Ponto de Vista: Alessia
Acordei no chão.
A sala de jantar estava vazia, os pratos retirados, as luzes diminuídas. Um único copo de água estava na mesa ao lado da minha cabeça. Uma concessão. Eles não chamaram um médico, mas não me deixaram morrer. Ainda não. O jogo não tinha acabado.
Arrastei-me escada acima, meu corpo gritando em protesto. Dante estava em seu escritório. Não me dei ao trabalho de bater.
Ele ergueu os olhos de seus papéis, o rosto uma máscara de fria indiferença. “Sentindo-se melhor?”
“Que jogo é este, Dante?”, perguntei, minha voz um sussurro rouco. “O que você quer de mim?”
Ele fingiu ignorância, uma tática tão antiga quanto sua linhagem. “Não sei do que você está falando.”
“Esses... esses testes constantes. Me machucar para ver se eu fico. O que será preciso para ser o suficiente? Para você acreditar que eu te amo?”
Antes que ele pudesse responder, Seraphina apareceu na porta, envolta em um robe de seda. “Dante, querido, não consigo dormir. Meu dedo está latejando.” Ela fez beicinho, mostrando a mão, agora adornada com um curativo comicamente grande.
A atenção de Dante se voltou para ela, sua preocupação fingida, imediata e absoluta. Ele se levantou, murmurando palavras tranquilizadoras, e a conduziu para fora do quarto sem sequer olhar para trás para mim. A mensagem era clara. A dor falsa dela sempre seria mais importante que meu sofrimento real.
Eu estava entorpecida. Não havia mais raiva, nem mais dor. Apenas uma paisagem vasta e vazia dentro de mim, onde os sentimentos costumavam viver.
Duas semanas depois, a casa foi transformada para o aniversário de Seraphina. Uma festa luxuosa, obscena. Centenas de convidados lotavam o salão de baile, suas risadas ecoando no piso de mármore. Eram as pessoas de Dante — subchefes, capos, políticos em sua folha de pagamento. Esta festa era uma declaração de poder, e Seraphina era o adereço no centro dela.
“Ela não está linda?”, murmurou a esposa de algum capo para sua amiga, alto o suficiente para eu ouvir. “O Dom claramente a adora. Sinto pela Alessia. Deve ser humilhante.”
Eu estava parada perto das portas francesas, um fantasma na festa do meu próprio marido, e o observei cobrir Seraphina de presentes. Uma pulseira de diamantes. Um carro esportivo, as chaves apresentadas em uma almofada de veludo. Nico estava ao lado deles, aplaudindo com entusiasmo, seus olhos constantemente se voltando para mim, verificando a reação desejada. Verificando a dor.
Eu não lhe dei nada. Meu rosto era uma máscara plácida.
Isso os enfureceu mais do que qualquer explosão. Minha indiferença era uma rebelião que eles não sabiam como esmagar.
Finalmente, Seraphina, bêbada de champanhe e atenção, deslizou até mim. Seus olhos eram afiados e maliciosos.
“Você não me deu um presente, Alessia”, ela ronronou.
“Não tenho nada para você”, eu disse, minha voz firme.
Seus olhos se estreitaram, depois se fixaram na simples corrente de ouro em volta do meu pescoço. Era um medalhão, fino e gasto. Dentro havia uma pequena e desbotada fotografia da minha mãe. Era a única coisa que me restava dela.
“Eu quero isso”, ela disse, sua voz se tornando infantilmente gananciosa.
Instintivamente, eu o agarrei. “Não.”
“Ah, vamos lá”, ela insistiu, virando-se para Dante, que se aproximara, sentindo uma nova oportunidade para seu esporte cruel. “Dante, diga a ela. É meu aniversário.”
“Alessia”, a voz de Dante era suave, mas continha o comando inflexível de um Dom. “Dê a ela.”
“Dante, por favor”, eu implorei, minha voz quebrando pela primeira vez em semanas. “Era da minha mãe. É tudo o que eu tenho.”
“É só um colar, mamãe”, Nico interveio, juntando-se ao círculo. “O Dom Dante pode te comprar um maior. Um melhor. Este é velho.”
As palavras, tão casualmente cruéis, me atingiram com mais força do que um golpe físico.
“Dê a ela, Alessia. Agora.” A paciência de Dante havia acabado.
Quando não me movi, sua mão disparou. Ele não o desengatou. Ele o arrancou do meu pescoço. A corrente fina cortou minha pele, desenhando uma fina linha de sangue. Ele deixou o medalhão cair na palma estendida de Seraphina.
“Viu?”, ele disse, sua voz carregada daquela possessividade arrepiante. “É apenas uma coisa.”
“Você não entende”, sussurrei, as lágrimas finalmente embaçando minha visão. “Não é apenas uma coisa. É ela.”
Dante hesitou por uma fração de segundo. Vi um lampejo de algo em seus olhos — não arrependimento, mas um lampejo primal de compreensão. Ele sabia o que estava destruindo.
Então ele assentiu para Seraphina. “É seu.”
Nico aplaudiu. “Feliz aniversário, Seraphina!”
Minha pergunta foi um sussurro quebrado. “Você está feliz agora? Isso é o suficiente?”
Seraphina olhou para o medalhão em sua mão, depois olhou para mim, um sorriso triunfante e cruel se espalhando por seu rosto. Ela o deixou cair no chão de mármore. E então, com uma pressão deliberada e esmagadora, ela desceu o salto de seu scarpin sobre ele.
Um estalo medonho ecoou no silêncio repentino do salão de baile.
Algo dentro de mim se partiu. Eu não gritei. Eu me lancei, uma tentativa frenética e desesperada de salvar os pedaços esmagados da minha mãe, do meu passado. As bordas irregulares do ouro quebrado cortaram minhas palmas enquanto eu me arrastava no chão.
Dante me levantou, seu aperto como ferro em meu braço. “Pare com isso. Você está fazendo uma cena.”
“Ela fez de propósito”, eu ofeguei, segurando o medalhão arruinado em minhas mãos ensanguentadas.
“Claro que ela fez”, ele disse, sua voz desprovida de emoção.
Sua falta de negação foi mais chocante do que o próprio ato.
“Peça desculpas a ela”, Dante ordenou, sua voz baixando para um sussurro perigoso que era apenas para mim. “Você a chateou no aniversário dela.”
Eu o encarei, o monstro vestindo o rosto do meu marido. O jogo havia atingido um novo nível de depravação. E eu sabia, com uma certeza que me gelou até os ossos, que só iria piorar.
Ponto de Vista: Alessia
Eu não disse nada. Não pedi desculpas. Simplesmente me afastei, deixando-os parados no centro do salão de baile, os sussurros dos convidados zumbindo ao redor deles como moscas.
No meu quarto, coloquei os pedaços esmagados do medalhão sobre um lenço de seda. Tentei encaixá-los, um quebra-cabeça sem esperança e de partir o coração. Era irreparável. Mas não consegui me forçar a jogá-lo fora. Enrolei os fragmentos quebrados na seda e os coloquei na minha caixa de joias, um pequeno túmulo para a última peça da minha mãe.
Uma batida suave na porta. Era Seraphina.
Ela se encostou no batente da porta, um olhar presunçoso e vitorioso no rosto. “Você ainda não entendeu, não é?”
Eu não respondi.
“Ele adora isso”, ela disse, sua voz um sussurro conspiratório. “Dante, Nico... eles adoram quando você está sofrendo. Suas lágrimas são como uma droga para eles. Prova que você é deles. Que ninguém mais pode te machucar como eles podem. É a forma máxima de posse no mundo deles.”
“Você é uma ferramenta, Seraphina”, eu disse, minha voz fria e firme. “Uma temporária. Ele vai se cansar de você, e então vai te descartar.”
Ela riu, um som agudo e desagradável. “Talvez. Mas antes que ele faça isso, ele vai se livrar de você. Completamente.”
Ela tentou passar por mim para entrar no quarto. Eu estava cansada, quebrada, mas uma centelha de desafio se acendeu dentro de mim. Mantive minha posição. “Saia.”
Ela me empurrou. Não foi com força, mais um empurrão para afirmar seu domínio. Mas eu estava desequilibrada e cambaleei para trás. Em um movimento desesperado e instintivo para me firmar, eu a empurrei de volta.
Meu empurrão teve mais força do que eu pretendia. Seraphina não estava esperando. Ela ofegou, agitando os braços, e seu salto alto prendeu na beirada do tapete felpudo no corredor.
Ela soltou um grito teatral e tombou para trás, não apenas caindo, mas se lançando com a graça praticada de uma dublê, direto para o topo da grande e imponente escadaria.
Foi uma obra-prima de drama ensaiado.
Seu grito trouxe Dante e Nico correndo do escritório. Eles chegaram bem a tempo de vê-la aterrissar em um monte amassado no primeiro patamar.
Eles correram para o lado dela, seus rostos máscaras de preocupação frenética.
“Ela me empurrou!”, Seraphina lamentou, agarrando o tornozelo. “Alessia me empurrou escada abaixo!”
Os olhos de Dante se ergueram para encontrar os meus. E por um segundo aterrorizante, eu não vi raiva. Vi um lampejo de satisfação sombria e arrepiante. Ele queria isso. Ele havia orquestrado uma situação onde minha reação, qualquer reação, seria distorcida em um crime.
A satisfação desapareceu tão rápido quanto veio, substituída por uma máscara de fúria fria. “Pegue o carro”, ele latiu para um soldado próximo. “Vamos levá-la para o hospital.”
Ele pegou Seraphina nos braços, murmurando palavras de consolo. Então ele olhou para mim, seus olhos prometendo retribuição. Ele apontou um único e autoritário dedo para os dois soldados corpulentos que apareceram ao seu lado.
“Dê uma lição nela”, ele disse, sua voz plana e mortal. “A mesma.”
Meu sangue gelou. “Dante, não! Eu não a empurrei, ela caiu!”
“Ela está mentindo, pai!”, gritou Nico, seu rosto iluminado por um prazer terrível e virtuoso. “Mamãe estava com ciúmes. Ela machucou a Seraphina. Ela quebrou as regras. Ela precisa ser punida por sua deslealdade.”
Os soldados agarraram meus braços. Eu lutei, meu coração martelando contra minhas costelas como um pássaro preso. “Dante, você não pode fazer isso! Você sabe que ela está mentindo!”
Gritei um voto, uma promessa nascida do mais puro e absoluto ódio. “Você vai se arrepender disso! Eu juro por Deus, Dante, você vai viver para se arrepender deste dia!”
Eles me arrastaram para o topo da escadaria, a mesma que Seraphina acabara de descer. Olhei para baixo e vi Dante parado no pé da escada, observando, esperando. Seraphina ainda estava em seus braços, e por cima do ombro dele, ela me deu um pequeno sorriso triunfante.
E no rosto de Dante, lá estava de novo. Inconfundível desta vez. Um sorriso fraco e aterrorizante.
Então, o mundo inclinou. Um empurrão brutal por trás me lançou para frente. Houve um momento de ausência de peso, um grito silencioso preso na minha garganta, e então uma explosão de dor quando meu corpo se chocou contra os degraus de mármore duro. Eu rolei, ossos estalando, minha cabeça batendo no corrimão com um estalo medonho.
A última coisa que vi antes de desmaiar foi Dante e Nico olhando para mim.
“Viu?”, ouvi Nico dizer, sua voz cheia de uma admiração perturbadora. “Agora ela está chorando de verdade. Ela realmente nos ama.”
Acordei em um hospital. De novo. A dor era uma coisa viva, um fogo consumindo meu corpo inteiro. Uma enfermeira entrou apressada, sua expressão profissionalmente alegre.
“Ah, você acordou! Seu marido estava tão preocupado. Ele esteve aqui a noite toda, andando pelos corredores. Mal saiu do seu lado.”
Uma risada amarga e silenciosa escapou dos meus lábios. A performance nunca terminava. Dante Rossi, o poderoso Dom, também era um mestre da ilusão.
“Não quero vê-lo”, eu disse, minha voz um coaxar.
Por três dias, recuperei-me em solidão. A dor era imensa, mas no silêncio, um plano começou a se formar. Um plano frio, claro e metódico para minha fuga.
No quarto dia, meu advogado, Dr. Almeida, me visitou. Ele era um homem quieto e despretensioso, com olhos que viam tudo. Ele trouxe os papéis.
“Você tem certeza, Alessia?”, ele perguntou gentilmente.
“Nunca tive tanta certeza de nada na minha vida”, sussurrei.
Uma semana depois, recebi alta. Dante e Nico estavam me esperando no saguão, a imagem de uma família preocupada. Seraphina também estava lá, apoiada em uma muleta, mancando de forma teatral.
Dr. Almeida caminhava ao meu lado, uma pasta na mão.
Paramos na frente deles. O ar estava denso com uma tensão não dita.
Sem uma palavra, peguei o grosso maço de papéis da pasta do Dr. Almeida. Estendi-os para Dante.
“O que é isso?”, ele perguntou, a testa franzida em genuína confusão.
Era um pedido de divórcio. Uma solicitação legal para dissolver nosso casamento, citando diferenças irreconciliáveis. Mas era mais do que isso. Era uma declaração de guerra. No nosso mundo, a esposa de um Dom não vai embora. Ela aguenta. Ou ela desaparece.
Eu estava escolhendo uma terceira opção. Eu estava escolhendo lutar.