Carolina Caruso
_ Eu não acredito que seu pai te deu um apartamento de presente de aniversário! _ Alice disse, animada, enquanto Carolina termina de pendurar as suas roupas no guarda-roupa.
Carolina olhou em volta, admirando o seu novo quarto, no apartamento que seu pai lhe dera de presente de aniversário de dezoito anos.
_ Eu também não acreditei, a princípio. _ ela respondeu, sorrindo. _ Pelo menos, não até ele me trazer até aqui ontem à noite e me entregar as chaves.
_ No meu aniversário de dezoito anos, três meses atrás, meu pai me enviou um buquê de flores. _ Alice disse, sentando-se na enorme cama de casal, enquanto olhava em volta.
Carolina terminou de pendurar a última peça de roupa e se sentou ao lado de sua melhor amiga.
_ Amiga, eu também teria me contentado apenas com um buquê de rosas. _ Carolina falou. _ Acho que, ao me dar presentes tão caros, papai esteja apenas tentando compensar todos os anos em que ele passou tanto tempo fora de casa, longe de mim e da minha mãe.
_ Quando seu pai se casou com a sua mãe, você já estava com oito anos, não é mesmo? _ Alice indagou, lembrando-se do que sua amiga havia contado sobre o passado dos seus pais, logo quando as duas se conheceram no colégio.
_ Isso mesmo. _ Caroline respondeu. _ Quando ele nos levou para a mansão, eu pensei que estava sonhando. Então vieram todas as roupas bonitas e presentes, e eu me senti uma princesa. Antes de vir morar com ele, mamãe e eu tínhamos que economizar bastante, então foi uma mudança e tanto nas nossas vidas.
Naquela época, Caroline não sabia que seu pai tinha se casado com outra mulher, e que esse era um dos motivos por não poder visitá-la constantemente.
Mais tarde, Caroline acabou ouvindo uma conversa do pai ao telefone e decidiu questioná-lo, querendo saber por que o hotel se chamava Angeli’s, quando o sobrenome dele era Caruso.
Foi então que ela descobriu sobre o casamento anterior de seu pai.
Ela havia ficado muito chateada com ele por algum tempo, por ter deixado sua mãe criá-la praticamente sozinha enquanto ele se casava com outra mulher. Mas, ao longo dos anos, seu ressentimento foi diminuindo, porque ela sentia que seu pai amava sua mãe.
Sua morte, um ano antes, pegou a ambos desprevenidos e tanto Caroline quanto seu pai ainda sentiam a falta dela.
_ Bom, mas vamos deixar esse assunto de lado. _ Caroline pediu, levantando-se novamente. _ Obrigada por me ajudar a trazer as minhas coisas e organizar tudo.
_ Não precisa agradecer, amiga. Sei que faria o mesmo por mim. _ Alice respondeu, levantando-se também.
_ Claro que eu faria! _ Caroline exclamou. _ Você é a minha melhor amiga, para quem eu conto todos os meus segredos.
_ Até parece que você tem tantos segredos! _ Alice exclamou, revirando os olhos, antes de levar um beliscão de Carolina. _ Hei! Não estou mentindo! Você sempre foi muito certinha, desde que nos conhecemos.
_ Nem sempre. _ Carolina respondeu, saindo do quarto.
Alice a seguiu até a sala.
_ Você lembra daquela vez, na sexta série, quando conhecemos aqueles garotos? _ Caroline perguntou e Alice sorriu diante da lembrança.
_ Como eu poderia me esquecer? _ ela disse. _ Foi com eles que demos o nosso primeiro beijo.
_ Saul e Matteo... _ Caroline falou o nome dos dois rapazes.
_ Isso mesmo! _ Alice assentiu, ao recordar o nome dos dois. _ Mas esse é o seu único segredo.
Carolina deu de ombros.
_ Não tive nenhum motivo para esconder qualquer coisa dos meus pais. _ ela disse. _ Quanto a mim, se meu pai descobrir que não sou mais virgem, acho que ele seria capaz de me arrancar a cabeça! _ Alice comentou, fazendo uma careta.
As duas riram, enquanto Carolina pegava a bolsa e as chaves do apartamento novo.
_ Eu preciso passar em casa novamente, para verificar se não deixei nada para trás.
_ Vai precisar de ajuda? _ Alice se ofereceu.
Ela preferia ficar ali, ajudando sua melhor amiga a se mudar, do que ficar na padaria ajudando o pai, com todos aqueles clientes chatos.
_ Não precisa. _ Caroline respondeu. _ Estou certa de que peguei tudo, mas vou checar mesmo assim. Além disso, você precisa descansar e se preparar para essa noite.
_ Está tudo certo com a reserva? _ Alice perguntou, preocupada. _ Não é tão fácil conseguir uma mesa assim, tão em cima da hora, no Dom Salvatore.
_ Sim. _ Caroline respondeu. _ Liguei hoje mais cedo para o restaurante, para confirmar. _ Cinco mesas estão reservadas para nós. Depois do jantar, vamos para a balada. Se meu pai perguntar alguma coisa sobre a nossa noite, diga que ficamos apenas no restaurante. Ele não vai gostar nada se descobrir que fui para uma boate.
_ Então, esse será o seu segundo segredo! _ Alice falou, com um sorriso zombeteiro no canto dos lábios.
_ Verdade. _ Carolina respondeu, sentindo uma pontada de culpa.
Então ela afastou esse sentimento.
Estava completando dezoito anos naquele dia, então era normal que fizesse algumas loucuras, não é mesmo?
Ela nunca tinha ido até uma boate antes, porque era menor de idade e não tinha coragem o suficiente para falsificar documentos.
Agora, sua idade não era mais um problema e ela poderia, finalmente, saciar a sua curiosidade.
_ Bem, então vamos! _ Alice chamou e as duas caminharam até a porta, saindo do apartamento logo em seguida.
Caroline trancou a porta e guardou as chaves na bolsa, lançando um último olhar para a porta de sua nova casa, antes de se virar e ir embora.
_ Nossa, aqui é tão... lindo! _ Alice comentou, quando elas entraram no restaurante e ela olhou em volta, admirada.
_ Boa noite! _ um belo rapaz se aproximou do grupo, sorrindo para as jovens mulheres. _ Me chamo Guido Salvatore e faço questão de acompanhá-las até os seus lugares.
Carolina olhou para trás, para as outras garotas, fazendo um “Oh” silencioso, surpresa com a recepção.
As meninas riram baixinho, enquanto Carolina se voltava para Guido Salvatore.
_ Você é o dono do restaurante, não é mesmo? _ ela quis saber, pois se lembrava de ter lido o nome dele em algum lugar, enquanto pesquisava sobre o recinto.
_ Digamos que o sucesso não é apenas meu, mas faço a maior parte do trabalho. _ Guido brincou, piscando para ela. _ Mas não contem isso para o meu sócio, se um dia o conhecerem, tudo bem?
_ Não se preocupe conosco. _ Carolina respondeu, sorrindo.
_ Então, quem é a aniversariante essa noite? _ ele quis saber, olhando para todas as garotas, sem reconhecer nenhuma delas.
_ É ela! _ Alice respondeu no mesmo instante, apontando para Carolina.
_ Dezoito anos? _ ele quis saber, olhando fixamente para Carolina.
Ela corou, antes de responder:
_ Como soube? _ ela perguntou, então revirou os olhos diante de uma pergunta tão boba, quando se lembrou dos dados que ela havia preenchido no momento da reserva. _ Oh, apenas ignore a minha pergunta.
Guido sorriu para ela.
_ Não é a primeira vez que recebemos um grupo assim, tão grande de mulheres, para comemorar um aniversário. Fiz apenas uma suposição, senhorita Caruso. _ ele respondeu. _ Agora, por favor, me sigam. Vou mostrar onde fica a mesa de vocês e voltarei logo em seguida com o menu.
Elas seguiram atrás de Guido, e Carolina ouviu o comentário de uma de suas amigas:
_ Nossa, não acredito que o próprio dono do restaurante veio nos receber! _ ela comentou.
_ Juro que até me senti uma pessoa importante... _ outra comentou, baixinho.
Guido parou perto de um conjunto de mesas, organizadas lado a lado, transformando-as em uma só.
_ Tomei a liberdade de unir as mesas, para que ficassem mais a vontade. _ Guido explicou. _ Mas posso voltar todas para os seus devidos lugares, caso prefira assim...
_ Não, está ótimo assim, obrigada! _ Carolina respondeu rapidamente antes de olhar em volta mais uma vez.
Não havia mais ninguém no restaurante além delas e os garçons formavam uma fila, prontos para atendê-las.
_ Vou buscar o Menu e já volto. _ Guido falou. _ Por favor, sintam-se à vontade.
_ Caramba, Carolina! _ uma das meninas falou, inclinando-se sobre a mesa para que ninguém mais ouvisse. _ Se eu soubesse que o atendimento aqui era tão bom, teria reservado algumas mesas no meu aniversário também, ao invés de fazer aquela festa...
Carolina forçou um sorriso, lembrando-se da festa de aniversário da garota, dois meses atrás.
Foi uma festa enorme e muito bonita, mas Carolina ainda se lembrava das piadinhas a seu respeito, quando apareceu na festa com um vestido que seu pai escolhera, que evidenciava cada curva em seu corpo. O problema, era que ela não tinha seios grandes o suficiente para preencher o decote do vestido e suas amigas zombaram disso a noite inteira.
Guido retornou um minuto depois, distribuindo o Menu para todas nós, para que escolhêssemos o nosso jantar.
_ As senhoritas bebem vinho? _ Guido perguntou, olhando para todas elas, que assentiram no mesmo instante, menos Carolina. _ Isso é muito bom! Vou pedir que sirvam um Château Cheval Blanc, 1947.
_ Mas... _ Carolina estava prestes a dizer que aquele era um vinho muito caro e não queria abusar do cartão que seu pai lhe dera aquela noite, para comemorar seu aniversário.
_ Não se preocupe. _ Guido falou, piscando para ela. _ Considere como um presente de aniversário, do Dom Salvatore.
_ Ual! _ Alice murmurou, ao lado de Carolina.
_ Eu... _ Carolina gaguejou, sem saber o que dizer. Mas não podia negar, pois suas amigas pareciam ansiosas para experimentar aquele vinho. _ Tudo bem, eu... agradeço.
Guido sorriu para ela antes de pedir licença e se afastar novamente, enquanto elas escolhiam o que iriam comer.
Assim que entrou na cozinha, Guido parou de sorrir.
_ Não acredito que me fez fazer isso! _ Guido resmungou, enquanto encarava Domenico.
_ Você conseguiu descobrir qual delas é a filha de Dante? _ Domenico quis saber.
Ele decidiu que seria melhor se cancelassem qualquer reserva para aquela noite, assim seria mais fácil reconhecer Carolina e se aproximar dela.
_ Sim. _ Guido respondeu, a contragosto. _ Acho que posso dizer que é a garota mais tímida da mesa. Cabelos loiros e olhos azuis. Ela está sentada em uma cadeira no centro da mesa e acho que é a única loira natural naquela mesa. Não sei por que essas meninas de hoje em dia insistem em pintar os cabelos...
_ Você fala isso porque tem preferência por morenas. _ Domenico respondeu, arqueando uma sobrancelha.
_ Eu tenho bom gosto, cara. _ Guido respondeu. _ E você também, já que escolheu um vinho tão caro como cortesia.
_ Não se preocupe com o vinho. _ Domenico respondeu. Arcarei com as despesas dessa noite.
Foi a vez de Guido arquear as sobrancelhas, surpreso.
_ Isso é sério? _ ele quis saber.
_ Claro que sim. _ Domenico respondeu, antes de lhe dar as costas e seguir até a adega de vinhos.
Escolheu uma garrafa de Château Cheval Blanc, 1947, e voltou para a cozinha.
_ Agora é com você! _ Guido falou, afastando-se e se juntando aos cozinheiros do restaurante.
Domenico preparou o carrinho, selecionando as taças de vinho e colocando a garrafa dentro do balde de gelo, antes de sair e levar tudo até a mesa onde as garotas estavam sentadas.
_ É estranho... _ uma delas dizia, enquanto ele se aproximava. _ É um restaurante tão caro e famoso... Porque somos as únicas aqui, essa noite?
_ Você reservou todo o restaurante para comemorar o seu aniversário, Carolina? _ Outra garota quis saber, surpresa.
_ Não eu...
_ Boa noite. _ Domenico falou, ao se aproximar da mesa. _ Desculpe a intromissão, mas essa noite costuma ser menos movimentada do que as outras. Por isso o restaurante está vazio.
_ Ahhh. _ uma delas murmurou, satisfeita com a resposta.
Domenico parou ao lado da cadeira de Carolina e abriu a garrafa de vinho. Então colocou uma taça diante dela e apontou para a garrafa de vinho tinto.
_ Posso? _ ele quis saber e Carolina assentiu, encarando-o.
Ele era um belo rapaz, ela pensou, admirando-o disfarçadamente enquanto Domenico servia o vinho em sua taça.
Na verdade, se o tivesse encontrado dentro do restaurante, ela julgaria que ele era um cliente, e não um funcionário.
Principalmente, por conta do perfume que ele usava naquele momento, e que preenchia suas narinas.
Domenico se afastou para servir as outras meninas, mas não sem lançar alguns olhares na direção de Carolina, vez ou outra.
Quando ele se afastou, levando o carrinho vazio consigo, as outras garotas riram e gracejaram:
_ Acho que ele não parava de olhar para a Carolina... _ uma delas comentou.
_ Ele é um gato! _ Alice comentou, fazendo com que Carolina olhasse para ela com surpresa. _ Uma pena que o seu pai jamais permitiria que se envolvesse com um garçom.
_ Meu pai não liga para essas coisas. _ Carolina respondeu, de imediato. _ Mas, vocês estão exagerando. Ele estava sendo apenas atencioso, já que é o meu aniversário.
_ Hum hum... _ Alice comentou, com um sorriso repleto de malícia, antes de provar um gole do vinho. _ Puta merda, acho que nunca tomei um vinho tão bom em toda a minha vida…
_ Até parece que já tomou tanto vinho assim... _ Caroline respondeu e todas riram, divertidas, enquanto Alice apenas revirava os olhos.
_ Você não sabe de nada, garota! _ ela respondeu. _ Agora prove!
Carolina olhou para a taça, a sua frente, e hesitou antes de pegá-la e levá-la aos lábios.
Tomou um pequeno gole, enquanto suas amigas faziam o mesmo.
_ É muito bom. _ Caroline falou, admirada.
_ Não sei como conhece tanto sobre vinhos, sem saber que gosto tem! _ Alice resmungou, antes de pegar o Menu.
Alguns minutos depois, elas decidiram o que iriam comer e Guido voltou para anotar os pedidos, antes de voltar para a cozinha.