Capítulo 2

⋆.ೃ࿔*:・ Arlo ⋆.ೃ࿔*:・

Desde o dia em que fui arrastado para esse casamento forçado com Miriam, me sentia extremamente infeliz. Era uma união indesejada. Meu pai me obrigou a assinar um acordo de casamento para garantir que eu lhe desse um neto legítimo. Eu não conseguia fingir simpatia com minha esposa.

Como ela concordou com um contrato tão absurdo? Ah, claro, deve ter sido devido ao dinheiro envolvido, provavelmente ela e o irmão dividiriam tudo! Eu me sentia preso a um destino que não escolhi. Após um mês de casamento, eu mal falava com Miriam, e nossa relação era fria como o gelo.

Eu resistia a qualquer tipo de intimidade, pois não queria me entregar a uma mulher que eu não escolhi. Meu pai queria muito um neto e eu sabia que existia uma alternativa, uma com a qual eu não precisava consumar o ato sexual com minha esposa.

Certa noite, durante um jantar em nossa suntuosa mansão, decidi me sentar ao lado de Miriam, o que era raro em nossa rotina de jantares solitários.

— Miriam. — disse eu, minha voz carregada de desinteresse. — Você entende que não somos nada um para o outro? Essa união foi imposta a nós, e eu não tenho interesse em forjar qualquer tipo de relacionamento.

Miriam me encarou com seus olhos tristes de sempre.

— Agora eu sei que esse casamento não foi desejado por nenhum de nós, Arlo. Mas aqui estamos nós, presos nessa realidade que não escolhemos.

— Você é uma mulher vendida. — continuei, com amargura em minhas palavras. — Seu irmão te usou como moeda de troca em seus jogos de poder. E eu, como um mero fantoche, fui obrigado a aceitar essa farsa.

Miriam levantou abruptamente, seus olhos faiscando com uma mistura de raiva e indignação. Seus passos decididos se aproximaram de mim, e antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, sua mão atingiu meu rosto com um estalo. O impacto ecoou pelo cômodo, junto com o silêncio tenso que se instalou.

— Como você ousa? — ela disparou, sua voz trêmula de emoção. — Como ousa me chamar de mulher vendida? Você não tem ideia do que passei, das escolhas impossíveis que tive que fazer!

Fiquei ali, atordoado, a dor da bofetada ainda reverberando em meu rosto. Eu não tinha previsto que minhas palavras teriam esse efeito explosivo. Miriam estava fervendo, suas palavras fluindo como um rio enfurecido.

— Fui manipulada, ameaçada pelo meu próprio irmão! — ela me encarava com olhos inflamados, desafiando-me a duvidar de sua sinceridade. — Ele forçou esse casamento e contrato, eu não tive escolha. Você acha que eu queria isso?

Eu pisquei, ainda tentando processar a avalanche de emoções que ela estava lançando sobre mim. Mas a incredulidade estava entrelaçada com minha surpresa.

— Manipulada? Ameaçada? Isso é o que você quer que eu acredite? Você e seu irmão só estavam atrás do dinheiro, não é?

A resposta foi imediata e furiosa.

— Dinheiro? Você realmente acredita nisso? Arlo, você não me conhece de verdade. Tudo o que eu queria era minha liberdade, uma vida que eu pudesse controlar.

Eu me inclinei para trás, cruzando os braços, um misto de raiva e ceticismo permeando meu tom de voz.

— Você espera que eu acredite em cada palavra que sai da sua boca? Desculpe, Miriam, mas essa história não faz sentido.

— É a verdade, você acredite em mim ou não! Estou cansada de tanto sofrimento e, agora, estou neste casamento de bosta ao seu lado! — gritou para que todos os nossos empregados ouvissem.

— Sério, Miriam? Você não poderia ter escolhido um momento melhor para explodir? Estragou meu jantar todo.

— Ah, me desculpe, Sr. Delicadeza. Deveria ter pensado duas vezes antes de levantar a voz, não é? — respondeu com sarcasmo.

— Você tem uma boca suja, sabia? Eu não preciso aguentar esse tipo de atitude.

— Oh, pobrezinho. O cavalheiro ofendido. Desculpa se a verdade dói. — disse ela, cruzando os braços.

— A verdade? Você chama isso de verdade? E espera que eu engula?

— Eu não estou aqui para agradar você ou suas expectativas frágeis. Não vou me calar só porque você não consegue lidar com a realidade.

— Você não sabe a hora de calar a boca? Não estou pedindo para me agradar e não quero ser ofendido dessa maneira!

— Esse casamento tem me mostrado o quanto você é um arrogante filho da puta, que acha que o mundo gira em torno do seu umbigo! Acorda, meu querido, tanto você quanto eu estamos ferrados nessa merda!

Cerrei os punhos e respirei fundo para não fazer nenhuma besteira contra ela.

— Desde quando você se transformou em uma mulher assim? Respondona e malcriada? Quando casamos, você sempre se mostrou submissa e na sua. Por que mudou agora? — questionei, aborrecido.

— O que mudou agora? Estou farta de tudo! Eu nem sequer posso fugir dessa casa que meu irmão pode me encontrar e me matar! E o que posso dizer de você? Que fica se vitimizando o tempo todo, jogando a culpa nos outros? Bom, melhor eu nem continuar...

— Claro, claro. É tudo culpa minha, não é? Você nunca fez nada errado na sua vida.

— Não é sobre eu ser perfeita, é sobre você ser cego demais para enxergar além do seu próprio umbigo!

— Ah, sim, claro. Você é a vítima aqui. E eu sou o vilão insensível que não entende sua vida "sofrida". — enfatizei a palavra sofrida provocativamente.

— Você não entende nada, Arlo. Você nem se esforça para realmente me entender.

— Talvez você esteja certa. Possivelmente eu não entenda. Mas isso não muda o fato de que suas explosões estão me enlouquecendo.

— Pode ser que nós dois tenhamos um ponto em comum. Precisamos aprender a ouvir e falar melhor do que apenas gritar.

— Talvez. Mas isso não muda o fato de que estragou meu jantar.

Era como se um abismo se abrisse entre nós. Não queria admitir que poderia estar errado em meu julgamento. E assim, a discussão continuou, um duelo de palavras afiadas e acusações ressentidas.

No final, porém, quando os ânimos se acalmaram e o calor da discussão deu lugar à frieza do silêncio, eu me vi refletindo sobre as palavras dela. O que se destacava não era a acusação de oportunismo, mas sim a dor genuína em sua voz, a angústia nos olhos dela. Talvez, apenas talvez, houvesse mais na história do que eu estava disposto a admitir naquele momento.

No entanto, o orgulho ainda ardia dentro de mim, tornando difícil admitir qualquer coisa. Mas enquanto olhava para Miriam, senti um nó em meu estômago. E mesmo que as palavras não fossem ditas em voz alta naquele momento, eu sabia que a verdade estava bem ali, esperando para ser aceita.

Capítulo 3

⋆.ೃ࿔*:・ Miriam ⋆.ೃ࿔*:・

Naquela manhã, a sensação de confinamento naquela mansão sufocante era mais forte do que nunca. Eu me via presa entre suas imponentes paredes, cercada por empregados que eram mais como sombras do que pessoas reais. A solidão era quase palpável, e eu sentia que minha vida estava escorrendo entre meus dedos. Decidi que era hora de quebrar essa rotina opressora e finalmente dar um passeio pela cidade, respirar um pouco de ar fresco e ver o mundo lá fora.

O sol brilhava radiante no céu, aquecendo minha pele enquanto eu caminhava pelas ruas movimentadas da cidade. Era como se eu tivesse redescoberto a liberdade, cada passo me afastando mais da prisão dourada que era a mansão. As lojas, os cafés, as pessoas indo e vindo, tudo parecia tão vívido e real, como se eu tivesse acordado de um longo pesadelo.

No entanto, minha jornada de autodescoberta foi interrompida quando finalmente retornei àquela mansão. Arlo, meu marido indesejado, estava esperando por mim com uma expressão furiosa no rosto. Seus olhos escuros pareciam faíscas de fogo, prontos para incendiar qualquer coisa em seu caminho.

— Onde você esteve, Miriam? — ele rosnou, sua voz carregada de raiva e desconfiança.

Olhei para ele, sustentando seu olhar com firmeza.

— Eu estava dando um passeio, Arlo. Precisava sair, ver o mundo lá fora.

Ele avançou em minha direção, seus punhos cerrados.

— Você não pode simplesmente sair assim, sem me avisar! Esta é a minha casa, e você é minha esposa!

Revirei os olhos, havia anos de reclusão acumulados dentro de mim, por ter vivido ao lado do meu irmão Levy e não seria aquele casamento de merda que me colocaria novamente limites.

— Sua casa, Arlo? Não, isso é apenas uma prisão disfarçada. E quanto a ser sua esposa, bem, vamos encarar a verdade. Nós nunca fomos marido e mulher de verdade. Nossa união é apenas no papel.

Ele pareceu chocado com minhas palavras, como se ninguém jamais tivesse ousado falar assim com ele.

— Como você pode dizer isso? Estou cuidando de você, te dei tudo o que você precisa.

Cruzei os braços, enfrentando-o de frente.

— Cuida de mim? Isso é o que você chama manter alguém em cativeiro? Você acha que ter todas essas coisas materiais significa alguma coisa? Eu não quero ouro e seda, Arlo. Eu quero liberdade, eu quero viver minha própria vida.

Ele riu amargamente, uma risada carregada de ironia.

— E o que você acha que vai fazer, Miriam? Você não tem para onde ir, ninguém que possa te proteger do seu irmão.

Minha coragem só aumentou diante de suas palavras.

— Não subestime minha força, Arlo. Eu vou encontrar um caminho. E quanto a você me proteger, eu não preciso disso. Eu posso me proteger de agora em diante.

A discussão continuou, palavras afiadas sendo trocadas como espadas em um duelo verbal. Ficou claro que nossas vidas estavam entrelaçadas por circunstâncias, mas nunca por escolha. Eu não queria mais viver como uma prisioneira, controlada por alguém que tudo que queria de mim era um herdeiro, como foi concordado no contrato de casamento.

Eu estava pronta para evitar uma gravidez durante o período de casamento, no entanto, não seria necessário. Arlo não queria ter nenhuma intimidade comigo, portanto, não correria o risco de engravidar. Meu marido deveria ser um gay enrustido, isso explicaria muita coisa, como o pai dele comprar meu irmão para que eu casasse com ele e lhe desse um filho.

Arlo aproximou-se e segurou firme no meu braço, machucando um pouco e disse:

— Podemos não ter uma união verdadeira, Miriam, porém, você me deve satisfação. Você gostando ou não, estamos juntos nessa união durante um tempo. E você carregará um filho meu, não esqueça que concordou quando assinou o contrato de casamento!

Mordi o punho do meu marido e ele me soltou imediatamente.

— Vai fazer um filho em mim com um dedo? Você não gosta de mulher, Arlo. Nem conseguiu me beijar no nosso casamento falso. Para de fingir ser macho e confessa logo de uma vez que você não passa de uma gazela!

— Gazela? Eu não sou gay, caralho! De onde você tirou isso? É errado eu não querer dormir com uma mulher que não amo? Quer que eu force você ter relações sexuais comigo? É o que está parecendo! Ou você quer tanto assim me dar e fica me provocando desse jeito?

— Arlo, eu prefiro me esfregar em um mendigo do que em você!

— Miriam, você não deveria estar me provocando desse jeito...

— Por quê? Vai me surrar? Meu irmão sempre fez isso. Você deve ser pior do que meu irmão Levy. Abri meu coração pra você sobre tudo que passei e você nem acreditou em mim. Quer saber de uma coisa? Pode bater, anda, bate! — esbravejei, dando minha cara para que ele batesse e continuei. — Vai, me mostra que você é só mais um monstro como meu irmão!

— Caramba! Você é insuportável! Preferia você quando era silenciosa.

— Quer dizer submissa? Estou cansada de ser silenciada pelos outros. Vamos ter que conviver, meu querido. E eu vou fazer dos seus dias um inferno, Arlo Bennett!

— Vou tentar convencer meu pai de te devolver para o filho da puta do seu irmão. É isso que você quer? Voltar para as garras dele? Para quem se diz ter sido vítima do irmão durante anos, você parece ansiosa para voltar para seu antigo lar...

Aquela ameaça do meu marido foi muito repentina e me despertou muito medo, entretanto, tentei disfarçar.

— Acrescenta nessa conversa com seu papai, de que você quer trocar sua esposa por um marido cabeludo! Arlo, admite logo que você gosta de homens musculosos e vai viver sua vida! Ontem falou que queria liberdade e não vejo você fazer nada para isso! O que te impede de ir viver?

— Você é muito teimosa e maldosa, Miriam! Meu pai ameaçou tirar tudo de mim se eu não aceitasse me casar e lhe dar um neto. Eu não quero ser um zé-ninguém, entendeu? Ele sempre controlou minha vida...

Arlo era mesmo um mimado e medroso. Se meu problema com meu irmão fosse apenas devido a dinheiro, eu não teria vivido a vida que vivi ao lado dele.

— Quando digo que você é um mimado, não é à toa! Não sabe fazer nada da vida? Além de atormentar seus funcionários na empresa que seu pai te deu, o cargo maior de todos? Seu pai não é muito inteligente ao ter se envolvido com meu irmão. Levy, é um assassino, Arlo. Você sabe o que é, ver o amor da sua vida ser morto na sua frente e não poder fazer nada? Claro que não sabe! — desabafei, recordando meu passado doloroso.

Meu irmão havia assassinado o amor da minha vida na minha frente, simplesmente por descobrir que estávamos nos relacionando escondido. Ele era um dos seguranças do meu irmão. Levy descobriu tudo e não o perdoou. Meu namorado e eu não tivemos nem a chance de fugir juntos para muito longe.

Comecei a chorar na frente de Arlo, então, sai correndo para o meu quarto. Não queria mais continuar vivendo oprimida e em um inferno em que era controlado por todos, menos por mim.

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