Capítulo 2

一 Filho, se acorde.

Eu sentia um leve balanço no meu corpo, a voz da minha mãe tinha preocupação, será que já tinha passado a hora da escola e ela tava me chamando por isso? Abrir meus olhos com dificuldade pelo sono em que eu estava e quando olhei ao redor estava escuro, o dia não tinha acabado e nem amanhecido, só se passaram algumas horas desde que larguei da escola, fazer esforço com o pulso cortado foi a pior coisa, ele doía como se eu tivesse acertado numa veia, mas de todo modo eu ignorei a dor e me sentei olhando incrédulo para a minha mãe e o meu pai que estava na porta do meu quarto.

一 Mãe, o que foi? 一 Minhas palavras saíram quase num sussurro.

一 Você está queimando em febre filho 一 Ela me tocou e ao seu lado tinha o termômetro.

一 Eu não acho que eu esteja, talvez seja só calor 一 Tentei acalmá-la porque ela estava desesperada.  

一 Você está todo suado, deixe-me colocar o termômetro 一 Ela se aproximou de mim rapidamente e colocou o termômetro sem que eu nem percebesse. 

Olhei o horário no relógio e depois de dois minutos o termômetro apitou, não deixei a minha mãe tirar, eu mesmo fiz, e me surpreendi com os graus que marcava nele, pensei na possibilidade do tétano, mas era quase nula já que a lâmina estava limpa e não estava enferrujada ou com qualquer outra coisa que pudesse causar isso em mim, mas a resposta eu sabia qual era, era apenas uma febre emocional, resultado de um péssimo dia escolar. 

一 Eu vou ficar bem, mãe 一 Olhei para o termômetro marcando 39° graus e tentei tranquilizá-la.

一 Aqui está o remédio 一 Ela me entregou o pequeno comprimido e um copo de água que eu não sabia de onde tinha saído, mas eu não queria discutir então tomei em um único gole.  

一 Muito bem, querido. Você quer jantar conosco? 一 Sugeriu.

一 Obrigado, mas estou sem fome, mãe. 

一 Se precisar de algo, é só me chamar! 一 Ela piscou e se retirou do meu quarto. 

Sentei na cama e suspirei, eu não queria ser para sempre assim, eu queria revidar, mas ele era claramente mais forte do que eu, e ainda tinha os cachorros na sua cola, será quase impossível tocar em um único fio de cabelo do Mark, além de ser um jogador, ele é lutador e alguém como eu não é nada comparado a ele. Respirei fundo e me inclinei um pouco para frente e percebi que a luz do quarto da Emilly estava ligado, as vezes eu tinha uma enorme vontade de perguntar o porque de uma garota aparentemente gentil está fazendo com um cara como o Mark, a resposta era clara, as garotas sempre vão preferir os mais errados. 

Peguei meu celular e nele tinha várias mensagens do Brendon, aparentemente ele estava bem, ele era o único que não sofria tanto com isso, e eu só queria que ele ficasse em paz, até porque não foi ele que estourou a bola do Mark no quinto ano e sim eu, mesmo não sendo proposital, o cara guarda mágoas e rancor de mim até os dias atuais, e já se passaram anos. Resolvi ignorar todas as suas mensagens e deitar mais um pouco, eu não estava com um pingo de sono, e dessa vez eu ficaria acordado por bastante tempo.

Liguei a televisão que tinha no meu quarto e diminuí o ar-condicionado, um anime aleatório passava na televisão o que para mim era novidade. Passei bastante tempo assistindo outros programas na televisão e quando olhei novamente para o relógio já eram dez da noite, a fome apertou e eu tinha certeza de que os meus pais já tinham se retirado, então eu não corria o risco de ter que responder algumas perguntas. Abri a porta lentamente e tudo estava escuro, por debaixo da porta dos meus pais saiam uma fresta de luz, era provável que eles estivessem assistindo um filme como sempre faziam a noite.

Abri a porta da geladeira e me deparei com um bolo de chocolate, que por sinal já estava partido em fatias para facilitar o meu trabalho, peguei um prato e um garfo e assim me servi, bolo de chocolate era a especialidade da minha mãe, eu estava morrendo de tédio enquanto comia o bolo e então resolvi responder as mensagens do Brendon, talvez ele não me respondesse a essa hora da noite, mas eu sabia que diferente de mim, ele não tinha dormido a tarde, e bingo, assim que abri a nossa conversa ele estava online. Diferente de mim, ele tinha outras pessoas fora da escola, pessoas que também eram amigos dele, e isso me deixava feliz, seria egoísmo se eu dissesse que não queria que ele tivesse outros amigos e um tanto tóxico também, mas na realidade eu queria que ele não fosse o meu amigo, ele era legal demais para sofrer junto a mim. 

‘’por que está acordado a essa hora?’’ 一 Indaguei ignorando suas mensagens anteriores. 

‘’por enquanto eu não estou com sono, mas posso saber o por que você também está? 一 Agora foi a vez dele de me perguntar.

‘’Acabei dormindo quando cheguei da escola, e me acordei a algumas horas atrás’’ 一 Respondi omitindo algumas coisas.

‘’Mas tá tudo bem com você?’’ 一 Era evidente a sua preocupação, mas como todas as vezes eu mentiria novamente.

‘’Sim, apenas uma febre leve, nada que possa preocupar’’ 一 Avisei

‘’Então amanhã você não vai a escola, não é?’’ 

‘’Provavelmente não.’’

‘’Eu não quero ficar sozinho''

‘’Se eu não estiver você está tranquilo, vá sem medo que não te farão mal algum, agora vou desligar’’ 

Não esperei a sua resposta e rapidamente desliguei a internet do meu celular, lavei o que eu sujei e ao olhar pela janela da cozinha percebi o quão linda a noite estava, e nada melhor do que sentar em um banco para observar ela. Meu corpo ainda estava quente, mas se eu fosse para fora de casa, talvez o frio da noite regularizasse a minha temperatura corporal, até porque eu não estava tão mal assim. Um calafrio percorreu por todo o meu corpo assim que eu abri a porta da frente, a rua não era perigosa, era uma rua tranquila e às vezes alguns casais ficavam nela até a madrugada, portanto não tinha perigo de ficar sozinho nela. 

Me arrependi por não ter trazido um moletom comigo, eu sentia o meu corpo queimar de calor no frio que estava, e eu quase cogitei a ideia de voltar para dentro até uma voz me fazer querer ficar, e ao olhar para o lado, franzi o cenho como se eu não estivesse acreditando no que estava acontecendo e vendo, Emilly estava parada ao meu lado me olhando com uma cara de cachorro pidão. 

一 Posso sentar? 一 Ela perguntou com a sua voz calma.

一 C-claro 一 Praguejei por um minuto por ter permitido que minha voz falhasse e gaguejasse uma pequena palavra perto dela, mas a garota apenas sorriu e se sentou ao meu lado ignorando completamente a minha pequena ‘’gagueira’’.

O silêncio se manifestou no local, e uma dor absurda subiu pelos meus ouvidos por causa do lugar silencioso até ela falar novamente.

一 O que faz aqui a essa hora da noite? 一 Ela me perguntou e eu hesitei em falar.

一 Vim observar a noite. Mas e você? 

一 Também 一 Ela respondeu me olhando surpresa e eu apenas fiquei calado voltando a observar o céu estrelado daquela noite fria e escura. 

一 Como tá a sua cabeça? 一 A garota novamente puxou um assunto que eu não estava mais lembrado, até que no impulso eu toquei, o que me fez recusar e dar um leve gemido de dor. 

一 Minha nossa 一 A garota disse basicamente pulando para ver como estava a minha cabeça, mas o seu suspiro de alívio me fez ver que estava tudo bem, apenas dolorido o local. 

一 Você está bastante quente 一 Ela sussurrou me deixando arrepiado. 

一 É só febre 一 Sem que eu percebesse minhas palavras saíram brutas e a garota recuou voltando para o seu lugar ao meu lado.   

一 Desculpe.

一 Não é necessário se desculpar. 

一 É minha culpa isso 一 Ela baixou o olhar. 

一 Se sabe que tem uma pequena parcela de culpa, porque ainda está com ele? 一 Ela me olhou rapidamente assustada procurando uma resposta, mas nada saiu de sua boca e então eu suspirei. 

一 Até mais, Ryan 一 Foram as suas últimas palavras até que ela se levantou e caminhou novamente para a sua casa. 

Ela era outra pessoa quando estava longe dele, era como se fosse uma máscara que ela só usava para se sentir bem perto do seu namorado e do restante dos seus amigos, ela era uma garota fútil que só se importava com o que as pessoas pensam, e não com o seu verdadeiro pensamento 一 a Emilly criança ficaria decepcionada com a Emilly atual. 

O céu já não tinha mais graça para mim, respirei fundo e voltei para dentro de casa, depois de me certificar que tudo o que eu tinha aberto agora estava seguramente fechado, voltei para o quarto me jogando e a primeira coisa que fiz foi ir em direção a janela para fechá-la, e coincidência ou não a Emilly também estava fazendo a mesma coisa. A garota sorriu azedo e acenou para mim, fechando então de vez a sua janela. 

***

Quando abri os olhos nessa manhã, a primeira visão que tive foi da minha mãe medindo novamente a minha temperatura, sentei na cama e quando apitou eu mesmo tirei, a febre baixou um pouco, diferente de ontem a noite, agora estava vêm 38° graus, eu só precisava descansar um pouco mais para melhorar de vez e voltar a escola.

一 Quanto deu? 一 Ela me perguntou olhando para a minha mão.

一 38° graus celsius. 

一 Tome esse comprimido e descanse 一 pediu novamente me entregando a pequena pílula.

一 Então não preciso ir hoje a escola? 一 Perguntei fingindo estar triste, mas a realidade era outra.

一 Não meu bem, agora irei trabalhar e tentarei chegar o mais rápido possível para acompanhar você. 

一 A senhora não precisa se preocupar comigo mãe 一 Pedi

一 É natural que eu me preocupe, agora descanse que sairei para trabalhar. 

一 Bom trabalho, mãe 一 Desejei.

一 Tenha um bom dia filho 一 Ela deu um beijo em minha testa e assim saiu. 

Deitei por uns minutos novamente e me perguntei o que eu faria nesta manhã já que eu não iria para a escola e a resposta era clara 一 eu ficaria a manhã e a tarde inteira assistindo animes e me esqueceria do restante do mundo até o dia seguinte. Peguei a minha toalha e segui para o banheiro e assim que cheguei, parei novamente em frente e olhei o meu estado, eu estava melhor do que ontem. Me desfiz das minhas roupas e entrei no box, e enquanto a água caia, percebi que os cortes não doíam mais, o banho ia ajudar a regular a minha temperatura corporal me fazendo estar melhor para um dia torturante na escola amanhã. 

Passei mais de vinte minutos no banho e como tinha costume de levar a roupa, já sai arrumado e fui direto para a cozinha, por um minuto me distrair olhando para a rua e quando percebi, a Emilly estava passando bem em frente, nossos olhares se encontraram e então ela sorriu, eu estava confuso com o seu gesto, mas então retribui, e ao olhar para o relógio, ele ainda marcava sete e meia da manhã, e da nossa rua até a escola não era nem dez minutos andando, então ela não se atrasaria. Peguei o prato limpo na pia e fui em direção a geladeira pegar mais um pedaço de bolo de chocolate e fui novamente para o meu quarto. 

A primeira coisa que eu vi foi um documentário sobre o massacre que aconteceu na escola de Columbine, no colorado no Estados Unidos em 20 de abril no ano de 1999 por dois estudantes de 17 e 18 anos de idade. A dupla chegou a assassinar a sangue frio treze pessoas e deixar 24 outras feridas, os policiais falaram que eles tinham armamentos e munições o suficiente para acabar com a vida de todos os que estavam dentro daquela escola, e eu me perguntava o porque eles não fizeram. Às vezes depois de tudo o que eu passei eu procurava uma maneira de me vingar, mas com certeza eu jamais mataria alguém, era evidente que os assassinatos foram causados por pura maldade e perversidade da parte deles e isso não me chocava, o mundo realmente estava cada vez mais cruel. 

Quando o documentário terminou fui assistir um filme de comédia para aliviar a tensão do meu corpo e funcionou porque aquilo me fez esquecer por hora todos os meus problemas e eu ficava grato por aquilo, olhei para o relógio em cima da TV e percebi que já iam dar dez horas do dia, para a minha sorte a minha mãe sempre deixava todas as refeições prontas, exceto o jantar que ela gostava de preparar na hora, senti meus olhos pesarem e então eu decidi que tirar um cochilo seria a melhor opção para mim. 

‘’Eu corria desesperado pelos corredores brancos do hospital com o seu corpo ensanguentado, Emilly estava nos meus braços perdendo a sua consciência enquanto eu implorava para que ela permanecesse comigo, mas antes que eu pudesse entrar numa sala para salvá-la, ele novamente aparece com uma arma em sua mão e naquele momento eu sabia que seria o nosso fim, e Bang, o disparo da sua arma de fogo acertou em cheio o meu peito me fazendo cair no chão com o corpo inerte da Emilly.’’

Eu sentia o meu corpo suar por todo os lugares que existia nele, me levantei da cama em um pulo e quando percebi eu ainda estava deitado na minha cama e o filme já tinha chegado ao fim, mas não só isso, a campainha tocava e o relógio já marcavam uma hora da tarde, eu tinha dado mais do que um cochilo e tudo aquilo não se passou de um pesadelo que eu jamais iria querer que acontecesse. 

一 JÁ VAI 一 Gritei do corredor para quem quer que fosse que estivesse tocando a campainha ouvir. 

Caminhei em direção a porta e quando olhei pelo olho mágico para a minha surpresa era o Brendon, que olhava por todos os lados parecendo que estava devendo a alguém, e o suspiro de alívio que ele deu quando abri a porta foi facilmente percebido. 

一 Você tá bem cara? 一 Indaguei confuso. 

一 Sim, me deixa entrar por favor 一 Ele basicamente implorou e então eu estranhei, será que alguém estava seguindo ele para bater nele? Permite a sua passagem e antes que eu pudesse perguntar algo a ele, ele correu em direção ao banheiro e a porta foi trancada de uma maneira muito rápida. 

Sua atitude me deixou preocupado, por mais que ele estivesse passando por algo super complicado e difícil, ele sempre me dizia primeiro e nunca tinha esse tipo de atitude. Sentei-me no sofá e fiquei encarando o banheiro e o relógio fixamente, dois minutos tinham se passado e a preocupação só aumentava, não dava para ouvir nada que vinha de dentro do banheiro e eu já estava cogitando a ideia de abrir a porta usando a força que eu não tinha para ver o que aconteceu quando ele finalmente apareceu me deixando aliviado. 

一 O que aconteceu com você? 一 Perguntei preocupado e o rapaz apenas respirou.

一 Diarreia, ainda bem que você apareceu 一 Brendon deu dois tapinhas em sua barriga o que me fez rir.

一 Você me preocupou bastante cara, não faça mais isso 一 Pedi

一 Se eu parasse para falar acabaria melando as calças 一 Ele disse parado.

一 Igual a como você fez quando éramos criança no parque de diversão logo após ver um palhaço 一 Eu gargalhei com uma pequena lembrança da nossa infância, quando tudo ainda era bom. 

一 Mas não fui eu quem vomitou após comer um algodão doce 一 Ele também sorriu travesso. 

一 Aquele tempo era muito bom, pena que não volta mais 一 Comentei.

一 Infelizmente cara, mas devemos aproveitar o agora, e agora eu te trouxe uma atividade de inglês para que você faça. 

一 Claro que você não veio aqui só para defecar 一 Revirei os olhos.

一 Vamos para o meu quarto 一 Chamei e o garoto foi o primeiro a ir para o corredor do quarto. 

Para a minha sorte ou a sorte do Brendon que odiava bagunça, o quarto estava todo organizado desde a última vez dois dias antes das férias na qual ele veio e arrumou o meu quarto, às vezes ele parecia um irmão mais velho e perfeccionista que odiava a bagunça que o seu irmão mais novo fazia, mas acontece é que éramos da mesma idade com diferença de quinze dias, de toda forma ele ainda era um pouco mais ‘’velho’’, mas não algo para ficar surpreso já que eram apenas dias, era como se as nossas mães combinasse de ter os seus filhos no mesmo mês. 

一 Cadê o seu caderno? 一 Ele perguntou procurando a minha mochila.

一 Vou pegar, está dentro do guarda roupa. 

一 Tudo bem 一 Ele disse sentando-se na minha cama e tirando o seu caderno. 

Quando peguei a minha mochila, fui direto para a cama e me joguei em cima dela quase batendo nele, o que o fez revirar os olhos e apontar o pequeno texto no qual a professora passou para que pudéssemos ajeitar os erros que estavam visíveis nele. Abri na matéria vazia de inglês e comecei a escrever entediadamente, quando o Brendon chama a minha atenção perguntando se ele poderia jogar em meu computador, ele sabia que podia e que eu não me importava com ele mexendo nas minhas coisas, mas ele era um rapaz muito educado e que desde cedo a sua mãe o ensinou a pedir antes de meter a mão.

一 Você sabe que pode, não precisa me perguntar e sabe disso 一 Revirei os olhos e ele sorriu ladino.

一 Sabe que não gosto de meter as mãos nas coisas dos outros, diferente daquele pessoal da escola. 

一 Em falar na escola como foi hoje? 一 Perguntei curioso.

一 Bom, Mark fingiu que eu não existia, a Emilly parecia estranha, como se ela fosse forçada a aguentar aquilo tudo e a Helena, bom, a Helena estava gostosa 一 Ele falou como se estivesse lembrando dela. 

一 Você ainda é apaixonadinho por ela 一 Brinquei, mas de certa forma aquilo era verdade, já que as vezes ele demonstrava sentir uma certa atração pela garota e isso não me restava dúvidas de que ele realmente gostava dela, mesmo tentando reprimir. 

一 Claro que não, ela namora e 一 Parou no meio da frase e voltou a atenção para o computador.

一 E? 一 Perguntei.

一 Ela nunca sentiria atração por mim 一 Completou a frase e aquilo me deu um certo desânimo.

一 Ela seria uma idiota se não sentisse nada por você.

一 Idiota 一 Ele riu e voltou novamente para o computador.

O Brendon era um cara bastante bonito, eu não falava isso por ele ser o meu melhor amigo, mas sim pelo seu porte físico. Seus cabelos ondulados castanhos claros era de se fazer inveja a qualquer um, assim como os seus olhos meio esverdeados, as barrocas que entravam quando ele sorria trazia um charme para o meu melhor amigo, e se a Helena não sentisse nada por ele se fosse próximos ela realmente era uma idiota. Voltei a escrever o grande texto de duas folhas quando um barulho em particular me chamou a atenção, era como se fossem gritos, mas ao parar para escutar direito percebi serem gemidos e esses vinham do quarto da Emilly que tinha a sua janela trancada e coberta pela sua cortina. 

As vezes isso acontecia, não era com tanta frequência mas acontecia, eles sempre eram muito escandalosos na hora de fazer sexo, o que não havia necessidade para isso, porque sempre me deixava desconfortável sem falar que os outros vizinhos sempre reclamavam para os seus pais que acabavam dando uma baite de reclamação na garota, mas aquilo não servia de muita coisa já que ela sempre volta a fazer de novo e de novo. Liguei o som que ficava ao lado do meu computador e aumentei o máximo que pude, o que fez Brendon remover o fone rapidamente e me olhar confuso.

一 Estão transando de novo? 一 Ele perguntou com o cenho franzido.

一 Estão e estão atrapalhando o meu quase exercicio 

一 Só incomoda porque você gosta dela 一 Brincou.

一 Volta a jogar quietinho, por favor. 

Ele voltou a prestar atenção no jogo enquanto eu me concentrava em fazer o texto, depois de trinta minutos eu tinha acabado e chamado o Brendon para comer a macarronada que minha mãe havia deixado na geladeira e o garoto aceitou, o som alto já estava me dando dor de cabeça quando resolvi desligar, não era possível que depois de quase quarenta minutos eles não estivessem acabado ainda, mas eles acabou e no lugar de gemidos, passou a ser gritos, mas não gritos de prazer e sim de briga, o que também era normal já que algo sempre irritava ela e ele tentava culpá-la por algo que era unicamente e exclusivamente culpa dele. 

一 Brigas no paraíso 一 Brendon ironizou

一 É, aparentemente sim.

一 Eu não entendo o que uma menina legal faz com um cara como ele 一 Ele disse girando na cadeira.

一 Me perguntei a mesma coisa e não obtive resposta. 

一 Talvez ela goste de sofrer.

一 É, talvez sim, mas só eles dois sabem o que acontece dentro do relacionamento deles, mas vindo do Mark, acho que não vem coisas boas 一 Suspirei. 

Continuamos a conversa e logo após a nossa refeição ficamos jogando vídeo game até o anoitecer, onde ele jantou comigo e com os meus pais, e quando deu oito da noite, a sua mãe veio buscá-lo, prometemos nos encontrar no próximo dia na escola e assim seria feito, meu dia terminou melhor do que o anterior e eu agradecia ao Brendon por isso.

Capítulo 3

O dia amanheceu nublado e finalmente eu podia deixar toda a minha melancolia sair, me olhei com desgosto no espelho do quarto pela última vez e então, peguei a minha mochila e fui para a cozinha onde os meus pais estavam me esperando juntamente com o Brendon. 

Brendon, às vezes eu sentia um pouco de inveja dele, nada o abalava por mais que a situação não fosse favorável. O seu pai morreu de uma parada cardíaca quando nos trazia de volta para casa, quando tínhamos sete anos de idade, lembro-me da cena até hoje e em como aquilo me traumatizou. 

Vê-lo chamar pelo pai dizendo que ele podia descansar em casa quando chegasse doeu no meu peito, Brendon balançava o seu pai freneticamente numa tentativa de acordá-lo não é algo que eu desejo para ninguém, nem mesmo para o meu pior inimigo. Graças a diretora voltamos bem naquele dia, menos o seu pai 一 Brendon tinha tudo para ser um garotinho chorão como eu, mas não, ninguém o conhecia bem para saber a força de vontade que ele tinha e o quão corajoso era para enfrentar tudo de cabeça erguida e é por isso que eu precisava ser forte e não desistir pelo bem das pessoas que me amavam.

 一 Bom dia 一 Sorri animado e todos retribuíram.

 一 Bom dia 一 Responderam em uníssono. 

一 Que bicho te mordeu hoje cara? 一 Brendon me perguntou franzindo a testa como se estivesse estranhando o meu bom humor. 

一 Só acordei feliz 一 Respondi a sua pergunta tranquilamente enquanto sentava, mas nem eu entendia o motivo.

Talvez fosse o meu desejo de mudar e ajudar outras pessoas que me fez sorrir de verdade pela primeira vez depois de algum tempo, e sentado na mesa acompanhado dos meus pais e do meu melhor amigo, eu percebi que não tinha motivos para querer morrer, as coisas na escola não eram tão boas quanto eu queria, mas eu estava vivo e saudável, muitas pessoas nos seus últimos dias de vida querem aproveitar o máximo que podem com os seus familiares, e eu estava querendo desperdiçar isso, por mais que eu sofra, quero ser feliz novamente. 

Ríamos na mesa das piadas nada engraçadas que o Brendon fazia, quando a nossa família se juntavam era uma alegria enorme por causa do seu bom humor e as minhas ironias em relação às suas piadas. Esse era o lado bom de ter um amigo legal, porque eu não precisava me esforçar para fazer as pessoas rirem, ele fazia isso de uma forma natural. 

Terminamos o café da manhã às sete horas em ponto, meus pais foram para o quarto deles escovar os seus dentes e eu e o Brendon fomos escovar no banheiro. Para nós dois isso era normal, já ouvimos vários comentários homofóbicos vindo da parte de algumas amigas da minha mãe que às vezes vinham visitá-la que me fazia ter nojo de cada uma delas, mas a realidade é que fomos criados juntos de uma maneira pura e inocente, um laço de irmandade foi criado entre nós e isso não tinha haver com ser gay, e sim com ser irmão. 

一 Se continuar a escovar desse jeito vai cortar toda a sua gengiva 一 Ela falou e eu me despertei percebendo que estava escovando forte e rápido demais.

一 As vezes eu estou tão distraído que nem percebo isso 一 Cuspi e foi tarde demais, a minha gengiva já estava cortada.

一 Eu avisei. 

Limpamos a boca e a escova e saímos do banheiro dando de cara com os meus pais que já estavam de saída também, saímos juntos e a única diferença era que eles iam de carro e nós íamos andando, esperamos a minha mãe fechar a porta e então nos despedimos dos meus pais e como de costume, ganhamos um beijo na testa da minha pequena mãe.

一 Prestem atenção na aula! 一 Ela pediu a assim que entrou no carro.

一 Pode deixar tia 一 Brendon acenou

一 Até mais tarde mãe 一 Me despedi e meu pai deu partida no carro.

Ficamos olhando o carro sair pela rua até perder ele na nossa visão e então era hora de continuar e seguir o nosso caminho até a escola, hoje eu estava animado, era como se eu sentisse que tudo seria diferente hoje, mas às vezes eu tinha a mesma impressão e era igual. Não era todas as vezes que o Mark implicava comigo, só quando a Emilly me olhava ou falava no meu nome, ou quando ele lembrava da sua bola, mas acho que a bola não era de importância e sim por causa dela. 

一 Podemos ir com vocês? 一 Perguntou uma voz que eu reconheceria até no inferno se falasse, e quando olhei para trás lá estava ela novamente com o mesmo olhar de quando nos encontramos no branco em frente de casa. 

一 É só andar, a rua é pública 一 Minha voz saiu mais grossa do que o normal e quando olhei a garota havia abaixado a cabeça e o Brendon balançado em sinal de desaprovação e só então entendi que eu tinha sido um pouco ignorante.

一 Grosso! 一 Sussurrou tossindo uma segunda voz que até então eu não tinha prestado atenção na presença e quando olhei novamente a Helena acompanhava a sua amiga que estava logo atrás de nós.

一 Não foi a minha intenção 一 Me defendi e voltei a olhar para frente.

一 Até que sua voz é bonitinha, você só fala em sussurros e eu até pensei que fosse surdo 一 Ela falou mudando de assunto e no mesmo instante eu e o Brendon gargalhamos, além de insuportável era burra.

Era provável de que ela não estivesse ligando para a nossa risada, até a Emilly também rir, o que a fez se teletransportar para a nossa frente.

一 Do que vocês estão rindo? 一 Ela nos encarava confusa.

一 Amiga, você disse ‘’surdo’’ e o correto seria mudo para falar de alguém que não tem a capacidade de falar 一 Emilly respondeu a amiga dando pequenos risinhos e nós acompanhamos deixando a segunda garota um pouco enraivecida. 

一 É tudo a mesma coisa! 一 Deu de ombros.

一 Não, não é 一 Dessa vez foi o Brendon que falou.

一 E como não?

一 São doenças totalmente diferentes, às vezes acontece de uma pessoa nascer com as duas deficiências de uma vez é de uma a cada mil, você saberia disso se tivesse prestado atenção na aula de biologia ao invés de estar beijando o Pedro 一 Ele terminou a sua pequena explicação e voltou a encarar a frente.

一 Ah, você realmente é um nerd 一 A garota respondeu sem argumentos. 

一 Ser inteligente não é a questão, Helena, é que até uma criança de cinco anos sabe disso 一 Foi a última coisa que ele disse e eu sabia que ele tinha acabado de encerrar a conversa. 

O clima estava tenso assim como o céu nublado, minha opinião era que hoje choveria mais do que o normal, a cidade pequena e estranha, tinha como predominante o clima frio, às vezes o calor invadia toda a cidade, mas o normal era o frio que fazia. 

一 O tempo esfriou 一 Emilly alisou os seus braços como se dissesse que estava frio, e num ato impulsivo retirei o meu moletom da bolsa. 

一 Toma 一 Entreguei a garota que hesitou por um breve segundo mas então pegou da minha mão e vestiu. 

一 É muito gentil da sua parte. 

一 Eu faria isso por qualquer outra pessoa. 

一 Pelo visto só tem ele de cavalheiro aqui 一 Helena novamente falou e Brendon sorriu de lado. 

一 Helena 一 Ele disse calmamente e a garota arregalou os olhos só com a sua voz chamando o seu nome 一 Você sempre carrega consigo um moletom, creio que hoje não é diferente 一 Ele sorriu e pela primeira vez vi a garota corar.

一 Eu-eu 一 Gaguejou 一 Você é mais ignorante do que ele! 一 A garota apontou para mim e saiu pisando fundo na nossa frente e quando percebi já estávamos na frente da escola. 

Parei por um instante e vi o movimento do lugar, nenhum dos meus inimigos estavam no pátio cheio de alunos de todas as turmas, o que para mim foi um alívio e me fez pensar que hoje o meu dia seria um pouco mais tranquilo, perdi a Emilly e a Helena de vista por causa da pressa em que as garotas entraram e depois de alguns segundos o sinal tocou indicando que todos nós já podíamos entrar.

一 Então vamos lá! 一 Disse para o brendon.

一 Vamos 一 Respondeu animado e eu ri do seu estado.

一 Parece que alguém se animou, hein? 一 Indaguei vendo a sua empolgação para entrar na escola. 

一 Mas do que você está falando cara?

一 Não pague de inocente, a sua empolgação toda é por causa dela 一 Sorri ladino cheio de maldade. 

一 Deixa de ser idiota e anda logo antes que só sobre lugar no fundo da sala 一 Ele deu um leve tapa no meu peito e então me chamou. 

一 Não seria má ideia para você 一 Provoquei e ele ignorou entrando na multidão de alunos que havia se formado. 

A quantidade de alunos diminuía conforme eles iam entrando em suas salas, já estávamos perto da nossa sala quando o barulho forte de chuva é ouvido, não seria um dia bom se não tivesse chuva, mas diferente de ontem, hoje eu não estava triste. Entramos na sala acompanhados por vários outros alunos, diferente do dia normal, a sala hoje não estava lotada e o grupinho fantástico também não tinha vindo, o que era um alívio porque hoje eu teria um dia de folga. 

Assim que nos acomodamos em nossos devidos assentos, o professor de biologia entrou em sala anunciando que começaria a sua aula, mas antes que ele começasse, dei uma ultima olhada para o fundo da sala e encontrei a Emilly cheirando o meu moletom e aquilo me fez sorrir, isso era a última coisa que eu pensava que veria na minha vida, mas eu estava enganado e ali estava ela, deitada com os braços na mesa enquanto vestia o meu moletom. 

一 Bom dia, Alunos! 一 O professor proferiu animado.

一 Mal dia 一 Disse algum aluno que estava no fundo da sala.  

一 Animem-se crianças, hoje será iniciado um assunto que eu gosto bastante 一 O professor retirou o seu livro de anotação e então escreveu no quadro ‘’Mitose’’ 一 E é esse assunto que estudaremos hoje. 

No total tinha quinze alunos, e alguns estavam bastantes entediados, outros mexiam no celular e alguns, assim com eu e o Brendon tiravam o caderno da mochila, as vezes eu vacilava e acabava olhando para trás e quando percebia, a Emilly também me olhava e era como se um choque passasse por todo lugar do meu corpo todas as vezes que nossos olhares se encontravam. 

一 A mitose, também chamada de cariocinese, consiste no processo de divisão celular, em que a célula-mãe gera duas células-filhas. Os seres vivos eucariontes, entre eles o ser humano, realizam a mitose de forma contínua, desde o nascimento até a morte. 一 O professor começou o assunto e eu virei de uma maneira brusca para olha-lo. 一 Esse processo acontece dentro das células somáticas, ou seja, aquelas responsáveis pela formação de tecidos e órgãos nos organismos multicelulares, entre eles os tecidos do corpo humano e os órgãos do corpo humano, desse modo, torna a mitose muito importante, alguém sabe me dizer para que? 一 Ele perguntou e a sala ficou em silêncio, sabendo que ninguém ia responder, eu mesmo fiz. 

一 Crescimento e regeneração de tecidos, cicatrização, formação de gametas em vegetais e as divisões do zigoto durante o desenvolvimento embrionário 一 Respondi e o professor sorriu satisfeito. 

一 Muito bem, Senhor Travis, um ponto para você 一 O professor parou a sua anotação no quadro e anotou algo em seu caderno enquanto algumas pessoas reclamavam pelo gesto do professor. 

O professor continuou a sua aula e durante ela, ele fazia várias perguntas valendo um ponto, no total em apenas uma aula, consegui três pontos já que o restante eu não quis responder para não despertar a ira dos meus caros colegas de classe que realmente me odiavam. Quando o sinal tocou suspirei aliviado e quando percebi, Helena e Emilly vieram até a nossa mesa para conversar, o que me fez estranhar já que elas não eram daquele tipo, e muito menos falavam com a gente.

一 Você é realmente um nerd 一 Helena me provocou.

一 E você é realmente uma burra 一 Rebati.

一 Não precisa se exaltar, era só brincadeira. 

一 Assim como a pedra, não foi helena? 一 Perguntei vendo a garota ficar um pouco chateada. 

一 Não é culpa nossa, até pedimos para eles pararem 一 Emilly tentou defendê-las.

一 Então porque vocês não saem desses relacionamentos de merda? 一 Eu perguntei me alterando, mas antes que eu pudesse ouvir uma resposta a professora entra em sala, e aqui vamos nós para mais uma aula. 

A pequena professora baixinha de artes com um óculos fundo iniciou o seu assunto sobre a arte contemporânea e não pude deixar de revirar os olhos e abaixar a minha cabeça, as aulas de artes normalmente não precisávamos escrever já que a professora disponibiliza todo o material para que pudéssemos estudar para prova ou fazer até mesmo trabalho, isso significava que, a matéria de artes era quase inexistente. Fechei meus olhos apenas para escutar até que a professora pediu duas características da arte contemporânea, eu estava pronto para responder até outra pessoa fazer isso por mim. 

一 Fusão entre a arte e a vida e efemeridade da arte 一 A voz saiu quase como um sussurro e quando eu olhei para ver quem tinha respondido, Emilly estava lá corada de vergonha porque todos os alunos presentes olhava para ela. 

一 Muito bem senhorita Harrison, um ponto para você. 

A Emilly normalmente nunca se importou em responder às perguntas dos professores, ela sempre os ignorava sem falar que nunca se importou com os olhares dos alunos para ela, mas era como se aquilo estivesse mudando, ela estava diferente hoje e era aquela Emilly que eu queria ver todos os dias. O restante da aula se passou voando e quando eu percebi já era hora do intervalo e minha barriga roncou de uma maneira alta, se eu não comesse eu com certeza passaria mal. 

一 Vamos para o refeitório? 一 Chamei brendon que estava com os seus olhos fixos na Helena.

一 Sim, claro. 

一 Acho que você nem vai querer comida hoje, não é? 

一 E porque eu não iria?

一 Porque você já devorou a Helena com os olhos, creio que já está satisfeito. 

一 Você é mesmo um idiota cara, vamos logo antes que eu baixe uma versão falsier do mark e te bata aqui mesmo 一 Ameaçou e eu sorri. 

Caminhamos atentos para o refeitório e quando chegamos lá, o lugar não estava muito cheio, ainda chovia e fazia bastante frio e isso me fazia perguntar como ficaria o caminho de volta até a minha casa, mas eu me lembrei do guarda-chuva que sempre trazia comigo então eu não precisava me preocupar em voltar para casa agora e sim em como eu iria me esquentar do frio. Pedimos os nossos lanches e fomos atendidos rapidamente, o único lugar vazio era uma mesa no fundo, chamei a atenção de Brendon que também rapidamente viu o lugar e fomos caminhando para lá, antes que alguém pegasse o lugar e nos proibisse de sentar. 

Minhas mãos estavam geladas assim como os meus braços, quando coloquei a bandeja em cima da mesa, esfreguei minhas mão freneticamente soprando-as em seguida numa tentativa de me esquentar, mas era quase impossível, a blusa não era quente o suficiente e muito menos o meu hálito. 

一 Você tem outro moletom na sua bolsa? 一 Perguntei ao Brendon que me olhou confuso assim que mordeu o seu sanduíche.

一 Não, mas eu posso te dar o que estou usando 一 Ofereceu, mas eu jamais aceitaria e o deixaria com frio. 

一 Não precisa, na sala acho que me esquentarei. 

一 Se você não fosse um cavalheiro agora não estaria com frio 一 Ele riu ironizando a palavra ‘’cavalheiro’’ 

一 Você é realmente engraçado cara, admite logo que gosta dela 一 Ele pediu e antes que eu pudesse responder, a voz de mais cedo nos atrapalhou. 

一 Quem é a felizarda? 一 Emilly perguntou enquanto se sentava ao meu lado. 

一 É uma garota que ele gosta desde a nossa infância 一 Brendon ameaçou em dizer. 

一 Então ela tem sorte 一 A garota magra de pele branca falou.

一 Mas e você, gosta de alguma menina ou é gay? 一 Helena sentou-se ao lado de Brendon e fez a pergunta, e na mesma hora o garoto ficou vermelho.

一 Achou que isso não seja da sua conta, gatinha, mas e você e o pedro? 一 Ele perguntou e eu a encarei. 

一 Acho que isso não seja da sua conta, gatinho. 一 Ela respondeu da mesma forma enquanto sorria para ele e ele fazia o mesmo.

一 Garota 一 Ele disse sorrindo.

一 Pois não? 

一 Está sentindo esse clima? 一 Perguntei malicioso.

一 De frio? 一 A pergunta de Emilly saiu mais inocente do que todas as outras feitas nessa mesa 一 Se quiser posso te devolver o seu moletom 一 Ela fez menção de tirar. 

一 Não, está tudo bem, não é o clima de frio, é a tensão no ar 一 A olhei e logo ela entendeu. 

一 Realmente, isso não é de agora.

一 Do que vocês estão falando? 一 Helena não entendeu a nossa pequena conversa.

一 De nada amiga, vamos comer antes que o intervalo acabe 一 Pediu Emilly e assim todos nós fizemos.

Faltavam quinze minutos para acabar o intervalo, como o clima estava bastante chuvoso, eu voltaria para a sala de aula assim quando terminasse a minha refeição e esperava a mesma coisa do Brendon, já que na escola ele não falava com muita gente. Ele continuou uma conversa aleatória com a Helena enquanto eu e a Emilly apenas os observava, eles tinham bastante química juntos quando se tratava de casal, uma coisa bastante diferente dela e do Pedro que não combinavam nem um pouco. 

Fui o primeiro a terminar o meu lanche, esperei que o Brendon terminasse, e junto a ele, a Helena também terminou, devolvemos as nossas bandejas e voltamos para a sala de aula esperar que o intervalo terminasse e assim começasse outra aula, chegando na sala, algumas pessoas olhou para as meninas estranho como se perguntasse o que elas estavam fazendo com dois esquisitos como nós, mas as garotas penas ignoraram os olhares como se não existissem ninguém além de nós quatro, mas eu sabia que tudo isso mudaria a partir do momento em que Mark e o Pedro voltasse a escola. 

O intervalo terminou e uma professora entrou, assisti a aula morrendo de tédio desejando que terminasse logo, acabei deitando na mesa e deixado o tempo passar, as duas aulas que seguiriam depois dessa  não teria anotação, então eu poderia fingir que estaria prestando atenção quando provavelmente eu iria dormir. Por causa da voz alta da professora, o que me restou foi prestar atenção na aula, vacilei um minuto e encontrei os olhos de Emilly preocupados olhando para a tela do seu celular enquanto a Helena parecia tensa.

As últimas aulas se passaram rápido, Emilly entregou o meu moletom e saiu rapidamente da sala de aula enquanto falava com alguém no telefone e logo me veio na mente os seus pais, será que algo poderia ter acontecido com eles? Mas ainda tinha o Mark, e se não fosse os seus pais, com certeza seria ele.

一 Que bicho mordeu ela? 一 Brendon sussurrou também estranhando a atitude da Emilly.

一 Não sei, mas se não for os seu pais com certeza o bicho foi o mark.

一 É claro que ainda tem o Mark nessa história. 

一 E aparentemente sempre vai ter. 

一 Vamos esperar todos saírem da sala 一 Pediu Brendon

一 Tudo bem. 

Ainda eram 11:55 da manhã, os alunos saíam apressados, ainda era quarta feira e eu não entendia o porque de todo aquele alvoroço por parte dos alunos, mas talvez nem eles aguentasse a escola e só queriam descansar assim como eu, e depois de longos cinco minutos finalmente o corredor ficou vazio. Me levantei da cadeira, coloquei a bolsa na costa e segui para fora da sala, caminhamos lentamente como se nada nos preocupasse até chegar do lado de fora e dobrar a esquina. 

Mark gritava com a Emilly enquanto tinha uma garota no banco do carro do lado do passageiro, Emilly ouvia tudo calada como se estivesse com medo, eu pensei e repensei bastante em ajudá-la, mas o que eu poderia fazer? com certeza eu acabaria apanhando, eu não sabia qual era o motivo da discussão, mas eu estava preocupado com ela, e talvez fosse por causa disso a sua atitude de mais cedo, quando então, Mark a empurra com toda a força no chão fazendo a garota cair, Brendon não tinha reação assim como eu, quando então Mark entra no carro e beija a garota que o acompanhava deixando Emilly imovel no chão e assim que ele deu partida, corri em sua direção para ajudá-la. 

一 Creio que você não é uma casca de banana para ficar nesse chão 一 Falei e a garota me olhou com os olhos cheios de lágrimas. 

一 É claro que não sou 一 Ela segurava o choro, mas a sua voz entregava tudo, a garota estava morrendo de vontade de chorar. 

一 Então vem, Emy, sai desse chão 一 Eu chamei oferecendo a minha mão para a garota que aceitou de bom grado me deixando um pouco feliz. 

一 Podemos ir para casa? 一 Ela perguntou.

一 Não iremos ficar na rua, iremos? 一 Brendon perguntou fazendo a garota dar um sorriso morgado.

一 Claro que não.

一 Então vamos sim, gata.

一 Olha o respeito Brendon 一 Pedi. 

Emilly ainda segurava a minha mão enquanto andávamos, aquilo me deu uma sensação de borboleta no estômago que eu não sentia desde que a vi pela primeira vez. Emilly não era do tipo de pessoa que sentia prazer em ver outra machucada, mas isso mudou a partir do momento em que ela conheceu o Mark no nosso quinto ano, desde então, aquela menina que sempre brincava comigo após as aulas e nos finais de semana comigo e o Brendon desapareceu, me deixando um vazio e um buraco no peito, e desde então eu nunca entendi o porque do Mark agir daquela forma comigo e muito menos ela. 

O caminho inteiro o Brendon fazia algumas piadas e até mesmo perguntas que a garota sempre respondia errado que sempre acabava em mais piadas, eu estava me divertindo em vê-la daquela forma, e por um momento passou em minha cabeça que tudo aquilo podia voltar, mas isso logo desapareceu assim que eu me lembrei quem era o seu namorado, se é que ele ainda era. 

一 Agora essa pergunta é para você Ryan 一 Brendon pulou na minha frente fazendo a garota rir.

一 Já vem você com outra piada sem graça 一 Revirei os olhos.

一 Qual é meu amigo, se divirta por um minuto 一 Pediu.

一 Então diga a piada. 

一 Por que o pinheiro não se perde na floresta? 一 Ele perguntou e eu sorri, eu já tinha ouvido aquela piada inúmeras vezes, mas não responderia para não perder a graça. 

一 Não sei, porquê?

一 Porque ele tem uma pinha 一 Ele gargalhou e a Emilly foi junto.

一 Um mapinha 一 Ela gargalhou com os seus olhos lacrimejando. 

一 Como vocês conseguem rir de uma piada dessas? 一 Perguntei rindo da cara dos meus dois acompanhantes. 

一 Qual é ryan, como você não consegue? 一 Brendon perguntou ainda rindo.

一 Talvez seja porque não tem graça, cara. 

一 Diz pra ele Emilly o quão engraçado é 一 Pediu brendon.

一 Você deveria sorrir mais Ryan, fica melhor sorrindo 一 Ela respondeu uma coisa que não tinha nada haver com o que o Brendon pediu.

Olhei para frente ignorando os dois e quando percebi já estávamos na rua da nossa casa, suspirei porque por um momento eu me diverti vendo sorri-lá, mas isso acabou assim que pusemos o pé na nossa rua e talvez aquilo não se repetisse no dia seguinte. 

一 Então aqui nos despedimos 一 Falei. 

一 É, aparentemente sim 一 Emilly disse sem graça ainda segurando na minha mão. 

一 Amanhã nos encontramos novamente? 一 Perguntou Brendon.

一 Sim, nos veremos novamente 一 Emilly confirmou soltando a minha mão. 

一 Então até amanhã 一 Me despedi enquanto tirava a chave de casa de dentro da bolsa e assim que entrei os dois partiram.

A primeira coisa que fiz quando tranquei a porta foi deixar a bolsa no meu quarto, escolher uma roupa e ir para o banheiro, por incrível que pareça hoje eu me senti bem na escola, hoje eu sorri e me diverti assim como eu fazia quando ainda era criança. A água gelada me fazia pensar em tudo o que aconteceu hoje e eu desejava mais dias como esse na minha vida, não demorei muito no banho pois minha barriga roncou e eu precisava comer algo. Vesti minha roupa, passei o meu desodorante e segui para a cozinha, observei toda a geladeira até que achei uma tigela de vidro com macarronada, coloquei em um prato e esquentei no microondas, e quando apitou segui para o meu quarto com o prato e um copo de refrigerante. 

Me distraí com a televisão e quando terminei lavei o meu copo para não deixar nada sujo, varri o meu quarto e a casa e quando percebi já eram três horas da tarde, para mim não tinha demorado muito, mas eu me enganei assim que vi o relógio, eu não tinha nada para fazer então decidi deitar e dormir um pouco, só assim eu descansaria o dia que tive.

一 Filho, é hora do jantar 一 Minha mãe deu pequenas batidas no meu rosto o que me fez levantar num pulo da cama e quando eu vi, já eram sete horas da noite.

一 A senhora chegou a muito tempo?

一 Não, cheguei a uma hora atrás. 

一 Eu já estou indo para o jantar. 

一 Eu e o seu pai iremos te esperar lá. 

Minha mãe se retirou do meu quarto e eu suspirei, dormir o suficiente para ficar acordado até algumas horas da noite, sai do meu quarto e fui até o banheiro, lavei o rosto e vi que minhas feições não estava tão acabado como nos dias anteriores, sorri para o meu reflexo no espelho e quando fui para o jantar, meus pais já me esperavam na mesa enquanto assistia o jornal, quando perceberam que eu havia chegado, me convidaram para os acompanhar na mesa e de bom grado eu fiz. 

Minha mãe me serviu com a sua sopa e eu salivei sentindo o cheiro, meus pais me olhavam satisfeitos e eu não entendia de fato o motivo, mas talvez fosse apenas o meu bom humor que os deixou felizes e eu tentaria ser assim pelo resto da minha vida. 

一 Como foi o dia na escola hoje? 一 Minha mãe perguntou.

一 Melhor impossível 一 Fui sincero

一 Alguma garota? 一 Ela sorriu

一 Claro que não, mãe 一 Menti, mas de certa forma realmente era verdade.

一 Sei 一 Desconfiou. 

Comemos e conversamos bastante e quando acabou, minha mãe nos chamou para assistir um filme na sala e eu não recusei, eu gostava daquele clima de família unida e sem problemas, gostava das viagens longas e dos nossos passeios, gostava de tudo o que envolvia a minha família. Quando o relógio marcou dez da noite me despedi dos meus pais e fui para o quarto e assim que me joguei na cama tudo apagou, a noite seria mais tranquila do que normalmente era.

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