Ponto de vista de Scarlett:
No caminho até o restaurante, fiquei em silêncio e Charles também não fez questão de falar nada. Estávamos casados há três anos, mas agíamos como estranhos um com o outro.
E agora eu estava acompanhando meu marido para encontrar sua noiva.
O motorista parou em frente ao Rainbow Dream, um restaurante com três estrelas Michelin. Era o lugar mais luxuoso para se comer na cidade.
"Senhor Charles, a senhorita Rita o aguarda no segundo andar", o porteiro cumprimentou Charles. Aparentemente, meu marido era um cliente regular ali.
Segui Charles até o elevador.
"Tente parecer feliz ao ver Rita, está bem? Não faça cara feia", Charles pediu com frieza.
"Está bem", respondi, forçando um sorriso no rosto.
Logo entramos em uma sala privativa.
"Scarlett, há quanto tempo."
Fixei meu olhar em Rita, tentando desesperadamente parecer neutra diante da situação. Ela ainda parecia jovem e atraente. O rosto e a pele dela eram suaves como porcelana. Aquela mulher provavelmente gastou fortunas para manter uma boa aparência e cuidar do seu corpo.
Uma vez Charles comentou comigo que ela estava morrendo, mas não me convenci disso até porque ela parecia melhor do que eu.
"Sim. Há quanto tempo", comentei de volta, dando um sorriso apático.
"Você já superou a mudança de fuso horário? Como foi sua noite de sono?" O sorriso no rosto dela parecia sincero, como se não tivesse me ligado na noite passada para me provocar.
"Dormi bem, obrigada por perguntar", respondi.
O prato principal do restaurante hoje era bife. Charles estava cortando o de Rita para ela.
Nunca o tinha visto ser tão atencioso com outra pessoa.
"Charles me contou ontem à noite que você está saindo com alguém."
"Sim, é um pintor", imediatamente inventei uma história.
Assim que respondi, percebi que as mãos de Charles tremeram levemente.
"Você tem alguma foto dele?"
A curiosidade de Rita me pegou desprevenida. Olhei para Charles, mas ele não se virou para mim.
"Bem, não. Ainda não estamos oficialmente juntos. Não acho certo ter fotos dele no meu celular se não estamos namorando", expliquei, baixando a cabeça e focando novamente em cortar meu bife.
"Mas nem no Facebook dele tem fotos?", Rita insistiu.
"Imagino que sim. Vou procurar, só um minuto." Enquanto falava, puxei meu celular e pensei em qual dos meus colegas de classe escolheria para ser meu falso pretendente.
Pierre foi o primeiro que veio à minha cabeça. Era um dos meus melhores amigos.
Abri o Facebook dele e encontrei uma foto sua em frente à Torre Eiffel. O cabelo de Pierre era comprido e seu rosto jovial e bonito. Parecia mesmo um artista e era bem diferente de Charles.
Entreguei meu celular para Rita.
"Parece um garoto romântico de Paris. Fico muito feliz por você. Charles, parece que você é bem diferente do tipo de homem que Scarlett gosta." Depois de falar isso, Rita mostrou a foto de Pierre para ele.
Charles apenas olhou a tela de relance e grunhiu: "São um par perfeito."
"Ele está vindo para os Estados Unidos?" Rita indagou, entregando meu celular de volta.
"Ele ainda está na Europa, fazendo uma exposição em Lyon. A ideia dele é desenvolver sua carreira artística aqui nos Estados Unidos, portanto é bem possível que ele venha morar desse lado do mundo", falei, inventando mais mentiras.
"Você o ama?", Rita instigou.
Fiquei abalada com sua pergunta por um momento.
Depois de me recompor, falei: "É claro que sim." Procurei ao máximo manter a calma para não me entregar.
"Que maravilha. Parece que não precisamos nos preocupar com Scarlett, Charles. Vamos brindar pela felicidade de Scarlett e do seu parceiro especial", Rita declarou, levantando sua taça.
Charles também ergueu seu copo, mas sem demonstrar qualquer emoção.
"Scarlett, desejo a você e ao seu homem uma vida maravilhosa", Rita afirmou com um sorriso e o rosto transbordando felicidade. Mesmo sem conseguir ver nenhuma falha naquela fachada perfeita, eu sabia que por baixo daquele rosto angelical se escondia um monstro pavoroso.
"Obrigada. Desejo a você e a Charles uma vida maravilhosa também."
Todos nós brindamos e bebemos.
Quando pousei meu copo de volta na mesa, minha mão tremeu. Meu estômago se contorceu, enojado. Engoli de volta o vômito que queria sair pela minha garganta e torci para o almoço terminar logo. Não queria passar nem mais um minuto na mesma sala com aquela mulher presunçosa.
"Com licença. Preciso ir ao banheiro", murmurei, me levantando e saindo dali. Na verdade, não precisava usar o banheiro. Só queria respirar um pouco de ar fresco.
Quando voltei, Charles já estava ajudando Rita a vestir seu casaco de veludo.
"Rita não está se sentindo muito bem. Vou levá-la para casa. Volto para pegar você..."
"Não, não precisa. Está tudo bem, consigo voltar para casa sozinha."
Observei enquanto Charles a levava para fora do restaurante com o braço ao redor dos seus ombros. De repente, todos os músculos que haviam se tensionado no meu corpo relaxaram.
PONTO DE VISTA DE CHARLES
Depois de mandar Rita para casa, voltei para o escritório para tratar de alguns assuntos de negócios.
À noite, recebi uma mensagem de Spencer.
Ele escreveu: 'Charles, você gostaria de se juntar a nós? Está todo mundo aqui.'
A minha resposta foi: 'Sim. Em breve estarei aí.'
Digitei a resposta, enquanto saía do escritório.
Spencer é o dono do Mint Bar. O seu bar é um dos mais populares da cidade e, naquela noite, estava particularmente lotado. Logo assim que entrei, vi Spencer e David. Nós somos amigos desde que éramos crianças.
"Você viu Scarlett?" Spencer perguntou, assim que apareci na frente dele.
"Sim", respondi, e em seguida, pedi ao barman que me servisse um copo de uísque.
"Você está realmente se divorciando dela?" Spencer se aproximou mais e seguiu fazendo suas perguntas.
"Sim", impaciente, respondi, para depois acender um cigarro.
"Como você pode fazer isso, cara? Scarlett é, tipo, nossa garota. Nós crescemos com ela. Você e Rita estão sendo cruéis com ela."
Soltei uma baforada de fumaça no ar, enquanto o barman colocava a bebida na minha frente. Achei melhor não responder Spencer, e apenas bebi meu uísque. Porém, o que ele tinha dito era verdade.
Para ser honesto, fiquei nervoso quando falei com Scarlett na noite anterior sobre o divórcio. Ao contrário dela, que ficou sentada o tempo todo, parecendo calma e serena. Enquanto eu não conseguia decidir se o comportamento dela estava me incomodando ou me impressionando. Tinham se passado três anos da última vez que tínhamos nos encontrado. Ela não era mais a doce garotinha que deixava transparecer seus sentimentos. Na verdade, ela tinha crescido muito.
Vê-la novamente, com aquele comportamento despojado, confesso que me deixou chateado.
"Ela concordou?" David perguntou curioso.
"Sim, ela concordou."
Naquele momento, estava lamentando a decisão de ter ido encontrar os amigos. O único que eu queria era tomar uma bebida com eles, e lá estavam eles, com todas suas perguntas, me fazendo o verdadeiro interrogatório.
"Então você realmente vai se casar com Rita?"
"Sim."
"Você está falando sério? Você realmente vai sacrificar sua felicidade porque ela salvou você?" David parecia bastante incomodado com minha resposta, acidentalmente, derramou o vinho que estava bebendo na minha roupa.
"Porra!" Xinguei com raiva, quando vi o vinho escorrendo na minha roupa.
"Oh, meu! Sinto muito, cara", David pediu desculpas na mesma hora.
Como não queria ficar sentado ali com a roupa toda suja, pedi licença e fui para casa trocar de roupa. Saí do bar e fiz sinal para um táxi. Quando saí do bar, tinha planejado ir para casa, mas assim que entrei no carro, parei para pensar e mudei de ideia.
Então, pedi ao motorista que me levasse até a rua Garden.
Quando cheguei, a casa estava bem iluminada, e do lado de fora pude ouvir gargalhadas vindo das janelas abertas. Um Mercedes que eu conhecia estava estacionado na garagem.
Parecia que tínhamos visita, minha mãe e minha avó.
Caminhei rapidamente na direção da porta, mas antes que pudesse digitar a senha, alguém já tinha aberto a porta por dentro.
"Onde você estava? Por que você não atendeu minhas ligações?" Minha mãe logo se aproximou e começou a me repreender.
"Eu estava em uma reunião de trabalho, mãe."
"E por que você está fedendo a álcool? Você andou bebendo? Oh meu Deus, você está todo sujo! Vá se trocar." Ela torceu o nariz e me fez entrar.
Assim que entrei em casa, vi a vovó e Scarlett sentadas na sala, conversando e rindo. Haviam algumas frutas e uma torta de maçã na mesa de centro.
"Olá vovó!" Quando fui cumprimentá-la, tentei pegar uma fatia de torta de maçã, mas minha avó deu um tapa na minha mão.
"Tire suas mãos de cima da torta. Ela não é para você. É para Scarlett."
"Charles, o que aconteceu com você? Venha, vou pegar algumas roupas limpas." Scarlett se levantou e caminhou na minha direção.
"Vocês estão casados há muito tempo. Por que você ainda chama Charles pelo primeiro nome?" Vovó perguntou para Scarlett, e então olhou para mim com um olhar desconfiado.
"Há algo de errado com a maneira a qual me dirijo a ele?" Scarlett parou de repente, e perguntou.
"Casais jovens como vocês não chamam seus respectivos cônjuges de 'querido' ou 'bebê' ou algo desse tipo?"
Scarlett congelou com a pergunta, parecia estar pensando no que responder. Então, ela limpou a garganta. "Venha, querido! Vou ajudá-lo a pegar uma roupa limpa."
Dito isso, ela me ajudou a tirar o paletó e abriu um sorriso sincero para mim.
"É mais parecido com isso", vovó disse sorrindo e parecendo satisfeita.
Vovó amava muito Scarlett. Nos últimos anos, enquanto Scarlett estava no exterior, vovó sempre me perguntava por ela. Eu dava respostas superficiais para ela.
Não demorou muito, vovó começou um novo assunto.
"Charles, marquei uma consulta com o médico para você esta semana. Você não pode beber bebidas alcoólicas até o dia da consulta. Quero que você faça alguns exames."
Suas palavras me deixaram atordoado.
"Mas recentemente fiz alguns exames, vovó. Estou muito saudável."
"Eu não quero que você faça outro exame físico. Dessa vez será um check-up mais especializado. Já faz vários anos que vocês estão casados. Onde estão meus bisnetos? Definitivamente não acho que é a culpa de Scarlett. O problema é seu."
Scarlett apertou os lábios e olhou para mim. Fomos pegos de surpresa. E parecia que ela estava tentando não cair na gargalhada.
Antes que pudesse me defender, meu celular tocou e soltei um suspiro de alívio. Scarlett, que estava segurando meu paletó, pegou o celular do bolso e viu na tela o nome de quem estava ligando. Eu podia afirmar que era Rita, pela forma como o rosto dela mudou de repente.
"É aquela mulher? Oh, para chorar em voz alta!", minha mãe exclamou.
Peguei o celular da mão de Scarlett e rejeitei a ligação.
"É Rita? Você é um homem casado agora, Charles. Por que você ainda está envolvido com essa mulher? Você tem que ser leal a Scarlett. E o que eram aquelas fotos de Rita experimentando vestidos de noiva que vi no noticiário? O que está acontecendo?" Vovó começou a fazer perguntas.
"Não é o que você está pensando, vovó."
"Então, por que você rejeitou a ligação dela? Vocês precisam falar sobre alguma coisa que nós não podemos escutar?"
Fiquei sem saber o que responder. Era simples mentir para as outras pessoas, mas não para minha avó. Era como se ela conseguisse ver além dos meus olhos.
Vovó ficou com tanta raiva, que estava tremendo. Scarlett rapidamente deu um copo de água para ela.
"Charles ficará mais do que feliz em responder sua pergunta, vovó, mas deixe que antes eu o leve para trocar de roupa", Scarlett disse, me empurrando para o quarto no andar de cima.
"Tenho algumas camisas brancas no terceiro armário."
Enquanto Scarlett foi pegar uma camisa limpa para mim, tirei a que David tinha manchado com vinho. Estava arruinada. Droga! Da próxima vez que encontrasse David, não o pouparia.
Então, senti alguém atrás de mim. Eu me virei, Scarlett estava parada, me encarando com uma das minhas camisas na mão. Ela baixou a cabeça, tentando esconder o rosto vermelho.
"Há quanto tempo você está parada aí?"
Ela ignorou minha pergunta. Em seguida, fechou os olhos rapidamente. Então, me levantei e me aproximei dela.
Naquele momento, pude ver mais da nova Scarlett. Ela não era mais a garotinha que costumava ser. Seus últimos três anos na França a transformaram de um simples botão em uma delicada rosa.
Seus longos cílios tremiam. Seus lábios estavam pressionados formando uma linha fina, como se ela estivesse segurando algo. A cada minuto que passava, seu rosto ficava ainda mais vermelho.
Peguei a camisa da mão dela e rapidamente a vesti.
Já vestido com uma camisa limpa, voltamos para a sala de estar juntos.
"Eu não tenho muitos anos, Charles. Por que você não pode viver uma vida pacífica com Scarlett? Por que você está sempre encontrando uma maneira de me irritar, hein?" Vovó continuava me repreendendo.
"Vovó, da próxima vez que você quiser vir aqui, você pode me ligar e eu vou buscá-la, está bem?" Como não sabia o que responder, então decidi mudar de assunto.
"Não, obrigada! Você está sempre muito ocupado. Não quero incomodar você. Eu só quero ver se você está tratando sua esposa como se deve."
"Vovó, eu estou bem", Scarlett entrou na conversa.
"Muito bem, então. A propósito, não se esqueça da festa de sessenta anos do Grupo Moore amanhã. Charles, espero que você compre para Scarlett um lindo vestido de noite para a festa de amanhã. Quero que todos vejam como você é um homem de sorte de ter uma esposa como ela. Não me deixe infeliz de novo, você está me ouvindo, jovem?"
"Claro, vovó."
Depois de conversar com minha avó e minha mãe por um longo tempo, finalmente consegui convencê-las de encerrar a noite, e nos despedimos.
Dadas as circunstâncias, não tinha como mencionar o divórcio para elas sem desencadear o início do fim do mundo.