Capítulo 2

A notificação piscou no canto da tela do meu laptop, uma mensagem de um velho amigo da faculdade, Leo.

"Cara, você precisa ver isso. Hilário."

Junto com a mensagem, havia um link. Eu estava no meio do trabalho, planilhas e relatórios espalhados pela mesa, mas a procrastinação venceu. Um clique não faria mal.

A página demorou um pouco para carregar, exibindo apenas um fundo preto e um logotipo estranho, uma espécie de máscara estilizada. Parecia um fórum antigo, um daqueles cantos esquecidos da internet. O nome era vago, algo como "O Clube Secreto" .

Uma sensação de desconforto começou a se formar na boca do meu estômago. Aquilo não parecia um site de memes.

A página finalmente carregou, e um feed de imagens e gifs apareceu. Meu primeiro impulso foi fechar a aba. Eram fotos de mulheres, claramente tiradas sem que elas soubessem. Fotos em academias, no transporte público, em provadores de lojas. A legenda de uma delas dizia: "Olha a vizinha gostosa do 302" . Outra mostrava uma mulher de saia em uma escada rolante, com um comentário nojento embaixo.

Senti uma onda de repulsa. Que tipo de gente doente frequentava um lugar desses?

Eu já estava movendo o cursor para o "x" da aba quando uma imagem em particular me fez parar. A qualidade era ruim, granulada, como se tivesse sido tirada com um celular antigo e com zoom no máximo. Era uma mulher deitada de lado em uma cama, dormindo. Ela usava uma camiseta larga, e o lençol cobria a maior parte do seu corpo, mas seu rosto estava visível, virado para a câmera.

Meu coração parou por uma fração de segundo.

Não podia ser. Era só alguém parecido.

Mas então meus olhos focaram em um detalhe. Um pequeno ponto prateado brilhando em seu pescoço. Era um colar. Um colar com um pingente minúsculo em forma de lua.

O colar que eu dei para Ana no nosso aniversário de cinco anos de noivado.

O ar sumiu dos meus pulmões. O quarto, antes quente, de repente ficou gelado. Meu estômago se revirou violentamente, e eu senti um gosto amargo na boca. Era ela. Era a minha Ana. A mulher com quem eu ia me casar em seis meses.

Minhas mãos tremiam tanto que eu mal conseguia segurar o mouse. Cliquei na imagem para ampliá-la, rezando para estar errado, para ser uma coincidência cruel. Mas não era. Cada detalhe do seu rosto, a pequena pinta perto do lábio, a forma como seu cabelo caía sobre o travesseiro. Era ela. Sem dúvida alguma.

Um zumbido começou nos meus ouvidos, abafando todos os outros sons. Eu rolei para baixo, para a seção de comentários, e o que eu li me fez querer vomitar.

"Essa aí tem cara de quem gosta."

"Quem foi o sortudo que pegou?"

"Manda mais! Mostra o resto!"

"O noivo dela deve ser um corno manso."

A última frase me atingiu como um soco. Humilhação e uma raiva cega tomaram conta de mim. Eu queria socar a tela, quebrar o laptop, gritar até minha garganta ficar em frangalhos. Como aquilo foi parar ali? Quem tirou aquela foto?

Minha mente corria a mil por hora, cada pensamento mais doloroso que o anterior. Ela me traiu? Quem era o homem que estava no quarto com ela, tirando essa foto enquanto ela dormia? A imagem era íntima, vulnerável. Não era uma foto tirada por um estranho na rua.

Meu primeiro instinto foi ligar para ela, gritar, exigir uma explicação. Mas uma parte de mim, uma parte fria e repentinamente calculista, me parou. Eu não podia simplesmente explodir. Não ainda. Eu precisava de provas. Eu precisava entender o que diabos estava acontecendo.

Com os dedos trêmulos e os nós brancos de tanta força, comecei a agir. Abri um software de gravação de tela. Gravei tudo. Rolei por cada comentário nojento, cada imagem. Tirei screenshots de tudo, salvando em uma pasta escondida no meu computador. Cada clique era uma tortura, me forçando a olhar para a imagem da minha noiva sendo exposta e humilhada para um bando de anônimos doentes.

Enquanto eu salvava a última imagem, meu celular vibrou na mesa. Era uma mensagem de Ana.

"Pensando em você, meu amor. Mal posso esperar pra chegar em casa."

A mensagem veio acompanhada de um emoji de coração.

Olhei para a tela do celular, para as palavras de carinho, e depois para a tela do computador, para a sua imagem exposta. A dissonância era tão brutal, tão avassaladora, que eu senti como se estivesse sufocando. Um nó se formou na minha garganta, e eu tive que me segurar na mesa para não cair.

A mulher que me mandava uma mensagem de amor era a mesma que estava sendo objetificada naquele esgoto online. Ou talvez, e esse pensamento era o mais aterrorizante de todos, ela não fosse a mulher que eu pensava conhecer.

Capítulo 3

Eu não dormi naquela noite. Nem por um minuto.

Passei a madrugada inteira sentado na escuridão da sala, a única luz vindo da tela do laptop. As imagens e os comentários daquele fórum estavam gravados a fogo na minha mente. A cada hora que passava, a dor inicial se transformava em uma mistura tóxica de raiva, confusão e um sentimento profundo de traição.

Abri a pasta com as capturas de tela de novo e de novo, como um masoquista revivendo sua própria tortura. Eu ampliava a foto de Ana, procurando por qualquer pista. O quarto era genérico, paredes brancas, uma cabeceira de madeira escura. Poderia ser qualquer lugar. Um hotel, talvez.

Quem postou a foto usava um apelido, "ReiNoite" . Tentei procurar pelo nome de usuário em outras redes sociais, mas não encontrei nada. Era um fantasma.

Milhares de cenários passavam pela minha cabeça. Ela estava tendo um caso? Por quanto tempo? Quem era o homem? Ele a drogou e tirou a foto? Ou ela sabia? Ela participou? A ideia me deixava enjoado. A Ana que eu conhecia, a Ana doce, gentil, que ficava vermelha com qualquer elogio, jamais faria algo assim.

Mas a prova estava ali, brilhando na minha tela. O colar. Aquele maldito colar que agora parecia um símbolo da minha própria estupidez.

Por volta das duas da manhã, ouvi a chave na porta. Meu corpo ficou tenso. Era ela.

Ana entrou em casa na ponta dos pés, tentando não fazer barulho. Quando me viu sentado no sofá, no escuro, ela deu um pulo de susto.

"Ricardo! Meu Deus, que susto! O que você está fazendo acordado?"

Ela acendeu a luz. Seu rosto estava pálido, e havia olheiras escuras sob seus olhos. Seu cabelo estava um pouco bagunçado, e ela parecia exausta.

"A reunião se estendeu muito" , ela disse, bocejando e deixando a bolsa cair no chão. "Foi um inferno. Estou morta."

Ela se aproximou para me dar um beijo, mas eu me afastei instintivamente.

Ela parou, a confusão estampada em seu rosto. "O que foi? Aconteceu alguma coisa?"

Eu queria gritar. Queria jogar o laptop na cara dela e exigir que ela me explicasse aquela foto. Mas as palavras não saíam. Eu apenas a encarei, meu rosto uma máscara de pedra.

"Nada" , eu murmurei. "Só não consegui dormir."

Minha voz soou estranha, oca.

Ana franziu a testa, preocupada. "Você está bem? Parece pálido."

Ela tocou minha testa para ver se eu estava com febre. O toque dela, que sempre me confortou, agora me queimava a pele. Afastei sua mão gentilmente.

"Estou bem. Só cansado. Vou para a cama."

Levantei-me e fui para o nosso quarto sem olhar para trás. Eu a ouvi suspirar na sala.

Deitei na cama e fechei os olhos, fingindo dormir. Minutos depois, ela entrou no quarto, trocou de roupa e deitou ao meu lado. Senti o calor do seu corpo perto do meu, o cheiro familiar do seu perfume. Antes, isso era meu porto seguro. Agora, era uma fonte de agonia.

Ela se aninhou em mim, passando o braço pela minha cintura.

"Boa noite, meu amor" , ela sussurrou.

Eu não respondi. Apenas fiquei ali, rígido, ouvindo sua respiração ficar lenta e profunda enquanto ela adormecia.

Como ela podia dormir tão tranquilamente? Como ela podia agir com tanta naturalidade depois do que quer que tenha acontecido?

A imagem da foto voltou à minha mente: Ana dormindo, vulnerável, enquanto alguém a fotografava. E agora, ali estava ela, dormindo ao meu lado, na nossa cama, no nosso apartamento.

A mulher que eu amava, a mulher com quem eu dividia a vida, de repente se tornou uma estranha. Olhando para o teto no escuro, uma pergunta aterrorizante ecoava na minha cabeça sem parar.

Quem é você, Ana? Quem é você de verdade?

A noite se arrastou, e com a primeira luz do amanhecer, eu já tinha tomado uma decisão. Eu não ia confrontá-la. Não ainda. Eu ia descobrir a verdade sozinho.

Levantei-me silenciosamente, fui para a sala e abri meu laptop novamente. Comecei a pesquisar. Comecei a cavar. Eu ia descobrir o que ela estava escondendo, custe o que custar.

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