Capítulo 2

Peter

Desde que minha mãe conheceu o Mark naquele aplicativo de namoro — um daqueles encontros que parecem roteiro de filme, mas que na nossa vida real raramente dão certo —, eu soube que a história com o filho dele não seria fácil.

Logan.

Ele parecia ser do tipo complicado. Eu ouvia minha mãe, discretamente, no telefone com as amigas, comentando sobre as brigas frequentes entre ele e o pai, sobre como ele não aceitava ver outra mulher ocupando o lugar que a mãe dele tinha deixado. Um lugar que ficou vago, não por tragédia… mas por escolha. Ela o abandonou. E eu acho que essa escolha é o que mais dói. A ideia de ser deixado para trás por alguém que deveria te amar incondicionalmente.

Mark, alheio a tudo isso, estava me mostrando a casa como se fosse um corretor de imóveis, apontando cada detalhe com um entusiasmo que eu não conseguia corresponder. Eu tentei acompanhar — não só por educação, mas porque, para ser justo, o lugar era lindo. Meu quarto era quase o dobro do que eu tinha antes, com uma janela enorme que dava para o quintal. Pela primeira vez em semanas, algo me pareceu... bom. Não perfeito, mas bom.

Mas aí meu estômago roncou alto, rompendo o silêncio e a formalidade daquela visita guiada. Mark ficou visivelmente constrangido. Ele tinha esquecido de pedir o jantar.

“A comida deve estar chegando”, avisou, checando o celular. “Desculpa, a empolgação me fez esquecer completamente.”

Quando a campainha tocou, eu fui atender achando que era o entregador. E foi aí que vi Logan pela primeira vez.

Bom, vi fragmentos do rosto dele, ao menos.

Ele estava na varanda, aos beijos com uma garota bonita, de cabelo escuro e sorriso fácil. Alice, descobri depois. Os dois pareciam imersos em uma bolha, completamente alheios ao mundo ao redor.

“Finalmente”, Mark murmurou, vindo por trás de mim, com a voz carregada de frustração. “Pedi pra você estar aqui quando eles chegassem. Isso é pedir demais, Logan?”

Logan mal olhou para o pai, ou para mim. Pareceu nem notar minha existência. Eu só me recolhi, evitando mais problemas.

“Você decidiu trazer uma estranha pra nossa casa e quer que eu participe do circo?”, disparou, ríspido, sem se mover um centímetro para dentro.

“Você sabia de tudo desde o começo. Eu tentei incluir você em cada etapa. Só porque estou me casando de novo não significa que vou viver sozinho para sempre.”

“Tanto faz”, ele respondeu, empurrando Alice para dentro de casa com um movimento brusco.

Mark suspirou, ajeitando a postura. Sua voz, antes ríspida, tornou-se gentil ao se dirigir à garota.

“Alice, querida, hoje é só a família. Espero que entenda.”

Ela assentiu, com um sorriso compreensivo, e saiu sem protestar. Eu percebi a irritação de Logan quando ela cedeu tão facilmente. Pareceu que ele estava esperando uma briga, um drama. E, sem a briga, a raiva dele se voltou para o único alvo disponível.

“Isso não é justo. Ela é a única que está do meu lado.”

“E eu? Eu tô aqui, Logan. Você só precisa deixar.”

A tensão na sala era tão espessa que dava para cortar com uma faca. Minha mãe e eu nos entreolhamos, desconfortáveis, como se estivéssemos espiando uma discussão privada que não deveríamos presenciar. Senti uma vergonha alheia enorme, um desconforto que me fez querer voltar para o carro e continuar a viagem de nove horas.

Mark tentou amenizar: “Me desculpem por isso. O jantar está chegando”, disse, antes de sair para o jardim, talvez em busca de ar fresco.

Minutos depois, Logan entrou na sala, nos lançou um olhar gelado e subiu as escadas sem dizer uma palavra. Nem um “oi”, nem um aceno. Apenas o silêncio e o som de seus passos pesados sumindo no corredor. Era a maneira dele de dizer: “Vocês não são bem-vindos aqui.”

A janta foi um completo fiasco. Logan apareceu, sentou à mesa com a expressão fechada, e respondeu a tudo com monossílabos. Mark tentou puxar assunto, minha mãe, Sarah, sorriu como se estivesse em um comercial de margarina, tentando desesperadamente criar uma atmosfera de paz. Mas por dentro, a gente sabia: aquela mesa não era de uma nova família, era de um campo minado prestes a explodir.

Depois da confusão, fui para o meu quarto e tentei distrair a mente. Tinha prometido uma videochamada com o Liam, mas até isso eu esqueci. Meu cérebro estava em modo sobrevivência.

Na manhã seguinte, acordei com fome e fui até a cozinha com a esperança de conseguir uma refeição em paz. Só que, claro, o universo tem um senso de humor meio cruel.

Logan estava lá.

De costas, preparando o café como se fosse o dono do mundo. Meu primeiro instinto foi sair de fininho. Mas alguma coisa me impediu. Talvez o orgulho. Talvez a raiva. Talvez o fato de que, por mais babaca que ele fosse, eu ainda teria que conviver com ele por tempo indefinido. A gente precisava, no mínimo, se apresentar.

Me aproximei devagar, como se estivesse lidando com um animal selvagem prestes a morder.

“Bom dia. Me chamo Peter. É um prazer te conhecer.”

Estendi a mão, esperando ser ignorado.

Mas ele olhou para mim. De cima a baixo. Com olhos escuros e intensos — do tipo que te fazem esquecer onde está por um segundo. E, para minha surpresa, ele apertou minha mão.

“Logan. Foi mal pela situação de ontem.”

Foi tudo. Só isso. Uma frase curta e a mão dele, grande e fria, na minha. Mas eu considerei uma vitória pessoal.

A voz dele era baixa, quase rouca. Os cabelos caíam sobre os olhos dando um ar pesado que combinava com a energia. Mas ele era... bonito. Logan era muito bonito, por mais que eu odiasse admitir devido à antipatia dele.

Ele vestia o uniforme do colégio. Uma jaqueta de tom vermelho-escuro com listras brancas no braço e ponta da manga, com uma blusa branca de tecido fino por baixo.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele se virou e subiu as escadas. Não foi exatamente um diálogo, mas considerando o histórico, era quase um milagre.

Fiquei sozinho na cozinha, encarando uma meia torrada como se fosse uma sentença de morte. O café queimava na minha garganta, mas ajudava a manter a ilusão de normalidade.

Então, ouvi buzinas lá fora. Fui até a janela e vi Logan correndo até o carro de Alice. Eles se beijaram como se fossem protagonistas de um drama adolescente barato. Eu revirei os olhos, enojado e — talvez — um pouco hipnotizado. O tipo de beijo que faz você pensar se já viveu algo assim. E eu não, definitivamente não vivi nada assim nos meus frustrados dezessete anos de vida.

Minha mãe apareceu atrás de mim, espiando por cima do meu ombro.

“Por que essa cara?”

“Esse menino é esquisito”, respondi, sem tirar os olhos da cena lá fora.

“Ele só precisa de tempo. Logo vocês vão ser como irmãos”, disse ela, otimista como sempre.

“Eca, mãe. Por favor”, murmurei, largando o café e a torrada.

“Está sem fome de novo?”

“Só não estou com vontade.”

Mentira. Eu estava faminto. Mas não tinha energia para lidar com ninguém. Subi para o quarto, passei pela porta do Logan com uma curiosidade que me incomodou, e me joguei na cama.

Coloquei os fones e afundei na única coisa que ainda fazia sentido: música.

Mas, enquanto me perdia nas batidas, uma ideia atravessou meu peito como um choque.

Eu ia viver com esse cara. Dormir sob o mesmo teto. Comer na mesma mesa. E o pior de tudo: eu não conseguia tirar esse jeito esquisito do Logan da cabeça.

Capítulo 3

Peter

A primeira semana em San Diego foi… silenciosa. Mas não aquele silêncio calmo e confortável, que a gente sente quando está em casa num domingo de manhã. Era um silêncio pesado, do tipo que antecede uma tempestade. Um que se arrasta pelos cômodos e sufoca aos poucos. Um silêncio que avisa: cuidado com o que você diz. Cuidado com o que você sente.

Logan era praticamente um fantasma. Um fantasma irritante. Ele aparecia e desaparecia com a mesma velocidade, como se estivesse sempre tentando evitar qualquer tipo de interação. Eu o via mais nos reflexos dos vidros da casa do que de frente. Ele passava como uma corrente de ar fria. Sempre rápido demais, e ainda assim deixando marcas por onde passava.

Não que eu me importasse. Ou pelo menos era isso que eu repetia para mim mesmo. Mas, honestamente? Eu me importava. E isso me irritava mais do que a atitude dele. Havia algo na forma como ele me ignorava que fazia minha pele coçar. Não sei se era orgulho ferido, se era carência. Mas ver ele andando pela casa, como se eu fosse invisível… incomodava.

E o pior? Eu reparava demais. Reparava quando ele descia as escadas de cabelo molhado, usando uma camiseta justa que deixava claro que ele frequentava a academia mais do que a escola. Reparava no jeito como ele prendia a respiração quando passava por mim — como se até o ar que eu ocupava fosse inconveniente.

Reparava na forma como ele tratava todo mundo com desdém, menos a Alice. E reparava, acima de tudo, no fato de que ele me olhava como se me odiasse. Só que o ódio, às vezes, parecia… outra coisa.

Na escola, as coisas não eram muito diferentes. Mas algo inesperado aconteceu quando eu conheci alguém. Uma menina asiática de cabelos negros e duas mechas rosa me abordou, com uma expressão emburrada que, de alguma forma, não parecia incômoda.

“Você é o menino novo?”, perguntou, com a voz direta. “Peter, né?”

“Sou. E você?”, perguntei, pois não a tinha visto antes.

“Suspensão. Dei um soco numa líder de torcida”, ela falou como se não fosse nada, o que me fez rir um pouco. “Me chamo Lina.”

“Peter. Espero nunca te irritar”, estendi a mão, e ela me cumprimentou de volta, rindo.

Foi a melhor e única coisa boa que aconteceu desde que cheguei naquele lugar. Nós nos grudamos como velhos amigos. Eu tinha encontrado uma certa paz ao lado da Lina, que parecia não se importar com nada — o tipo de pessoa que diz o que pensa, do jeito que pensa, e que sobrevive no colégio não por popularidade, mas por pura força de personalidade.

Nós dividíamos algumas aulas, almoçávamos juntos, e ela me fazia rir quando tudo o que eu queria era socar alguma parede.

...

Mais tarde, peguei minhas coisas e fui em direção à saída, sentindo um alívio imenso. Foi quando vi Logan encostado no carro, conversando com Alice. Ela ria, com os olhos brilhando. Ele se inclinava, como se estivesse contando um segredo importante, o cabelo caindo um pouco sobre os olhos, o sorriso de lado.

A cena parecia íntima, uma bolha onde só os dois existiam, como sempre.

“Vamos.” Ele falou quando me viu, já abrindo a porta do passageiro.

“Vamos para onde?”, perguntei, sem entender.

“Pra casa. Meu pai pediu para eu te levar.”

Olhei para Alice, que estava no banco da frente, e percebi que só tinha uma opção: sentar no banco de trás e me encolher. Assim que ele ligou o carro, os dois começaram a se beijar. Não um beijo rápido. Um daqueles demorados e barulhentos, como se eu não existisse, como se a garagem fosse o único lugar no mundo.

“Dá para ir logo?”, falei, tentando não olhar. Minha voz saiu mais aguda do que o normal.

“Estamos indo”, respondeu Logan, sem se afastar. A voz dele era rouca e baixa.

Quando finalmente estacionou, Alice saiu primeiro, ainda rindo. Logan ficou parado, me olhando pelo retrovisor, a mão ainda no volante.

“Você vai ter que se acostumar.”

“Com o quê?”, perguntei, confuso e irritado.

“Comigo.” Ele deu um meio sorriso e subiu, me deixando sozinho na garagem, com o som do carro esfriando.

O resto da tarde foi um silêncio estranho. Eu ouvia vozes abafadas vindo do andar de baixo, mas não conseguia decifrar o que diziam.

Até que, na manhã seguinte, Logan me abordou no corredor da escola. Ele estava sozinho pela primeira vez — sem Alice, sem os amigos, sem o escudo habitual. Estava encostado no armário, os olhos baixos, como se não quisesse estar ali.

Quando me viu, se endireitou. “Peter.”

Aquilo me pegou desprevenido. Ele nunca dizia meu nome. Nem “oi”. Nunca nada.

“O que foi?”, perguntei, cauteloso.

Ele olhou pros lados e então se aproximou. Só um passo. Mas foi o bastante para eu sentir meu corpo reagir de forma involuntária.

“Não fala pra ninguém que a gente mora junto.” A frase veio seca, direta. E o tom… quase implorava para não ser discutido.

“Por que não?”, perguntei, cruzando os braços. “Vai te arranhar o ego?”

Ele me encarou. “Porque é melhor assim.”

“Melhor pra você”, corrigi.

“Melhor pra todo mundo.”

“Olha, Logan, eu não estou louco para sair contando para a escola inteira que a gente divide o mesmo teto. Fica tranquilo. Mas se você está com vergonha, isso é problema seu.”

Os olhos dele escureceram por um instante. Mas ele não retrucou. Apenas assentiu uma vez, firme.

“Ótimo.”

E saiu andando. De novo. Sempre indo embora antes que eu pudesse dizer o que realmente queria dizer.

Em casa, o clima seguiu no mesmo padrão: tenso, contido, esquisito. Minha mãe tentava fingir que estava tudo bem. Mark parecia alheio a qualquer tensão.

E Logan… Logan continuava sendo Logan. No jantar, ele quase não falou. Cortava a carne como se estivesse prestes a mutilar alguém. Ocasionalmente, me lançava um olhar rápido, como quem verifica se uma bomba já explodiu.

Eu evitava retribuir. Porque, quando retribuía… eu sentia coisas que não queria sentir.

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