- Mãe, Pai, cheguei.
- Minha doce filha! - O Sr. Alberto disse, passando a mão nos cabelos dela.
- Pai, para! Já não sou mais uma menininha - retrucou Shilla, com uma voz manhosa.
- Você será sempre a minha menininha. - Ele sorriu, um sorriso largo e sincero.
- Que bom que chegou, filha. A mamãe já estava ficando preocupada. - Linda deu-lhe um abraço caloroso.
O ambiente de amor familiar, aquele calor reconfortante, despertou um frio e forte aperto no peito de Esmeralda, que observava a cena da porta.
- Boa noite, tia e tio - saudou Esmeralda, forçando um pequeno sorriso.
- Boa noite, querida - responderam em uníssono.
- Como foi a aula hoje? - Linda perguntou, virando-se para a sobrinha.
- Foi muito boa, tia.
- Que ótimo, querida. Se precisar de alguma coisa, me avise. - Linda disse com carinho. Ela realmente gostava da sobrinha.
Está bem, tia. Agora vou para o meu quarto. - Esmeralda mal esperou a resposta e saiu apressadamente.
- Mãe, Pai, também vou para o meu quarto. Vou tomar um banho e já volto para o jantar - anunciou Shilla, levantando-se.
- Ok, vai lá. - O Sr. Alberto sorriu.
- Não demore muito no banho - alertou a Sra. Linda.
- Está bem, mãe.
Eles observaram a filha desaparecer da sala, sorrindo um para o outro.
Postada no quarto, Esmeralda estava cheia de raiva. Ela cerrou os punhos até que as unhas marcassem a pele. "Que droga," sibilou, os olhos azuis faiscando no reflexo do espelho. "Eu te odeio, Shilla. Um dia, tudo isso será meu, e você verá o que vou fazer contigo."
[....]
Já no seu quarto, Shilla terminou o banho e pegou no celular. Discou o número do namorado.
- Oi, querida. Você chegou bem em casa? - A voz do rapaz veio suavemente pela linha.
- Sim, querido, e você?
- Também cheguei bem. Já estou com saudades - Ele disse, com a voz dócil.
A conversa durou alguns minutos, até que a mãe a chamou para jantar, forçando-a a se despedir.
[......]
Alguns minutos depois, estavam todos em volta da mesa, jantando alegremente, a imagem viva de uma família perfeita.
Linda abaixou os talheres, olhando para a irmã com um vinco de preocupação na testa.
- Amanda, tens que abrandar. Trabalhas demais. Pareces esgotada. Devias pegar mais leve.
Amanda parou de mastigar. Ela pousou os talheres com um clique na porcelana, e só então levantou os olhos, um sorriso forçado a esticar-lhe os lábios.
- Está tudo bem, irmã. Não precisas te preocupar. Juro-te, pela próxima vou trabalhar menos. - A voz dela era excessivamente suave, e Linda apenas assentiu, ainda não totalmente convencida.
Logo que terminaram o jantar, as meninas foram para os seus quartos, e o casal foi tomar chá e pôr a conversa em dia. Linda ultimamente ficava cansada de repente e não entendia o porquê. Ela chegou a comentar com a irmã, mas nada disse ao marido. Não queria que ele ficasse preocupado. Mesmo assim, ela continuava a ir trabalhar.
[.....]
Depois de alguns minutos, Linda e Amanda ficaram sozinhas na sala conversando.
- Eu... eu tenho andado tão cansada ultimamente. De repente, sinto que a energia me foge. Comentei contigo, lembras-te? Mas não disse nada ao Alberto, não quero que ele fique preocupado.
- É apenas stress, querida. Má alimentação. - Amanda descartou o assunto com um aceno da mão e mudou de assunto imediatamente.
Linda também continuaria a ir trabalhar, lutando contra aquela fadiga estranha que a assombrava.
Passaram-se alguns meses, e Linda ficou doente de repente. Ela foi hospitalizada, e os médicos não conseguiam entender a origem da doença. Linda foi submetida a exames invasivos, mas os gráficos e análises voltavam sempre limpos. Os dias passavam, e ela definhava lentamente, sem qualquer melhora.
Shilla e Alberto estavam no quarto de Linda. Linda estava deitada, o rosto pálido e osso contra o travesseiro branco, e o cheiro agridoce de desinfetante hospitalar pairava no ar. Shilla segurava a mão da mãe, que estava fria e estranhamente leve, enquanto uma torrente de lágrimas silenciosas escorria pelo seu rosto. Ela suplicava a si mesma que tudo aquilo fosse apenas um pesadelo e que logo acordaria.
- Não chore, meu amor. Vai ficar tudo bem. Prometa-me que você ficará bem. - Linda sussurrou, a voz mais fraca que um sopro. Shilla teve que se curvar para ouvir.
- Não, mãe! A senhora tem que ser forte! Temos que ir para casa! Para o nosso jardim! - Shilla negou com a cabeça desesperadamente, as lágrimas agora quentes e abundantes molhando a mão da mãe.
Linda virou a cabeça com esforço para o marido. - Meu bem... cuide bem da nossa filha... e do que é nosso. - Ela disse tossindo, um som seco e preocupante no seu peito.
De repente, o silêncio foi quebrado por um alarme estridente e agudo. Os aparelhos começaram a apitar loucamente, desenhando linhas retas e vermelhas no monitor. Alberto disparou para fora do quarto, o pânico estampado nos olhos, berrando pelos médicos.
- Mãe, por favor, acorde! Não me deixe! - Shilla caiu de joelhos ao lado da cama, agarrando-se ao lençol da mãe, o desespero transformado em grito mudo.
Os médicos e enfermeiros entraram a correr, empurrando Shilla e a máquina de desfibrilhação para o centro da ação. Os comandos urgentes, os ruídos da reanimação e o cheiro de eletricidade encheram o quarto. Fizeram tudo o que podiam, mas o coração de Linda, envenenado por meses, parou. Um tom contínuo, monótono e final no monitor selou o destino.
Do outro lado do vidro, separada por uma barreira fria e impessoal, Amanda observava. No meio do luto e do caos, ela deixou um sorriso lento e satisfeito desenhar-se em seus lábios, uma sombra de triunfo que a escuridão da noite mal conseguia esconder.
O dia do funeral chegou frio e cinzento, como se o céu também estivesse de luto. A mansão dos Brown, geralmente cheia de vida e risos, estava agora envolta num silêncio denso e opressor.
O caixão de mogno, coberto por um manto de rosas brancas, parecia demasiado pequeno para conter a vastidão da ausência de Linda.
Alberto estava quebrado. Ao lado do caixão, ele era a imagem da desolação. Vestido num fato preto imaculado, que parecia engolir a sua figura antes robusta, ele segurava a mão de Shilla com uma força desesperada. Os seus olhos estavam vermelhos e inchados de dias e noites sem sono, mas não havia lágrimas. Havia apenas uma dor estática e insuportável, o vazio de quem perdeu o seu porto seguro e o seu grande amor.
Shilla, por outro lado, estava numa espécie de transe de choque. Estava vestida de preto, uma sombra da jovem vibrante que fora. O seu rosto estava pálido e emaciado, os seus olhos claros fixos num ponto distante, incapaz de aceitar a realidade da terra que seria atirada sobre a mãe. Ela não chorava em soluços; o seu luto era um choro silencioso e interno, uma negação que a mantinha de pé, mas a esmagava por dentro. De vez em quando, um tremor incontrolável percorria o seu corpo.
Entre as centenas de convidados, Amanda e Esmeralda mantinham-se discretamente próximas, mas com uma visível distância emocional. Amanda usava um véu preto elegante, que lhe dava uma aura de luto respeitável. De vez em quando, abraçava Alberto de forma breve e calculada, oferecendo palavras vazias de apoio que soavam a metal frio.
Esmeralda, ao seu lado, fingia secar os olhos secos com um lenço de seda. O seu olhar, contudo, vagava sobre os presentes, notando os bens da família, as joias das outras convidadas e, finalmente, o rosto desfeito de Shilla. No fundo do seu coração, sentia um triunfo silencioso: o primeiro obstáculo havia sido removido.
Quando o caixão começou a ser baixado, Alberto soltou um grito rouco e animal, um som de partir o coração que ecoou no silêncio do cemitério. Shilla, sem força, caiu nos braços do pai, a sua voz finalmente se libertando num soluço agudo e desesperado, o som da sua inocência a ser enterrada junto com a mãe.
Amanda observou o colapso, e nos seus lábios, escondido sob o véu, pairou um sorriso fugaz e implacável. O jogo estava prestes a começar.
Após o enterro, o salão principal da mansão Brown foi aberto para receber os amigos, sócios e conhecidos que vinham prestar as suas últimas homenagens.
O ambiente estava pesado, abafado pelo cheiro a flores e pela tristeza.
Alberto, com o olhar perdido, ficava de pé ao lado de Amanda, recebendo os apertos de mão e os abraços de pêsames. Ele mal registrava as palavras, agarrado à mão de Shilla, que parecia feita de vidro.
Shilla, no entanto, mal conseguia suportar o peso dos olhares curiosos e das frases repetitivas de conforto.
As pessoas vinham, abraçavam-na, e repetiam que Linda estava num "lugar melhor" - palavras que a atingiam como mentiras cruéis. Ela apenas balançava a cabeça, incapaz de falar.
Foi então que Vincent, o namorado, se aproximou. Ele era a sua âncora naqueles dias de tormenta.
- Meu amor, você precisa se sentar - sussurrou ele, a voz quente e urgente, guiando-a gentilmente para um sofá de veludo num canto menos iluminado.
Ele sentou-se ao lado dela, envolvendo-a num abraço apertado. Shilla, finalmente, permitiu-se desabar. Ela enterrou o rosto no peito dele, molhando a camisa com as suas lágrimas silenciosas.
- Eu... eu não consigo, Vince. Eu não consigo respirar - ela soluçou, a voz embargada pela dor.
- Shhh. Eu sei, eu sei. Dói muito, meu anjo. - Vincent acariciava-lhe o cabelo com ternura, a sua presença sólida sendo o único conforto real que ela sentia no momento.
- Mas eu estou aqui. Eu não vou sair do seu lado, Shilla. Nós vamos superar isto juntos.
Ele parecia sincero, os seus olhos castanhos transmitindo uma promessa de lealdade. Shilla agarrou-se àquela promessa, àquele calor. Naquele momento, Vincent era a sua única esperança de que a vida ainda pudesse ter um futuro.
Enquanto isso, Amanda e Esmeralda observava a cena de longe. Elas via o quanto Shilla dependia de Vincent.
Elas sabiam que, para destruir Shilla completamente, não bastava roubar-lhe o dinheiro e o pai; era preciso arrancar-lhe o coração. O sorriso falso que elas dirigiam aos convidados cintilava de antecipação. O destino de Vincent, e o de Shilla, já estava selado.