A minha perna direita doía terrivelmente, uma dor aguda que subia até ao meu cérebro.
Abri os olhos e a primeira coisa que vi foi o teto branco e estéril do hospital.
O cheiro de desinfetante encheu as minhas narinas.
Ao meu lado, a minha mãe, Sofia, dormia numa cadeira, com o rosto pálido e vincado pela preocupação.
Tentei mexer-me, mas uma dor lancinante na perna fez-me gemer. A minha mãe acordou de um salto.
"Ana, querida! Estás acordada. Como te sentes? Dói muito?"
"Mãe... o que aconteceu?" A minha voz estava rouca, como se não a usasse há muito tempo.
"Houve um acidente de carro. Estavas a caminho do hospital para o teu último exame pré-natal quando um camião descontrolado bateu no teu táxi. O teu noivo, o Pedro, ele..."
A minha mãe hesitou, e os seus olhos encheram-se de lágrimas.
"O Pedro, o quê? Onde está ele? Ele está bem?"
Um pânico gelado apoderou-se de mim.
A minha mãe agarrou a minha mão. "Ele está noutro quarto. A situação dele é... complicada. Mas os pais dele estão aqui."
Nesse momento, a porta abriu-se.
Era o pai do Pedro, o senhor Carlos, e a sua mulher, a senhora Helena.
A expressão de Helena era fria como gelo.
"Acordaste, finalmente."
A sua voz não tinha qualquer pingo de calor.
"Onde está o Pedro? Quero vê-lo," pedi, tentando levantar-me.
"Ver o Pedro?" Helena riu-se, um som seco e desagradável. "É melhor preocupares-te contigo primeiro. E com o que carregas na barriga."
"O que quer dizer com isso?" A minha mão foi instintivamente para o meu ventre. O bebé. O nosso bebé.
"O médico disse que o acidente te causou um traumatismo grave. A tua perna está partida em três sítios e vais precisar de várias cirurgias. Vais ter de tomar medicamentos muito fortes, fazer radiografias... Tudo isso vai afetar o feto."
Carlos, que até então tinha estado em silêncio, deu um passo em frente.
"Ana, o nosso filho, o Pedro, está em coma. Os médicos não sabem se ele vai acordar. E mesmo que acorde, as lesões na coluna dele... ele pode nunca mais andar."
Cada palavra era um golpe.
O meu mundo estava a desmoronar-se.
"Não... não pode ser..."
"O que não pode ser?" Helena interveio, a sua voz subindo de tom. "A realidade? A realidade é que o meu filho está a lutar pela vida por tua causa, e tu queres trazer ao mundo um neto talvez deficiente para uma família já destruída? Que tipo de fardo queres que ele carregue?"
"Não! O nosso bebé vai ficar bem!" gritei, as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto.
"Não sejas ingénua," disse Helena, impiedosa. "Nós já falámos com os médicos. Aconselharam a interrupção da gravidez. É o melhor para ti e para o bebé. Não o sujeites a uma vida de sofrimento."
"Não! Eu não vou fazer isso! É o filho do Pedro!"
"Um filho que ele talvez nunca venha a conhecer!" retorquiu ela. "Um filho que talvez nasça com problemas por causa dos medicamentos que tu vais ter de tomar! Já tomámos a nossa decisão. Nós somos os tutores legais do Pedro enquanto ele estiver em coma. E não vamos permitir que o nosso neto nasça nestas condições. Amanhã de manhã, vais fazer o aborto."
A sua declaração final pairou no ar, fria e definitiva.
Eles viraram-se e saíram, deixando-me a sós com a minha mãe e o eco das suas palavras cruéis.
A minha mãe abraçou-me com força enquanto eu soluçava incontrolavelmente.
"Mãe, eles não podem obrigar-me. É o meu corpo. É o meu bebé."
"Eu sei, querida, eu sei," ela sussurrava, a sua própria voz a tremer. "Vamos dar um jeito."
Mas que jeito? Eles eram ricos e poderosos. O pai do Pedro, Carlos, era um advogado de renome. Eu era apenas uma estudante universitária, e a minha mãe uma professora de escola primária.
A noite foi um inferno.
Cada vez que fechava os olhos, via o sorriso do Pedro, ouvia a sua voz a falar sobre os nomes que daríamos ao nosso filho.
De manhã, uma enfermeira entrou com uma prancheta.
"Ana, está na hora de se preparar."
"Preparar para quê?" perguntei, o meu coração a bater descontroladamente.
"Para o procedimento. A família do seu noivo já tratou de tudo."
O pânico tomou conta de mim.
"Não! Eu não consenti! Não podem fazer isto!"
A minha mãe tentou argumentar, mas a enfermeira simplesmente disse que estava a seguir ordens e que a autorização legal tinha sido assinada pelo tutor do Pedro, o seu pai.
Eles queriam levar-me. Eu resisti. Gritei.
Dois seguranças do hospital foram chamados.
Eles agarraram-me pelos braços. A dor na minha perna partida explodiu, branca e ofuscante.
Eu gritei o nome do Pedro.
Gritei por ajuda.
Ninguém me ouviu. Ou fingiram não ouvir.
Fui sedada contra a minha vontade.
A última coisa que me lembro é do rosto da minha mãe, distorcido pela dor e pela impotência.
Quando acordei, a minha barriga estava vazia.
O meu bebé tinha desaparecido.
O silêncio no quarto era mais pesado do que qualquer som.
Um pedaço de mim tinha sido arrancado.
Fiquei a olhar para o teto, seca de lágrimas, sentindo apenas um vazio imenso.
Eles tinham-mo tirado.
Eles tinham matado o meu filho.
Naquele momento, o amor que eu sentia pelo Pedro transformou-se em cinzas. E no lugar dele, começou a crescer outra coisa.
Ódio.
Um ódio frio e calculista.
Eles iam pagar. Todos eles.