Capítulo 2

Caio e eu nos conhecemos em uma sala de aula lotada na faculdade. Ele era o garoto de ouro, herdeiro do império de tecnologia Almeida Prado, irradiando uma confiança que vinha de uma vida sem obstáculos. Eu era uma bolsista, perpetuamente preocupada com minhas notas e meu emprego de meio período, invisível no mar de rostos privilegiados.

Mas ele me notou. Ele me perseguiu com uma intensidade obstinada que era ao mesmo tempo lisonjeira e avassaladora.

"Status social não significa nada pra mim, Júlia", ele disse uma noite, sob um céu cheio de estrelas. "É você que eu quero. Eu desistiria de tudo por você."

Eu acreditei nele. Me apaixonei por ele, de forma intensa e rápida. O mundo dele era inebriante, um turbilhão de glamour e possibilidades que eu só tinha lido em livros. Mas eu sempre estava ciente dos sussurros, dos olhares de desaprovação de sua família e amigos. Eu era a garota do lado errado da cidade, não boa o suficiente para o herdeiro dos Almeida Prado.

Então, decidi provar que eles estavam errados.

Quando ele me ofereceu um emprego na empresa de sua família, o Grupo Almeida Prado, após a formatura, eu aceitei. Mantivemos nosso relacionamento em segredo no início. Eu queria conquistar meu lugar, mostrar a todos que eu era mais do que apenas a namorada do Caio.

Eu me dediquei de corpo e alma àquela empresa. Eu era a primeira a chegar e a última a sair. Trabalhava nos fins de semana e feriados, sobrevivendo de café e ambição. Uma vez, trabalhei por três dias seguidos em uma proposta de projeto importante, dormindo em um catre no meu escritório, até desmaiar de exaustão logo após a apresentação. Eu não me importava. O projeto foi um sucesso.

Eu acreditava que meu trabalho duro era o preço da entrada no mundo dele. Pensei que se eu pudesse me tornar indispensável, se eu pudesse alcançar o suficiente, ninguém poderia questionar meu valor para estar ao seu lado.

E por um tempo, funcionou. Subi na hierarquia, minhas conquistas eram inegáveis. Caio tinha orgulho de mim. Ele se gabava dos meus sucessos para o pai dele, para os amigos.

O dia em que ele me levou ao topo da Torre Almeida Prado, se ajoelhou e me pediu em casamento publicamente foi o dia mais feliz da minha vida. Ele anunciou nosso noivado para o mundo, silenciando os críticos. Eu finalmente tinha conseguido. Eu tinha conquistado meu lugar.

Então, Helena Vasconcelos voltou para a cidade.

Ela era sua melhor amiga de infância, uma socialite com um sorriso de serpente e um senso de direito tão vasto quanto seu fundo fiduciário. Ela estava morando no exterior, e seu retorno foi como uma sombra caindo sobre nossas vidas.

Lentamente, as coisas começaram a mudar. O tempo que Caio passava comigo começou a diminuir.

"A Helena só está tendo dificuldade para se readaptar", ele dizia quando cancelava nossos jantares para sair com ela. "Ela precisa de mim agora."

Ele a chamava de "Lena". Um apelido fofo e afetuoso. Ele sempre me chamava de Júlia.

Ele começou a passar cada vez mais tempo com ela. Bebidas tarde da noite se tornaram fins de semana inteiros fora. Suas redes sociais, antes cheias de fotos nossas, agora eram uma galeria de suas aventuras com Helena. Esquiando em Aspen, degustação de vinhos em Bento Gonçalves, velejando em Angra dos Reis.

Quando eu tocava no assunto, minha voz tensa com um ciúme que eu odiava, ele suspirava.

"Você está sendo insegura, Júlia. Ela é como uma irmã pra mim. Você sabe disso."

Era sempre a mesma desculpa. *Ela é como uma irmã.*

Ele chegava em casa tarde, cheirando ao perfume dela, e caía na cama sem dizer uma palavra. Eu ficava acordada, olhando para o teto, meu coração um nó apertado de dúvida e ansiedade.

Eu dizia a mim mesma que estava pensando demais. Eu dizia a mim mesma para confiar nele. Ele me amava. Íamos nos casar. Eu tinha investido anos da minha vida, meu suor e minha alma, neste relacionamento, nesta empresa, para provar que eu era digna. Eu não podia deixar tudo ser em vão.

Então, eu reprimi minhas dúvidas. Ignorei o nó no estômago. Escolhi acreditar em suas mentiras porque a verdade era dolorosa demais para enfrentar.

O ataque à minha mãe foi o catalisador. Sua indiferença casual, sua defesa de Helena, sua priorização de uma "viagem de negócios" sobre a crise da minha família – foi o auge de mil pequenas traições.

Mas mesmo assim, uma parte de mim tentou inventar desculpas. Até eu ver aquela foto das Maldivas.

Aquela única foto comemorativa destruiu cada ilusão a que eu havia me apegado. Não havia viagem de negócios. Não havia mal-entendido.

Havia apenas uma mentira. Uma mentira profunda, cruel e abrangente.

Ele não estava apenas priorizando sua amiga. Ele me abandonou na minha hora mais sombria para ir a uma viagem romântica com outra mulher.

A desculpa da irmã era uma mentira patética e transparente na qual eu fui uma tola por acreditar.

E naquele momento, ajoelhada no túmulo da minha mãe, eu finalmente entendi. Meu trabalho duro não me garantiu um lugar ao lado dele. Apenas me tornou uma substituta conveniente e autossuficiente até que alguém que ele considerasse mais adequado aparecesse.

Todos os meus sacrifícios foram em vão. O amor que eu pensei que tínhamos era uma farsa.

A decisão não era mais uma decisão. Era uma certeza. Um fato frio e duro. Eu estava farta.

Capítulo 3

Uma semana depois do funeral, voltei ao Grupo Almeida Prado. Não para trabalhar, mas para arrumar minhas coisas. Entrei no escritório elegante e minimalista que fora meu segundo lar por anos, e parecia um país estrangeiro.

Eu estava terminando de colocar meus últimos pertences em uma caixa quando a porta se abriu. Era Caio, com um ar bronzeado e descansado. Atrás dele, segurando uma coleira, estava Helena. E na ponta da coleira estava Caesar, o enorme Mastim Tibetano que havia matado minha mãe.

Meu sangue gelou.

"Júlia, meu amor, você voltou!", disse Caio, com a voz alegre, como se tivesse acabado de voltar de uma viagem de negócios normal. "Eu estava tão preocupado. Você não estava atendendo o telefone."

Olhei para ele, depois para o cachorro, e de volta para ele. Não disse nada.

"Eu sinto muito, muito mesmo, pela sua mãe", disse Helena, sua voz escorrendo falsa compaixão. Ela deu um puxãozinho na coleira. Caesar ofegava, a língua para fora. Ele era apenas um cachorro, um instrumento da malícia dela. Minha raiva não era por ele. Era por eles.

Caio deu um passo à frente.

"A Helena se sente péssima com o que aconteceu. Viemos aqui para nos desculparmos apropriadamente."

Ele colocou o braço em volta de Helena, que se inclinou nele, olhando para ele com olhos de adoração.

"Ele tem sido tão doce, cuidando do pobre Caesar. A coisa toda foi tão traumática para ele, sabe. Ele mal tem comido."

Meu olhar estava fixo no cachorro. O animal que havia rasgado a carne da minha mãe. E eles o trouxeram aqui. Para o meu escritório.

"Queremos consertar as coisas", disse Caio com seriedade. "Mas só podemos fazer isso se você estiver disposta a nos encontrar no meio do caminho, Júlia."

Um pedido de desculpas com condições. Típico do Caio.

Finalmente encontrei minha voz. Estava firme, desprovida de emoção.

"O cachorro também quer se desculpar?"

A pergunta pairou no ar.

O rosto de Helena se contraiu.

"O que isso quer dizer?"

"Quer dizer", eu disse, voltando toda a minha atenção para ela, "que foi ele quem mordeu. Ou você se esqueceu dessa parte? Talvez ele devesse se ajoelhar nas patas e implorar pelo meu perdão."

O rosto de Helena ficou vermelho e manchado.

"Você está sendo ridícula! Ele é só um animal!"

"Exatamente", eu disse. "E minha mãe era só uma pessoa."

"Júlia, já chega!", Caio retrucou, sua voz afiada. A máscara de arrependimento havia caído. "Você está magoando a Helena."

Ele a puxou para mais perto, acariciando seu cabelo.

"Ela já passou por muita coisa. Ela está aqui, tentando ser a pessoa madura e se desculpar, e você a está atacando."

Uma dor, tão aguda e familiar, atravessou meu peito. Ele a estava defendendo. De novo. Mesmo agora.

Por que eu pensei que seria diferente? Por que, por um segundo, pensei que ele tinha vindo aqui por mim?

Helena começou a fungar, enterrando o rosto no peito de Caio.

"Eu só queria dizer que sentia muito", ela choramingou. "Eu nunca quis que nada disso acontecesse."

"Eu sei, Lena, eu sei", Caio arrulhou, fuzilando-me com o olhar por cima da cabeça dela. "Ela só está de luto. Não está em seu juízo perfeito."

Então ele olhou para mim, o rosto duro.

"Você deve um pedido de desculpas à Helena. Você foi cruel e injusta."

A exigência era tão absurda, tão grotescamente injusta, que quase ri. Pedir desculpas? Para ela? A mulher que sorriu enquanto meu mundo desmoronava?

"Não", eu disse.

A palavra foi baixa, mas teve a força de um tiro.

"O que você disse?"

"Eu disse não."

"Júlia Soares!", ele rugiu, usando meu nome completo pela primeira vez em todo o nosso relacionamento. Soou como uma acusação. "O que deu em você? Você está sendo completamente irracional!"

"Estou?", perguntei, minha voz ainda perturbadoramente calma. "Deixe-me te perguntar uma coisa, Caio. Quando enterraram minha mãe, ela parecia irracional para você?"

Ele recuou, o rosto pálido. Ele não tinha resposta.

Virei-me, peguei minha caixa de pertences e caminhei em direção à porta.

"Onde você vai?", ele exigiu.

Eu não olhei para trás. Ao passar pela mesa de sua secretária, coloquei um envelope branco sobre ela.

"Minha demissão", eu disse à mulher de aparência atônita. "Efetiva imediatamente."

Como vice-presidente sênior, eu não precisava da aprovação dele para sair. Eu tinha essa autoridade. Era uma das poucas coisas que eu tinha que era verdadeiramente minha.

Não fui para casa. Não suportava a ideia de estar naquela casa, um espaço que um dia foi nosso e agora parecia contaminado. Fiz check-in em um hotel no centro.

Meu celular vibrava incessantemente. Uma enxurrada de mensagens de Caio.

*Júlia, onde você está?*

*Não faz isso. Podemos conversar.*

*Me desculpe. Eu fui um idiota. Por favor, volte para casa.*

*Eu te amo.*

Olhei para as mensagens, uma após a outra, e não senti nada além de um vazio profundo e cansado.

Desliguei meu celular.

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