Eu olhei para o meu pulso.
O relógio marcava nove e meia.
"Senhora, por favor, desligue o seu celular. O avião está prestes a decolar", disse a aeromoça com uma voz terna.
"Sim, só um minuto." Eu pedia desculpas com o olhar.
Acenando a cabeça, ela se afastou.
"Mãe, preciso desligar agora. A tripulação já me avisou pela segunda vez."
"Tudo bem, tudo bem! Vou deixar você em paz agora. Em algumas horinhas você já estará aqui! Estaremos esperando do lado de fora do aeroporto quando você pousar!" Era possível perceber a excitação na sua voz. Uma repentina saudade de casa invadiu a minha mente. Já se passaram dois anos desde que os viu.
"Ah, e mantenha aquele garoto à distância de um braço", papai gritou ao fundo.
Enquanto respondi que sim com a cabeça, deixei escapar uma risada. "Tudo bem, pessoal! Vejo vocês no aeroporto."
"Amo você, querida!" Eles disseram ao mesmo tempo.
"Amo vocês também!"
Suspirando, olhei pela janela. Outro avião decolou, voando alto no céu. Observar isso sempre me fascinou. Mesmo assim eu ainda preciso lutar comigo mesma para não passar mal durante as decolagens.
Ao meu lado, alguém caiu, me fazendo virar a cabeça. Deixando escapar alguns palavrões que eu não entendi direito, o homem tentava se acomodar no assento.
"Como está o seu estômago agora?", eu perguntei, mesmo que já soubesse a resposta, já que era possível ver a transpiração em sua testa e as bochechas coradas.
"Não está nada bem. Que droga! Eu acho que não deveria ter comido aquele macarrão que sobrou da noite passada. Meu Deus! Juro! Eu nunca vou comer sobras de novo." Ele gemeu.
Pobre rapaz! Mesmo passando mal, ele concordou em vir comigo para minha casa.
"Eu sinto muito, Warner. Por você ter que viajar comigo nesse estado. Você deveria ter ficado em casa, sabe?"
Ele me deu um sorriso infantil. "Não precisa sentir muito. Eu é que escolhi vir junto, mesmo depois de saber minha condição esta manhã. "
"Mas fui eu quem pediu para você vir comigo", disse eu, por isso a culpa é minha.
"Não seja boba. Eu sou capaz de fazer qualquer coisa por você. Esta é uma jornada um pouco desconfortável. E, além disso, esse mal estar vai embora logo. Já tomei remédios." Ele agarrou minha mão, entrelaçando os nossos dedos.
Eu lhe sorri de volta, com o coração grato por tudo aquilo.
"Eu te amo", disse ele, olhando nos meus olhos.
O meu sorriso ameaçou se desfazer, mas consegui mantê-lo, e apertei sua mão em troca. O anúncio do comissário de bordo para que todos os passageiros prendessem os cintos de segurança salvou-me de outra situação desconfortável.
Estamos namorando há seis meses. Já nos conhecemos desde que entrei na faculdade. Fomos grandes amigos desde o início. Após as minhas várias tentativas frustradas de namoros que não passaram de uma semana, eu desisti de criar qualquer tipo de relacionamento novamente. Quando nos encontramos por conta de um amigo em comum e Warner me chamou para sair, eu não pude dizer que não.
Ele era tudo o que uma garota desejaria em um namorado ideal. Bonito, inteligente, humilde, honesto. E o mais importante, ele me conhecia muito bem. Afinal, somos amigos há três anos. Por isso, quando ele me pediu para ser sua namorada, eu acabei dizendo que sim.
Mesmo que ele tivesse confessado seus sentimentos milhares de vezes antes de mim, eu não era capaz de simplesmente retribuir. Não é que eu não gostasse dele, porque eu gostava. Ele era um cara ótimo. Pode ser uma questão de tempo até eu sentir tudo isso por ele. E eu estava esperando ansiosaemnte por esse dia.
"Senhora, gostaria de um pouco de café?" A voz que vinha de alguém da tripulação quebrou o meu estado de transe.
"Você tem chá?".
Depois de longas quatro horas e meia, quando finalmente pousamos na Califórnia, encontrei meus pais exatamente onde me disseram que estariam. Segurando um cartaz um pouco espalhafatoso que dizia 'bem-vinda ao lar', mamãe me recebeu com seu abraço entusiasmado, ainda mais do que o normal, e papai tinha um olhar satisfeito já que agora eu finalmente tinha voltado para casa. Mesmo que eu só ficasse lá por duas semanas.
Desde o dia em que decidi mudar para o meu colégio em NY, papai ficou absurdamente preocupado comigo. Mamãe também. Não foi nada fácil para mim ficar tão longe deles, mas teria sido ainda pior ter ficado nesta cidade.
Só o tempo e a distância poderiam me curar. Por isso, aquela atitude foi necessária naquele momento. Assim que as memórias daquela noite começaram a surgir, eu desliguei minha mente, enterrando-as no fundo do meu cérebro para que voltassem para o lugar de onde nunca devem sair. Exatamente como fiz pelos últimos sete anos.
Eu segui em frente.
"Bem-vinda ao lar, ratinha!" No momento em que pisei na porta, fui surpreendida com um abraço tão forte que era capaz de esmagar todos os meus ossos. "Olhe para você! Você cresceu!"
Revirei meus olhos para o meu irmão. "Não exagere, você acabou de me ver há dois meses."
"Sim, mas parece que faz muito tempo desde que te irritei pela última vez", disse ele, com os olhos cheios de nostalgia.
Eu sorri. Eu senti falta dele. Mesmo que ele me visitasse frequentemente em NY sempre que ele estava nas viagens de negócios.
"É melhor você manter essa sua bunda horrorosa longe de mim, estou avisando!" Eu fingi um olhar sério.
Ele riu, e então seu olhar caiu sobre Warner, que não estava nos seus dias mais apresentáveis por conta das suas maratonas para os banheiros de dez em dez minutos. Ele parecia prestes a desmaiar a qualquer momento. Warner ficou extremamente envergonhado quando teve que correr para o banheiro antes mesmo de conseguir cumprimentar papai com um aperto de mãos.
Bem...não deixa de ser uma maneira de impressionar meus pais!
Eu queria que o primeiro encontro deles fosse bom. E papai não podia desgostar mais dele por causa disso.
'Ele é bom demais para ser verdade', papai dissera uma vez ao telefone. Eu não sei por que, mas ele não o aprovou quando soube que nós estávamos namorando.
"Ei, Warner! Que bom ver você, rapaz!" Tobias deu-lhe um abraço de lado. "Está tudo bem? Você parece meio doente."
"Nada sério, é só um probleminha de estômago. E é bom ver você também." De repente, sua expressão se torceu como se alguém tivesse dado um soco no estômago. "Olha, se você não se importa..."
"Vá para a direita e então para cima, é a primeira porta. Você vai encontrar o quarto de hóspedes", disse papai com um tom pouco amigável.
Soltando um 'obrigado' apressado, ele correu para dentro.
Suspirei.
Vou ter que conversar com papai sobre isso. Embora Warner não tenha notado seu tom agora, ele logo iria perceber.
"Pobre menino", mamãe murmurou, sutilmente lançando ao papai um olhar de repressão que ele orgulhosamente fazia questão de ignorar. Balançando a cabeça, ela olhou para mim. "Querida, por que você não vai para o seu quarto e se refresca. Vou fazer algo rápido para você comer enquanto isso."
Recebendo um aceno de minha parte, ela seguiu papai. Obviamente para reclamar com ele.
Tobias jogou um braço por cima do meu ombro enquanto subíamos as escadas. "Então? Você está mesma determinada a manter este namorico, hein?"
Como papai, ele também não gostava do meu namorado. Mas, ao invés de papai, Tobias era mais sorrateiro.
"Ele é um cara legal, Tobias. E o melhor é que ele é meu melhor amigo."
"É só isso? Você vai ficar com ele porque ele é um cara bom e é seu amigo?" Ele ergueu a sobrancelha.
"Isso não é o suficiente?"
Ele encolheu os ombros e fez uma cara de reprovação. "E quanto aos sentimentos? Eu não vejo você olhar para ele do jeito que costumava olhar para A..."
Eu coloquei a mão diante dele, não deixando que ele terminasse aquele maldito nome. "Eu gosto dele. E acho que é o suficiente para conseguir manter um bom relacionamento com ele. E você deveria estar feliz por mim, não é?"
Algo brilhou em seus olhos e eu não consegui decifrar. Então ele sorriu. "Se é isso que te faz feliz, Em."
Meus lábios se curvaram. "Muito obrigada pela compreensão."
Assim que ele me deixou no meu quarto para me refrescar, deixei uma mensagem para Casie e Beth sobre minha chegada e me preparei para um longo banho quente. Já faz muito tempo que não as vejo, embora nada tenha mudado muito entre nós. Elas queriam se juntar a mim para a faculdade, mas Beth não podia porque seu namorado estava aqui. Casie acabou por trocar os estudos por uma carreira de modelo.
Ainda bem que ela tomou a decisão certa. Ela era uma modelo de sucesso agora. Eu morria de orgulho!
No jantar, Warner já parecia muito melhor do que esta manhã. Esta noite era o nosso jantar em família, e como sempre, a especialidade da casa eram os pratos feitos pela mamãe. Durante todos esses anos, além das saudades da família, eu sentia absurdamente a falta daquela comida feita pela mamãe.
Quando ela colocou um prato de tortas de maçãs na minha frente, eu fiquei maravilhada com aquele cheirinho, mal conseguia me segurar, e abri um sorriso imenso. "Meu doce favorito!"
Rindo, ela sentou-se ao lado de papai.
Quando Tobias tentou pegar um, dei um tapa forte em sua mão. "Larga isso agora, garoto! São todos meus!"
Ele franziu a testa. "Isso não me parece justo. Eu também sou louco por esses doces!"
"Tobi, deixe sua irmã ter a sobremesa que quiser! Você as teve durante esses anos todos, agora é a vez dela", disse papai.
"Vocês não são nada justos!", ele reclamou, fazendo todos nós rirmos. Os olhos da mamãe brilharam enquanto nos observava brincar como nos velhos tempos. Por alguns instantes seu olhar pousou no meu pulso esquerdo.
"Que pulseira linda! Onde é que você arranjou, querida?"
Eu olhei para baixo. Um sorriso tímido e constrangido tocou meus lábios. Era uma correntinha dourada, decorada com esmeraldas e pequenos diamantes cintilantes, em forma de rosas.
"Alguém me presenteou no dia da minha formatura", respondi. Ainda me lembro bem daquele dia. Mamãe e papai não puderam participar porque o voo deles foi cancelado devido ao mau tempo. Ninguém da minha família pôde comparecer. Com o humor abatido, quando voltei para o meu apartamento naquela noite, depois de uma festa de comemoração louca com meus amigos, encontrei uma pequena caixa diante da minha porta.
Era de alguém anônimo. Sem qualquer nota, endereço ou nome. Embora eu não quisesse ficar com a pulseira, não pude resistir. Eu me apaixonei por ela no primeiro instante.
"Quem?"
Dei de ombros. "Eu sei lá! Não havia nenhum nome na caixa de presente."
"Princesa, você não deve aceitar presentes anônimos. Isso pode ser um pouco perigoso. Aliás, quem daria a você uma pulseira tão cara e nem sequer revelaria o nome?" A testa de papai se enrugou na hora.
"Pode ser Tom. Eu tenho certeza de que é ele quem manda rosas em todos os seus aniversários", exclamou Warner.
"Como assim? Quem é Tom?" Mamãe olhou para mim.
Suspirei. "Não é ninguém importante, mãe. É só um cara da minha faculdade que uma vez me convidou para sair."
"Ninguém? Ele literalmente perseguiu você em todos os lugares até que algo aconteceu e ele misteriosamente sumiu do nada. Ele deve ter levado a sério a minha ameaça de entregá-lo à polícia", disse Warner, com o rosto sombrio.
"Perseguidor!" Mamãe e papai gritaram assustados ao mesmo tempo.
"Como é que tudo isso aconteceu e você não disse nada?" Papai me lançou um olhar de desgosto e reprovação.
Warner se mexeu desconfortavelmente em sua cadeira enquanto me olhava. Por que raios ele tinha que dar com a língua nos dentes logo agora?
"Calma, pai! Ele foi embora antes que eu pudesse tomar qualquer atitude."
"Foi para onde?"
"Não sei. Um dia ele simplesmente...desapareceu." Dei de ombros. "Talvez ele tenha percebido que não ia conseguir nada comigo e desistiu."
"Ele até desapareceu da faculdade", Warner murmurou, recebendo outro olhar meu.
Honestamente, eu pouco me importava se ele tinha desaparecido ou não ou o que tinha acontecido. Mas não acredito que esta pulseira tenha sido um presente dele. Uma ideia tão linda e delicada não passaria pela cabeça daquele psicopata.
"Ainda assim, você deveria ter dito alguma coisa, princesa." Papai balançou a cabeça.
"Está tudo bem, Senhor Hutton. Eu estava lá com ela", disse Warner.
Papai olhou para o corpo nada atlético de Warner e voltou a comer. Os lábios de Tobias se contraíram para prender o riso. Ele sabia sobre Tom, mas não informou nada aos meus pais porque aquilo certamente os deixaria transtornados.
Os olhos da mamãe se viraram em direção à porta. Minha irmã ainda não tinha chegado. Mas, como sempre, ela tinha coisas mais importantes para fazer do que o jantar em família.
Assim que peguei uma torta de maçã e levei aos lábios, o som dos saltos finos batendo no chão de casa chegou aos meus ouvidos.
Ela tinha um grande sorriso no rosto enquanto se aproximava. "Ei pessoal! Desculpem o atraso, tive um imprevisto."
Vestido de verão amarelo, salto agulha, cabelo loiro escorrido na altura dos ombros, olhos azuis e maquiagem impecável. Eu não me surpreendia. Ela estava tão impressionante e sofisticada como sempre.
"Ei, irmãzinha!" Beijando levemente minhas bochechas, ela se sentou ao meu lado. "Olhe para você, você ficou ainda mais bonita do que eu me lembrava da última vez que nos vimos."
Meus lábios se curvaram em um sorriso tenso. "Obrigada. Como está?"
"Tenho estado bem! Mais do que bem, na verdade!", ela sorriu de canto de boca, e sua pele brilhava sob a luz.
Quando seu olhar pousou em Warner, ela o reconheceu imediatamente. Embora eu não tivesse muito contato com ela, além de minha visita de um ou dois dias às vezes em casa, Tobias continuou a atualizá-la sobre tudo o que acontecia na minha vida. Mesmo que ela não estivesse tão interessada.
Depois que terminamos o jantar, a sobremesa foi servida.
"Então, Em? Você soube da festa amanhã à noite?", perguntou Tess.
Mamãe ficou um pouco tensa com a menção da festa. Eu levantei as minhas sobrancelhas.
"Que festa? Não sei de nada."
"Então eles não te contaram? A festa na casa da família Valencian." Agora foi a minha vez de ficar tensa, e percebi que os olhos de Tess brilhavam com a excitação. "Haverá uma festa para comemorar a chegada da Valencian Corp na revista Forbes. Eles estão governando o mundo dos negócios do país agora. Não é incrível?"
Tobias lançou um olhar um pouco preocupado. Mamãe também. Eu apenas respondi à pergunta de Tess acenando a cabeça.
"Sim, aquele menino trabalhou muito duro para que isso pudesse acontecer. Depois de seu pai, ele cuidou de todos os negócios sozinho", comentou papai, com um olhar orgulhoso.
"Por que não? Afinal, ele é meu melhor amigo", disse Tess.
Flashes daquela noite flutuaram em minha mente, enquanto minha mão direita deslizava pelo copo.
"Ah, tem mais uma coisa! Nessa festa, vou anunciar outra coisa muito importante para todos. Por isso eu acho que vocês devem ir."
Quando eu estava prestes a abrir minha boca para dizer não, mamãe engasgou.
"Isso é um anel no seu dedo, Tess?"
Outro sorriso apareceu em seus lábios enquanto ela levantava a mão com orgulho para que todos pudessem ver aquela jóia. "Si-im...Ele me pediu em casamento ontem à noite. E, amanhã, vamos anunciar a nossa data oficial de noivado."
As pessoas na mesa não conseguiam disfarçar a cara de surpresa. O meu estômago estava revirado.
"Quando é que isso aconteceu? Achei que vocês não estavam falando tão sério", mamãe questionou.
"Eu sei, nós estávamos juntos e separados muitas vezes..." Nós estávamos com alguns problemas... Principalmente da parte dele, depois do que aconteceu com a sua família... Mas ele finalmente ganhou coragem e me pediu em casamento ontem à noite! Não consigo expressar em palavras o quanto estou feliz!" Seus olhos brilhavam com lágrimas de felicidade.
E então meu olhar logo caiu sobre a letra que estava gravada em seu anel.
"O que significa 'V', Tess?" Meus olhos grudaram naquilo. Minha mão apertava ainda mais o copo.
Tess seguiu o meu olhar. "Oh, é 'Valencian'. Não é a coisa mais linda?"
Ouvi uma batida na porta. "Você já está pronta, querida? Seu pai está te esperando lá embaixo."
"Sim, mãe. Só mais um minutinho e eu já vou!", respondi, enquanto olhava para o meu reflexo no espelho.
"Tudo bem, mas não demore."
Enquanto me olhava, deslizei os meus dedos sobre aquele vestido vermelho que estava colado à minha pele. Parecia suave e delicado. Tudo estava milimetricamente perfeito. A maquiagem discreta, o cabelo comprido dividido ao meio, o vestido com uma faixa grossa que percorria os meus ombros, um decote em coração arredondado e uma fenda lateral até a coxa, tudo estava no lugar que deveria estar.
"Estou finalmente pronta", foi o que eu sussurrei para mim mesma.
Peguei a minha bolsa preta, alisei meu cabelo mais uma vez para ter a certeza de que estava perfeito e desci as escadas.
Warner me viu quando eu fechava a porta do quarto. Ele fez uma cara surpresa, sua boca se abriu e os olhos azuis claros estavam arregalados olhando para cima e para baixo no meu corpo. "Puta merda! Você está...", ele balançou a cabeça. "Sei lá... Eu não tenho palavras."
Eu sorri. "Obrigada. Você também não está tão mal."
O terno que ele vestia lhe caía muito bem, e a gravata era linda.
"Vamos lá?" Eu perguntei.
"Sim! Meu Deus do céu, aposto que ninguém vai conseguir tirar os olhos de você esta noite..." Sorrindo, ele esticou o seu braço na minha direção e eu o segurei.
Uma vez do lado de fora, encontramos mamãe arrumando a gravata de papai enquanto ele dizia algo bem baixinho. Seu rosto de repente ficou sério, quando nos viu juntos. Depois que mamãe falou muito sobre minha aparência e o fato de estar orgulhosa por eu ter seguido os passos dela, todos nós entramos no carro.
Ela tentava sutilmente me perguntar se eu estava me sentindo bem depois que saí no meio do jantar de ontem, usando a desculpa de estar com meu fuso horário trocado. Eu sabia que no fundo ela só queria garantir se eu estava bem, não fisicamente, mas emocionalmente.
Todos evitaram ao máximo falar sobre o noivado na minha frente e adiaram o tema ao máximo que conseguiram. Eles pensaram que isso poderia me magoar de alguma forma, já que souberam alguma coisa sobre o que me havia acontecido há sete anos. Só não sabiam de tudo. Eles não sabiam exatamente o que tinha acontecido naquela noite.
O que eles também não sabiam é que eu já não era mais a mesma menina de quinze anos.
Eu iria enfrentar o homem que partiu meu coração anos atrás no dia em que ele iria anunciar o seu noivado com minha irmã diante do mundo. Mas eu estava bem. Já se passaram muitos anos desde então. Eu estava formada, tinha um namorado, segui em frente com a minha vida.
Depois de ontem à noite, eu não tinha visto mais a minha irmã. E, honestamente, eu não queria. Mesmo que eu não me importasse mais com o que aconteceu, ainda conseguia sentir a raiva e a traição que senti naquela noite. Depois de saber de tudo, como ela poderia vir anunciar seu noivado comigo como se nada tivesse acontecido?
Como é que ela foi capaz...
Eu sacudi minha cabeça, tentando esquecer o passado. Eu estava mais forte agora.
O passado já morreu e deve ser enterrado. Ela era minha irmã e no fim das contas eu deveria estar feliz por ela.
Afinal, já se passaram anos. Nós mudamos muito. Eu superei tudo isso.
Isso não me afeta mais. De jeito nenhum.
O carro parou bruscamente, e eu pude sentir o meu coração parando junto. Mamãe e papai saíram e Warner os seguiu.
Aqui vamos nós.
"Em?", Warner gritou, esperando por mim do lado de fora.
'Respire fundo, Em', era o que eu pensava enquanto minhas mãos agarraram o meu vestido. Meu coração palpitava no peito, eu podia sentir minha boca seca. Uma gota de suor escorria pela minha nuca.
Meu corpo parecia não me responder mais. Não conseguia mais me controlar.
"Querida? Vamos, Tess já está esperando por nós lá dentro", mamãe disse.
Eu consigo fazer isso. Nada aconteceu. Eu já segui em frente.
Dando a ela um aceno de cabeça, eu cerrei meus dentes e me movi ainda com os joelhos tremendo. Eu peguei o braço de Warner em um aperto firme enquanto meus olhos percorriam a enorme mansão que eu já não visitava há muito tempo.
"Você tem certeza disso? Você parece um pouco pálida", Warner afirmou quando cruzamos a soleira da porta.
A linha que não devo cruzar.
"Está tudo bem." Minhas unhas cravaram as palmas das minhas mãos de tanto nervosismo.
"Tem certeza?"
Eu assenti a cabeça, agarrando-o com mais força. Ele ficou trêmulo, mas não perguntou mais nada. Eu me senti grata por isso.
Eu o deixei me arrastar por meio daquelas pessoas todas vestidas com roupas caríssimas e sofisticadas. O salão era enorme e engolia a multidão. A decoração da festa mostrava que era a celebração de uma família influente. Elegante e, ao mesmo tempo, absolutamente deslumbrante.
Ao passarmos pela multidão que conversava e bebia, vimos Tess parada ao lado de alguns de seus amigos. Quando nos viu, ela interrompeu a conversa e correu na nossa direção, com a cauda do seu vestido prateado brilhante que se arrastava atrás dela. Tobias também a seguiu.
Se todos os seus amigos estavam aqui, isso significava que...
Puxei a minha mão do braço de Warner delicadamente e dei um passo para trás. Meus olhos observaram ao redor. Minhas pernas me incentivavam a correr. 'Devo voltar para a segurança do meu quarto, onde ele não consegue me encontrar. Ele, que eu enterrei no fundo das minhas memórias', era o que eu pensava.
"Oh meu Deus! Olhe para minha filha, você está tão deslumbrante!" A voz da mamãe estava em êxtase quando ela olhou para o papai. "Quando a nossa filha ficou tão grande, Wilson? Olhe para ela! Está usando um anel de noivado hoje!" Mamãe estava visivelmente emocionada.
Desviei meus olhos de seu anel por um instante e peguei uma taça de vinho da bandeja de um garçom que passava. Minha mão tremia enquanto segurava o copo.
Papai acariciou as costas de mamãe enquanto Tess revirava os olhos. "Mãe, não exagere, estamos apenas anunciando a nossa data oficial de noivado. Eu ainda não vou me casar esta noite!"
"Não ligue para sua mãe, ela só ficou um pouco comovida. Enfim, onde está o seu noivo?", papai perguntou, olhando ao redor.
"Oh, ele está ali!" Ela apontou em direção ao bar. Eu congelei naquele momento.
Lentamente, eu comecei a seguir o olhar de todos. Quatro homens estavam juntos, um deles estava de costas para nós.
É... ele está ali?
Sete anos. Depois de sete anos, eu estarei com ele cara a cara. Vou ter que olhar para aqueles olhos cinzentos tempestuosos...
Soltei um suspiro trêmulo e um pouco receoso. Eu precisava de ar, eu precisava sair dali.
Quando eu estava prestes a fugir, Tess gritou por ele.
"Caleb?"
Eu parei e me virei. Como assim Caleb?
Eu olhei na direção dele quando aquele homem se virou sorrindo largamente. Aproximando-se mais, ele beijou suavemente a bochecha de Tess e cumprimentou mamãe e papai.
Seus braços dados, olhando um para o outro com muito afeto... Pisquei algumas vezes para ter a certeza de que aquela era mesmo a realidade, e um suspiro silencioso escapou dos meus lábios.
Isso significa que Caleb era o noivo de Tess? O primo de Achilles?
Agora aquele 'V' em seu anel fazia sentido. 'V' significa Valencian. Caleb Valencian.
Parece que o mundo saiu de cima das minhas costas e uma pressão no meu peito desapareceu de repente, enchendo-o de ar. Eles não estavam juntos.
"Em? Emerald? É você?", Caleb perguntou, com os olhos castanhos cheios de alegria. "Oh meu Deus! É a malvada Emerald Hutton que nunca ligou para este pobre homem abandonado durante todos esses anos?"
Ele me fez sorrir. "Ei, Caleb."
Ele me envolveu em um abraço de urso. E não pude evitar retribuir seu carinho. Eu gostava dele como se fosse um irmão mais velho. Mas, no processo de me distanciar de Ace, cortei os laços com tudo e todos que tinham relação com os Valecian.
Ele se afastou e colocou as mãos nos meus ombros. "Alguém já lhe disse que você virou uma mulher muito bonita?"
Rindo, eu balancei minha cabeça. Ele continuava me abraçando e sorrindo. Alguns momentos se passaram.
"Se você parou de flertar com minha irmã, posso abraçá-la agora?" Tess ergueu a sobrancelha para Caleb.
Sorrindo, ele deu um beijo em sua têmpora. "Você sabe que eu só tenho olhos para você, não é, meu bem?"
Revirando os olhos, ela o empurrou e me abraçou. "Você está linda!"
"Você também", eu disse. Seu olhar cruzou com o meu. Algo próximo ao arrependimento transparecia dos seus olhos, e também uma coisinha a mais que eu não conseguia decifrar.
"Emerald, eu..."
"Bem! Acho que já é hora de dançar." Caleb interrompeu. Seu olhar para Tess não passou despercebido. O que está acontecendo? "Será que devemos?"
Piscando, Tess pigarreou. Ela sorriu e colocou a mão na de Caleb e juntos pularam para a pista de dança. Mamãe e papai ficaram ocupados conversando com outro casal.
O telefone de Warner tocou, interrompendo-o bem na hora em que ele ia dizer alguma coisa. Pedindo licença, ele se afastou para atender à chamada.
Tobias percebeu meus olhares cautelosos ao redor. Minha inquietação. "Relaxe, tudo vai ficar bem."
"O quê? Porque você disse isso?" Eu fingi que não entendi.
Ele suspirou, balançando a cabeça. "Nada. Você quer outra bebida?" Ele apontou para o meu copo que já estava vazio.
Não, fica aqui comigo. Eu queria dizer, mas decidi ir contra. "Certo."
Assentindo, ele foi ao bar buscar mais bebidas para nós.
Eu não precisava de ninguém para me apoiar. Eu poderia lidar com isso sozinha. Eu não era aquela adolescente ingênua que desabou apenas com um olhar.
De repente, o cabelo da minha nuca se arrepiou. Arrepios cobriram toda a minha pele.
Virando-me, observei tudo o que estava ao meu redor. Nada parecia incomum, estava tudo na mesma.
Então por que eu sinto que alguém está me observando?
Enquanto as luzes coloridas se moviam em torno da massa de pessoas que não se calavam, meu olhar foi para o primeiro andar e ficou preso lá. No canto mais distante, uma figura estava lá; seu rosto estava na sombra. Com as mãos nos bolsos, ele ficou imóvel, com seu corpo voltado para o meu. Mesmo que eu não pudesse ver seu rosto, eu poderia dizer que ele estava olhando para mim. E, por alguma razão, isso me deixou nervosa. Mesmo assim, eu não conseguia parar de olhar.
Quem é ele?
"Em?"
Pulando com o susto, me virei.
"Uau! Uau! Relaxe, sou só eu", disse Warner, erguendo as mãos.
Soltando um suspiro de alívio, me virei novamente. E ele se foi.
"Você está bem?"
"Sim, eu estou bem. Você só me assustou", respondi, sorrindo de canto de boca.
"Ok. Dança comigo?", ele perguntou, me dando sua mão.
Procurei Tobias. E lá estava ele, rindo com algumas garotas com os dois copos ainda nas mãos. Eu balancei minha cabeça em sinal de reprovação para o meu irmão.
Dando a Warner um pequeno sorriso, peguei sua mão.
Eu não queria ficar sozinha agora.
Uma vez na pista de dança, começamos a balançar sob as luzes fracas e a música lenta. E então eu senti de novo. Aquele olhar, o olhar ardente me observando de longe, como se seguisse cada movimento meu.
Warner colocou uma mecha atrás da minha orelha, mas meu olhar só conseguia se concentrar em procurar por algo na multidão.
"Em? Tem certeza que está bem? Você parece um pouco perturbada desde a noite passada." Ele franziu a testa.
"Sim, está tudo certo. Não se preocupe com isso. É só o jet lag", menti. Eu não queria. Mas eu não podia dizer a ele por que meus nervos estavam descontrolados desde que ouvi falar desta festa.
"Bem. Se você está dizendo. Mas você sabe que pode me dizer qualquer coisa que quiser, não sabe?"
Desta vez, meu sorriso foi genuíno. Eu acenei minha cabeça. "Eu sei disso."
Seus lábios se curvaram quando ele pegou uma das minhas mãos e beijou-a.
Uma garganta pigarreou nas minhas costas. "Posso ter a oportunidade de dançar com esta linda senhora?" Uma voz profunda e dura perguntou, com um sotaque grego distante.
Eu fiquei imóvel.
Warner olhou por cima da minha cabeça e seus olhos se arregalaram um pouco. Eu pude perceber que ele reconheceu alguma coisa enquanto um sorriso educado apareceu em seus lábios. "Certo." Afastando-se, ele olhou para mim. "Vou esperar por você no bar." E então ele desapareceu da pista de dança.
Não!
Eu queria dizer. Mas eu não conseguia me mexer ou dizer nada.
Eu nem sequer consegui me virar. Não ousei. Meu coração bateu acelerado quando senti aquele calor atrás de mim. Um par de mãos enormes e calejadas cobriu as minhas, colocando-as diante de mim, enquanto seus braços me envolviam. Um suspiro escapou dos meus lábios com todo aquele turbilhão de sentimentos que percorria todo o meu corpo.
Já que eu não me movia nem um milímetro, ele assumiu o controle e nos balançou de um lado para o outro com movimentos lentos. Aquela combinação inebriante da sua colônia exótica emaranhada com fumaça encheu todos os meus sentidos.
Ainda era o mesmo.
Meu cérebro simplesmente parou de responder.
O hálito quente fez cócegas no meu pescoço, e nesse momento minhas pernas ficaram bambas. Um misto de emoções veio à tona. Eu sentia algo apertar em meu peito enquanto uma respiração ofegante deixava os meus lábios.
Nós não dizíamos nada e apenas balançávamos ao som daquela música. Tudo o que eu podia ouvir era a música, minha respiração profunda e as batidas do meu coração que parecia saltar para fora do peito. Minhas mãos tremeram sob as dele.
Eu não poderia fazer isso. Eu não posso! Eu precisava sair dali!
Afastando seus braços, quando tentei me afastar, ele agarrou minha mão e me girou, puxando-me para perto de novo. Meu peito encostou completamente no corpo dele. Ofegante, quando olhei para ele...
Parecia que o ar não me chegava mais aos pulmões.
Aqueles olhos cinzentos tempestuosos.
Depois de sete anos, eu estava novamente frente a frente com eles. E era isso que eu temia. Eles ainda conseguiam me hipnotizar, assim como faziam há sete anos. Pareciam piscinas cinzentas que afogavam toda a minha alma. Seu rosto estava a poucos centímetros do meu.
Sem fôlego, observei o resto do seu rosto. E eu estava sem palavras.
Mandíbulas fortes, queixo proeminente, lindo nariz pontudo, lábios grossos e desejáveis e uma testa larga. Os cabelos pretos milimetricamente alinhados. Eram compridos, e as as pontas tocavam seu pescoço. Exatamente como um deus grego.
Desapareceu aquele olhar encantador de menino, tudo nele agora fazia lembrar um grande homem. Um homem poderoso e talvez um pouco áspero.
Eu não conseguia respirar, mas meu olhar não conseguia parar de olhar para aquele rosto. Eu não sabia que a idade deixava as pessoas tão bonitas. Não, bonito não era uma palavra suficiente. Palavras não poderiam descrever Achilles Valencian.
Ele estava...em outro nível.
Levantando a mão, ele afastou uma única mecha do meu rosto. Warner já tinha feito isso outras vezes, mas nunca conseguiu me arrepiar como Ace. Seus olhos percorreram cada centímetro do meu rosto, como se os quisesse decorar. Eles pareciam estar em algum tipo de transe. Como se ele não pudesse evitar, acariciou as minhas bochechas com as pontas dos dedos. Sussurrou alguma coisa que eu não entendi muito bem.
Inconscientemente, inclinei-me quando ele me tocava, enquanto meus olhos não deixavam de observar seu rosto. Minha pele pedia por mais, apenas aqueles braços fortes me segurando ainda não eram suficientes. Meu coração ansiava por algo enquanto se aquecia sob o seu olhar ardente.
O olhar que eu morria por desejar apenas por alguns segundos. Minha visão ficou turva com aquela carga de emoções que eu sentia.
Meu Ace...
Mas então sua voz quebrou meu transe, me trazendo de volta ao presente, ao mundo real.
"Ainda não quer falar comigo, Rosebud?" Seus olhos cinzas esbarraram com os meus turquesas.
Rosebud? Então ele ainda se lembrava de que alguém com esse nome existiu em sua vida?
Então ele também deve se lembrar da dor no coração que deu a essa menina há anos atrás.