Capítulo 2

Sou muito grato por tudo que Deus me deu. Há tudo e a todos! Minha família é tudo para mim… e quando digo família incluo meus amigos, principalmente minha menina sorriso.

Ah! Como sinto sua falta minha smile…

Se soubesse que vir para New York me deixaria com tantas saudades, que nos afastaria… jamais teria vindo. Contudo, a minha vontade de crescer profissionalmente e por meus próprios meios, sem depender de ninguém falou mais alto; minha vida aqui não foi de todo ruim assim, cresci profissionalmente, me divertir muito… Entretanto, trocaria todas as noites de sexo que tive para ficar com as pessoas que amo. Na verdade, é isso que farei!

Chega de New York… tenho potencial para transferir a sede para San Diego, eu sou mais que capaz de fazer isso, claro que sou! Ou não me chamo Kaléo Coleman, o senhor magnífico atoa.  

*****

Após conversar com meus advogados, liguei somente para meu pai e ele afirmou que me ajudaria judicialmente com os advogados de New York. Para transferir a sede para San Diego o mais rápido possível e logo em seguida falei com a minha mãe, avisei que em breve ela teria o filho preferido por perto. Era a primeira vez, depois de quase cinco anos morando na cidade conhecida como Big Apple, resolvi voltar para casa. Sempre passava o final de semana ficando com qualquer uma, meu final de semana começava na quinta e só era encerrado no domingo às 17 horas… afinal sou humano e precisava repor minha energia. 

A última vez que visitei minha família foi a dois anos atrás, conheci Jackson namorado da Hannah banana, a baixinha se deu bem e arrumou um cara bacana, o único que não engoli foi aquele tal de Carl.

*Lembranças…*

— Juízo, crianças! — mamãe diz assim que vê todos nós prontos para sair. 

— E Kaléo, volte cedo! Amanhã você embarca novamente para Nova York e eu nem pude matar toda a saudade — ela diz e volto para abraçá-la dizendo:

— Relaxa, mãezinha, só viajo amanhã a noite e Ayumi irá cuidar bem de mim! Não é Yumi? — olho para minha menina, que pisca para minha mãe.

— Pode deixar mamis! Esse mocinho vem direto para casa!

— Acho bom todos vocês virem, quero todos aqui bem debaixo das minhas asas, assim também não terá desculpas esfarrapadas para faltar ao churrasco amanhã.

— Mãe, quem é louco de faltar a um churrasco? — Will fala arrancando risadas, ele pensa que todos são esfomeados igual a ele.

— Certo. Está na hora de ir, vamos… bye mãezinha — Olly fala já empurrando todos para fora de casa.

****

As meninas não querem sair da pista de dança, por um momento me senti rejeitado, já que acreditei que teria a minha melhor amiga toda para mim, mas ela também precisa se divertir. Hannah era a única sentada na mesa, já que não desgrudava do seu namorado.  

Jackson é bem legal, logo estávamos conversando como se fôssemos amigos de infância. Olho para a pista de dança e dou uma verificada nas meninas, elas dançam como se não houvesse amanhã. Sorrio, Ayumi ao invés de só dançar faz graça para as meninas, ao se virar Yumi vai andando de encontro a um cara e o abraça, ele acena para as meninas e vem com ela para nossa mesa, ela se aproxima e seus olhos estão brilhando, nunca a vi assim.

— Léo, esse é o Carl. 

Ela nos apresenta animada. Aperto sua mão sem um pingo de vontade, mas como sou um homem educado… Ele falou com os outros, não compreendi devido ao barulho, não demorou muito e ele foi se juntar às meninas na pista de dança. Mas não desgrudava da minha smile.

*Fim das Lembranças.*

Esse foi o dia em que conheci Carl, conheci e não gostei. Se foi ciúme? Com toda certeza, o cara acabara de chegar e já queria roubar a minha melhor amiga. Por fim, fui embora e 5 meses depois descobri que Ayumi e o tal de Carl estavam namorando.

*Lembranças…*                                     

— Assim que der passarei outro fim de semana aí, mãe!

— Ok, ficarei esperando. Agora passarei para sua irmã, que não para de saltitar aqui. 

Bufo, pois quando ela começa a falar ao telefone, é um saco. Escuto Olly tagarelar, ouço o barulho da porta do quarto se abrindo e me viro encontrando a morena sexy que veio comigo. Mas agora não me recordo de seu nome, ela está só de lingerie vindo em minha direção, se minha mãe não tivesse me ligado estaria me divertindo a essa hora. Olly grita ao telefone e essa é a desculpa que eu precisava para desligar. 

— Olly, preciso desligar! Estou muito ocupado. 

— Há espera! Ainda não contei nada do que queria. 

— Desembucha logo, Olly.

— Já ia esquecendo, a Yumi está namorando o Carl, agora só falta você maninho — não pode ser! Ayumi não pode estar namorando esse cara! A morena vem para perto de mim e passa sua mão em meu peitoral, mas não estou mais no clima. 

Saio de perto dela e ando de um lado para o outro irritando, enquanto Olly ainda fala pelos cotovelos. 

— Olly, eu preciso desligar, depois nos falamos. 

— Mas, eu…  

Desligo e nem ligo se desliguei na cara dela, se ela ia falar algo importante, não interessa! Olho para a coisa linda, sentada no meu sofá, com as pernas cruzadas e com um salto agulha nos pés me olhando.

— Gata, me espera no quarto.  

— Mas…

— Me espera no quarto ou pode ir embora, você quem sabe — digo sem paciência e disco o número da Ayumi.

— Oi! Léo, tudo bem com você? Quanto tempo? — ela atende animada.

— Você tem algo para me contar?

— Eu também estou morrendo de saudades, Kaléo, como está? — diz debochada, respiro fundo.

— O assunto é sério, Ayumi! Nós nos falamos sempre e fico sabendo por terceiros que você está namorando aquele idiota. Pensei que fossemos amigos!

— Eu ia te contar, só estava esperando para ver se iria dar certo esse relacionamento, não queria me antecipar.

— Pois, não dará! Clark, esse cara não presta e você sabe disso!

— Isso é ciúmes, Kaléo? Nada abalará e nem acabará com a nossa amizade, somos um! Lembra? 

— Ayumi! — digo já cansado para discutir, ela é muito teimosa e quando coloca algo na cabeça, é difícil de tirar.

— Nossa amizade é muito importante para mim! Não quero brigar com você, apenas respeite minha decisão e veremos no que dará.

— Ok.

— Mais me conta… o que você anda fazendo?

— Nada nesse momento. Mas, tenho que encontrar alguém agora, depois nos falamos. 

— Ok — ouço sua respiração — Não fique chateado — pede ela com a voz triste, mas não dá, não dessa vez.

— Impossível!

*Fim das Lembranças.*

Encerrei aquela chamada com uma dor no peito, como ela poderia ter feito isso comigo? A minha vida não foi a mesma e depois disso ficamos mais distantes e hoje não consigo falar com ela; toda vez que ligo vai direto para o correio de voz, só assim consigo ouvir a voz de Ayumi. Sinto tanta falta dela! E o pior é que não sei o que está acontecendo.

Pego meu telefone e disco seu número, chama até cair na caixa postal, tento a última vez e dessa vez nem chama, vai direto para caixa postal.

— “Se você quer falar com Ayumi Carter, digite um agora, se você quer falar com a Yumi, digite dois e deixe uma mensagem bem legal que retornou depois.”

Ouvir sua voz e risada encantadora ao fim do bip, que faz a saudade aumentar, me pergunto se está tudo bem, já que não confio naquele cara de jeito nenhum.

— Oi! Minha Smile, estou com saudades! Estou voltando para San Diego. Quero muito te ver… te amo smile, para sempre — desligo sentindo algo que não sei definir muito bem, esse sentimento está me corroendo.

 ****

Cheguei a San Diego há uma semana. Fui até o trabalho de Ayumi, para surpreendê-la e descobri que a mesma não trabalha mais lá a algum tempo. No prédio onde ela morava, o porteiro disse que Yumi tinha se mudado a quase um ano e isso me deixou muito preocupado… ela não era de agir assim desta maneira, sinto dentro de mim que algo está acontecendo, mas não sei dizer o que é.

Era assim que me encontrava a todo momento, fui até a construtora onde Will e Carl trabalham, para minha surpresa a empresa agora era comandada por Carl. Assim que ele me viu estreitou as sobrancelhas e tenho certeza que não gostou da minha presença por ali, mas eu não estava por ele e sim pela minha smile, não poderia abandoná-la mais uma vez. Conversei com Carl e este me garantiu que Ayumi estava bem, que estavam morando juntos, que pediria para ela entrar em contato comigo. 

Eu sabia que aquilo era uma mentira, ele não tinha sido sincero comigo, ele jamais diria que estive procurando por ela, eu nunca me enganei com o caráter das pessoas e aquele imbecil não seria o primeiro. Dava para ver no rosto dele a insatisfação de me ver ali, ainda mais perguntando por ela, mas se ele achasse que eu iria deixar isso barato, estava muito enganado.

Resolvi ir embora, pois não aguentava mais olhar na cara daquele idiota, saio da empresa e ando meio que perdido pela rua. Conheço essas ruas como a palma da minha mão, porém me sinto perdido e sem rumo. Vou caminhando para poder respirar um pouco de ar puro, me pego pensando na minha Smile e acabo batendo em algumas pessoas que me olham de cara feia.

— Me desculpe! — falo enquanto paro em frente a uma boate.

Ao olhar para a placa resolvo entrar, precisava de uma boa dose de uísque escocês, então entro e me arrasto até o bar, assim que me sento no balcão chamo barman que me olha e logo vem em minha direção secando a mão em um pano impecavelmente limpo. Me perguntando o que quero, peço uma dose dupla de uísque escocês e assim que ele me serve levo o copo a boca tomando em um só gole, sinto a doce ardência em minha garganta, coloco novamente o copo em cima do balcão e sou servido novamente.

— Dia difícil?

— Sim! Queria poder resolver tudo, mas não sei por onde começar.

Conversamos um pouco e quando percebo já estou extremamente bêbado! Saio do bar e olho para a rua que não está movimentada e sorrio, se a Ayumi estivesse aqui agora, estaria parada em minha frente com as mãos na cintura me olhando de cara fechada ou brigando comigo por beber. Ela nunca gostou de me ver beber e muitas vezes tirou o copo da minha mão e bebeu todo o líquido sem saber o que era para que eu fosse embora, porque sempre teimava dizendo a ela que queria ficar para terminar a bebida.

Volto em si e não sei o quanto bebi até agora, mas não sei como voltar para casa.  

*Um mês depois.*

Após pensar muito na conversa com Carl, eu precisava fazer alguma coisa, então acordei cedo no dia seguinte e fui a delegacia, pedi para Mayke investigá-lo, fiquei esperando a ligação de Ayumi, o que não aconteceu. Sempre que podia, estava com meus amigos e irmãos em alguma balada, quase sempre nos encontrávamos com Carl. O que me intrigava é que ele estava sempre sozinho, sempre com uma desculpa esfarrapada para a ausência de Ayumi. Há duas semanas, seu número de celular consta como inexistente, avisei ao Mk, que me garantiu que verificaria o que estava acontecendo. 

Agora estou com os meus amigos em uma boate, estou aqui saboreando mais uma dose de uísque, tentando mascarar minha preocupação com Ayumi. Nem para me divertir tenho tido cabeça, nunca considerei dispensar tantas mulheres, como tenho dispensado, mas por mais que eu me esforce não consigo me deitar com nenhuma, isso está me preocupando muito, mas não tem o que fazer, só sossegarei quando eu tiver notícias de Ayumi. Olho para a pista de dança, pessoas dançando e quase se enfiando dentro de outras, mas uma pessoa em especial me chama atenção! Tomo o resto de minha bebida e vou ao encontro do casal e reconheço Carl, porém o mesmo se encontra com outra pessoa ao invés de estar com Ayumi. Sem pensar muito, acabo com a distância entre nós o pegando pela gola de sua camisa que me olha de olhos arregalados. Se esse filho da mãe pensa que trairá minha amiga e sairá impune, está muito enganado!

— Que merda você pensa que está fazendo? — Carl me olha com o sorriso debochado, tentando tirar minhas mãos de sua camisa, mas só tenta!

— Calma aí, amigão! — o desgraçado me chama de amigão e ainda sorri.

— Amigão? Eu nunca te dei essa liberdade; eu sabia que você não prestava! Avisei a Ayumi sobre você. Agora vejo você a traindo? — olho para o lado e a moça que mais parece um filhote de periquito quando começa a criar penugem, me come com os olhos!

— Pode tirar sua éguinha da chuva. Não rolará nada e nunca rolaria!

— Por quê? — ela pergunta mascando um chiclete.

— Porque, eu amo… — paro na hora de falar e ele se solta tentando protestar, Carl me apresenta a sua acompanhante. 

— Marieta… esse é o nome dela — olho para ele já impaciente e minhas mãos estão coçando tanto… querendo amassar a cara dele, que estou quase ao ponto de cair em tentação.

 — Estamos nos divertindo um pouquinho — ele pisca para a mulher ao nosso lado que sorri mostrando um dente de ouro. 

— E quanto a Ayumi? — preciso saber o que está acontecendo, não permitirei que a minha melhor amiga seja taxada de corna enquanto está em casa, servindo de empregada.  

— Você sabe… o que os olhos não veem o coração não sente! — o ódio me consome nesse instante, lhe dou um soco fazendo-o cair no chão.

— Você não presta, não merece a mulher que tem. Ela é doce, carinhosa demais para você, seu merda! — subo em cima dele, dando-lhe mais alguns socos e sinto braços me puxarem de cima do desgraçado, ainda consigo lhe acertar alguns chutes e ouço me pedirem para ter calma.

— Calma, cara. Irão te expulsar da boate! — olho para o lado e vejo ser Jackson tentando me puxar para bem longe do idiota. 

— Deixa ele para lá, não vale a pena. Não concordamos com o que ele faz… mas, isso só cabe a ele e a Ayumi.

— Ela me traiu merda! — ele grita e lágrimas de crocodilo escorrem da sua cara de sem-vergonha.

— Eu a amo demais, porém ela me traiu! Fugiu com um desgraçado do trabalho dela, enquanto o babaca aqui… — aponta para si mesmo dando alguns socos em seu peito. — Paguei detetives para ter a mulher que amo de volta, mas foi em vão! — ele chora mais, porém não caio nessa encenação

— Fico com outras mulheres, porque não quero parecer um fraco, não quero cair em depressão, por não ter um amor correspondido. 

— Eu não acredito em você! — solto-me dos braços de Jackson e lhe dou mais socos.

Sou puxado novamente e digo entre os dentes com ele me olhando do chão onde é o seu lugar.

— Vou descobrir o que você fez a Ayumi, você irá me pagar quando descobrir se algo grave aconteceu a ela. Pode apostar que não será apenas socos e chutes, que você irá ganhar! — antes que eu possa dar-lhe um chute, sou puxado por Jackson, Will e Lucca entram em minha frente, protegendo o babaca que está se levantando agora.

— Você deveria estar do meu lado Coleman. Ela me traiu e eu que pago as consequências? Você deveria ser meu amigo! Dessa vez passa. Se souber notícia dela ou se falar com a Ayumi… — ele limpa o canto de sua boca que está sangrando, cospe no chão voltando a dizer:

 — Diga a ela que não desisti dela, de nós! Que a amo, ela é minha e sempre será a dona do meu coração — ele diz e sai arrastando a moça que estava ao seu lado. 

Sou levado para mesa e peço uma dose dupla do meu bom e velho amigo uísque. Tem algo muito errado nessa história, conheço Ayumi e sei que ela jamais faria nada assim, mas investigarei… preciso saber o que aconteceu com a minha menina sorriso.

Capítulo 3

*Alguns Dias Depois…*

Não consegui ficar me divertindo com o pessoal, o que Carl disse não sai da minha cabeça,  Ayumi não iria embora com outra pessoa sem nos falar e muito menos o trair, ela não é assim! A conheço como a palma da minha mão! É um absurdo, tem algo aí e descobrirei.

Chego no meu apartamento após mais um dia cansativo na empresa e subo direto para o meu quarto, preciso de um banho e assim o faço, depois visto uma calça do conjunto do pijama e desço as escadas indo direto para a cozinha e encontro um bilhete da dona Hávah na geladeira.

“Oi, querido! Tem macarrão com queijo na geladeira, salada e filé de peixe grelado. Coma! Saberei se não comer e descanse. 

Beijos da mamãe… Te amo!”

Sorrio para o bilhete, abro a geladeira e pego o macarrão, coloco a travessa no micro-ondas e o ligo. Assim que está pronto, pego a travessa colocando em cima da mesa, a destampo e o cheiro é maravilhoso! Pego um prato limpo no armário, os talheres, um copo e me sirvo.  Não irei comer o peixe, ela sabe que não sou muito fã, pego a salada e o suco de laranja, coloco tudo em uma bandeja e sigo para o meu escritório particular, me sento na minha cadeira e ligo para MK, preciso ver com ele como anda a busca pela Ayumi. Ele atende no segundo toque… 

— Oi! Bobão, como está?

— Estou bem, babão — só Mayke para me fazer rir em um momento desses. — Porém, preocupado com a Ayumi! Alguma notícia? 

 Que ele diga sim! Por favor, diz que achou algo.

— Não, mas estou fazendo tudo o que posso para achá-la, porém o número de telefone que você me deu está dando inexistente — assim que ouço desisto de levar o garfo a boca.

— Liguei várias vezes também e por um tempo eu ouvia a sua mensagem do correio de voz, mas agora é a mesma coisa que você disse. 

— Mas, estamos refazendo os últimos passos dela e falando com quem a viu antes do sumiço, falamos com o Carl e ele disse que a Ayumi o traiu e assim fugindo com um cara que trabalhava com ela. Fomos a empresa onde ela trabalhava e disseram que nenhum homem que trabalha lá pediu demissão ou sumiu á não ser Ayumi, nem mesmo para dizer que não trabalhará mais ela foi. Fora isso o quadro de funcionários que trabalharam lá ou trabalham continua sendo o mesmos, sem nenhuma demissão… só admissões. 

— Isso está muito estranho Mk!

— Quando chamamos Carl para  o interrogarmos, ele chorou e disse que ama muito a Ayumi, que até saiu do apartamento dele por que tudo lá o fazia lembrar dela, que mesmo ela fugindo e o traindo com outro, ele ainda a ama.

— Mk, isso está muito estranho! Porque o Carl não estava aparentando sofrimento quando o vi, por que ele estava agarrando com uma estranha na boate — Mayke começa a rir e o porquê? Eu não sei! 

— O que você está rindo? 

— Nunca nesses 19 anos que lhe conheço ouvi ou vi, você maldizer de alguma mulher, o que há com você?

— Vai catar coquinho no deserto de marte, sargento.

— Olha o desrespeito, meu rapaz, posso te prender por desacato. 

— Ah! Isso eu quero ver, até por que se você me prender conto os seus podres para a delegacia inteira.

— Isso é golpe baixo, jogo sujo.

— E alguma vez eu disse que jogaria limpo?

— Não!

— Esse delegado é um menino esperto! — Sorrimos juntos e depois ele diz: 

— Mas, eu estou fazendo de tudo para achá-la Léo e você será o primeiro a descobrir quando acontecer. 

— Eu não posso perdê-la Mayke, ela é a minha amiga, minha protegida. É o meu anjo dos olhos castanhos   — digo isso olhando para o porta retrato que tem na minha mesa onde está nós dois, quando éramos crianças.

— Eu sei cara, sei que você e a Ayumi tem uma ligação incrível e única,  são como irmãos! Farei o máximo para achá-la.

— Obrigado meu amigo e já ia me esquecendo… A dona Hávah falou que se você me ligasse ou eu te ligasse, era para dar um recado.

— Xi! Que lá vem bomba!

— E se não desse o recado teria meu bem mais precioso arrancado — digo rindo e ele gargalha, pois, sabemos que a minha mãe é doida! 

— Dona Hávah não muda nunca! E qual é o recado? Já tenho até medo.

— Que se você não aparecer lá, ela vai à delegacia te buscar pela orelha e que você é um rapaz ingrato, por abandoná-la.

— Eita! É a rainha do drama mesmo, fui vê-la na semana passada. 

— Mas você sabe que semana passada para ela é quase uma década. 

— Sim, verdade. Me lembro no dia em que você chegou na casa dela, ela faltava soltar fogos.

Hávah e Jhon não são meus pais biológicos, fui para o orfanato quando tinha 3 anos, minha mãe foi morta pelo meu padrasto que só não me matou por que ela me escondeu no porão da casa onde morávamos, mas eu vi tudo pela fresta que tinha no piso de madeira. A polícia só achou a mim e minha mãe por que uma vizinha achou estranho não me ver brincando no quintal, até porque minha mãe me levava todos os dias para brincar no parquinho improvisado que ela mesma fez no quintal.

Sou tirado dos meus devaneios com o Mayke me chamando: 

— Kaléo, está aí?

— Oi!

— Te chamei várias vezes, mas você não respondia.

— Me desculpe é que eu estava me lembrando do dia — Minto, pois, essa parte meus amigos não sabem e os únicos são os meus pais e irmãos.

ㅡ Ah! Cara, eu me lembro da minha mãe dizendo que a sua ia acabar indo parar no hospital de tanto ansiedade — acabo rindo e conversamos mais um pouco e depois desligo, pego a foto à frente e fico a olhando, me lembrando do dia que a Ayumi chegou no orfanato.

*Lembranças… 23 Anos atrás*

Hoje está frio e cinzento, gosto desta cor cinza no céu é tão linda! Sempre que a saudade dela aperta, venho até a janela e fico admirando o começo do anoitecer, as outras crianças maiores sempre encrencam comigo por que gosto de ficar aqui na janela do segundo andar, admirando a rua e observando as pessoas passarem. 

Gosto de olhar a paisagem, mesmo ela não mudando. Gosto de ver as pessoas passando pela rua, mesmo com seus carros, motos, bicicletas, a pé, abraçadas, empurrando um carrinho de bebê, de mãos dadas ou até mesmo com crianças. Sinto falta dela e queria poder sentir de novo os carinhos que ela fazia em meus cabelos, seus bolos, beijos, abraços, as boas noites com cócegas, até mesmo quando ela gritava comigo! Sinto falta do cheiro dela, do eu te amo, minha vida; mamãe te ama muito.

Sinto tanta falta dela que o meu peito doí, por isso venho aqui observar o mundo e tentar preencher o meu coração com o carinho que vejo os outros receberem. Anoiteceu e ainda estou aqui na janela abraçado aos meus joelhos, vejo quando uma moça colocar uma caixa de papelão no portão da casa e fico a olhando, não consigo ver o seu rosto porque estou muito longe e depois de um tempinho, ela beija a sua mão e coloca a mão na caixa. Olha para a nossa casa e depois novamente para a caixa, então se levanta e sai correndo. 

Acho isso muito estranho, será que ela colocou algum animal ali dentro? Saio da janela e vou correndo pelo corredor, desço as escadas e Tia Carmem grita para que eu não desça correndo, mas desta vez eu não paro e saio da casa indo até o portão, passo minha mão pelo vão da grade e levanto a Tampa da caixa para eu conseguir ver.

Quando faço isso levo um susto! Tem um bebê dentro dela, ela está dormindo enrolada numa manta e tenho certeza que essa manta não está esquentando ela, porque está muito frio. Tia Carmem me chama e não me levanto, me viro e a vejo se aproximando de mim com uma jaqueta na mão; desde o dia em que cheguei aqui eu não disse uma palavra a ninguém, não quero falar para não apanhar. Tento ser obediente e aguento tudo o que as outras crianças me fazem quieto, mesmo quando a tia Carmem me diz que posso contar quem foi que me empurrou, bateu ou ofendeu! Mas, eu não falo nada e fico quieto. 

A tia se aproxima e quando ela chega perto de mim, colocando a jaqueta em meus ombros, eu falo. 

— Tia Carmen, tem um bebê aqui dentro — na mesma hora ela para e seus olhos se enchem de lágrimas, tia Carmem é bem legal! Gosto dela.

— Tia tem um bebê aqui e está frio, coloque a jaqueta nela — tiro minha jaqueta lhe entregando, tia Carmem olha para a caixa e põe a mão na boca, depois pega o molho de chaves que fica no seu bolso e abre o portão para sairmos, ela se ajoelha e abre a caixa, pega a bebê  que resmunga. Parece estar num sono bem pesado, ela não acorda de jeito nenhum e a tia Carmem se levanta dizendo:

— Kaléo pega para tia tudo que você achar na caixa e traz para mim — faço o que ela pediu, pego o papel que está lá dentro e ela entra, vou atrás dela e ela fecha o portão. Caminhamos para a casa, vou em todo momento olhando para a bebê nos braços da tia Carmem, ela não tem ninguém igual a mim, entramos na casa subindo as escadas e fomos para o seu quarto; ela coloca a bebê na cama e mexe nela.

Coloca vários travesseiros em sua volta, se levanta e faz um carinho em meus cabelos, depois sai correndo, não demora muito e a tia Carmem aparece de novo no quarto, estou no mesmo lugar e sinto uma coisa estranha… tenho que ficar do lado da bebê para ninguém brigar ou fazer mal para ela.

Tia Carmen diz que ela está limpinha, se levanta da cama, vindo na minha direção e se abaixa na minha frente igual à mamãe fazia, me pergunta o que tinha na caixa e entrego o papel, ela começa a ler e presto bastante atenção.

— Esse bebê é uma menininha, ela se chama Ayumi Clark e tem 2 meses — ela fala e a bebê começa a resmungar acordando, tia Carmem se levanta e vai até à cama pegando aquela bebê que mais se parece um pacote de tão pequena que embrulhada na manta, ela se senta com a Ayumi no colo, não sei o porquê, mas quero ficar perto dela. 

— Eu vou proteger ela tia, igual a minha mamãe fazia comigo, não vou deixar que ninguém a machuque — tia Carmen me olha e sorri, a bebê me olha e seus olhos são azuis iguais ao céu, sorrio porque gosto de admirar o céu.

*Fim das Lembranças.*

Saio dos meus pensamentos com um barulho me avisando que um e-mail chegou, abro o meu e-mail e vejo ser do Mayke, tem alguns vídeos do Carl e uma ficha com seus dados, endereço, numero de telefone… Abro o video e ele está chorando dizendo que a Ayumi não poderia ter feito o que fez com ele, consigo ver que as lágrimas são forçadas, tudo nele é forçado. Olho mais uma vez para aquele porta retrato em minha mão, eu a Ayumi não nos largamos mais dede aquele dia que a encontrei, a tia Carmen a adotou e assim foi até o dia em que fui adotado; eu tinha 10 anos e Ayumi 4.

Prometi a ela que não a deixaria sozinha e assim fiz, todo final de semana eu ia vê-la e foi até Ayumi completar 18 anos… ela resolver ir cursar faculdade de engenharia civil, tia Carmen deu um apartamento para ela quando estava viva e Ayumi conseguiu um emprego assim que terminou a faculdade, ela cresceu muito profissionalmente. Tia Carmen conseguiu ver Ayumi conquistar tudo, porém hoje ela não está mais conosco, ela faleceu já faz 4 anos, Ayumi deu a sua parte no orfanato para a Amora, a filha legítima de Tia Carmem.

Sou tirado dos meus pensamentos com o meu celular tocando e vejo ser um número desconhecido e rejeito a chamada, mais essa pessoa é insistente, quando vou rejeitar novamente olho para a ficha do Carl e o número que está me ligando é o dele, o que será que ele está querendo agora? Será que quer uma segunda rodada? 

ㅡ O que você quer Carl? Como conseguiu o meu número? Os socos que te dei não bastou não? Quer mais?

— Kaléo! — ouço a voz da Ayumi, é como se a minha armadura estivesse caído aos meus pés! Como pode ser ela? 

— Ayumi…

— Léooo… — a voz dela some e só escuto silêncio, não acredito que é ela.

— Ayumi, meu Deus!

— Sou eu… — ela para de falar e só ouço o som da sua respiração, ela está ofegante.

Escuto um barulho e alguém diz algo que não entendo, logo depois a ligação cai, ligo várias vezes e só está caindo na caixa postal, não sei o que fazer.

Ayumi estava esse tempo todo com o Carl!

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