momento no futuro próximo. Ele está viajando a trabalho, mas quando estiver voltando para a cidade, passará aqui.
Lorenzo, o filho mais velho de Costa, o subchefe que todos sabiam que seria um chefe melhor, não era menos cruel que seu pai. Se alguma coisa, ele tinha mais sangue nas mãos. Mas ele também era mais razoável. Se tivéssemos que receber "uma passada", seria melhor se fosse Lorenzo em vez de Arturo.
- O que significa que precisamos arrumar nossa casa, - meu pai nos disse, os olhos me encarando.
Porque ele sabia que eu tinha um problema nas mãos, que tínhamos um rato indesejável deslizando em nosso sótão.
- Ouvi dizer que ela é linda, - disse Lucky, me dando um sorriso malicioso. Se havia alguém que gostava mais de mulheres do que Matteo, era Lucky. E, dado que as mulheres sempre apreciavam homens bem vestidos em posições poderosas e perigosas, elas o amavam também.
- Ela é, - eu concordei. Porque era a verdade.
Se você tinha um problema em suas mãos, tornava-se mais tolerável se o problema fosse fácil para os olhos e ouvidos, a voz dela de alguma forma doce e rouca ao mesmo tempo.
Dario estava trabalhando no arquivo de Romina - Romy - desde que recebemos um nome para ela. Ele não tinha conseguido descobrir muita coisa, no entanto.
- Você acha que ela voltou para a Califórnia? - Meu pai perguntou.
- Ela seria estúpida se não, - eu disse, dando de ombros.
Na minha experiência, quando as pessoas descobriam que você era da máfia, elas não costumavam ficar por muito tempo. Elas com certeza não mexiam com o seu negócio.
- Mas se há algo que sabemos sobre a maioria dos pequenos criminosos, - disse meu pai, - é que eles geralmente não são muito inteligentes.
- É por isso que colocaremos todos que estão disponíveis nas docas hoje à noite, inclusive eu, - o tranquilizei. Sim, ele era meu chefe, mas ele também era meu pai. E não queria que ele achasse que precisava estar presente em situações potencialmente perigosas. Esse era o meu lugar. Era a vez dele de fazer uma pausa. Ele podia relaxar no restaurante com Leandro, encantando os moradores de alto escalão, certificando-se de que tudo estava de acordo com seus altos padrões, da comida ao vinho e ao serviço. Ele era melhor nisso do que eu. Matteo era o melhor de todos nós, mas ele geralmente não se incomodava em trazer sua bunda encantadora para variar.
- Se você a encontrar lá de novo... - ele disse, acenando com a mão, deixando o assunto morrer. Porque havia algumas coisas que você não dizia em voz alta, algumas que ficavam sem ser ditas.
Se a encontrássemos lá novamente, ela não poderia fugir. Teríamos que agarrá-la, arrastá-la para dentro, jogá-la em um porão em algum lugar e, em seguida, tirar informações dela por todos os meios necessários.
Em geral, éramos da velha escola quando se tratava de nosso código moral. Não ameaçamos esposas e filhos. Não machucamos mulheres. Mas os tempos se recusavam a permanecer antiquados, e as mulheres podiam frequentemente ser uma ameaça para nossos negócios como os homens. O que significava que, quando necessário, precisávamos estar dispostos a usar quaisquer métodos necessários para extrair informações.
Nunca precisamos colocar as mãos em uma mulher antes. E eu esperava que não precisássemos agora.
Mas se as ordens fossem dadas, foram dadas.
Lucky e eu compartilhamos um olhar, um de apreensão mútua e desgosto misturado com resignação.
Família antes de tudo.
Gostando, às vezes ou não.
- Acho que a garota se assustou e foi para casa, desistiu dessa missão, - disse Leandro, a voz suave e segura.
Eu não tinha tanta certeza.
Ela ficou assustada?
Sim.
Foi o suficiente?
Eu acho que não.
Porque havia algo em seus olhos. Percebi quando reparei as imagens que Angelo havia enviado para mim. Havia uma determinação misturada com um desespero mostrando que ela faria o que fosse necessário para encontrar o que diabos ela estava procurando.
Talvez uma parte de mim estivesse antecipando isso, desejando que ela aparecesse, querendo uma desculpa para pegá-la, ter mais algum tempo sozinho com ela.
O que era fodido, mas a verdade.
Mesmo depois de um pouco de descanso, uma longa corrida e café suficiente para empurrar um caminhão, eu ainda não conseguia tirar a imagem dela da minha cabeça.
Ela era linda da maneira que exigia que você notasse, que tornava necessário parar e dar uma segunda olhada.
Tudo, desde o cabelo escuro brilhante até a pele impecável, os olhos castanhos e inteligentes, a estrutura óssea perfeita, o corpo em forma e suavemente delineado, levou um tempo para que tudo afundasse.
Tudo era demais para absorver com um olhar.
Eu levei alguns.
Eu era ganancioso.
Eu queria mais
Suspirando, passei a mão pelo rosto.
Eu estava trabalhando demais. Eu nem tinha certeza de quando foi a última vez que passei uma noite com uma mulher. Muito tempo, se eu estivesse fantasiando sobre manter uma mulher como refém, para que notasse o quão brilhante era o cabelo dela.
- Claro, - Lucky concordou com Leandro, mas me deu um olhar consciente. - Ela se assustou e fugiu, - disse ele, dando um tapinha no ombro do velho. - As mulheres não são conhecidas por ter bolas de aço nesta cidade ou algo assim, - acrescentou, deslizando para fora do estande.
Navesink Bank era um grupo de atividades criminosas, de gangues de rua a agiotas a campos paramilitares. Algumas das organizações mais cruéis eram dirigidas por mulheres.
- Mais alguma coisa, Tio? - Lucky perguntou ao meu pai, recebendo um aceno da cabeça. - Então vou trabalhar. Em seguida, ir até a casa da mãe jantar. Encontro você nas docas à noite, - acrescentou, acenando com a cabeça antes de sair.
- Você tem certeza que pode resolver isso, Luca? - meu pai perguntou. - Leandro e eu podemos pedir apoio extra.
- Teremos metade da família lá hoje à noite. Se ela aparecer, não vai escorregar por entre nossos dedos.
- Onde você a levará se a pegar?
Essa era uma boa pergunta.
Antigamente, sem que eu percebesse na época, esse lugar tinha sido o porão da minha infância. Então, mais tarde, provavelmente com a pressão da força policial local, nas salas dos fundos de várias empresas de nossa propriedade.
Eventualmente, porém, esses lugares também se tornaram arriscados. A policia local poderia ser comprada geralmente com pouco aborrecimento. Os federais que gostavam de foder o crime organizado quando não tinham nada melhor para fazer eram o problema. Qualquer coisa em qualquer um de nossos nomes estaria sob suspeita, poderia estar sob vigilância.
Você não levava trabalho para casa.
- Temos a locação, - lembrei a ele.
A locação não era exatamente um aluguel. Era uma casa de propriedade de alguém que meu pai uma vez salvou de um acidente de carro em chamas nos anos 90, um homem que possuía várias propriedades na área. Não havia papelada real, mas havia um acordo. O homem, Joel, deixou a casa vazia para o meu pai, caso ele precisasse.
Ele sabia que não devia fazer perguntas.
E em todos os anos desde então, só precisamos da casa duas vezes. E nunca para nada nefasto. Apenas um lugar para se reunir, para se reagrupar.
Mas tinha um porão sem saída, com janelas gradeadas, com um piso impermeável recém-pintado que facilitaria a limpeza. O que eu esperava não seria necessário.
- Está resolvido então, - disse ele, erguendo o copo para mim, tomando um gole e depois saindo da cabine. - Mantenha-me informado.
- Sempre, - eu concordei, observando-o caminhar até a segurança quando eles entraram para o turno.
A Famiglia começou como uma empresa de fachada, um negócio legítimo para manter a Receita Federal fora de nossas costas, para nos permitir justificar nosso dinheiro sujo como renda de restaurante.
Ao longo dos anos, tornou-se uma verdadeira paixão do meu pai. Especialmente quando ele se afastou do trabalho pesado. A comida tinha sido uma paixão dele, transmitida por sua avó, sua mãe e minha mãe depois que se casaram. Mas o homem não diferenciava uma batedeira de uma escova de cabelo, portanto, ser um dono de restaurante era o mais próximo que ele podia chegar da comida sem precisar cozinhá-la. E, não se casar novamente, lhe deu oportunidades de preparar refeições gourmet para ele todas as noites.
Eu, não tive minha avó, mais tarde, também perdi minha mãe, então não havia desenvolvido o profundo amor pela comida como ele, para grande decepção das minhas tias e primos que serviam seus corações em seus pratos todas as noites da semana, sempre me convidando, raramente me recebendo em suas mesas.
Comia algo correndo mais frequentemente do que com uma faca e um garfo.
Por mais que o Famiglia fizesse parte do meu legado, eu não tinha a paixão que meu pai tinha.
Para mim, a paixão estava nos negócios. O outro negócio. O negócio principal. Aquele que seria meu verdadeiro legado, o legado dos meus filhos, se eu me acalmasse tempo suficiente para encontrar uma mulher.
Agora não havia tempo para as mulheres. Exceto, é claro, se a mulher estivesse brincando nas docas.
Atração acesa por ela de lado, eu não podia deixá-la foder com os meus negócios. Não com Nova York respirando no meu pescoço.
A família Costa estava em dificuldades. A máfia de Nova York vinha passando dificuldades desde os anos noventa, quando os antigos chefes foram presos sentenciados a prisão perpétua sob acusações RICO1, fazendo outros homens feitos correr para os federais, cantando segredos da família.
Omerta, o código de silêncio da máfia, era coisa do passado na maioria das grandes famílias. Houve um congelamento na promoção de qualquer associado na última década.
A agitação, a falta de lealdade ferrenha, a cobiça no fundo, enquanto aqueles no topo se fartavam, tudo isso causava tensão nos capos, no Chefe.
Se Costa tivesse ficado sem novos esquemas fraudulentos ou empreendimentos comerciais, se estivesse sentindo um aperto financeiro, e sabia que nossos cofres estavam transbordando, iria querer atacálos. Ele nos mandaria para a guerra se precisasse.
1 O Racketeer influenced and Corrupt Organizations ( RICO )Act é uma lei federal dos EUA que prevê sanções penais estendidas e um civil, causa de ação por atos realizados como parte de um curso de organização criminosa.
Guerra.
Quando conhecíamos a paz há muito tempo.
Precisávamos fazer o que fosse necessário para evitar isso.
Os Henchmen não eram exatamente aliados, mas não eram inimigos. Lembrei-me distintamente de ter passado pela sede do clube uma vez quando eu tinha dez ou onze anos, e meu pai apontou para os motociclistas que usavam colete de couro e carregavam armas, me dizendo: - Você não brinca com dois tipos de pessoas, Luca. Os cartéis e os malditos motociclistas fora da lei. Eles não se importam.
- Sobre o quê? - Eu perguntei.
- Qualquer coisa, - ele me disse, me levando embora.
Eu não queria começar a foder com os Henchmen porque os russos queriam importar suas armas através do nosso porto.
Então, se eu quisesse algum tipo de influência contra Costa - através de seu filho Lorenzo -, precisaríamos arrumar nossas merdas. Eles não confiariam que pudéssemos tomar nossas próprias decisões sobre o que era - e não era - bom para a família se deixássemos pessoas correr pelas nossas docas sem controle.
- Ei, Luca, espere, - Dario chamou, correndo atrás de mim enquanto eu caminhava pelo estacionamento.
- O que há, Dario?
- Você tem um minuto para falar sobre o trabalho que mencionei na semana passada?
O trabalho que ele mencionou.
Uma pequena rede de extorsão que eu já havia dito que não daria resultado.
- Nós já discutimos isso, Dario, - lembrei a ele. - E concluímos que era uma má ideia.
- Se Nova York está respirando em nossos pescoços, não seria inteligente trazer mais dinheiro para impedi-los de trazer as armas?
- Colocando a polícia na nossa bunda porque você ameaça cidadãos cumpridores da lei e pagadores de impostos?
- Eu não disse nada sobre ameaças, Luca.
- Dario, como diabos você acha que derrubamos os donos das lojas no território da 3rd Street, - comecei, apontando nossa gangue de rua local com uma porta giratória de diferentes líderes, nenhum dos quais se mostrou capaz de manter a posição por muito tempo, criando problemas com os quais os lojistas lidavam regularmente "para concordar com nossa proteção"?
- Porque eles querem proteção.
- Não é exatamente uma área rica. Eles não têm dinheiro sobrando. Portanto, a única maneira de conseguir dinheiro deles seria ameaçá-los, dizendo merda sobre como esperamos que nada aconteça com seus filhos ou filhas. Nós não fazemos essa merda. Eu sei que Nova York faz, mas aqui não é Nova York. Temos as docas.
- E quando isso não for mais o suficiente? - ele perguntou. E, para ser justo, era uma pergunta válida.
- Nós lidaremos com isso quando se tratar disso.
- Este é um bom show, Luca, marque minhas palavras.
- É um show. E pode valer a pena. Mas isso não significa que seja bom.
- Seu velho...
- Perderia a cabeça se você levasse isso para ele. Deixe quieto.
Pense em outra coisa. Então volte para nós com isso.
A mandíbula de Dario estava apertada, um músculo pulsando. Ele sempre quis provar a si mesmo. Ele queria estar ao meu lado, como o pai dele estava ao lado do meu pai. Ele queria alavancar sua posição de poder no dia em que me tornei chefe.
Dario sempre foi rápido em bolar esquemas, mas nunca fora um bom ganhador do jeito que Lucky era, sem ter que trabalhar nem um pouco. O comia saber que ele provavelmente nunca seria mais que um soldado, não importa o quanto tentasse.
- E o outro tipo de extorsão?
- A chantagem sai pela culatra tanto quanto funciona. Mas se você puder encontrar uma maneira de fazê-lo com o mínimo de retaliação, podemos conversar. Mas não me traga isso até que esteja pronto para funcionar.
- Entendi, - ele concordou, assentindo.
- Vejo você em algumas horas, - acrescentei, entrando no meu carro, atravessando a cidade para encontrar alguns dos outros homens. Coletar dinheiro, guardá-lo em algum lugar seguro, minhas rondas habituais na maioria dos dias da semana consistiam em garantir que tudo corresse bem, que todos os soldados e associados estivessem fazendo o que deveriam, dando a parte que nos cabia.
Parecia aborrecido, mas significava que eu passava a maior parte do tempo entrando e saindo das pizzarias administradas por Lucky, um lava-rápido gerido por alguns de nossos outros caras, alguns bares e uma franquia de lavanderia – batendo papo com amigos e família, comendo e garantindo educação universitária para meus tataranetos.
A mídia gostava de afirmar que a máfia perdeu seu passo nos anos 80 e estava em declínio desde então. Mas havia capos em Nova York lucrando oito milhões por semana. Não estávamos nesse nível, mas nenhum de nós sofreria por dinheiro por um longo tempo.
Mesmo que Nova York ficasse gananciosa.
Se precisássemos, poderíamos segurá-los com algum dinheiro de nossos cofres. Mas nossa melhor aposta era impressionar Lorenzo quando aparecesse, argumentar, para que ele pudesse tentar argumentar com seu pai.
E para impressioná-lo, tínhamos que conseguir controle sobre nossa operação.
Eu deveria me sentir determinado quando dirigi para as docas naquela tarde para colocar em prática um novo plano para pegar Romy, caso ela aparecesse.
Mas o que estava fluindo através de mim era muito mais como antecipação, como excitação.
Talvez até um pouco como esperança.