Capítulo 2

- Vamos, Maria - minha mãe me chamou pela décima vez.

Eu estava morta, havia saído na noite anterior com a Alex, minha amiga, e acabei exagerando na bebida.

- Maria... - Ela entrou no meu quarto e começou a abrir as cortinas, a claridade tomou conta do ambiente, e como se isso não fosse o suficiente, ela ainda puxou a minha coberta de uma vez só. - Maria.

- Já estou indo, mamãe - resmunguei ainda meio sonâmbula e ela riu.

Me levantei a contragosto feito um zumbi e fui direto para o banho. Parecia que um caminhão tinha passado por cima de mim.

Depois escolhi uma roupa confortável, pois preciso ajudar na floricultura.

Minha mãe tem uma floricultura num dos melhores bairros de Nova York. Meu pai faleceu quando eu tinha apenas dez anos, em um acidente de carro, ficando dias internado, mas não resistiu. O destino, não satisfeito com o nosso sofrimento, após três anos do falecimento de papai, levou também minha vozinha. Desde então, somos apenas minha mãe e eu.

Vesti um short jeans claro, uma regata azul bebê, um blazer branco por cima e o meu all star azul. Fiz um coque desajeitado no meu cabelo e desci para tomar café.

- Achei que não iria mais descer - mamãe reclamou, me fazendo revirar os olhos, quando entrei na cozinha. - Como foi a noite ontem?

- Até que foi legal - contei.

- Por que você não termina o seu namoro com o Héctor logo de uma vez?

- Estamos bem, mãe. - Sentei para tomar café.

- Já tem mais de um ano e meio que vocês não se veem, isso não é um namoro - afirmou veemente.

- Na próxima semana ele vem me ver. - Tentei tranquilizá-la.

- Espero que dessa vez ele realmente venha.

- Ele virá, mamãe. - Tentei não gaguejar.

A essa altura, até eu já começava a perder as esperanças.

- Vai me ajudar hoje na floricultura?

- Vou sim. - Voltei minha atenção para o café, de modo a encerrar o assunto.

Após nosso desjejum, fui para a floricultura com a minha mãe e, como de costume, passamos o dia todo lá.

As coisas na floricultura estavam indo de mal a pior, minha mãe fingia que não, e eu fingia que não vinha notando. Os lucros eram poucos, as dívidas foram se acumulando e essa é a única fonte de renda que temos. A vida em Nova York não é nada barata, principalmente porque tivemos que hipotecar nossa casa, a um ano atrás, seria isso ou abdicar da floricultura. E isso eu não poderia deixar, pois ela é a vida de minha mãe. Ela ama o que faz, ama estar entre plantas e flores, organizar arranjos, escrever dedicatórias. Ver um amor nascer por meio de uma flor.

Sai de lá apenas para ir à faculdade.

Sou sortuda em ter conseguido uma bolsa no curso de direito em uma das melhores faculdades do estado. Os custos com os materiais são muitos, mas consigo amenizar os gastos, usando livros de ex-alunos. Eu me esforço ao máximo, é um sonho de minha mãe me ver formada e eu quero que ela tenha muito orgulho de mim.

- Maria - Alex me puxou pelo braço quando me viu passando pelo portão de entrada.

- Oi, Alex, o que foi? - perguntei.

- Tem um novo professor - contou.

- E daí?

- Nossa, Maria, como você é uma chata - reclamou. - Ele é um gato.

- Você sabe que eu tenho namorado.

- Falando em namorado, quando ele vem te ver? - perguntou.

- Na próxima semana.

- Espero que dessa vez ele realmente venha - afirmou.

Alex é minha amiga desde o último ano do colegial, ela conhece a minha história com o Héctor, por isso ela gosta dele, sei que ele já vacilou comigo, mas me jurou que nunca mais iria me trair, e como eu o amo, decidi dar um voto de confiança.

- Senhorita West, podemos conversar? - A nossa conversa foi interrompida quando ouvi a voz da diretora.

- É claro, Senhora Moore.

- Até depois, amiga. - Alex me deu um beijo na bochecha e saiu rumando a passos largos para a sala da diretora.

Seguimos para a sala da Senhora Moore em silêncio, tentei me lembrar se tirei alguma nota baixa para estar me chamando em sua sala, mas tamanho o nervosismo não consigo me lembrar de nada. Sempre fui uma aluna exemplar, então acho que não é em relação à nota.

- Senhorita West. - Indica o lugar para que eu me sente. - Falta apenas dois semestres para que você se forme.

- Já estou no final do oitavo. - Mexo as mãos um pouco nervosa.

- No próximo ano você não terá mais a sua bolsa. - Me olhou por cima dos óculos.

- Como assim?

- A empresa que doava parte dela, fechou.

Fiquei em silêncio por alguns minutos sem saber como relacionar, como eco suas palavras vão e vem na minha mente, "eu não posso ficar sem a bolsa e-eu... Meu Deus, o que eu vou fazer".

- Como assim fechou? - Deslizei minha mão pelos fios de cabelo, não é possível que isso esteja acontecendo comigo.

- Na verdade, ela foi comprada por outra empresa, e até então eles nada informaram quanto a continuidade do programa de bolsas.

- Meu Deus! O que eu farei?

- As suas notas são excelentes, você é a melhor da turma. - A senhora Moore me encarou, apoiando suas mãos sobre a mesa. - Mas isso não é o suficiente para te manter aqui sem uma bolsa integral. Veja com os seus pais. De repente eles possam pagar a metade do valor da mensalidade.

- Não, somos apenas minha mãe e eu, e mesmo com a floricultura, não temos o suficiente para pagar esse valor, ainda que eu consiga manter a bolsa parcial.

- Sinto muito por isso.

- Posso ir? - perguntei.

- Claro.

Segui para sala sem rumo, essa notícia me pegou de surpresa, preciso dar um jeito de conseguir um emprego e pagar os dois semestres que faltam.

Assim que entrei na sala, me deparei com o professor gato que Alex tinha falado e pude perceber que ele realmente era lindo. O homem era alto, de olhos verdes, a sua barba estava impecável e ele me olhava de uma maneira como se pudesse ler a minha alma.

- A senhorita vai entrar, ou vai ficar parada aí na porta? - perguntou.

Nossa! Que arrogante!

Não disse nada, apenas segui para o meu lugar ao lado da Alex.

Ele se apresentou e só aí descobri que ele é o Matteo Ricci, o maior CEO na área de direito, se eu conseguisse fazer estágio na empresa dele com certeza teria a minha vida feita.

As provas foram distribuídas e durante o preenchimento trocamos olhares algumas vezes e fiquei tão vidrada na beleza desse homem que por um momento até esqueci que o Héctor existia.

Assim que finalizei a prova e saí da sala, ouvi os passos da Alex logo atrás.

- Maria, você viu como ele ficou te olhando? - perguntou enquanto saíamos da sala.

- Claro que não, Alex, isso é coisa da sua cabeça. - eu disse.

- Se não fosse pelo Andrew, eu daria em cima dele facinho.

Rimos.

Alex namora o Andrew desde quando eu a conheço e são aquele tipo de casal apaixonado que sabemos que será para sempre.

- O que a senhora Moore queria com você? - perguntou.

- Perdi a bolsa de estudos. - falei enquanto caminhávamos para o estacionamento.

- Como assim? Você é uma excelente aluna, suas notas são as melhores. - Alex ficou tão indignada quanto eu.

- Vou ter que procurar um emprego, e só assim conseguirei pagar ao menos um semestre.

- Caso não consiga, tenho outra maneira de te ajudar.

- Não precisa, eu vou dar um jeito.

Fiquei todo o trajeto de volta para casa pensando em como farei para conseguir um emprego. E minha mãe, o que direi a ela?

Aproveitei que quando cheguei em casa minha mãe estava na rua e entrei direto para o quarto, precisava ficar sozinha. Pensar em tudo, fazer contas e decidir o que fazer antes de informar a ela.

Me preparei para dormir esperando a ligação de facetime com Hector. Mas desisti depois da sexta vez em que liguei e ele não atendeu.

Agora não estava com tempo e nem cabeça para ele, pois estava tão desesperada que até entreguei currículos em lanchonetes. Não me importo de trabalhar em algo que não faz parte da profissão que almejo, a única coisa que preciso no momento é pagar a universidade e poder me tornar uma das melhores advogadas de Nova York.

***

- Mamãe, posso trabalhar naquela boate - sugeri.

Estávamos sentadas a mesas tomando café.

- Não, vamos dar um jeito - falou.

- Preciso terminar a faculdade de um jeito ou de outro. Ou arrumo um emprego rápido, ou rezamos para que o novo dono da empresa volte com as bolsas.

- Podemos pegar o empréstimo no banco, filha, e tentar pagar pelo menos a metade do que falta. - Me olhou com a voz embargada, os olhos molhados com as lágrimas que ainda não escorreram, a ruga de preocupação em sua testa. O semblante abatido, tudo o que não queria ver no rosto dela.

- Não, mamãe, isso apenas pioraria a nossa situação - avisei.

- Mas quero que você conclua os seus estudos, eu sei que se o seu pai estivesse aqui, nada disso estaria acontecendo - reclamou.

- Calma, mamãe, as coisas vão dar certo. - Tentei confortá-la. - Eu só prec...

Naquele momento o meu celular tocou e quando olhei no visor vi que era um número desconhecido.

- Quem é?

- Eu não sei.

- Então atenda, Maria.

- Alô?

- Senhorita West?

- Sim, sou eu.

- Sou a Martha e falo da "RICCI LAW", recebemos um currículo seu e gostaríamos de saber se ainda tem interesse na vaga de secretária?

- Claro, tenho sim.

- Ok, vou enviar as informações por e-mail.

- Obrigada.

- A sua entrevista é daqui a uma hora, por favor, não se atrase.

- Não vou me atrasar.

Antes mesmo que eu pudesse agradecer, o telefone ficou mudo.

- Conseguiu a vaga?

- Calma, mamãe, ainda é uma entrevista.

- Você vai conseguir. - minha mãe falou toda eufórica. - A sua entrevista é ainda hoje?

- Sim, é daqui a uma hora. Preciso me trocar.

Ao menos consegui uma entrevista. Isso acendeu as esperanças no meu coração e preciso correr para me preparar.

Subi às pressas para o meu quarto e já fui tirando as roupas que estou vestindo e pensando no que irei vestir para poder causar uma boa impressão.

Fui até o meu guarda-roupa e... droga! O que eu vou vestir?

Decidi tomar mais um banho antes, lavei meus cabelos e fiquei imaginando o que precisarei falar no momento da entrevista.

Assim que saí do banho, voltei para o meu guarda-roupa e após alguns minutos o encarando, optei por uma saia lápis preta, uma camisa azul clara, um blazer preto e um scarpin azul, no mesmo tom da camisa.

Sequei meus cabelos e fiz um rabo de cavalo baixo, uma maquiagem leve e quando me olhei no espelho, constatei que estava linda e pronta para arrasar.

Desci para me despedir da minha mãe e percebi que Alex, sempre passava aqui em casa antes de ir trabalhar com o seu pai, ainda não tinha chegado.

- Onde você vai toda linda desse jeito?

- Bom dia, Alex - falei assim que entrei na cozinha e ela sorriu. - Tenho uma entrevista de emprego.

- Vou cruzar os dedos para dar certo, amiga.

- Também espero por isso. - Sorri para ela, cruzando os dedos também - Você não imagina qual empresa é.

- Amiga, eu não faço ideia. - Deu de ombros.

- É a Ricci Law.

Alex gritou.

- Eu não acredito que é na empresa daquele gostosão.

- Me deseje sorte - pedi.

- Te desejo uma sentada, no mínimo.

- Alex - minha mãe repreendeu, mas logo sorriu também...

- Se alimente bem - mamãe pediu e dou risada.

- Você não vai para aula hoje? - Alex perguntou.

- Claro que vou, não posso perder nenhuma.

- Eu já disse que os meus pais podem te ajudar - me recordou.

Os pais da Alex são proprietários de uma empresa de marketing, a única certeza que tenho é que eles têm muito dinheiro.

- Agradeço de coração, mas como já disse ainda, não vou abusar de sua amizade.

- Deixe de ser boba. - Alex bufou, me dispensando com a mão.

- Eu já vou indo, beijos. - Saí antes que Alex falasse mais uma vez sobre essa ideia sem sentido

Darei um jeito. Tenho que dar.

Capítulo 3

Quase uma hora depois, deixei a minha mãe na floricultura com a Alex e fui para o endereço que recebi no meu e-mail.

Assim que estacionei na frente daquele enorme edifício, respirei fundo, peguei a minha bolsa e desci.

Quando passei pela porta de entrada, me deparei com um hall lindo e enorme, nos tons de cinza e preto, com o chão todo laminado, também acompanhando as cores das paredes. E no fim dele, havia uma placa enorme com o logo da empresa "Ricci law".

Seria um sonho conseguir estágio nessa empresa, ainda mais no meu ramo, seria maravilhoso para o meu currículo.

A empresa é do CEO de Nova York, Matteo Ricci. Com apenas 26 anos, ele já triplicou o império dos seus pais e é uma grande inspiração para todos os profissionais da área do direito. Matteo vem de uma família poderosa, talvez isso já o ajude com os negócios. Vi a sua entrevista numa revista muito importante da cidade, pois eles questionavam que ele além do fato de ser novo e já ter conquistado tanto, era um dos solteiros mais cobiçado de Nova York, mas isso já tem um pouco mais de 5 anos, acredito que hoje em dia ele deve ter ao menos uma namorada. Um pedaço de mal caminho desses não deve ficar sozinho por muito tempo.

Ao perceber que estou divagando, saí dos meus pensamentos e caminhei até uma moça, pedindo informação.

Fui até o elevador e apertei o botão para o último andar, as minhas mãos já estavam suando, era a primeira entrevista que iria fazer na minha vida.

Respirei fundo quando a porta do elevador abriu no meu andar, encarei a parede branca do outro lado do corredor imenso e por fim, saí dele. Caminhei até a mulher negra que aparentava ter por volta dos cinquenta anos, com os cabelos crespos em um corte black power, grisalhos, mas não de um aspecto envelhecido. Ela parecia a personagem Tempestade de X-men. Ela sorriu assim que notou minha presença, mostrando sua postura altiva e alegre. Se levantou dando a volta na mesa, provavelmente é a recepcionista ou a secretária dele.

- Bom dia! - falou toda sorridente enquanto me aproximava.

- Bom dia. - Retribuí o sorriso.

- Você deve ser a senhorita West. - Estendeu a mão para me cumprimentar.

- Sim, sou eu.

- Sou Martha Davis. - Ela continuou com o sorriso receptivo nos lábios. - Chegou bem no horário. - Observou o relógio de mesa. - E só isso já fez você ganhar um ponto com o chefe - Ela soltou uma piscadela - O senhor Ricci já vai lhe chamar.

Merda! É o próprio Ricci que vai fazer a minha entrevista!

As minhas mãos começaram a suar e meu coração parecia que ia pular pela boca.

Droga! Não posso ficar assim só de pensar no senhor Ricci.

- Obrigada - agradeci a ela.

- Sente-se - Martha pediu e me sinalizou a poltrona do outro lado. Logo em seguida, ela pegou a pasta sobre a mesa e caminhou em direção ao final do corredor, entrando na porta de vidro embaçado. Observei sua silhueta transitar pela sala e uma silhueta masculina surgiu, como se estivesse sentado longe de sua mesa. É ele.

Alguns minutos depois ela retornou.

- Senhorita West, o senhor Ricci a espera.

- Obrigada, Martha.

A mulher sorriu e me instruiu:

- Siga até o fim do corredor, pode entrar sem bater.

Agradeci mais uma vez e segui em direção à sala.

Pelo caminho, observei que nas paredes havia várias pinturas e consegui identificar algumas obras de artistas bem conhecidos, duas delas eram de Edvard Munch. Um deles sendo a obra intitulada "O grito" e o outro "A fumaça do trem". E que se forem originais, devem valer uma fortuna. Todo o ambiente é trabalhado em branco e prata, as únicas cores vêm dos quadros. Continuei caminhando até a enorme porta cinza e para a minha sorte, ou não, ela estava semiaberta.

Respirei fundo e a empurrei devagar.

- Com licença. - Entrei sem bater, como Davis pediu.

Observei a sala e ela era linda, a sua decoração era nas cores preto com cinza, seguindo a estética da entrada e logo atrás da mesa tem uma estante, nela haviam alguns livros, quadros com fotos e um vaso com uma planta que eu não sei o nome.

As janelas eram naquele estilo de arranha-céu e no meio do teto tinha um lustre preto enorme, era lindo.

Logo atrás da mesa, vi uma cadeira enorme na cor preta e eu perdi as palavras quando ele se virou e eu dei de cara com aqueles olhos verdes penetrantes.

- Senhorita West. - Ele fez uma pausa. - Buongiorno - O deus grego, quero dizer, italiano, falou, mas eu mal consegui assimilar suas palavras. - Está tudo bem? - O meio sorriso em seus lábios foi o sinal para que eu voltasse à terra. Ao me dar conta de que estava o encarando, percebi que minhas bochechas estavam quentes e abanei a mão para tentar me refrescar. Vi sua língua passear pelo lábio inferior quando ele umedeceu os lábios. Balançar minha cabeça era o único movimento que conseguia fazer.

- Muito bem, sente-se, por favor - Indicou a cadeira logo à sua frente. - Você é aluna do Romeo, não é?

- S-sim. - Pigarrei, descansando minhas mãos no meu colo, atentando as juntas dos meus dedos. O que não passou despercebido pelo homem, que me encarou, e logo depois levantou a cabeça me analisando.

Droga, Maria!

Será que ele se lembrou de mim na noite que deu aula na faculdade?

O senhor Ricci me encarou e dessa vez com um sorriso de lado, ele estava adorando me ver desconfortável. E eu de alguma maneira gostei da atenção recebida dele.

- Vamos lá, deixe-me ver o seu currículo. - Voltou a sua atenção para a pasta parda que Davis tinha em mãos a pouco.

- Senhorita West, a informação disposta aqui diz que faltam dois períodos para você se graduar em direito, correto?

- Sim - respondi ainda me sentindo nervosa.

- Um estágio neste momento não irá atrapalhar? - questionou.

- Na verdade, eu sou bolsista, e perdi a minha bolsa. Preciso do emprego para pagar a faculdade. E, claro, porque sei que aprenderei muito. Seria um sonho poder começar minha carreira aqui.

- E por qual motivo você perdeu a bolsa? Não acho que tenha sido por causa de notas nem nada do tipo, já que para estar na turma de Romeo você deve ser boa no que faz.

Não deixei de encarar como elogio o que era apenas uma constatação, entretanto, praticamente desde que entrei, ele mal olhou para mim. Não foi antipático, longe disso, porém, um pouco gélido. Mas acho que é este o papel de chefe, afinal estarei aqui - caso seja contratada - para trabalhar, não fazer amizades.

E Matteo Ricci parecia ser um homem de poucos amigos. Pela postura ser misteriosa, como se guardasse um grande segredo; perigoso e desafiador.

- A empresa que garantia o programa de bolsa foi incorporada a outra e o novo proprietário ainda não se pronunciou quanto ao programa. E pelo andar da carruagem, será cancelado.

- Muito bem... Preciso de uma secretária para ajudar a Martha, ela está sobrecarregada. - Ele se encostou contra a cadeira, me olhando intensamente e me deixando consternada - E para essa vaga, o que preciso é de alguém que ajude tanto com os trabalhos organizados aqui, mas principalmente com meus trabalhos pessoais, que não envolvam exclusivamente a empresa. Você está disponível para viagens?

- Que tipos de viagens, senhor? Como já falei, minha condição final...

- A empresa bancará qualquer custo durante suas viagens. Juntamente com seus honorários, então não se preocupe com isso, senhorita West. - Antes que eu possa falar algo, ele continuou: - Está disposta a cumprir regras rígidas e trabalhar sob pressão? - Descansou a caneta sobre papelada, juntando as mãos sobre a mesa e a forma com que ele olha para mim, me faz esquentar. E de repente comecei a suar. Seus olhos verdes se prenderam nos meus, assim como fazia todas às vezes que a intensidade se apropriava de nós dois. Ele me encarou e eu o encarei de volta. Não é normal essa atração fatal que sinto por esse homem.

O senhor Ricci tinha um sorriso lascivo em seu rosto e me contive para segurar um gemido.

O que está acontecendo comigo?

O gostoso... quer dizer, o senhor Ricci pigarreou esperando minha resposta para uma pergunta que eu mal escutei.

- Desculpe, o senhor me perguntou alguma coisa?

Sorriu.

- Perguntei se a senhorita estaria pronta para me satisfazer... - A pausa em sua fala me fez perder o ar.

- O-o quê?

- Sou caprichoso nas coisas que faço, senhorita West. Gosto que seja pontual, metódica e extremamente profissional. Não aceito envolvimentos entre funcionários. E que esteja disponível quando eu precisar. Então, a senhorita topa?

- É claro - respondi toda empolgada.

- Pois bem, a senhorita está contratada.

- Ah, meu Deus! - Sorri e ele imitou meus gestos. Quando se levantou, veio até mim e se aproximou estendendo a mão para me ajudar a levantar.

O perfume dele envolveu tudo ao meu redor, e sem conseguir me conter, respirei profundamente. Ele abaixou seu rosto, próximo ao meu, mas não tão próximo ao ponto de ser um decoro. Seus olhos percorreram meu rosto e pararam em minha boca, não me contive e os umedeci com a língua, vendo seu pomo de Adão se mover.

Por fim, ouvimos as batidas na porta atrás de nós e nos afastamos rapidamente um do outro. Ele voltou para trás de sua mesa, enquanto vi o meu tutor entrar.

- Maria, o que faz aqui?

- A senhorita West é minha nova secretária, Romeo.

- Ah, que bom. Ela é uma ótima aluna. - Fiquei sem graça e senti minhas bochechas ficarem vermelhas. Quando desviei meus olhos do meu tutor, a carranca que estava no rosto de Matteo me desconcertou.

- Obrigada, professor - agradeci depois de alguns segundos constrangedores.

- Por favor, Maria - Ele tocou gentilmente meu braço - Pode me chamar de Romeo, afinal seremos colegas de trabalho agora.

Concordei com um gesto de cabeça.

- Pois bem, senhorita West, Martha entrará em contato informando todos os documentos de admissão. Por enquanto é somente isso, a senhorita já está dispensada.

- Obrigada, Senhor Ricci.

Me despedi dos dois homens e saí da entrevista super feliz porque agora vou conseguir guardar dinheiro para finalizar o meu curso e a oportunidade de estagiar na Ricci Law me abrirá muitas portas.

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