Capítulo 2

A minha perna direita doía terrivelmente, uma dor aguda que subia até ao meu cérebro.

Abri os olhos e a primeira coisa que vi foi o teto branco e estéril do hospital.

O cheiro de desinfetante encheu as minhas narinas.

Ao meu lado, a minha mãe, Sofia, dormia numa cadeira, com o rosto pálido e vincado pela preocupação.

Tentei mexer-me, mas uma dor lancinante na perna fez-me gemer. A minha mãe acordou de um salto.

"Ana, querida! Estás acordada. Como te sentes? Dói muito?"

"Mãe... o que aconteceu?" A minha voz estava rouca, como se não a usasse há muito tempo.

"Houve um acidente de carro. Estavas a caminho do hospital para o teu último exame pré-natal quando um camião descontrolado bateu no teu táxi. O teu noivo, o Pedro, ele..."

A minha mãe hesitou, e os seus olhos encheram-se de lágrimas.

"O Pedro, o quê? Onde está ele? Ele está bem?"

Um pânico gelado apoderou-se de mim.

A minha mãe agarrou a minha mão. "Ele está noutro quarto. A situação dele é... complicada. Mas os pais dele estão aqui."

Nesse momento, a porta abriu-se.

Era o pai do Pedro, o senhor Carlos, e a sua mulher, a senhora Helena.

A expressão de Helena era fria como gelo.

"Acordaste, finalmente."

A sua voz não tinha qualquer pingo de calor.

"Onde está o Pedro? Quero vê-lo," pedi, tentando levantar-me.

"Ver o Pedro?" Helena riu-se, um som seco e desagradável. "É melhor preocupares-te contigo primeiro. E com o que carregas na barriga."

"O que quer dizer com isso?" A minha mão foi instintivamente para o meu ventre. O bebé. O nosso bebé.

"O médico disse que o acidente te causou um traumatismo grave. A tua perna está partida em três sítios e vais precisar de várias cirurgias. Vais ter de tomar medicamentos muito fortes, fazer radiografias... Tudo isso vai afetar o feto."

Carlos, que até então tinha estado em silêncio, deu um passo em frente.

"Ana, o nosso filho, o Pedro, está em coma. Os médicos não sabem se ele vai acordar. E mesmo que acorde, as lesões na coluna dele... ele pode nunca mais andar."

Cada palavra era um golpe.

O meu mundo estava a desmoronar-se.

"Não... não pode ser..."

"O que não pode ser?" Helena interveio, a sua voz subindo de tom. "A realidade? A realidade é que o meu filho está a lutar pela vida por tua causa, e tu queres trazer ao mundo um neto talvez deficiente para uma família já destruída? Que tipo de fardo queres que ele carregue?"

"Não! O nosso bebé vai ficar bem!" gritei, as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto.

"Não sejas ingénua," disse Helena, impiedosa. "Nós já falámos com os médicos. Aconselharam a interrupção da gravidez. É o melhor para ti e para o bebé. Não o sujeites a uma vida de sofrimento."

"Não! Eu não vou fazer isso! É o filho do Pedro!"

"Um filho que ele talvez nunca venha a conhecer!" retorquiu ela. "Um filho que talvez nasça com problemas por causa dos medicamentos que tu vais ter de tomar! Já tomámos a nossa decisão. Nós somos os tutores legais do Pedro enquanto ele estiver em coma. E não vamos permitir que o nosso neto nasça nestas condições. Amanhã de manhã, vais fazer o aborto."

A sua declaração final pairou no ar, fria e definitiva.

Eles viraram-se e saíram, deixando-me a sós com a minha mãe e o eco das suas palavras cruéis.

Capítulo 3

A minha mãe abraçou-me com força enquanto eu soluçava incontrolavelmente.

"Mãe, eles não podem obrigar-me. É o meu corpo. É o meu bebé."

"Eu sei, querida, eu sei," ela sussurrava, a sua própria voz a tremer. "Vamos dar um jeito."

Mas que jeito? Eles eram ricos e poderosos. O pai do Pedro, Carlos, era um advogado de renome. Eu era apenas uma estudante universitária, e a minha mãe uma professora de escola primária.

A noite foi um inferno.

Cada vez que fechava os olhos, via o sorriso do Pedro, ouvia a sua voz a falar sobre os nomes que daríamos ao nosso filho.

De manhã, uma enfermeira entrou com uma prancheta.

"Ana, está na hora de se preparar."

"Preparar para quê?" perguntei, o meu coração a bater descontroladamente.

"Para o procedimento. A família do seu noivo já tratou de tudo."

O pânico tomou conta de mim.

"Não! Eu não consenti! Não podem fazer isto!"

A minha mãe tentou argumentar, mas a enfermeira simplesmente disse que estava a seguir ordens e que a autorização legal tinha sido assinada pelo tutor do Pedro, o seu pai.

Eles queriam levar-me. Eu resisti. Gritei.

Dois seguranças do hospital foram chamados.

Eles agarraram-me pelos braços. A dor na minha perna partida explodiu, branca e ofuscante.

Eu gritei o nome do Pedro.

Gritei por ajuda.

Ninguém me ouviu. Ou fingiram não ouvir.

Fui sedada contra a minha vontade.

A última coisa que me lembro é do rosto da minha mãe, distorcido pela dor e pela impotência.

Quando acordei, a minha barriga estava vazia.

O meu bebé tinha desaparecido.

O silêncio no quarto era mais pesado do que qualquer som.

Um pedaço de mim tinha sido arrancado.

Fiquei a olhar para o teto, seca de lágrimas, sentindo apenas um vazio imenso.

Eles tinham-mo tirado.

Eles tinham matado o meu filho.

Naquele momento, o amor que eu sentia pelo Pedro transformou-se em cinzas. E no lugar dele, começou a crescer outra coisa.

Ódio.

Um ódio frio e calculista.

Eles iam pagar. Todos eles.

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