Capítulo 2

Matteo Dvorak

Anos antes

— Vamos trocar de lugar, agora você vai dirigir. — A voz do meu tio saiu mole por causa do excesso de álcool.

— Não. Amanhã. Já está escuro — aleguei sentindo o medo de errar ser mais forte que o de arriscar.

— Só uma volta — disse já parando o carro e tirando o cinto. — Não tenho sobrinho covarde.

Ele saiu do carro. Ainda tentei insistir, mas me vi no volante com meu tio ao lado ditando o que eu tinha que fazer para dirigir.

Apesar dele dar mais atenção a garrafa de cerveja que bebia, estava tudo indo bem até que vi Maria atravessando a rua. Era para eu diminuir a velocidade, mas o carro acelerou de uma vez.

Olhei para baixo e pisei no freio.

— Olha para frente! — meu tio gritou nervoso.

Apavorado olhei para frente ao mesmo tempo em que ele gritava para eu colocar o pé no freio e empurrava o meu pé. E o carro acelerou outra vez... e aconteceu. Foi tudo rápido, quando dei conta o corpo voava sobre o carro.

Dias atuais

Gael muitas vezes me tirava do sério. Eu não sou como ele, não sou como Apollo. Sempre fui na minha, e talvez tenha ficado ainda pior depois daquele acidente. Meus pais me falaram para eu não me culpar, mas era impossível, mesmo que fingisse que não me afetava para não preocupá-los. Acidente ou não, eu matei alguém. Uma pessoa cheia de vida que nunca mais sorriria ou sofreria. Isso matou algo em mim.

Tentei seguir com a minha vida, juro que tentei. Até me apaixonei pela primeira vez, o que foi uma grande decepção. A garota era fácil demais, ao ponto de ser pega transando com meu primo, filho da mulher que matei. Zeen me odiava e imagino que tenha feito aquilo só para me machucar. Estava no seu direito. Mas isso também mexeu comigo. Eu era um adolescente, tinha perdido a minha virgindade com ela. E por causa desse incidente fechei o meu coração e todas as mulheres com as quais sai eram profissionais ou interesseiras. E eu sempre deixei claro que elas nunca seriam nada para mim, somente uma fonte de prazer descartável. Feio, não é? Eu devo ser um monstro. Ou não. Elas não são obrigadas a nada.

Elas nem eram as que mais me irritava. Gael estava em primeiro lugar. Não leve a mal, eu amo o meu irmão, mas quando ele me olha tentando me decifrar tenho vontade de socar o seu rosto. Por ser alguns míseros minutos mais velho, acha que está no direito de cuidar de cada passo dos seus irmãos. Estou pensando seriamente em seguir o exemplo de Apollo e sair pelo mundo me divertindo e me encontrando. Tenho certeza que meu irmão mais “velho” dará conta de tocar a Dvorak sem nenhum problema.

Como acordei de péssimo humor, mal terminei o café da manhã e me levantei. Estava saindo da sala de jantar quando me lembrei das novas contratações.

— Você vai querer que eu esteja ao seu lado quando for receber os novos contratados? — perguntei.

Eu já sabia a resposta, mas fiz questão de perguntar:

— Óbvio! Mesmo que você não diga nem cinco palavras, acho essencial.

Só balancei a cabeça concordando e sai. Queria passar na banca e comprar jornais antes de ir para a empresa. Era trabalho da minha secretária, só que estávamos em transição para uma nova. A última teve que sair por exigência da família — marido que queria a esposa em casa depois do casamento — e a provisória não parecia ter esperança de efetivar. Só podia ser isso, porque ela não fazia nada direito.

Quando cheguei na empresa, não demorou e Gael e eu tivemos que receber os novos membros da família Dvorak.

Enquanto meu irmão fez um pequeno discurso, apenas dei as boas-vindas quando me passou a palavra. Sei que ele ficou com raiva, mas preferi evitar falar, pois não era muito bom com as palavras quando acordava de mal humor.

Logo saímos do saguão em direção às nossas salas. Foi só quando entrei na minha sala que percebi que levei comigo o sentimento de que algo estava faltando. Demorou alguns segundos para eu perceber que o problema era a mesa da minha secretária... vazia.

— Droga! — resmunguei batendo o punho fechado na mesa onde a minha secretária nova deveria estar.

Entendi a merda que fiz, afinal não sou tão monstro assim.

Podia esperar que alguém a trouxesse, mas resolvi voltar e buscá-la. Seria péssimo deixar a pessoa que praticamente seria a minha sombra na empresa chegar no primeiro dia e ficar jogada esperando alguém disposto a orientá-la a onde ir. Era esperar demais que ela andasse com uma foto minha e adivinhasse o andar onde trabalharia. Merda!

Quando sai do elevador, a vi. Só podia ser ela porque não havia mais ninguém com ar de novato.

Ela estava encolhida no canto e a Juliet ia em sua direção, mas desistiu ao me ver. Acho que queria saber o que eu faria antes.

Diferente da mulher na foto do currículo que vi alguns dias atrás, Ayla Garcia parecia magra e tímida demais. Vê-la encostada na parede com um olhar perdido em direção a Juliet, o jeito como torcia as mãos uma na outra... Não sei. Ela despertou o meu lado protetor.

Ela viu que Juliet me encarava e desviou para mim o seu olhar cheio de expectativa. Um olhar assustado e meigo.

— Senhorita Garcia, desculpe deixá-la para trás. Foi um erro causado pela minha distração — disse parando perto dela e indicando com um gesto da mão para caminharmos em direção ao elevador. Era nosso trabalho orientarmos nossas secretárias, afinal assim elas aprenderiam nosso jeito de trabalhar bem mais facilmente.

Ela começou a caminhar na direção indicada. Não me passou despercebido o fato de que suas mãos tremiam, muito menos que o seu vestido social cinza e preto era muito maior que o seu número. Ela parecia perdida dentro daquele tecido.

Apesar de tudo, era uma bela mulher. Seus cabelos loiros e lisos iam até os ombros em um corte repicado e seus olhos eram de um verde que se assemelhava a uma esmeralda bem lapidada. Devia ficar um arraso se cuidasse mais da beleza que possuía.

— Não tem que pedir desculpas, senhor Dvorak. — Sua bela voz, baixa e suave, me tirou da análise.

— Me chame de Matteo, é a principal regra para trabalhar comigo — comentei tentando melhorar o clima de primeiro dia.

— Sim senhor — respondeu simplesmente.

— Me acompanhe. Vamos ao trabalho — disse assim que a porta do elevador se abriu.

Esperava sinceramente que o jeito tímido dela não atrapalhasse no trabalho. Os poucos dias com uma secretária ruim já foram suficientes. E se ela fosse realmente um bichinho assustado, fugiria na primeira conversa de corredor que escutasse. Afinal, meu jeito introspectivo causa muitos comentários, sei bem o que falam por ai. Segundo dizem; eu sou o irmão sombrio, Apollo o bon vivant e Gael o poderoso chefão.

Capítulo 3

Ayla Garcia

O dia foi bem longo e tenso. Matteo Dvorak mexia comigo de um jeito estranho. Ele me deixava nervosa. Nunca tinha visto olhos como os dos irmãos Dvorak, e ele era muito grande, fazia eu me sentir um criança ao seu lado. E ainda tinha que lidar com o fato de que vez ou outra me pegava imaginando como seria beijá-lo. Um pensamento idiota para alguém que acaba de literalmente fugir de um relacionamento.

Eu tentava agir profissionalmente e sorrir sempre que podia. O bom de o dia ter sido tenso é que nem parei para pensar no meu passado.

No fim da tarde, ele passou pela minha mesa, desejou um bom descanso e se foi.

Desliguei o computador, peguei as minhas coisas e suspirei enquanto me dirigia ao elevador.

Foi no elevador que encontrei Rubia. Conversamos um pouco e na saída também encontramos Dominique. Rubia se foi com o seu namorado, depois de nos avisar para não perdermos nosso emprego porque queria continuar nos encontrando. Helena me falou tudo que sabia sobre a empresa e eu já sabia que não podia errar ou a minha vaga estaria nas mãos de um dos muitos desesperados por uma.

Dominique foi comigo até a estação e seguimos em direção diferentes.

Enquanto seguia até a casa de Helena, meu coração se mostrou mais leve. Algo me dizia que minha vida seguiria por melhores caminhos e que Rubia e Dominique seriam importantes em minha vida. Havia me sentido ligada a elas desde o primeiro momento. Era isso que estava faltando em minha vida, amizade, liberdade, amor-próprio, e mais algumas coisinhas. Eu conquistaria tudo com esforço e dedicação. E não fugiria de amar outra vez. Deixar Roberto ser a única lembrança do que é um relacionamento amoroso estava bem longe dos meus planos. Se eu tinha medo de viver aquilo tudo novamente? Claro. As feridas não estavam completamente cicatrizadas, nem no meu corpo nem na minha alma. Mas eu tinha mais medo de perder as esperanças e mais medo ainda de nunca ter a família que sempre sonhei.

Suspirando, olhei para o teto do metrô. E agradeci.

“Deus, obrigada por me trazer até aqui.”

***

Os dias passavam e eu estava cada vez mais acostumada com o trabalho. Quase sempre via a Rubia, que me ajudava a fazer o meu trabalho. Ela se sentia inútil sendo secretária de alguém que não vinha trabalhar.

No fim de semana Helena me levou para uma volta no Parque Municipal Benedito Bueno de Morais. Foi um sábado maravilhoso. Helena e seu marido pareciam muito felizes, era a típica família de comercial enquanto brincavam com o pequeno Gabriel. Olhá-los me faziam lembrar do filho que perdi. Doía pensar que uma vida foi ceifada por causa da maldade e ciúmes de Roberto, mas imaginar que uma criança poderia sofrer o mesmo que eu me faz agradecer a Deus por levar o meu anjinho ao céu logo nas primeiras semanas. Se é um pensamento cruel... Não sei. O que sei é que uma criança poderia morrer se tivesse passado pela metade do que sofri. As palavras de Roberto sobre o que faria com um filho que tivéssemos me congelava.

“Eu me casei com você para ter uma mulher para fazer comida e ser comida, não para sustentar nenhum catarrento. Engravida para você ver o que faço com “a coisa”. Meus cães adoram carne.”

Lembrar daquilo era mais assustador do que lembrar da surra que levei naquele dia, por simplesmente dizer a ele que poderia estar grávida.

***

Na segunda feira fui trabalhar com um animo a mais. Queria ver Rubia e Dominique. E qual não foi a minha surpresa quando Rubia chegou na minha mesa quando eu estava saindo para o almoço.

— A Dominique foi demitida — disse triste.

— O que? Por que? — perguntei incrédula. De nós três, Dominique era a que tinha o melhor cargo e se mostrava tão feliz ao falar do seu trabalho.

— Segundo as fofocas dos corredores, ela chegou atrasada sem justificativa válida.

— Você tem algum telefone, e-mail, endereço dela? Não queria perder o contato.

— Não tenho nada, mas pode deixar que dou um jeitinho e consigo com alguém do setor dela ou do RH. Agora vamos almoçar que estou faminta. Com um belo bife na minha frente consigo raciocinar melhor. — Colocou a mão na barriga para ilustrar o quanto estava com fome. Rubia era linda até fazendo careta.

Fomos almoçar e acabamos não tendo a chance do nos falar mais naquele dia.

Fui para casa pensando se realmente perderia o contato com Dominique. Ficaria muito triste. Já sentia que éramos amigas.

Para meu alivio, antes que Rubia conseguisse os contatos de Dominique, ela reapareceu na quarta-feira com a novidade que seria readmitida. Uma novidade maravilhosa. Almoçamos juntas e marcamos de ir a um bar. Seria a primeira vez que eu sairia desde que cheguei em São Paulo. Liguei para Helena e ela ficou muito empolgada.

O namorado de Rubia nos levou e nos deixou no bar. Isso depois de se despedir com um beijo de cinema prometendo que voltaria após terminássemos nossa reunião de meninas.

Rubia e eu estávamos curiosas para saber o que aconteceu com nossa amiga, então quase cai quando a ouvi dizer:

— Eu caí na lábia do Dono do mundo... Foi isso. Cai na lábia dele e por causa de um mal-entendido besta me atrasei e fui demitida, mas ele resolveu.

Claro que exigimos maiores explicações e detalhes. Saber que nossa amiga estava envolvida com um dos trigêmeos mais desejados da América Latina era uma novidade e tanto. Nem preciso dizer que pesquisei tudo que podia sobre a família e a empresa depois que comecei a trabalhar na Dvorak.

Nos divertimos naquela noite. E no fim, o namorado de Rubia voltou e nos levou para casa.

No dia seguinte, voltamos a rotina nos nossos trabalhos.

Sendo que na minha rotina estava inserido ser tola e sonhar com meu chefe. Ele era muito surrealmente lindo e sua gentileza para comigo me fazia viajar. A imaginação não teria nada de perigoso, enquanto não saísse da minha mente.

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