Capítulo 2

O resto do dia foi tranquilo. Depois de conhecer todo o acampamento e ouvir o tempo todo João resmungar sobre o quanto a Clara é perfeita e seus olhos são lindos, estamos no alojamento dos meninos. Juro que esse garoto não para de falar, está sempre sorrindo, falando e isso está começando a me irritar.

- João, você nunca cala a boca?

Pergunto sentando na cama que meu querido novo amigo guardou para mim ao seu lado.

- Me calo quando durmo.

Diz sorridente e reviro os olhos.

- Se quer ficar do meu lado e me deixar feliz, preciso que faça duas coisas.

- Pode mandar.

Se ajeita na cama, se cobre e fica me olhando.

- Cala a merda da boca e pare de sorrir.

João cai na gargalhada e vejo os meninos nos olharem.

- Desculpa! É que você parece aquele velho resmungão do desenho da casa que voa. Cara, ele nunca está feliz e vive reclamando.

- Eu não sou assim!

- É sim! Do tempo que estou do seu lado só fez cara feia e criticou.

Agora se senta e me encara firme.

- Você prefere viver ao lado de uma pessoa chata, reclamona ou feliz e espontânea?

- Feliz e espontânea.

- Então me aceita que dói menos e tente não ser chato, muito menos reclamão, que vamos nos entender.

Seguro a vontade de sorrir.

- Boa noite, velho!

Fala cobrindo a cabeça para dormir.

- Boa noite, sorriso!

Ri alto e me pego sorrindo também. Talvez ele não seja tão irritante assim. Respiro fundo e penso nas palavras da minha mãe: "TENTE SE DIVERTIR". Só espero que amanhã seja melhor.

****************************

Acordamos cedo e após a nossa higiene seguimos para o refeitório. Coloco minha bandeja no balcão e escolho algumas coisas para comer.

- Dormiu bem?

João pergunta atrás de mim.

- Sim.

- Eu não.

Olho para ele sem entender.

- Não ouviu nada de noite?

- Não.

- Dormiu com os fones?

Pergunta apontando para os fones no meu pescoço.

- Sim.

- Ontem uma galera fugiu das cabanas e se reuniu para tocar e cantar na beira do lago.

- Legal!

Digo saindo com a minha comida e ele vem atrás. Se não dormiu, se está reclamando é porque ficou no alojamento.

- Por que não foi?

- Eu não sei o que fazer, chego lá e fico perdido, não quero parecer um babaca. Você bem que poderia ir comigo essa noite.

Paro em frente a uma mesa encarando ele.

- Sabe que essa coisa de dupla não é o tempo todo, certo?

- Sei, só quero um amigo ao meu lado.

João parece um cachorrinho carente querendo um amigo.

- Vou pensar, mas tente controlar mais essa sua boca. Se me prometer falar menos durante o dia, irei com você a noite.

- Fechado!

Tomamos o café e seguimos para o ponto de encontro com todos do nosso grupo.

- Bom dia a todos! Hoje começaremos nossas atividades, vamos nos separar em quatro equipes. Amarela, azul, verde e vermelha, então se separem.

Começa aquela correria e seguro o João.

- Vamos ficar sem grupo.

Reclama me encarando.

- Para de ser afobado, o grupo que terminar com menos entramos.

Ele observa tudo e um enorme sorriso surge.

- O grupo da Clara!

Sussurra, vai andando até o grupo com menos pessoas e o sigo.

- Cara, você é um gênio!

Afirma feliz enquanto nos aproximamos.

- Pare e observe antes de correr.

Concorda com a cabeça, olho para o meu lado, vejo um lindo sorriso e olhos verdes me encarando.

- Oi!

A garota sussurra para mim.

- Oi!

Devolvo sorrindo e esse sorriso é novo pra mim em meus lábios.

- Sou a Ana!

- Eduardo!

E alguém do nada abraça a garota.

- Fique por perto cabeça, assim consigo te proteger das bexigas.

- Não preciso de proteção.

Responde o garoto bem grudento, revira os olhos e o menino ri. Puxa ela para longe e apenas observo. Sinto um toque no meu ombro.

- Vejo que conheceu a Ana e o Fabrício.

- Ele é o namorado dela?

- Não.

João responde animadinho.

- Irmão mais velho da Clara, todos acham que ele é caidão pela Ana, mas nunca vi nada.

Respiro fundo e não gosto dessa sensação deles juntos.

- Vocês serão a equipe azul.

Dora diz passando e nos entregando coletes azuis.

- Vamos fazer a guerra de bexiga, que claro estará com água.

Manoel avisa passando e colocando nos nossos coletes oito bexigas.

- Se ao final alguém ainda estiver seco o grupo dessa pessoa ganha.

- O que ganhamos?

João pergunta.

- Festa no lago essa noite. Cada um tem cinco minutos para se esconder valendo agora.

Todo mundo começa a correr e João desaparece. Sigo caminhando pelo meio do mato, vejo algumas pedras e subo me sentando nelas.

- Sentado ai não vai nos ajudar a ganhar.

A voz dela soa ao meu lado, viro e assisto Ana sentando na pedra comigo.

- Ficando aqui me excluo e provavelmente ninguém me molha.

- Mas então não vai molhar ninguém.

Ela diz com um lindo sorriso.

- Ainda fico seco.

- Já entendi você, seus pais te forçaram a vir, está evitando se divertir.

- Exatamente!

- Já imaginou que talvez possa ser divertido?!

- Acho impossível!

Vem se aproximando de mim e sua respiração quase se mistura a minha. Encara minha boca assim como faço com a dela e sinto meu coração acelerar.

- Me desculpa!

Ana murmura estourando uma bexiga na minha cabeça, me molhando todo e começa a rir. Seguro a risada mordendo os lábios de olhos fechados.

- Sabe que sou da sua equipe, né?

- Sim!

Sua gargalhada tem um som muito agradável.

- Sabe que por sua culpa vamos perder, né?

- Ainda estou seca.

Abro meus olhos e encaro olhos verdes.

- Você não vai fazer isso!

Fala se afastando e rindo mais ainda.

- Isso o que?

Me faço de louco e vou me aproximando dela. Ana levanta, sai correndo e pulo para fora da pedra correndo atrás dela. Observo seus longos cabelos escuros ao vento e tenho quase certeza que nunca vi nada tão perfeito se movendo. Ela corre rindo e às vezes me olha de um jeito muito incrível mordendo os lábios. Posso correr mais rápido e pega-la facilmente, mas estou curtindo vê-la assim. Acho que sei como o leão se sente perseguindo sua presa. É excitante de um jeito surpreendente! Ela corre para uma arvore e se esconde.

- Sabe que estou te vendo, certo?

- Sei! Preciso de ar e a arvore é grande. Posso rodar ela por muito tempo fugindo de você.

Ando devagar e me aproximo.

- Eduardo...

Me chama e gosto do meu nome em seus lábios. Ando pela lateral da arvore.

- Ainda está ai?

Pergunta e vejo olhar para um lado. Pulo a sua frente e prendo-a na arvore.

- Merda!

Resmunga, suas mãos estão no meu peito e seu corpo colado no meu, preso a árvore.

- Você não me molharia...

Fala manhosa e levando a mão até o meu rosto. Seus dedos vão tocando minha bochecha, queixo e contorna meu rosto com delicadeza. Gosto do toque dela, de seus dedos delicados em mim. Aproximo meu rosto do dela que está ofegante, colo nossas testas encarando seus olhos.

- Molharia!

Digo estourando uma bexiga em sua cabeça que ri muito, sua risada se mistura a minha.

- Isso é divertido!

Afirmo empolgado, soltando o corpo dela da árvore.

- Eu sei!

Joga uma bexiga em mim me molhando mais. Estamos os dois atirando bexigas sem parar e ensopados. Assim que as bexigas acabam ela pega a minha mão e me puxa.

- Onde vamos?

- Voltar, precisamos de toalhas. Uma das regras dessa brincadeira é se secar rápido, assim evitamos uma doença.

Enlaça nossos dedos e sigo sorrindo feito um idiota para a cabana.

Assim que nos aproximamos observo muitos do nosso grupo molhados, mas não vejo João e nem Clara. Ana me passa uma toalha e fica com uma. Seco o meu corpo e ela o dela sem deixar de sorrir um minuto.

- Parece que não temos vencedor.

Manoel anuncia quando todos chegam, João está com um enorme sorriso ao lado da Clara.

- Vamos fazer essa festa coletiva então. Todos para um banho quente!

O supervisor grita e me separo da Ana. João se aproxima de mim suspirando.

- Beijou ela?

- Sim, melhor dia da minha vida.

*******************

O resto do dia foi de caminhada e comida. O tal do Fabrício não desgrudou da Ana, não que esteja com ciúmes, apenas gostei de ficar ao lado dela.

- Vamos nos arrumar para a festa.

João diz seguindo para o alojamento.

*************

Me arrumo com uma calça jeans escura e uma camiseta branca pólo. Ele está de jeans claro e camiseta preta pólo.

Seguimos para o grupo em volta da grande fogueira. Manoel toca violão e a galera canta com ele. Pego algo para beber e observo todo mundo, ela ainda não veio.

- Clara!

João sussurra e me viro para onde ele está olhando. Clara vem com um vestido quase curto azul. O que chama a minha atenção é a pessoa que vem ao seu lado. Respiro fundo vendo Ana com um vestido longo florido bem claro e com seus cabelos presos em um rabo de cavalo. Seu sorriso se amplia ao me ver e as duas estão vindo em nossa direção.

Capítulo 3

- Oi, para vocês!

Clara diz para o João que parece um babaca sorridente.

- Oi, princesa!

Ele diz beijando o rosto dela e reviro os olhos ao ouvir ele chamar ela de princesa. Isso é muito constrangedor e ridículo.

- Oi!

Ana sussurra para mim com um sorriso tímido.

- Oi!

Respondo olhando seus lindos olhos.

- Achei que não viria.

- Por que pensou isso?

Pergunto sem entender seu raciocínio.

- Porque está sendo forçado a passar por tudo isso e talvez quisesse ficar no quarto para fugir desse povo todo que te irrita.

Dou um sorriso torto e me aproximo de sua orelha.

- Nem todo mundo me irrita aqui.

Ela fecha os olhos e posso sentir sua respiração acelerada. O cheiro dela invade minha narina e seu doce perfume me inebria.

Um cheiro único que nunca havia sentido em toda a minha vida. Passo meu nariz em seu cabelo e ela solta um longo suspiro.

- Vamos para perto da fogueira?

Clara pergunta nos tirando desse transe maravilhoso e ao mesmo tempo perturbador. Eu nunca me senti tão perdido assim perto de alguém.

- Vamos!

Ana sussurra e se afasta de mim seguindo com Clara. Posso ver um leve rubor em suas bochechas e algo em mim diz que ela também sente essas coisas estranhas quando está comigo. João me olha e vejo um brilho em seu olhar.

- Ela mexeu com você.

Bufo para ele e sigo até a fogueira.

- Ela mexeu muito! O jeito que olha pra ela. Você nunca sorri e quando ela chega você não tira o sorriso da cara.

- Cala a boca, sorriso!

- Vamos lá seu idoso, seja um adolescente e beije na boca como se o mundo fosse acabar.

- É assim que um adolescente deve se comportar?

- Quase assim.

Ele começa a gargalhar.

- Minha mãe disse que são os hormônios.

Começo a rir e sento no tronco de uma árvore em frente a fogueira. Ergo meu olhar e a minha frente está ela. Os tons alaranjados da fogueira a deixam ainda mais linda. Está ao lado do tal Fabrício que abraça ela com carinho. Desvio meu olhar sentindo um gosto amargo na boca com essa cena.

- Está tudo bem?

- Sim!

Respondo ao João bebendo toda a minha bebida de uma vez.

- Vou pegar mais bebida.

- Ok!

Levanto e sigo para a mesa com as bebidas.

- Oi!

Uma menina de cabelos e olhos negros se aproxima toda sorridente.

- Oi!

Respondo enchendo meu copo com refrigerante.

- Sou a Lígia!

- Eduardo!

Sou curto na resposta, sem querer dar espaço para conversa.

- De Santos?

- Não, São Paulo.

- Eu sou de Santo André.

Fico calado, apenas observo de longe Ana e Fabrício.

- Não gosta muito de conversar, né?

- Não.

Ela suspira.

- Não estou dando em cima de você, juro. Apenas não conheço ninguém e você me pareceu legal para conversar.

Encaro seus olhos e vejo tristeza.

- Me desculpe, não queria parecer um idiota. É que realmente não sou bom em socializar.

- Eu percebi.

Ela diz com um lindo sorriso.

- Mas conheço alguém que pode ser interessante para você.

Digo pegando sua mão, puxando-a comigo. Me aproximo do João que fica meio tímido.

- João está é Lígia, é de Santo André e está meio perdida no meio de tanta gente.

- Olá gatinha! Perdida e foi achar justo o idoso?

Olho para ele bravo e ela começa a rir.

- Agora se explica o mau humor.

- Que bom que se entenderam.

Digo irritado.

- Não fica assim irritadinho! Lígia, depois que conhece melhor o resmungão percebe que é até legal.

- Vai a merda João!

Os dois começam a rir e me pego rindo também. Sinto meu corpo queimar e me viro para ver o que é. Ana me encara e assim que me vê olhando para ela fica vermelha e vira o rosto. Estava me vendo com Lígia e aqueles olhos estavam me fitando de um jeito estranho. Será que sente ciúmes de mim? Acho impossível! Volto a conversar com Lígia e João que se entenderam super bem. Ela pelo menos curte esse bom humor dele e o fato de não parar de falar.

- Vou andar um pouco.

Digo me afastando dos dois, é muita gente falando pro meu gosto, preciso sair um pouco ou vou pirar. Ando até um canto escuro de frente para o lago. A lua ilumina a água e o torna ainda mais incrível. Sento na grama e fecho meus olhos curtindo essa paz.

- Fugindo?

A doce voz dela surge próxima do meu ouvido.

- Tentando.

Digo segurando o sorriso.

- Me desculpe, não queria te atrapalhar.

Abro meus olhos e a vejo indo embora.

- Ana!

Chamo por ela que para de andar.

- Fica!

Peço em um sussurro.

- Não precisa ser gentil Eduardo, vou deixar você sozinho.

Sua voz soa com tristeza e minha vontade é de me afogar nesse lago depois de ter sido um idiota.

- Eu realmente quero que fique, gosto de ficar perto de você.

Ela se vira me encarando.

- Tem certeza?

- Sim.

Vem andando até onde estou e senta ao meu lado. Abraça as próprias pernas e observa o lago.

- Eu não queria ser grosso, me desculpa.

Ela me olha e sorri.

- Você não curte mesmo tudo isso né?

- Nunca vivi tudo isso, sempre evitei por achar que não combina comigo.

- Ser adolescente e curtir as férias com adolescentes não combina com você, adolescente? Isso não te parece estranho?

- Eu meio que não sou um adolescente normal.

- Percebi.

Olho bravo para ela que ri de mim. Se deita ao meu lado e olho para ela.

- Deita ao meu lado.

Pede e me deito ao seu lado sentindo meu braço encostar no dela.

- Olha esse céu e essas estrelas.

Observo o céu estrelado.

- Já parou para observar como é lindo?

- Não.

- Mas você acha lindo?

- Sim.

- Aqui é a mesma coisa! Se parar para observar vai perceber que é legal. Se nunca parar para ver, vai continuar julgando como chato. Cada dia aqui é de um jeito diferente e isso é muito bom.

- Hoje eu me divertir e muito por sinal.

Sinto a mão dela na minha, seus dedos se enroscam nos meus.

- Então se permita ser um adolescente como todos da sua idade.

- Eu nem sei como fazer isso.

Ela se vira e fica de lado me olhando, faço o mesmo e encaro seus olhos.

- Eu te ensino, apenas se solte e o resto te guio.

O ar que sai da sua boca toca meu rosto. Nossos olhos estão conectados de um jeito mágico. Levo minha mão ao seu rosto e acaricio sua pele macia. Ela fecha os olhos e sinto sua outra mão em meu peito. Observo seus lábios carnudos e avermelhados. Percorro com meu dedo seu lábio inferior e ela geme com o meu toque. Aproximo minha boca quase os tocando e meu nariz toca o dela.

- Ana!!!!!!!!!!

O grito forte de um homem nos assusta e ela abre os olhos se afastando.

- Acho melhor eu ir.

Diz sentando e faço o mesmo.

- Ana... eu...

- Amanhã te mostrarei as maravilhas do acampamento.

Avisa se levantando, me levanto e fico a sua frente.

- Boa noite, Eduardo!

Fica nas pontas dos pés e beija meu rosto bem próximo a minha boca.

- Boa noite, Ana!

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos

ANA

Capítulo 2
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED