O céu se partiu.
Não houve aviso, nem garoa suave. Um raio rasgou as nuvens, iluminando a estrada deserta em um flash de luz branca e dura. O trovão seguiu um segundo depois, sacudindo o chão sob as solas finas de Alvorada.
Então a água veio.
Caiu em lençóis, pesada e fria. Em segundos, o moletom cinza de Alvorada estava encharcado, colado à sua estrutura esquelética como uma segunda pele. O frio não estava apenas na superfície; infiltrava-se em seus ossos, acordando cada velha lesão que ela colecionara nos últimos três anos.
Suas costelas machucadas latejavam. Seu ombro esquerdo doía.
Ela começou a andar. Manteve a cabeça baixa, apertando o saco plástico contra o estômago para manter o caderno seco. Aquele caderno era a única prova que ela tinha de que não estava louca.
Um caminhão passou rugindo, espirrando uma onda de lama marrom sobre as pernas dela. Alvorada se encolheu, pisando de lado no acostamento macio da estrada.
A lama estava mais escorregadia que gelo.
Seu pé esquerdo deslizou. Foi direto para uma vala de drenagem escondida pelo mato alto.
Crack.
O som foi nauseante, alto até mesmo sobre a chuva.
Alvorada desabou na lama. Ela não gritou. Gritar no campo atraía os guardas, e os guardas traziam dor. Em vez disso, ela mordeu o lábio até sentir o gosto de cobre. Sua respiração falhou em suspiros curtos e irregulares.
Ela olhou para baixo. Seu tornozelo já estava inchando, empurrando contra o tecido de seu tênis barato.
"Levante-se," ela ordenou a si mesma. Sua voz se perdeu no vento. "Levante-se, 402."
Ela tentou colocar peso nele. Manchas brancas dançaram em sua visão. Ela caiu de volta, a lama fria infiltrando-se em suas calças.
Feixes duplos de luz cortaram a escuridão atrás dela. Faróis de xenônio. Brilhantes. Caros.
Os feixes poderosos varreram a estrada, capturando o rosto dela por um momento único e brutal quando ela olhou para cima. Que seja um estranho, ela rezou. Que não seja o Corisco voltando para rir.
O carro diminuiu a velocidade. O ronco do motor era baixo, poderoso. Não era o SUV.
Ela apertou os olhos através da chuva. Era um Rolls-Royce Phantom prata. Ela conhecia aquele carro. Ela conhecia a placa: AM-I.
Seu coração martelou contra as costelas machucadas.
Afonso Carvalho.
A janela traseira desceu até a metade. Um rosto apareceu. Era nítido, angular, esculpido em mármore e tão frio quanto. Afonso olhou para a pilha trêmula de trapos na beira da estrada.
Alvorada limpou a lama da bochecha, tentando se esconder. Ela se sentia pequena. Sentia-se imunda.
"Entre," disse Afonso. Sua voz carregava sem esforço sobre a tempestade. Não era uma oferta; era uma ordem.
Alvorada balançou a cabeça. Ela não aceitaria a caridade dele. Não depois que ele ficou parado e assistiu eles a levarem embora três anos atrás.
Afonso franziu a testa. Ele parecia aborrecido, como se ela fosse um erro de agendamento no dia dele. "Não me faça mandar a segurança aí fora para te arrastar. Você sabe que eu vou."
Ele faria. Afonso nunca fazia ameaças vazias. Ele era um homem de negócios implacável; lidava com absolutos.
Alvorada pesou suas opções. Hipotermia ou humilhação.
Ela escolheu a sobrevivência.
Ela se impulsionou para cima, equilibrando-se na perna boa. Pulou em direção ao carro, rangendo os dentes contra a náusea que subia em sua garganta.
O motorista já estava fora, segurando um grande guarda-chuva preto. Ele estendeu a mão para o braço dela.
Alvorada recuou. Ela puxou o corpo para longe da mão dele, quase caindo no processo. "Não me toque," ela sibilou.
O motorista congelou.
Ela mesma agarrou a maçaneta e se puxou para o banco traseiro.
O calor a atingiu como um golpe físico. Era sufocante. Ela sentou na ponta do banco de couro cor creme, tentando evitar que suas roupas enlameadas tocassem em qualquer coisa. Água pingava de seu cabelo no tapete felpudo.
Ela se pressionou contra a porta, o mais longe possível de Afonso.
Afonso não se moveu. Ele estava sentado perfeitamente imóvel, as pernas cruzadas, um tablet no colo. Ele olhou para o tornozelo dela. Estava latejando, o inchaço visível até através do tênis.
Seus olhos cinzentos subiram para o rosto dela. Ele olhou para as covas de suas bochechas, as olheiras escuras sob seus olhos.
"Corisco?" ele perguntou. Uma palavra. Nenhuma emoção.
Alvorada olhou pela janela para a chuva borrada. Ela não respondeu. Apenas segurou seu saco plástico com mais força.
O silêncio no carro era mais pesado do que a tempestade lá fora. O único som era o ritmo dos limpadores de para-brisa e o zumbido dos pneus no asfalto molhado.
Afonso alcançou o pequeno console refrigerado entre os assentos. Tirou uma garrafa de água Evian.
Ele a estendeu para ela.
Alvorada encarou a garrafa. Sua garganta parecia forrada com lixa. Ela estava desidratada, tonta. Mas pegar aquilo parecia aceitar suborno.
"Pegue," disse Afonso.
Ela não se moveu.
Ele suspirou, uma expiração aguda pelo nariz. Inclinou-se e empurrou a garrafa na mão dela. As pontas dos dedos dele roçaram as costas da mão dela.
Alvorada se encolheu violentamente. Foi um espasmo de corpo inteiro, como se ele a tivesse queimado com um cigarro. A mão dela tremeu, e a garrafa de vidro pesado escorregou de seu aperto, caindo com um baque no tapete.
Afonso congelou. Ele puxou a mão de volta lentamente, os olhos se estreitando.
"Você tem medo de mim," ele declarou. Não era uma pergunta.
Alvorada correu para pegar a garrafa. Suas mãos tremiam. "Não. Minhas mãos estão apenas... frias. Escorregadias."
Ela quebrou o lacre e tomou um gole. Queria virar tudo de uma vez, mas forçou-se a dar goles pequenos e medidos. Não mostre fome. Não mostre sede. Não mostre necessidade.
Afonso a observava. Ele se lembrava de uma garota que falava pelos cotovelos, que costumava se pendurar no braço dele e implorar por atenção. Essa mulher era um fantasma.
"Eles te soltaram mais cedo," observou Afonso, o tom neutro, sondador. "Qual foi a razão oficial?"
Alvorada apertou a garrafa até os nós dos dedos ficarem brancos. Ela não olhou para ele, o olhar fixo na água balançando lá dentro. Deu um balanço de cabeça minúsculo, quase imperceptível. "Não sei," ela murmurou, as palavras quase inaudíveis.
A palavra pairou no ar. Não era uma mentira, nem uma resposta sarcástica. Era um vazio. Uma ausência de informação que ela se recusava, ou não podia, fornecer.
Afonso notou algo no pulso dela. A manga tinha subido um pouco quando ela bebeu. Havia uma marca ali. Um hematoma roxo escuro que circulava o osso. Uma marca de restrição.
Ele se inclinou ligeiramente para frente. "Deixe-me ver seu braço."
Alvorada puxou a manga para baixo, enterrando a mão no tecido. "A Pluma provavelmente está esperando por você. Você não deveria ser visto com a presidiária. É ruim para o preço das ações."
Afonso sentiu um flash de irritação. Ela estava desviando. E ela estava certa, mas ele odiava que ela estivesse certa.
"Você está muito atenciosa de repente," ele disse, a voz pingando sarcasmo.
Alvorada encostou a cabeça no banco e fechou os olhos. "Estou apenas cansada, Afonso. Deixe isso para lá."
O carro começou a diminuir a velocidade. Eles estavam entrando na Propriedade da Família.
Os portões de ferro - mais ornamentados que os do campo, mas ainda assim portões - se abriram. A casa principal surgiu à frente, um monstro de tijolos e vidro, resplandecendo com luzes. Parecia a boca de uma besta esperando para engoli-la inteira.
O Rolls-Royce deslizou até parar sob o pórtico.
Alvorada abriu os olhos. Através do vidro riscado de chuva, ela os viu.
Sua mãe. Seu pai. Pluma.
Eles estavam parados na varanda, emoldurados pelo brilho quente da entrada. Um retrato de família perfeito.
O motorista abriu a porta de Alvorada. O ar frio correu para dentro.
Alvorada respirou fundo. Hora do show.
Ela jogou as pernas para fora. Assim que seu pé ferido tocou o pavimento, o joelho cedeu. A dor foi cegante. Ela caiu para frente.
Afonso estava lá. Ele havia saído do lado dele e dado a volta mais rápido do que ela esperava. Ele a pegou pelo cotovelo, o aperto firme.
"Eu te peguei," ele murmurou.
Alvorada reagiu por instinto. Ela o empurrou para longe, com força. "Me solta!"
O grito ecoou sob o arco de pedra.
Afonso tropeçou um passo para trás, as mãos levantadas em rendição. Sua expressão escureceu.
Alvorada ficou em uma perna só, tremendo, segurando seu saco plástico. Ela olhou para ele, os olhos arregalados com um tipo de pânico selvagem. Então ela percebeu onde estava. Percebeu quem estava assistindo.
Ela endireitou a coluna.
"Eu consigo andar," ela disse, a voz caindo para um sussurro. "Não preciso da sua ajuda."
Ela se virou e mancou em direção à porta da frente, arrastando o pé inchado. Afonso ficou na chuva, olhando para as costas dela. Ele puxou o celular do bolso.
Digitou uma mensagem para seu chefe de segurança: Consiga o arquivo dela do campo. O verdadeiro. Hoje à noite.