Isabela
O dia amanhecia, as estrelas desapareciam vagarosamente sendo substituídas pelos raios solares que transpassava as frestas da janela impelindo meus olhos. Isso não me incomodava, tão pouco me despertou, na verdade esta foi apenas mais uma das muitas noites de sono perdido. A insônia se tornou minha melhor amiga desde que cheguei aqui.
Toco em meus cabelos negros e embaraçados a fim de me distrair com algo, mas nem foi preciso, minha tia fez isso por mim. Era apenas seis horas da manhã quando tia Lucinda ousou bater insistentemente na porta do meu quarto ocasionando um barulho ensurdecedor para aquele horário. Emburrada, ela empurrou a porta com força e entrou sem ao menos me desejar bom dia antes de iniciar mais uma de suas longas ladainhas.
— Isabela! Você não tem vergonha na cara? — Esbravejou. — Vai fazer um mês que você está na minha casa atoa! Se quisesse alguma coisa com a vida já teria levantado e saído pra arrumar um serviço!
— Mas estou procurando, a senhora sabe muito bem disso! Eles que não me ligam, eu não tenho culpa tia!
Impossível não decorar tais insultos quando sua tia insiste em jogá-los na sua cara diariamente. Por mais que eu tivesse acostumada a ser tratada com a maneira rude e desagradável, tudo que ela dizia me atingia como uma adaga. Cada palavra doía e me feria demais.
— Tá procurando com o rabo na cama? — Ela apontou o indicador na minha cara. — Na minha época não tinha essa moleza menina, eu vou avisar pela última vez: Se você não me ajudar com as despesas já pode ir juntando suas malas e voltando para a roça de onde veio!
— Não tia! Isso não, por favor, hoje vai ser meu primeiro dia na faculdade... Eu ralei tanto pra conseguir essa bolsa... Eu juro. Desse mês não passa, eu vou consegui um emprego! — Respondi determinada.
Ela não pronunciou mais uma única palavra; Encarou-me com desprezo, saiu marchando e novamente bateu forte a porta contra a parede como se tivesse intencionada a arrancá-la.
A angústia cortava meu peito quando eu pensava na possibilidade de voltar para o interior. O que eu iria fazer da minha vida lá se todos os meus sonhos só podiam ser realizados aqui? Compreendo minha tia, ela mora de aluguel e mantém as despesas da casa sozinha, porque o marido assim como eu também está desempregado há um bom tempo, há anos eu acho. Basta ter bom senso para se dar conta de que eu além de incomodar, estou causando um tremendo prejuízo.
Pedir ajuda para meus pais agora, seria o mesmo que dar um tiro no pé. Daí mesmo que eles iriam insistir, falar que aqui não era para mim e implorar para que eu voltasse logo para casa.
Desde que me entendo por gente venho me esforçando, me dedicando e vivendo em prol dos estudos. Quando tive minhas primeiras aulas de química e física não tive dúvidas de que eu nasci destinada a me tornar uma grande engenheira química. As vezes eu me pegava imaginando vestida com o jaleco da Petrobrás em um de seus enormes e bem estruturados laboratórios químicos. Mas como escutei todavia: “O que cai do céu é só chuva”, sempre estudei muito, e por incrível que pareça eu não "engulo" os livros por obrigação, ou porque meu futuro depende disso, e sim porque eu simplesmente adoro números, fórmulas, ler, estudar e aprender muito.
Como fazem a maioria dos estudantes após o término do ensino médio me inscrevi na prova do ENEM, e tive um resultado positivo, tanto é que quando me inscrevi no SISU eu pude escolher entre duas grandes universidades. Mas quando vi que uma delas era a UFRJ não tive dúvidas que seria ali que iria me preparar para me tornar uma excelente profissional. Eu sei que fui ambiciosa ao me inscrever para uma federal em outro estado, até porque não sou carioca, cheguei no Rio há um mês justamente pela bolsa. Mas havia um gatilho, minha tia morava aqui a mais de 20 anos e por algum motivo ela nunca teve filhos, por isso sempre a vi como uma oportunidade perfeita para sumir do lugar que nasci.
Nunca me identifiquei com minha cidade natal; Sertãozinho ficava localizada no interior de Minas, uma cidadezinha pacata com pouco mais de dois mil habitantes, ausente de urbanização e movida apenas pela fofoca. Não trago boas lembranças da maioria das pessoas, com exceção da minha família e amigos, é claro. Quanto ao Rio de Janeiro... Quem nunca quis morar na cidade maravilhosa enquanto assistia alguma novela das nove? A Globo sempre foi expert em iludir seus telespectadores.
Saí da casa de meus pais com o coração dilacerado, preparada para viver como submissa de uma saudade doída. Amo eles, seu Alfredo e dona Luzia são tudo para mim, e, é justamente por isso que irei estudar, me enquadrar numa profissão bem remunerada para futuramente oferecê-los uma vida melhor, a que eles realmente merecem. Antes de eu sair de casa, preocupada, mamãe disse: "Cuidado Isa o Rio de Janeiro não é brinquedo!". Quanto a isso ela tinha razão, não pela criminalidade, na verdade meu maior problema estava sendo o maldito desemprego, e posso garantir que não é por falta de procura. Eu já havia tentado de tudo. Espalhei currículos em escritórios, lojas, bares, em todo lugar imaginável. Em nenhum momento fiz questão de escolher, - nem podia - qualquer coisa me cabia, minha situação era de total desespero.
O problema é que desde as micros a grandes empresas exigiam experiência. Mas, como vou adquirir experiência se eles não me davam uma única oportunidade trabalho? Impossível.
Apesar dos pesares algo me dizia que hoje seria um novo dia, por isso não irei mais reclamar, vou focar em correr atrás do que eu quero. Imprimi mais 100 cópias dos meus currículos, creio eu que durante este mês enviei mais de 200 online, além de ter me cadastrado em vários sites.
Fiz a higiene matinal, e penteei meus longos cabelos com pressa. Vesti uma calça jeans lisa acompanhada de uma blusa de manga azul, estava simples, mas de acordo com a ocasião. Fiz uma make básica, exalei-me de perfume, calcei confortáveis sapatilhas na cor preta e saí. Estava mais animada para o primeiro dia de aula do que para passar mais um longo dia procurando emprego, mas não larguei a positividade em nenhum momento.
[...]
Só tinha um mês que morava aqui, ainda não compreendia muito bem, na verdade eu sempre me perdia quando pegava um ônibus, — não fazia a mínima ideia de onde parar — portanto o aplicativo google maps se tornou meu maior aliado toda vez que saía a procura de trabalho. Peguei o ônibus e depois de mais de uma hora na condução lotada, finalmente cheguei ao centro.
Lá entrei e saí de várias lojas, lanchonetes, restaurantes e outros estabelecimentos. Repeti tudo que fiz semana passada até meus currículos esgotarem de vez. Surtei quando me dei conta de que os raios solares estavam perdendo espaço para a negritude da noite.
Tenho que ir logo pra faculdade!
Dessa vez peguei o BRT, lotado devido ao horário de pico. Nem me surpreendi quando recebi uma mensagem da operadora dizendo que "Você usou 80% da sua franquia de internet". Revirei os olhos e voltei a me mexer numa tentativa frustrada de encontrar uma posição confortável em meio aquele aglomerado de gente.
Soltei do BRT no terminal do Campus da universidade. Mesmo estando meio desorientada não pude conter as lágrimas quando pisei ali. Meu peito esquentou quando avistei há pouquíssimos quilômetros o prédio com o acabamento moderno, marcado por grandes janelas envidraçadas.
Não acredito que vou estudar aqui!
Queria gritar para o mundo o tamanho da minha felicidade, nunca me senti tão vitoriosa em toda minha vida. Peguei outro ônibus até chegar ao prédio. No seu interior precisei pedir ajuda para encontrar minha sala em meio as centenas de portas e corredores. Como cheguei atrasada me assentei na única carteira vaga, a última esquerda no final da fileira. Duas garotas me deram oi e se apresentaram. Ainda bem que eu não era a única desesperada por novas amizades.
Nesse primeiro dia de aula os professores fizeram com que todos os alunos se apresentassem assim como eles. Posteriormente cada um fez uma apresentação introdutória de suas respectivas matérias, e quando o ponteiro marcou às 9h fomos dispensados. Não esperava mais do primeiro dia de aula. Na saída Thalita e Carol me chamaram para lanchar, porém, mesmo com fome procurei disfarçar, — até porque os dois reais que eu tinha no bolso não pagaria nada ali. — Me despedi e saí logo.
[...]
Minhas colegas disseram que naquele horário já não havia mais BRT direto para meu bairro, elas sugeriram que eu pegasse um ônibus, era muito mais viável e rápido. Aceitei a sugestão, mas o problema é que eu não fazia ideia de qual das dezenas de ponto de ônibus eu pegaria o meu, ali era muito grande, parecia um bairro. Passei em um por um pedindo informação. Uns diziam que era para lá, outros para cá... Droga! Estava me complicando toda.
Apanhei meu telefone, porque aquelas pessoas aparentemente sabiam menos que eu. Caminhei a passos largos com os olhos concentrados no google maps. Como sou uma garota de sorte meu celular travou e depois de longos minutos tocando a tela eu consegui acessar a página, mas para minha infeliz surpresa a operadora enviou outra mensagem: "Você usou 100% da sua franquia diária de internet".
Aff. Que tédio.
Averiguei meu redor. Caminhei tanto que nem me dei conta de que havia saído da área da faculdade. E como se não bastasse eu parei numa rua mal iluminada, - quase assombrada - longe de tudo e todos, com exceção de algumas prostitutas vestidas com roupas vulgares, algumas de calcinha e sutiã exibindo os seios e a bunda. Mendigos espalhados sobre pedaços de papelões também marcava presença, assim como alguns cracudos.
Minhas pernas pensaram antes que a cabeça. Alarguei os passos a fim de retroceder o maldito caminho que me trouxera até aqui. O interior do meu peito parecia o Alasca. Sabe aquela sensação ruim de que você está sendo, por algum motivo o centro das atenções? Era exatamente isso que eu estava sentindo.
Não me contive. Assumi para mim mesma que estava perdida, firmei a mochila nas costas e corri contra o desespero sem noção alguma de para onde iria. Corria feito uma presidiária em fuga, quando um farol altíssimo ofuscou minhas vistas quase desfaleci de medo. Apavorada, elevei as mãos no rosto intencionada a conter a luminosidade que me cegava, quando tirei já era tarde, meus olhos ardidos avistaram um homem armado quase esfregando o instrumento mortal na minha cara.
Senhor me perdoe por tudo que fiz. Eu sei que pequei e que durante meus 18 anos de vida só errei... Mas, por favor, não me deixe morrer aqui...
Rezava com as pernas trêmulas, enquanto minha garganta travava uma luta contra a imensa vontade que eu tinha de gritar, botar para fora todo choro que me sufocava.
— Ih qual foi? Nem te passei a visão e tu já assim. Relaxa... Vamo acabar com isso logo, passa tudo porra! Vai adiantando as nota, celular, cordão de ouro. Se arranja! — A voz rouca me deixou ofegante. O homem parecia estar ditando minha morte através do timbre rude.
Com os braços trêmulos tirei meu celular da mochila e o entreguei temendo.
O par de olhos negros do bandido faltaram saltar para fora do capacete quando ele viu o aparelho.
— Que porra é essa novinha? Cadê o celular? Passa logo o Iphone com a senha!
— Iphone? Moço, pelo amor de Deus! Esse é o único ce-ce-lular que eu tenho... Eu não tenho nada, eu juro! — Respondi entre meio as lágrimas e gaguejos, desesperada com tudo.
Tirei a mochila das costas e joguei tudo que havia dentro no chão. Eu queria provar para aquele desgraçado que eu não tinha nada, muito menos um Iphone. Peguei, abri minha carteira e estendi a mão com a única cédula que tinha, 2 reais.
O ordinário calou-se momentaneamente. Depois respirou fundo e disse:
— Caralho! Já vi que não vai dar em nada. Guarda isso aí. — Disse num ar de deboche, enquanto colocava a arma na cintura outra vez. — Sá porra não dá nem pra revender!
Desgraçado! Infeliz! Folgado!
— Tava rodando nesse pedaço atrás de quê? Se for pedra eu tô com umas aqui pow...
O interrompi frustrada.
— Não! Não é nada disso. Eu só quero ir embora... Ai meu Deus eu tô perdida, preciso achar o ponto de ônibus! Tô liberada, não tô?! — Perguntei apavorada, aquela altura meu rosto se encontrava completamente molhado devido as lágrimas. Minhas mãos ainda tremiam enquanto eu me abaixava disfarçadamente para apanhar os pertences que joguei da minha mochila.
Não aguardei uma resposta, firmei a mochila nas costas e corri. Porém, antes de eu sequer dar o primeiro passo o bandido foi mais rápido, ele apertou meu braço, me puxando agressivamente para trás.
— Perdida? Tu mora onde? — Não consegui dizer nada, o medo me impedia de agir e de falar qualquer coisa. O silêncio se acomodou como uma tortura até ele quebrá-lo de vez. — Passa a visão porra! Tô aqui, mas tô no corre!
— Deodoro. — Minha voz saiu fraca, angustiada.
— Mó contra mão. Mas de boa, tu me pegou tranquilasso, hoje eu tô suave. Monta aqui que eu vou te dar essa moral: Vou te deixar em casa! — O homem piscou maliciosamente através do capacete.
— Como?!
—Ta surda?!
Eu realmente não estava acreditando, o cara que tentou me assaltar estava mesmo me oferecendo uma carona? Não é possível. Mas o que eu poderia fazer? Contrariar um bandido? Jamais.
E perdi o controle dos meus batimentos cardíacos, meu coração chacoalhava mais que um sino. Eu sei que aceitar era tão arriscado quanto recusar. Não conseguia raciocinar, tudo estava acontecendo de uma maneira tão rápida que nem eu mesma estava sabendo lidar.
— Mas, e... O capacete?
— Tô te oferecendo carona, e tu ainda quer capacete?! Monta logo nesse bagaço porra!
Não ousei questionar mais. Tive medo de contrariá-lo.
Caminhei até ele a passos lentos e desconfiados. Antes de subir ele perguntou meu endereço com referências, eu expliquei tudo, depois não ouvir mais a voz prepotente.
Era difícil acreditar no que estava havendo, a culpa era minha! Todos me avisaram sobre os perigos que rondavam a cidade, tia Lucinda mesmo havia me alertado, ela já foi assaltada três vezes; não podia negar estava com medo, muito medo, e se aquele homem me levasse para um matagal e me estrupasse? Subi na garupa e mantive os olhos fechados, não só pelo temor, mas pelo vento intenso que batia contra meu rosto e brincava com meus cabelos. A moto acelerava desenfreada a mais de 100km por hora. Durante o trajeto as buzinas eram o barulho mais frequente. Como já estava sem capacete o jeito era segurar firme na cintura forte, quente. O corpo do homem estava levemente inclinado para baixo e eu me mantive agarrada nele da mesma maneira. O casaco de algodão grosso esquentava sua pele, e consequentemente a minha. Meu nariz estava próximo a nuca do bandido e mesmo diante de toda ventania não pude deixar de sentir o perfume forte com toque amadeirado que conseguiu me deixar inebriada num único suspiro.
Não sabia que bandidos cheiravam tão bem.
Quando a moto parou abri os olhos vagarosamente, não acreditei na imagem a minha frente. Ele realmente havia me deixado no portão de casa. Desci do veículo desacreditada.
Minha vontade era correr para dentro de casa e fingir que nada daquilo aconteceu. Mas como esperado ele foi ágil e me puxou pelo braço novamente.
— Curtiu a carona? Te dei mó moral. — Ele me soltou e elevou as mãos até o capacete. Ao tirá-lo o sorriso branco perfeitamente alinhado destacou-se no rosto marcado por um perfeito e definido cavanhaque, e barba por fazer. O homem franziu o cenho, enrugando a pele naturalmente bronzeada, negra como chocolate. — Hoje tu colou com a sorte, tá ligada que se fosse outro... — Arqueou as sobrancelhas grossas que fazia um desenho sobre os grandes olhos negros que mais parecia uma forma de acesso a escuridão.
Ele segurou meu punho com força, quase me machucando com a mão áspera. Num impulso me puxou contra seu corpo fazendo nossas peles tocarem uma a outra. Meus pelos se ergueram quando sua temperatura quente chocou com meu suor frio, tenso. Respirei fundo numa tentativa louca de prender meus gritos e o choro na garganta.
— E aí, tá esperando o quê pra me agradecer?
— Agradecer... — Eu sabia o que ele queria, fui muito ingênua. Com certeza ele iria me usar, depois picar meu corpo em pedacinhos e me jogar na lata de lixo, era óbvio isso.
Engoli em seco quando os olhos escuros me fitaram como se estivesse me escaneando.
— Pow! Mar tu é dramática hein! Pra quê esse choro todo?! — Perguntou num ar de deboche enquanto desviava os olhos para o imenso e luxuoso relógio dourado. — Já deu minha hora, vou ter que meter o pé. Aí, me passa teu número, gostei de ti. Tu é uma gracinha. — Piscou maliciosamente com um dos olhos.
Eu sorri, mas não sabia distinguir se aquilo era pânico ou alívio por ainda estar intacta, viva. Balancei a cabeça ainda em euforia. Até parece que eu iria passar meu número para um bandido, minhas loucuras tinham limites.
— Eu pego o seu. Juro que ligo! — Afirmei séria.
— Então tá, anota aí.
Anotei o número. Óbvio que eu nunca iria ligar, mas disfarçar evitava imprevistos e me mantinha viva.
Quando ele ligou a moto não contive minha curiosidade.
— Ei! Qual é o seu nome?
— Marre... Rafael!
Ajustou o capacete, me sondando com um sorriso no canto dos lábios carnudos .
— O meu é Isabela, obrigada pela carona Rafael. — Afirmei sorrindo, acenando para o bandido.
Ele retribuiu fazendo o sinal de dois com os dedos. Depois partiu em alta velocidade, queimando os pneus no asfalto enquanto puxava de uma roda.
Achei aquilo legal. Fiquei admirando-o de longe enquanto roía as unhas com o nervosismo exalando do meu corpo. Só entrei em casa quando o assaltante desapareceu de vez da minha vista.
Marreta
Meu celular tremeu como uma metralhadora. Eu não estava afim de atender aquela porra, com certeza eram meus parceiros querendo saber se eu iria brotar no furduncinho do Taquara.
Não estava animado, o cansaço me sugava.
Nesta semana mesmo eu só me fodi, posso contar nos dedos as vezes em que dormi sossegado. Era muito problema com morador, devedor, alemão, entrega chegando e saindo, e mais uma porrada de bomba pronta para explodir na minha cabeça. Daí me veio a ideia de dar um de vapor só para ter uma desculpa pra descer na baixada sozinho, refrescar minha mente e ficar tranquilo.
Fiz uma entrega da alta para os playboyzinhos da faculdade que o bonde abastecia. Como sempre acabei me empolgando com o rolê. Parei pra comer um pastel, troquei ideia com uns parceiros da antiga, mas na moral, o que me atrasou mesmo foi a carona que dei pra aquela mina. Novinha maluca... O que ela tinha na cabeça pra tá andando ali àquela hora? Não sou assaltante, mas a correria está no sangue, foi extinto vê-la de bobeira, sem rumo por aqueles lados, ainda mais gostosa daquele jeito e com maior pinta de patricinha. É o típico prato cheio pra bandido. Mas me enganei real, ela não tinha nada, e aquele celular? Porra nem a Samsung fabrica mais daquele modelo.
Acelerei fazendo os pneus da moto riscar o asfalto. Na entrada do morro meus vapores e olheiros me encararam com respeito. Estalei os dedos passando a visão para que eles prestassem mais atenção no trampo,ao invés de ficar me bicando. Subindo a viela eu buzinei cumprimentando a rapaziada. A comunidade não para, sempre descolam um esquema pra curtir, embrazar. Olhei para o lado e vi que o bar do Xulipa estava no grau. Geral bebendo, fumando e curtindo um pagodinho de época através da máquina de música. Tinha até uns parceiros lá que acenaram me chamando pra colar, mas eu não estava afim. Continuei seguindo meu rumo.
Quando cheguei no barraco guardei a moto e fui direto para o chuveiro, onde tomei um banho gelado, gostoso. Me enrolei com a toalha da cintura para baixo e segui para o quarto. Lá botei um traje bolado; Bermuda jeans, camisa do Flamengo e um tênis branco da Oakley pra ficar no jeito. Coloquei uns cordões pesados no pescoço, joguei um Ferrari Black no corpo e pra fechar passei creme e massageei meu cabelo só pra falar que penteei.
Saí de casa no sapatinho, não estava afim de esbarrar na minha coroa e ter que ouvir mais uma de suas conversas fiada. Tirei meu carro da garagem e partir para à 14 doido pra embrazar até de manhã naquela porra.
[...]
Com o funk no último volume parei frente ao barraco de Taquara, geral abriu caminho para que eu passasse com meu carro, quando consegui estacionei num beco ao lado. Olhei no retrovisor, mas pela maneira que as piranhas me encararam nem foi preciso espelho para confirmar que eu estava no jeito. Como diria minha coroa: Eu era um negão arrumado.
Saí, tranquei a porta e guardei a chave no bolso. Segui reto brincando com o cordão dourado que estava pendurado no meu pescoço quando Patrícia, uma loira gostosa, rabuda, me parou.
— Oi Marreta!
— E aí! — Dei uma piscada de leve, encarando aquela boquinha gostosa.
A morena alta, amiga dela também se aproximou.
— Tá sumidasso Marreta, tô com saudades.
— Relaxa. Qualquer dia desses eu colo lá no teu barraco. — Sorri com maldade puxando uma mecha do cabelo da mulher.
Ela sorriu animada, empolgada. Se eu quisesse pegaria ela ali, naquela hora. Era só arrastar pro beco e meter a vara, mas eu podia fazer isso mais tarde. Dei as costas alargando os passos, seguindo rumo à escadinha apertada que levava até a laje. Prestes a pisar no primeiro degrau acabei me esbarrando em outra mina.
— Qual foi Marreta! Por que não colou no meu barraco ontem? — A negona se aproximou cheia de maldade, dando aquele sorriso que deixava o pai doido. — E a Melissa que você me prometeu?! — Tati perguntou enroscando o dedo num cacho da cabeleira crespa.
— Porra Tati! Vem falar de sandália no meu ouvido. Caralho, tu tá pedindo mais que mendigo!
Não fiquei para ver sua reação, meti o pé rumo à escada, bolado. As vadias daqui do morro são fodas, se der mole elas montam, mas eu não dou bobeira, não saio por aí bancando puta. O pagode aumentava a cada degrau que eu subia, a estrutura da laje deixava explícito um ar de humildade, o piso era só o cimento, alguns arranjos de luzes maus feitos iluminava a área, no centro uma parte pequena da grande equipe de som do baile marcava presença, - era só pra quebrar um galho - a churrasqueira grelhava a picanha suculenta, num congelador ao lado a cerveja e a vodka fluía no grau enquanto o baseado rodava nas mãos dos meus parceiros que marcavam presença.
Mal dei as caras e os manos vieram com tudo querendo cobrar meu atraso.
— Qual foi Marreta! Que demora é essa mano?! O pagode tá fluindo, e as novinhas tá como... Tá que tá! — Taquara deu o papo enquanto o bagulho queimava entre seus dedos.
Ele era preto, alto, magro e tinha dreads grossos caídos pelos ombros. Os olhos escuros e fundos não chamava mais atenção do que aquele sorrisão branco que ele abria a todo instante. Éramos da mesma idade, 25 anos nas costas. A gente era amigo desde moleque, parceria pra toda hora. Crescemos no crime juntos, e desde que Chocolate rodou ele tem fechado comigo como gerente do Chapadão.
— Fui fazer um corre e me enrolei. Tu acredita que eu parei pra assaltar um mina e ela não tinha grana?! Me fodi na moral! — Não consegui segurar o riso na garganta, meus parceiros também não.
— Porra, mas o que te deu na cabeça? Assaltar a essa altura do campeonato, tu pirou só pode! — Taquara afirmou balançando a cabeça.
— Mas eu acabei dando uma moral, deixei ela em casa — pisquei com deboche deixando os parças intrigados.
— Porra mano, na boa, essa aí vai até sonhar contigo essa noite. Pega só essa ideia: De ladrão a cavalheiro! Pow que honra hein... — Pica Pau levantou da cadeira quando deu o papo. Abriu aquele sorriso sarcástico e se aproximou dando uns tapas fraco em minha costas. — Isso até me lembrou de quando eu era moleque e inventei de assaltar uma velha. Pow, a coroa era mó enxuta, se ofereceu pra mim na hora que eu ia pegar a bolsa dela... Aí no final tu sabe né... Ela pagou pra eu comer ela, nem precisei roubar pra sair no lucro!
Geral riu.
Pica Pau era dono do morro do Final feliz, fechamento meu há alguns anos. Fazíamos parte da mesma facção e sempre nos esbarramos nas reuniões, nos rolês e até nos corres que pintavam. Ele tinha 23 anos, era branco com o porte alto e magro. O nariz troncudo e o moicano vermelho ganhava destaque na cabeça esguia. Do bonde ele era aquele que não rasgava com porra nenhuma.
Estávamos distraídos, trocando ideia de boa quando Pedrão, nosso parceiro dono do morro do Gogó do Êma, apareceu abraçado por duas morenas gostosas, daquelas de deixar qualquer um de pau duro. Ele puxou uma das cadeiras e se sentou à mesa, elas inclinaram o corpo sorrindo, pararam ao seu lado e apoiou as mãos nos ombros dele.
— Fala aí malandrada! Surubinha de leve pra hoje quem topa? — Arqueou as sobrancelhas olhando com maldade para a que estava à sua esquerda.
— Pra mim não rola. Tô metendo o pé, já tá na hora de trombar com uma novinha aí, tá ligado?! — Pica Pau levantou da cadeira todo desajeitado, quase derrubou as garrafas. Antes de dar as costas ele pegou uma de Absolut e meteu o pé sem se despedir.
Qual foi? Pica Pau nunca foi de dispensar boceta.
— Que viagem! Que porra deu na cabeça dele? — Pedrão perguntou com um ar desconfiado.
— Vai saber… Vocês são foda, depois que garra em mulher fica assim, lesado. — Pensei alto.
— Se ele não quer, tem quem queira! — Taquara piscou pra morena peituda que estava à direita de Pedrão.
Quando a vadia sacou que meu mano estava dando mole, ela não pensou duas vezes em se afastar de Pedrão e vir rebolando até sentar no colo de Taquara toda solta. A morena foi rápida, roubou um beijo daqueles que só de olhar dá tesão enquanto requebrava aquele rabão em cima dele.
— Que palhaçada é essa aí Taquara?! — A voz afinada ecoou pela laje.
Taquara engoliu em seco, arregalou os olhos quando ouviu os gritos da mulher. Ele não pensou duas vezes em empurrar a morena do seu colo e fingir que não estava rolando nada entre os dois. Olhei para trás e vi Kel, a mulher do meu parceiro, se aproximando com os olhos negros estreitados cheios de raiva. Ela parou a nossa frente com os braços cruzados aguardando mais uma das desculpas esfarrapadas do meu parça. A pele morena num tom caramelado combinava com a cintura fina, os quadris largos e a bunda redondinha. Os cachos cheios caídos sobre os ombros preenchia o rosto delicado com traços finos, com exceção da boca carnuda, que modéstia parte era uma delícia. Ela era gostosa pra caralho, mas mulher de amigo meu pra mim é macho, então não rola nada.
— Quem essa piranha pensa que é pra tá agarrando MEU HOMEM! NA MINHA CASA?!
Kel não esperou mais para avançar sobre a mulher agarrando-a pelos cabelos e arrastando-a para longe do seu macho. Ela bateu, socou a cara da piranha com força fazendo a pobre coitada gritar, espernear enquanto Kel surrava seu rosto em cima do piso grosso da laje. Revoltada, a piranha não deixou baixo, agarrou nos cabelos da fiel a trazendo para baixo onde chutou e arranhou os braços da mulher do meu amigo. Kel ficou bolada, contorceu o corpo até ficar por cima de novo, quando conseguiu socou a cara da mulher e mais uma vez tornou a esfregar o rosto da morena contra o chão. Taquara se jogou entre as duas quando viu que o bagulho estava esquentando.
— Para Kel! Calma porra! — Meu mano ficou agoniado ao ver a cara da morena ensanguentada.
Ele acabou levando umas também, por isso não vi outra alternativa a não ser sacar a 38 que portava na cintura pra cima e largar o aço naquela porra. Que merda! Não sei qual dos três vacilou mais. O pagode estava rolando numa boa, aí o cuzão do Taquara pega uma piranha no próprio barraco e com a mulher dentro. Puta que pariu, meu mano é foda.
Geral parou pra ver a mulher jogada no chão com a cara surrada, os cabelos arrebentados e as roupas rasgadas no corpo. Na moral, eu fiquei com pena porque por algum motivo meu santo não batia com o da mulher do meu irmão.
— Qual foi Taquara? Perdeu a moral porra?! Que mulher problemática é essa caralho?!
Ao me ouvir Kel levantou ajeitando a roupa curta, e passou os dedos entre o cabelo embaraçado.
— Problemática? Eu?! — Riu com ironia. — Mas você não tem mesmo vergonha na cara! Fica arrastando essas puta pra cima do meu homem, vagabundo! Rala da minha casa agora, você e todo mundo! O pagode acabou! Não ouviram? Acabou a farra, aqui não é puteiro porra! — Gritou, explanou, tocou a galera do barraco sem nenhuma vergonha.
Que ódio! Eu ia dar o papo, mas Pedrão foi mais rápido.
— Tu vai dar moral pra tua mulher expulsar nóis do teu barraco Taquara? É isso mermo que tô vendo? Porra, eu não dou liberdade pra mulher minha ficar de onda com a minha cara diante dos meus parças! Uma hora dessas ela já lavou as vasilhas, tá lá no barraco, me esperando cheirosinha na minha cama... — Pedrão iria falar mais, porém a morena o interrompeu e voltou a gritar.
— E o que eu tenho a ver com a otária da tua mulher? Ela é ela, eu sou eu! Sai daqui agora, você manda na sua casa, e na minha mando eu! Anda! Vaza daqui todo mundo!
Se Taquara não botou moral, quem era nós pra falar alguma coisa. Eu e Pedrão metemos o pé bolado, cheio de raiva. Pegamos nossos carros e subimos a viela acelerados até pararmos no bar do Xulipa. Lá colocamos umas fichas na máquina de música, não demorou muito para que outro furdunço começasse, e mais uma vez lá estava eu, rodeado por uma porrada de vadia.
Depois de uns anos me envolvendo, acabei percebendo que não havia diferença de uma mulher para a outra. Boceta é tudo a mesma coisa, só muda a posição na hora da foda.
Mas, pensando bem, do bonde Pica Pau e eu somos os únicos solteiros, os outros tem fiel, mas isso não impede eles de dar uma escapada e curtir que nem a gente. Por isso tenho a impressão que namoro, casamento, essas coisas de compromisso não vale a pena, pelo menos não pra mim.
Entediado com aquela merda toda, me afastei da zoeira com as questões da boca queimando na minha cabeça. Passei o rádio para um dos meus vapores na fé que eles tinham batido a porra da cota de hoje. Também aproveitei para dar um papo nos moleques da escolta só pra garantir que estava tudo no esquema, como tinha que estar.
E graças a Deus, estava. Respirei fundo quando ouvir uma voz baixa, doce.
— Boa noite nego, o que tá pegando?
Era Suzy, minha enfermeira particular, ou melhor meu pente certo. Eu curtia a loirinha pra caralho, era baixinha, peituda e com a cintura fina. Tinha os olhos esverdeados, claros a ponto de ser quase transparentes. O cabelo loiro pegava na metade do pescoço e combinava com aquele jeitinho de boneca.
— O que tá pegando? Hum… — pensativo, revirei os olhos — Deixa eu ver... Por enquanto nada, mas vou pegar uma loira gostosa que tá aqui na minha frente! — Passei os dedos entre as mechas aloiradas do seu cabelo. Ela abriu um sorriso no canto daquela boquinha que trabalhava bem pra caralho no meu pau.
— Ah nego, você não faz ideia do quanto eu tô cansada. Trabalhei em pé o dia todo e pra finalizar ainda tive que escalar a porra desse morro! — Ela realmente parecia cansada, ainda estava com o uniforme branco, e sem a maquiagem as olheiras quase saltavam de seus olhos. — Droga! Hoje sou eu que vou precisar de uma massagem. Daquelas pesadas, que só sua mão faz! — Sorriu cheia de malícia, deixando o negão aqui doido.
— Deixa comigo, tu sabe como eu faço! Bora pro teu barraco! — Bati na bunda da loira e apertei gostoso.
— Falando em barraco, nego eu tô com 2 contas de luz atrasadas, e o pior que não tenho dinheiro pra mandar instalar um gato. Vamos ficar sem luz, não vai ter como a gente fazer mais nada lá em casa… -— Falou baixinho olhando para baixo sem graça.
— Quê isso... Fica tranquila, nós dá um jeito.
Passei o braço pelos ombros da loirinha que batia no meu peito, e segui com ela para o carro. Um sorriso malicioso escapuliu dos meus lábios quando pensei que iria passar a noite toda fodendo até não sobrar mais porra no meu saco.