CAPITULO 02
Depois de um longo dia de trabalho exaustivo, fui para casa tarde da noite, eram 22 horas quando cheguei em casa. A noite parecia mais escura quando João estava em frente à minha casa, ele e os seus amigos costumavam ficar lá quando iam me cobrar. Dessa vez não foi diferente.
Procurei pelas minhas chaves na bolsa com as mãos trêmulas, assim que as peguei, elas caíram no chão. Abaixei para pegar, mas já era tarde, ele já estava a minha frente. Levantei, mas sem olhar para o rosto dele.
─ Meio tarde, não acha?
A voz rouca dele me dava náuseas.
─ Estava trabalhando.
─ Ótima notícia, assim você me paga o que deve.
João quebra a barreira entre nós, eu me afasto.
─ Manuella, eu gosto de você, mas já tem dois meses que você não paga.
Ele umedece os lábios e tira o cabelo que tinha no meu rosto com a ponta dos dedos.
─ Não esqueça que temos negócios a tratar.
Eu estremeci com o toque dele. Ele se aproxima mais vez, eu vou para trás, mas minhas costas já colidem com a porta de casa.
─ Maristela está andando tarde da noite ultimamente...
Ele fala com uma voz manhosa.
─ Eu vou pagar a droga do seu dinheiro!
Ele sorri.
─ Você tem até o final desse mês.
João some da minha varanda.
Eu abro a porta rapidamente e tranco com as mãos tremulas. Meu peito descia e subia com força, aquela fora a primeira vez que ele invadiu meu espaço pessoal e me ameaçou desta forma.
Engulo a seco.
Ele podia mexer comigo, mas com a minha irmã? João não era confiável, eu tinha que proteger minha irmã
.
─ Graças a Deus que Maristela já está dormindo.
Digo a minha mesma sussurrando.
Ainda bem que Maristela não viu essa cena, ela não merece isso
Vou até a cozinha beber água, pego um copo tiro água do filtro e bebo, me vem umas lembranças do quase orgasmo que tive hoje apenas de olhar para meu chefe, ainda estou tentando me recuperar.
─ Chegou tarde.
Maristela entra na cozinha me assustando.
─ Que susto! ─ digo com uma das mãos no peito.
Ela pula em minha direção com animação.
─ E como foi o primeiro dia?
─ Foi exaustivo, ficar de pé não é mais fácil. Meus pés estão me matando.
Digo tirando meus sapatos.
─ Você quer uma massagem ou jantar?
─ Não, estou bem. Você já deveria estar dormindo, Maristela.
─ Resolvi esperar por você. Estou contente!
─ Eu sei irmãzinha, agora vamos dormir.
Dou um beijo sua testa e subo para meu quarto. Tomo banho visto minha camisola e durmo.
No dia seguinte o despertador toca às 5:00, não sou do tipo que fica enrolando na cama para acordar. Me levanto de uma vez e vou direto para o banheiro, faço o básico e visto logo uma roupa social, arrumo os cabelos e faço a maquiagem cujo Isabela mencionou. Desço e vou para a cozinha, Maristela estava sentada tomando café pronta para ir à escola.
─ Bom dia, fiz panquecas e ovos fritos.
Sento a mesa enquanto ela me serve um prato com ovos.
─ Hum, está aprendendo a se virar. Estou orgulhosa.
Ela sorrir.
─ Você faz tanto, queria lhe ajudar em algo.
Dou um beijo em sua cabeça.
─ Você já me ajuda mais do que deveria.
Saio de casa e vou para a estação, eu não sabia que demoraria tanto para o metrô finalmente passar. Observei o relógio e eu me atrasaria minutos, mas já seria algo ruim de se fazer no segundo dia de trabalho. Eu corri até a empresa, entrei pelos fundos e fui direto para os vestiários, vesti meu uniforme e andei até a bancada, mas durante o percurso fui apanhada.
─ Você, está atrasada!
A mesma mulher que estava com o meu chefe me intervém.
─ Me desculpe, o metro atrasou......
─ Isso não é problema meu. ─ ela olha para mim com os olhos cerrados ─ Você não é a nova recepcionista?
─ Está demitida! ─ disse sem pestanejar.
─ Por favor, não faça isso, eu só me atrasei poucos minutinhos.
Ela me observa com um sorriso maldoso no rosto, com olhar de forma superior.
Eu seguro minhas lágrimas.
─ Esse empreguinho vale tanto assim para você¿
─ Por favor, não faça isso. Eu faço o que quiser!
─ Isso é muito interessante... ─ ela diz me olhando da cabeça aos pés. ─ Eu tenho um serviço especial para você, qual seu nome?
─ Me chamo Manuella, senhora,
Meu broche de funcionaria, segundo Isabela, ainda estava sendo feito. Hoje eu o pegaria, se não fosse demitida.
─ Gilberto me pediu para limpar a sala dele, esse serviço será seu, limpe tudo antes dele chegar.
─ Claro, senhora!
Peguei o espanador e comecei tirando a poeira, não estava tão sujo quando eu imaginava. No fim, falta apenas tirar uma mancha do chão, peguei o pano úmido e me coloquei de joelhos no chão. A manchas era insistente, mesmo com eu usando toda minha força, ela continuava lá.
─ Quem é você?
Eu me viro abruptamente, quando vejo Leonardo olhando para mim com o cenho franzido eu caio para trás. Ele vem me ajudar de imediato.
─ Perdoe-me se te assustei.
Ele estende a mão para mim, quando pego, sinto uma onde elétrica passando pelo meu corpo.
─ Essa não foi minha intenção.
─ Senhor... Desculpas, eu... limpar.
Fiquei tão nervosa que minha voz saiu trêmula, e tudo embaraçado.
Ele me olhou confuso.
─ Me desculpe, não entendi.
─ Desculpa, a senhorita Celina me mandou limpar sua sala.
─ Eu já entendi isso.
Fala ele ainda com uma das sobrancelhas arqueadas.
─ Isso não era para ser serviço seu, mas tudo bem. Pode continuar o que estava fazendo.
Ele se aproxima de mim, o que vai fazer? Eu vou morrer.
─ Com licença, mas preciso da minha mesa para trabalhar.
Ele sorri mostrando todas suas covinhas.
─ Ó, sim, perdão.
Saio do seu caminho e tento continuar limpando com a presença dele na sala.
Não sei se estou ficando maluca pelo nervosismo, mas me pareceu que ele me olhava as vezes, seria estranho alguém como ele olhar para alguém como eu.
─ Senhor Gilberto, me chamou?
Celina entra na sala e me metralha com os olhos.
─ Sim, eu quero conversar com você sobre isso, mais tarde.
Ele falou tão sério que eu fiquei ainda mais desconcentrada.
─ Sim, senhor.
─ Ótimo. Agora você, senhorita?
Ele procura pelo meu broche, mas infelizmente eu ainda não estava com ele.
─ Manuella, senhor.
─ Pode nos deixar a sós? E seu salário será aumentado esse mês por conta disso. Sinto muito.
─ Não precisa.
Pego meus utensílios de limpeza, mas antes que eu saísse da sala, vi o olhar de reprovação vindo de Celina.
Ele apenas umedece os lábios e eu fecho a porta deixando os dois.
CAPITULO 03
O dia foi tenso, Celina me olhava como se quisesse me matar. Eu não queria mexer com alguém como ela, que com certeza pisaria em mim como se eu fosse uma mísera barata.
Falei do ocorrido para Isabela durante o horário de almoço e ela gargalhou.
— Eu não posso acreditar, Manuella— ela indagou ainda rindo.
— Foi muito constrangedor.
— Mas como ele é de perto e a sala dele?
— Ah, eu não reparei muito.
Finjo dar de ombros.
Ela me lança um olhar cético.
— Está bem, está bem. Ele foi educado e só. Somente isso, Isabela.
— Está bem eu me rendo.
— A sala dele é muito bonita.
— Podre de rico, tinha que ser né.
Para mim era estranho a visível divisão de classes. Enquanto Gilberto tinha toda a riqueza do mundo, e eu me humilhei mais cedo para continuar em um emprego de recepcionista.
Já estava nos últimos minutos do meu expediente.
— Finalmente, trabalho concluído.
Isabela diz trocando de roupa.
— O dia foi duro hoje.
— Muito cansativo, e agora a minha noite vai ser fantástica.
— E por quê?
— Tenho um encontro com um homem maravilhoso, ele é perfeito.
— Uau, um homem perfeito?
— Quero dizer que aparentemente sabe fazer as coisas, entende? Não existe homem perfeito dona Manuella.
— Certamente.
Depois de uma conversa divertida, Isabela vai embora e eu caminho até a estação de metrô mais próxima que ficava a umas quadras da empresa.
Já estava tarde eu estava sozinha, mesmo sendo uma rua muito movimentada durante o dia, a noite tudo fica parado.
Um carro se aproxima de mim, eu me assusto e me afasto, poderia ser um sequestrador ou um psicopata qualquer, mas o automóvel era muito chique para ser de qualquer um. O motorista abaixa o vidro e vejo quem era, sr. Gilberto.
— Quer que eu a leve para casa? — Perguntou.
— Não, eu estou indo para a estação.
Minha voz sempre fica falhada quando se tratava do Gilberto.
— Tem certeza? Está bem tarde, não vai me custar nada te levar pelo menos na rua da sua casa. — Disse.
— Mesmo assim, acho que não seria adequado.
Ele olha para frente e bate repetitivamente seu dedo indicar no volante, parecia pensar.
— Te levo pelo que aconteceu hoje, para ficarmos quites. Está bem?
Fico relutante, mas no fim aceito a proposta.
— Tudo bem.
Entro em seu carro. O cheiro que exalava era tão bom, perfume masculino e carro novo.
— Você está desconfortável?
Diz ele ainda com a atenção voltada para a rua.
— Sim, não é todo dia que alguém como você me oferece carona.
— Não leve isso a mal, eu só a vi sozinha e não quis ser rude. — Continuou
— Acredite ou não, tento ser um cavalheiro que não faz distinção.
— Está tudo bem.
Eu não olhava em seus olhos, sentia vergonha. Ele sendo oposto de mim, sempre me olhava nos olhos, sem vergonha e com intensidade, talvez porque seus olhos eram duas piscinas esmeralda.
— Eu confesso que nunca a vi na empresa, é funcionaria nova¿
— Sim, eu fui contratada há dois dias por um homem de sanidade duvidosa.
Ele deu uma gargalhada do que eu falei.
— Não seja tão malvada com meu querido gerente. Ele costuma ser bem seletivo.
Paramos no sinal, não haviam muitos carros má avenida. Senti seu olhar queimar sobre mim.
— Assim como eu sou.
— Manuella?
Ouvi sua voz bem no fundo, era como se eu tivesse apagada ainda de olhos abertos.
— Pode me dizer sua localização?
— Há sim, acabei me esquecendo de te passar o endereço.
O resto do percurso eu não abri a boca pra falar nem um "a", aparentemente ele percebeu que eu quase babei em seu carro após aquela troca de olhares de segundos.
— Chegamos.
Ele desliga o carro.
-— Obrigada, senhor Gilberto.
— Foi um prazer, Manuella.
A cada vez que ele falava meu nome eu sentia meu corpo dar pequenos espasmos, o sotaque dele falando meu nome me instigava.
Saio de seu carro e entro logo em casa, ainda estava ofegante e com muita vergonha. Subi e fui direto para o banheiro, liguei o chuveiro e deixei a água escorrer pelo meu corpo, me lembrava daquele homem meu coração acelerava e minha mente ficava confusa, um sorriso bobo escapou de meus lábios.
Minutos depois saí do banheiro e fui para meu quarto, me joguei na minha cama e fiquei fitando o teto branco.
Era bobagem ficar pensando nele, um homem como Gilberto Camargo Ferreira, não era qualquer um, ele tinha muitas outras melhores do que eu.
No dia seguinte, acordei mais cedo, não queria ser punida novamente. Levantei e fui direto para o banheiro, tomei banho e vesti minha roupa sem graça de sempre. Mas antes de sair fui no quarto da minha mãe, dei um beijo em sua testa e quando ia sair ela segurou meu pulso.
— Manuella? — Ela estava fraca.
— Descanse, mamãe. — Passo minha mão em sua cabeça sem um fiapo de cabelo. A quimioterapia já tinha feito seus cabelos loiros caírem há dois anos atrás.
— Estou sentindo muitas náuseas.
Lagrimas quiseram vacilar dos meus olhos, nem eu nem Maristela fazíamos ideia do que mamãe sentia. Ela mesmo com tudo isso se mantem forte, mas como todos, as vezes ela falhava. Me forcei a abrir um sorriso, entreguei o remédio designado para náuseas.
— Durma mamãe, vai ficar tudo bem.
Saio do quarto e suspiro. Desde que meu pai descobriu que minha mãe estava com câncer, após uma longa briga onde ele a culpou pela doença e alguns dias depois fugiu de casa, nunca mais o vimos em lugar algum, nem nós, nem os criminosos que ele devia. As únicas lembranças que tenho de meu pai foram as dívidas e as diversas brigas que teve com minha mãe. Maristela ainda era uma criança quando tudo começou a desmoronar, levaram tudo, até a nossa casa de bonecas que ficava no quintal ao lado da piscina de plástico. O que vemos hoje é apenas resquícios de uma vida que um dia fora feliz, o quintal estava cheio de mato que mal podíamos ver do outro lado do muro. Era triste olhar pela janela da cozinha e ver tudo isso, mas não ter forças para arrumar toda aquela bagunça, e a minha bagunça interna muito menos.
Vou para a estação e espero o metrô, quando finalmente chega eu entro e me sento em um banco vazio ao lado de uma moça. Encosto minha cabeça no vidro da janela e penso em tudo que aconteceu ultimamente, Maristela sempre dizia que eu era a pessoa mais forte e destemida que ela já conhecera, mas às vezes eu me sentia fraca e impotente, como agora.