Capítulo 2

O cheiro de perfume barato, enjoativo e doce, ainda impregnava o couro macio do carro de Jonas, uma presença fantasma que gritava verdades sem dizer uma palavra. Meu baixo Fender, meu velho amigo, jazia esquecido no banco de trás, acumulando uma nova camada de poeira. Parecia um símbolo de tudo o que foi negligenciado, tudo o que foi deixado para desaparecer.

Jonas dirigia com facilidade, as mãos — as mesmas mãos que realizavam cirurgias complexas — agora segurando o volante, nos guiando pela neve que engrossava. Eu o observava, um estranho ocupando um espaço familiar.

— Você se lembra — ele começou, a voz suave, quase uma súplica — do seu pai me dizendo que eu tinha mãos feitas para a cirurgia? Ele disse que eu tinha um dom.

Olhei para ele, depois voltei a olhar pela janela.

— Eu lembro. — Minha voz saiu sem vida.

— Ele ficou tão orgulhoso quando entrei na residência. Disse que eu estava destinado à grandeza. — Ele fez uma pausa, com um tom nostálgico. — Ele sempre viu algo em mim, algo que nem eu mesmo via.

Ele não precisava dizer mais nada. Eu conhecia a história de cor. Meu pai, o renomado Chefe de Cirurgia, acolheu o jovem e ambicioso Jonas, vindo de uma origem humilde. Ele viu potencial, talento bruto e uma fome quase desesperada de sucesso. Ele abriu portas para Jonas que teriam permanecido trancadas para qualquer outra pessoa.

O carro foi preenchido pelos acordes melancólicos de uma velha música indie, de uma banda que amávamos na faculdade. A mesma banda em que eu tocava. Minha garganta apertou.

— Camila — ele murmurou, os olhos encontrando os meus brevemente no retrovisor. — Parece que foi em outra vida, não é? Todos aqueles sonhos, todo aquele... futuro.

— Foi em outra vida — cortei, antes que ele pudesse se afundar mais em sua nostalgia fabricada. — E esse futuro incluía você e a Cris, não incluía? Bem na época em que você decidiu que a Gabi precisava de uma tutora.

A mão dele apertou o volante. Os nós dos dedos, já brancos, pressionaram com mais força contra o couro escuro.

Lembrei do boletim da Gabi, um mar de notas vermelhas, seus olhos geralmente brilhantes nublados de frustração. Ela era uma sonhadora, minha Gabi, mais interessada em desenhar criaturas fantásticas do que em álgebra.

— Precisamos fazer algo, Jonas — eu disse, segurando o papel amassado. — Ela está com dificuldades.

Ele acenou com a mão, dispensando o problema.

— Crianças passam por fases. Ela vai recuperar.

Mas eu insisti.

— Não, não desta vez. Ela precisa de ajuda. Uma tutora.

Ele concordou, quase rápido demais.

— Conheço a pessoa certa. Uma estudante de enfermagem brilhante. Cris Lee. Ela trabalhou na recepção do hospital por um tempo. Muito articulada, boa com crianças, precisa de dinheiro extra.

Ele a descreveu em termos elogiosos, praticamente uma santa. Jovem, ansiosa, respeitosa. Cris chegou, uma visão de inocência juvenil em suéteres pastéis e um sorriso tímido. Ela era deferente, quase medrosa, sempre me agradecendo profusamente pelos menores favores.

— Oh, Dona Camila, é muita gentileza sua — ela sussurrou quando comprei um casaco novo para ela no inverno. — A senhora é como um anjo.

Um anjo. Uma cobra em pele de cordeiro, isso sim. Uma víbora que eu acolhi na minha casa.

Eu vi tudo, eventualmente. Os olhares demorados, os toques "acidentais", as mensagens tarde da noite. E então, a filmagem da câmera da babá. Meu coração se estilhaçou em um milhão de pedaços, não apenas por mim, mas pela tola ingênua que eu fui. Ela estava ensinando a Gabi, claro. Ensinando o Jonas a trair a esposa, a desmontar uma família peça por peça, bem debaixo do meu nariz.

O carro virou levemente, entrando na entrada arborizada familiar. Nossa entrada. A casa estava lá, elegante e imponente, emoldurada pela neve caindo. Tudo parecia igual. O gramado bem cuidado, as decorações de Natal de bom gosto piscando na varanda. Mas nada era igual. A casa era apenas uma concha bonita, oca por dentro, corroída pela mentira.

A porta da frente se abriu antes mesmo de Jonas colocar o carro no parque. Dona Helena estava lá, uma figura frágil em um xale tricotado à mão, os olhos arregalados com uma mistura de confusão e alívio.

— Camila, minha querida! — ela gritou, a voz trêmula. Ela correu para frente, ignorando Jonas completamente, e me envolveu em um abraço apertado e desesperado. O cheiro dela, uma mistura reconfortante de lavanda e talco, preencheu meus sentidos. — Você voltou! Eu disse a eles que voltaria. Onde você esteve? Aquela garota estranha... ela está tentando pegar minhas coisas. Ela disse que eu não precisava mais disso. — Ela apertava um álbum de fotos gasto contra o peito.

Meus olhos encontraram os de Jonas por cima do ombro dela. O rosto dele era uma máscara de vergonha e arrependimento.

Então, de trás de Dona Helena, uma visão emergiu. Cris. Ela estava usando meu roupão de seda, aquele que Jonas comprou para o nosso aniversário no ano passado. Pendia frouxo em sua estrutura pequena, uma paródia cruel de elegância. O cabelo dela estava úmido, como se tivesse acabado de sair do banho. Um sorriso tímido, quase triunfante, brincava em seus lábios enquanto ela olhava para mim, depois para Jonas.

— Oh, Dona Helena — ronronou Cris, a voz pingando falsa preocupação —, a senhora não deveria estar no frio. Venha para dentro. E Camila — acrescentou ela, o olhar afiando —, bem-vinda ao lar. Faz tempo, hein?

Capítulo 3

Desvencilhei-me gentilmente do abraço de Dona Helena, meus olhos fixos em Cris. O roupão de seda, o *meu* roupão, balançava com os movimentos dela. Senti uma raiva fria crescendo dentro de mim, mas a forcei para baixo. Eu estava aqui por Dona Helena, não para um barraco com a Cris. Ainda não.

— Estou aqui para ajudar a Dona Helena com a consulta médica — declarei, minha voz calma, inexpressiva. — Jonas e eu vamos levá-la.

Dona Helena agarrou minha mão.

— Sim, querida. Essa garota... ela diz que mora aqui agora. Ela fica tentando me dizer o que fazer. Diz que eu não deveria usar minhas próprias roupas. — Ela gesticulou vagamente em direção a Cris, a testa franzida em confusão. — Ela não é da família, é?

Meu coração doeu por ela. Essa mulher doce, que sempre me acolheu, me tratou com afeto genuíno. Lembrei dela agitada na cozinha, me ensinando suas receitas, especialmente sua famosa canja de galinha. Era o gosto de casa, de conforto.

E agora, a casa ainda cheirava vagamente àquela canja, um fantasma de conforto em um lar cheio de traição.

Meu olhar vagou para o canto da sala de estar, onde uma capa de contrabaixo empoerada estava encostada na parede. Não o meu Fender, mas um velho contrabaixo acústico, uma relíquia dos meus dias de faculdade. Lembrei da emoção do palco, a pulsação da música fluindo através de mim, meus dedos voando pelas cordas.

Jonas era meu maior fã naquela época. Ele ia a todos os shows, gritava meu nome, os olhos cheios de admiração.

— Você vai ser famosa, Camila — ele me dizia, com o braço em volta da minha cintura, me puxando para perto depois de um set particularmente selvagem. — Uma estrela do rock. E eu estarei bem aqui, te aplaudindo.

As palavras dele, antes uma promessa, agora pareciam uma piada de mau gosto.

Então meu pai adoeceu. O brilhante Chefe de Cirurgia, derrubado por uma doença súbita e agressiva. No leito de morte, ele segurou a mão de Jonas, a voz fraca.

— Cuide da minha menina, Jonas. Ela é boa demais para este mundo.

Jonas prometeu, os olhos cheios do que eu acreditei ser tristeza e compromisso genuínos.

A carreira dele, alimentada pelas conexões do meu pai e sua própria ambição implacável, disparou depois disso. Ele se tornou o menino de ouro, o cirurgião com o toque de Midas. E eu? Eu desisti do baixo, desisti dos bares esfumaçados e das jams tarde da noite. Tornei-me a esposa perfeita do cirurgião, gerenciando nossa casa enorme, oferecendo jantares elegantes, mantendo a imagem imaculada dele. Troquei meus sonhos pelos dele, acreditando que eram *nossos* sonhos.

Quando meu pai morreu, meu mundo desabou. Jonas, sempre o forte, me segurou.

— Vou cuidar de tudo, Camila. Apenas apoie-se em mim. Para sempre.

Para sempre. Que piada.

Encontrei a filmagem da câmera por acidente. Um alerta no meu celular, uma notificação que eu geralmente ignorava. Mas naquela noite, algo me fez clicar. E lá estava. Não a Gabi lutando com o dever de casa, mas a Cris, jogada no colo do Jonas, os lábios colados. Os gemidos suaves, os sussurros carinhosos. Meu mundo fraturou tudo de novo.

Lembrei da fúria gélida que me consumiu. Invadi o escritório dele, o laptop ainda aberto, a prova condenatória ainda na tela.

— O que é isso, Jonas? — Minha voz foi um som gutural, cru, que mal reconheci.

Ele olhou para cima, a expressão uma mistura de culpa e aborrecimento.

— Camila! O que você está fazendo? Espionando?

— Espionando? — gritei, a fachada de calma se estilhaçando. — Esta é a minha casa! Meu casamento! E isso... isso é uma traição!

Ele se levantou, elevando-se sobre mim. Cris, uma sombra atrás dele, se encolheu.

— Não seja histérica, Camila. Não é o que você está pensando.

— Não é o que eu estou pensando? — Avancei nele, minhas mãos voando, desesperada para apagar a imagem da minha mente. Ele segurou meus pulsos, o aperto como ferro. Então, ele me deu um tapa. Forte. Minha cabeça estalou para trás, a dor aguda um eco chocante da ferida mais profunda.

— Você está me humilhando! — sibilou ele, os olhos queimando com uma fúria fria que eu nunca tinha visto dirigida a mim. Ele me empurrou para longe, em direção à porta. Cris, choramingando, aninhou-se ao lado dele. Ele acariciou o cabelo dela, o olhar ainda fixo em mim, desprovido de calor.

Tropecei para fora, deixando-os no escritório opulento, o segredo deles agora dolorosamente exposto. Os outros funcionários, as empregadas, as cozinheiras, eles deviam saber. Os olhares desviados, os sussurros abafados, de repente faziam sentido. Eu fui a última a saber, a idiota.

Desabei no jardim coberto de neve, o frio cortante um conforto estranho contra a humilhação ardente. As lágrimas congelavam nas minhas bochechas. Meu celular vibrou. Uma mensagem de um número desconhecido.

"Ele nunca te amou, sua vaca frígida. Ele me disse que você era apenas um troféu. Estou dando a ele o que você nunca pôde."

Cris.

Uma nova onda de náusea me atingiu. Eu queria gritar, atacar. Queria expô-los, derrubar a fachada cuidadosamente construída dele. Mas as palavras do meu pai ecoaram na minha mente: "Mantenha sempre sua dignidade, Camila."

Então, eu tentei. Contatei um advogado, reuni as provas que pude. Mas Jonas, com seu poder e suas conexões, estava sempre um passo à frente. Ele ameaçou cortar meu acesso a Dona Helena, lutar pela custódia total da Gabi, me sangrar financeiramente. Ele deixou claro que eu não era nada sem ele.

No meu desespero, considerei ir a público, expor a infidelidade. Mas ele me avisou.

— Você vai arruinar nossas reputações, Camila. Pense na Gabi. Pense na mamãe.

As palavras dele, manipuladoras como eram, funcionaram. Hesitei. Comecei a me perder, a acreditar no *gaslighting* dele. Talvez fosse minha culpa. Talvez eu fosse muito fria, muito insensível. Afundei em uma depressão profunda, me negligenciando, negligenciando tudo. Gabi começou a me evitar, sentindo a tensão, a tristeza que se agarrava a mim como uma mortalha.

Então, numa noite sem dormir, sentada no escuro, olhando para o teto, um pensamento perfurou a névoa do desespero. Lembrei de um velho drive de backup esquecido no escritório de Jonas. Eu o tinha encontrado enquanto procurava os álbuns de fotos antigos da Gabi. Dentro, não fotos, mas uma pasta oculta. Documentos financeiros. E-mails. Um plano detalhado. O plano dele para me deixar sem nada, para garantir que eu permanecesse dependente dele após o divórcio. Um último e cruel giro da faca.

Meu coração ficou dormente. Ele não era apenas infiel; ele era malicioso. Ele não estava apenas entediado; ele estava planejando minha destruição. Naquele momento, vendo a traição fria e calculada exposta em preto e branco, os últimos vestígios do meu amor, da minha esperança, da minha dúvida foram arrancados. Foi um despertar frio e duro.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED