Capítulo 2

A primeira pessoa para quem liguei foi Juliana. Minha melhor amiga. O telefone tocou duas vezes antes de ela atender, sua voz alegre um contraste doloroso com o silêncio em minha alma.

"Elaine! E aí? Não me diga que você vai furar nosso dia de spa amanhã. O Ricardo finalmente te deixou sair de casa?" ela brincou.

Abri a boca para falar, mas apenas um soluço engasgado saiu.

"Uau, Eli, o que foi? Você está bem?" A voz de Juliana ficou séria de preocupação.

"Juliana..." sussurrei, minha voz falhando. "Eu preciso... preciso ir embora."

"O que aconteceu? É o Ricardo? Aquele babaca possessivo fez alguma coisa?"

Eu não conseguia formar as palavras. A traição era grande demais, monstruosa demais. Parecia que se eu dissesse em voz alta, se tornaria real, e eu não estava pronta para isso.

"O projeto," eu disse, forçando as palavras a saírem. "Aquele que você me falou em Paris. A proposta de arquitetura. Ainda... ainda está aberta?"

Houve um silêncio do outro lado. "O projeto da Fundação Moreau? Elaine, isso é um compromisso de dois anos. Você me disse que não havia chance de o Ricardo te deixar ir por tanto tempo."

A menção do nome dele fez meu estômago se contrair. "A opinião dele não importa mais."

"Eli, que diabos está acontecendo?"

Eu finalmente desabei. A história saiu de mim em uma torrente de sussurros quebrados e respirações ofegantes. O parque. Karina. O garotinho que o chamava de Papai. O apartamento. O colar. As palavras cruéis e desdenhosas.

Juliana ficou em silêncio por um longo momento, e quando finalmente falou, sua voz vibrava de raiva. "Aquele filho da puta. Aquele pedaço de lixo absoluto. Depois de tudo que você fez por ele, por aquele casamento. Os tratamentos, a dor... e ele faz isso? Com ela? A mulher que matou seu primeiro bebê?"

Ela estava tão furiosa que gaguejava. "E você ainda está grávida, Elaine! Com o filho dele!"

Fechei os olhos, uma mão indo automaticamente para minha barriga lisa. Um gesto protetor, instintivo. O bebê. Nosso milagre. Agora parecia apenas uma piada cruel.

Todos aqueles anos de procedimentos invasivos, as injeções de hormônios que faziam meu corpo parecer uma zona de guerra, a decepção esmagadora mês após mês. Eu fiz tudo por ele. Por nós. Pela família que eu pensei que estávamos construindo.

"Vou aceitar o trabalho, Juliana," eu disse, minha voz estranhamente calma. "Preciso ir embora. Agora. Eu cuido das coisas aqui. Apenas... me coloque nessa equipe."

"E o bebê?" ela perguntou suavemente, a pergunta pairando no ar entre nós.

Eu não respondi. Eu não conseguia.

Desliguei a chamada e comecei a andar, meus pés me levando de volta para a casa que não parecia mais minha. Era tarde quando cheguei. A casa estava com todas as luzes acesas, um contraste gritante com a escuridão em meu coração.

Ricardo estava sentado no sofá da sala, a cabeça entre as mãos. O cinzeiro de cristal na mesa de centro estava transbordando de bitucas de cigarro. Ele nunca fumava. Apenas quando estava sob estresse extremo. A visão normalmente teria me causado uma pontada de simpatia. Agora, parecia apenas uma performance.

As empregadas andavam na ponta dos pés ao redor dele, seus rostos marcados pelo medo. Ele tinha um temperamento formidável quando provocado.

Quando entrei na sala, sua cabeça se ergueu. A exaustão em seus olhos foi substituída por uma onda de alívio tão potente que era quase tangível. Ele correu em minha direção, me puxando para um abraço poderoso e sufocante.

"Elaine! Meu Deus, onde você esteve? Eu estava enlouquecendo. Você não atendia o celular." Ele enterrou o rosto no meu cabelo, sua voz abafada. "Eu estava tão preocupado."

O toque dele parecia uma violação. Eu o empurrei, meu corpo rígido.

Seus braços caíram, e ele me olhou, um lampejo de confusão em seus olhos. "O que há de errado, meu bem?"

"Eu estava com a Juliana," menti, minha voz vazia. "Meu celular descarregou."

Ele pareceu acreditar, sua possessividade entrando em ação. "Eu te disse para mantê-lo sempre carregado. E se algo tivesse acontecido?"

Ele costumava rastrear meu celular. Dizia que era para minha segurança, mas eu sempre soube que era sobre controle. Qualquer desvio da minha rotina, qualquer chamada não atendida, resultaria em uma enxurrada de mensagens e uma atmosfera tensa em casa até que eu tivesse explicado cada minuto.

Ele deve ter confundido meu silêncio com mau humor. Sua expressão se suavizou. "Desculpe, não estou bravo. Apenas preocupado." Ele enfiou a mão no bolso. "Tenho algo que pode te animar."

Ele tirou uma caixa de veludo. Não a de antes. Uma diferente. Ele a abriu para revelar um colar de diamantes, um design diferente, mas tão extravagante quanto o que Karina estava usando agora.

"É uma peça única da H.Stern. Você gosta?" ele perguntou, seus olhos cheios do que eu costumava pensar que era adoração.

Meus punhos se fecharam ao meu lado, minhas unhas cravando em minhas palmas. A hipocrisia era de tirar o fôlego. Ele estava tentando comprar meu perdão por um crime que eu nem deveria saber que existia.

Eu não disse nada, meu rosto uma máscara em branco.

Ele franziu a testa, interpretando mal meu silêncio novamente. "Você não gostou? Tudo bem, posso te dar outra coisa. O que você quiser." Ele estalou os dedos para uma empregada. "Traga-o aqui."

A empregada saiu apressada e voltou um momento depois com um filhote de golden retriever minúsculo e fofo. Ele choramingou baixinho, seus olhinhos de botão olhando ao redor com uma mistura de medo e curiosidade.

Ricardo pegou o filhote e o colocou gentilmente em meus braços. "Lembra do Sunny? Você ficou tão de coração partido quando ele se foi. Eu sei que sou alérgico, mas tomei minhas vacinas. Eu aguento. Por você."

O calor da pequena criatura em meus braços foi a primeira coisa real que senti em horas. Lágrimas brotaram em meus olhos e começaram a escorrer pelo meu rosto. Sunny tinha sido meu cachorro de infância. Ricardo o odiava, sempre espirrando e reclamando, mas ele havia tolerado o cachorro por mim. Depois que Sunny morreu, ele me abraçou por horas, prometendo que teríamos outro cachorro um dia, quando fosse a hora certa.

Ele era um mestre em grandes gestos, em lembrar das pequenas coisas que significavam o mundo para mim. E ele usava esse conhecimento como uma arma, para me acalmar e controlar.

O filhote lambeu minhas lágrimas, e um soluço escapou dos meus lábios. Este homem, este monstro, ele me conhecia tão bem. Ele sabia exatamente quais cordas puxar.

Ele viu minhas lágrimas e seu rosto relaxou em um sorriso triunfante. Ele pensou que tinha vencido. Ele pensou que esta pequena criatura peluda poderia apagar o abismo que se abriu entre nós.

Olhei para ele, o filhote aninhado em meus braços, e fiz a pergunta que gritava em minha mente por horas.

"Ricardo... você ainda me ama?"

Antes que ele pudesse responder, seu celular, sobre a mesa de centro, vibrou. A tela se acendeu, e eu vi o nome claro como o dia.

Karina.

As palavras morreram na minha garganta. O mundo girou diante dos meus olhos.

O rosto de Ricardo se contraiu de aborrecimento. Ele olhou para mim, depois para o telefone. "É só trabalho, meu bem. Um problema no escritório da Costa Oeste." Ele se inclinou para me beijar, mas eu virei a cabeça.

Ele suspirou, um som de quem sofre há muito tempo. "Eu tenho que ir. Voltarei assim que puder."

Ele se virou para sair.

Eu não disse uma palavra. Apenas o observei se afastar, outra mentira saindo tão facilmente de seus lábios.

Quando sua mão tocou a maçaneta, eu falei, minha voz fria e clara.

"Espere."

Ele se virou, um lampejo de impaciência em seu rosto.

Caminhei até a escrivaninha antiga no canto, tirei um arquivo da gaveta e voltei para ele. Eu o estendi.

"Você precisa assinar isso antes de ir."

Era o acordo de divórcio que meu advogado mantinha de prontidão há anos, uma precaução na qual Juliana insistiu depois da primeira vez que suspeitei que ele poderia ser infiel, uma suspeita que ele habilmente dissipou.

O nome dele estava no topo, em letras garrafais. Ricardo Cordova. E abaixo, o meu. Elaine Lester.

Capítulo 3

O celular de Ricardo não parava de vibrar, a vibração insistente uma terceira presença no silêncio sufocante da sala. Ele nem sequer olhou para os papéis que eu estendia.

"Seja o que for, apenas coloque no meu cartão," ele disse com desdém, pegando uma caneta na mesa do corredor. Ele rabiscou seu nome na parte inferior da última página sem pensar duas vezes. "Eu tenho que ir, Elaine. Isso é importante."

Ele pensou que era uma lista de desejos. Uma lista de compras. Era nisso que minhas necessidades haviam se tornado para ele. Algo a ser pago e esquecido.

Ele me deu um beijo rápido e distraído na testa. "Compre o que quiser. Não se preocupe com o custo."

Então ele se foi.

Fiquei ali, encarando a porta fechada, os papéis do divórcio assinados em minha mão. Ele acabara de assinar o fim do nosso casamento como se fosse um recibo de cartão de crédito. O absurdo daquilo era tão profundo que era quase engraçado.

O filhote em meus braços choramingou, aninhando sua cabecinha contra meu peito, e a frágil barreira que continha minhas emoções se rompeu. Mas eu não chorei. Eu não conseguia.

Uma parte doentia e distorcida de mim ainda queria segui-lo. Vê-lo novamente. Gravar a realidade de sua traição em meu cérebro até que não houvesse mais espaço para o fantasma do homem que eu pensei que amava.

Eu os encontrei na cobertura dela. Karina o esperava na porta, com o filho deles, Caio, nos braços.

O menino se parecia tanto com Ricardo que foi um golpe físico. Os mesmos olhos escuros e intensos. O mesmo queixo teimoso.

"Me desculpe, Ricardo," Karina chorava, o rosto enterrado em seu ombro. "O Caio sentiu tanto a sua falta. Ele chorou até dormir ontem à noite chamando pelo papai."

Os braços de Ricardo a envolveram, sua mão acariciando o cabelo dela. Era um gesto de conforto, de posse.

"Está tudo bem," ele murmurou, sua voz um ronronar baixo. Ele pegou o menino dela, seus movimentos gentis, praticados. Ele segurou Caio com uma ternura que eu só sonhara em receber. O jeito como ele olhava para aquela criança... era com um amor puro e descomplicado que ele nunca me mostrou.

Ele embalou Caio, balançando-o suavemente, murmurando coisas sem sentido até os olhos do menino se fecharem.

Uma risada amarga escapou dos meus lábios antes que eu pudesse impedi-la.

Lembrei-me de quando estava grávida da primeira vez. Ele tinha sido tão atencioso. Leu todos os livros, frequentou todas as aulas. Ele conversava com minha barriga por horas, contando ao nosso filho ainda não nascido histórias sobre seu dia, prometendo ensiná-lo a velejar, a construir coisas. Ele massageava meus pés inchados e atendia a todos os meus desejos, não importava o quão ridículos fossem. Ele era o perfeito e dedicado futuro pai.

Era tudo mentira. Uma performance para sua preciosa esposa, enquanto sua família de verdade esperava nos bastidores.

Eu o odiava. Mas naquele momento, observando-o com Karina, eu a odiava mais. Ela havia orquestrado tudo isso. Ela havia roubado meu marido, minha vida, meu filho.

Agora, ele segurava o filho dela como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.

Mordi o lábio com tanta força que senti o gosto de sangue. Forcei-me a assistir, a gravar a imagem em minha mente. Esta era a minha realidade agora. Esta era a verdade.

"Olhe para ele, Elaine," disse uma voz fria dentro da minha cabeça. "Olhe para o que ele é. Esqueça o homem com quem você se casou. Ele não existe."

Fechei os olhos, as lágrimas finalmente vindo, quentes e silenciosas.

Vou me dar esta noite, pensei. Vou me permitir lamentar pelo homem que perdi. E então, amanhã, estarei farta. Nunca mais olharei para trás.

"Eu te amo tanto, Ricardo," Karina dizia, sua voz carregada de adoração. "O Caio vai fazer cinco anos em breve. Ele vai começar a fazer perguntas. As crianças no parque já estão zoando ele por não ter um pai." Ela soltou um suspiro trêmulo. "Eu sei que te droguei para engravidar, e sinto muito. Eu estava desesperada. Mas fiz por amor."

Ela estava desempenhando seu papel perfeitamente. A pecadora arrependida, a mãe devota.

"Por favor, Ricardo," ela implorou. "Deixe-me levar o Caio para casa. Para a sua casa. Só por um tempinho. Quero que ele saiba como é ter um pai."

Eu conhecia o jogo dela. Ela queria invadir meu espaço, fincar sua bandeira em meu território, me empurrar lentamente para fora.

Prendi a respiração, uma pequena e estúpida centelha de esperança se acendendo em meu peito. Ele não faria isso. Ele não podia. Nossa casa era nosso santuário. Ele era patologicamente reservado. Ele nunca permitiria que ela, ou o filho dela, cruzassem aquele limiar.

Ricardo ficou em silêncio por um longo tempo. Eu podia ouvir meu próprio coração batendo, um tambor frenético contra o silêncio. Este era o teste. O teste final e definitivo.

Por favor, Ricardo. Diga não.

Ele olhou do rosto banhado de lágrimas de Karina para a criança adormecida em seus braços. Sua expressão era indecifrável.

Então, ele assentiu.

"Tudo bem."

A única palavra foi como um tiro na noite silenciosa.

Meu coração não apenas se partiu. Virou pó.

Eu tinha perdido. Os últimos sete anos, meu amor, minha esperança, minha dor — tudo foi uma aposta que fiz no homem errado.

E eu tinha perdido tudo.

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