Capítulo 2

Eu não dormi naquela noite. Sentei-me no sofá no escuro, observando as luzes da cidade, minha mente um turbilhão de planos e listas de verificação. Caio não voltou. Eu não esperava que ele voltasse. Eu sabia que ele estava com Fernanda, onde a história queria que ele estivesse.

Eu não liguei para ele. Não mandei mensagem. Pela primeira vez em três anos, eu o deixei ir sem lutar. Foi estranhamente libertador.

Quando o sol nasceu, lançando um brilho pálido sobre a cidade, eu me levantei. Tomei banho, me vesti e tomei um pequeno café da manhã sozinha na enorme mesa de jantar. O silêncio da cobertura era absoluto.

Ontem, eu havia dado a cada membro da equipe da casa um generoso pacote de demissão e os mandado embora. Apenas meu antigo mordomo de família, o Sr. Tavares, permaneceu. Ele estava com minha família desde antes de eu nascer.

Ele se aproximou de mim enquanto eu terminava meu café, sua expressão preocupada. "Srta. Júlia, a senhorita tem certeza sobre isso? Deixar todos irem?"

"Tenho certeza, Tavares", eu disse gentilmente. "Não vou mais precisar deles."

Em breve, este lugar estaria vazio. Sem empregadas para testemunhar meu comportamento estranho, sem chefs para questionar minha falta de apetite. Precisava ser um corte limpo.

Tavares torceu as mãos. "Mas quem vai cuidar da senhorita?"

Eu sorri, um sorriso pequeno e triste. "Eu posso cuidar de mim mesma." Tirei um envelope grosso e selado da minha bolsa. "Preciso que você faça uma última coisa por mim. Por favor, entregue isto aos meus pais. E, por favor, certifique-se de entregar a eles pessoalmente. É muito importante."

Ele pegou a carta, seus olhos cheios de preocupação. "Claro, senhorita."

A carta continha tudo. Uma versão bastante editada, é claro. Eu não podia dizer a eles que a filha deles havia percebido que era uma personagem de um romance de quinta categoria. Eu enquadrei como uma fuga de um relacionamento perigoso e obsessivo que eu temia que terminasse mal. Expliquei meu plano de forjar minha morte, de começar uma nova vida em algum lugar distante. Assegurei-lhes que estaria segura, que encontraria uma maneira de contatá-los secretamente no futuro. Disse a eles para não se preocuparem.

Eu havia considerado pedir que viessem comigo, que desaparecêssemos juntos. Mas eles eram os Alencar. Suas vidas, seu império, eram pilares nesta cidade. O desaparecimento repentino deles desencadearia uma investigação massiva, muito maior do que a de uma única herdeira desiludida. Colocaria minha fuga em risco. E como eu poderia explicar a verdade para eles? Eles pensariam que eu tinha enlouquecido.

Não, este era um caminho que eu tinha que trilhar sozinha.

Depois que Tavares saiu, seu rosto uma máscara de lealdade preocupada, comecei a próxima fase do meu plano. Cuidei dos meus próprios assuntos rapidamente, transferindo ativos, fechando contas. Então, passei para os de Caio.

Primeiro, visitei sua avó. Ela morava em um apartamento pequeno e arrumado na Mooca que eu havia arranjado e pago. Ela era uma mulher doce com olhos gentis que, ao contrário de Caio, sempre fora calorosa comigo.

Ela me cumprimentou com um abraço. "Júlia, querida! Que surpresa adorável."

Sentamos e conversamos por um tempo. Ela se preocupou comigo, dizendo que eu parecia pálida. E então, como sempre, ela tocou no único assunto que apertava meu peito.

"Então", disse ela, seus olhos brilhando. "Quando você e meu Caio finalmente vão se casar? Não estou ficando mais jovem, sabe. Quero ver meus bisnetos."

Senti uma pontada familiar de amargura. Casamento. Era um futuro que nunca esteve nos meus planos. No romance, Caio pedia Fernanda em casamento no mesmo dia em que meu corpo deveria ser encontrado.

"Não estamos com pressa, Vó", eu disse, forçando um sorriso. Eu sabia que Caio amava sua avó mais do que ninguém. Ele não gostaria que ela se preocupasse.

Ela deu um tapinha na minha mão. "Eu sei, eu sei. Mas ele é um bom menino, Júlia. Ele é apenas... orgulhoso. Aquele começo que vocês tiveram, com o dinheiro... não foi o ideal. Colocou um muro entre vocês. Mas eu vejo que ele se importa com você."

Eu apenas sorri, meu coração doendo. Ela via o que queria ver. Mas eu sabia a verdade. Caio não se importava comigo. Ele se importava com Fernanda.

Eu não discuti. Não havia sentido. Em vez disso, tirei um pequeno cartão de banco sem identificação e o coloquei na mão dela. "Vó, preciso que você dê isso para o Caio. É um dinheiro que eu separei para ele começar sua própria empresa. Diga a ele... diga a ele que desejo tudo de bom."

Eu esperava que este gesto final, este capital inicial para o império de tecnologia que ele estava destinado a construir, o fizesse pensar em mim com um pingo de bondade depois que eu "partisse". Talvez ele não cuspisse no meu túmulo.

Sua avó olhou para o cartão, depois de volta para mim, sua testa franzida de preocupação. "Júlia, algo está errado? Vocês dois brigaram?"

"Não, nada disso", eu disse, levantando-me. "Só vou fazer uma pequena viagem. Por um tempo."

"Uma viagem? Para onde?"

Antes que eu pudesse responder, uma voz fria e familiar cortou o ar da porta.

"Onde você pensa que vai, Júlia?"

Eu congelei, depois me virei lentamente. Caio estava parado ali, seu rosto uma máscara de fúria.

Capítulo 3

Virei-me lentamente, meu coração batendo forte no peito apesar da minha determinação. Caio estava parado na porta, seus ombros tensos, sua mandíbula cerrada. E logo atrás dele, espiando por baixo de seu braço como uma corça assustada, estava Fernanda Queiroz.

Seus olhos, grandes e enganosamente inocentes, estavam fixos em mim.

Desviei o olhar imediatamente, meu olhar se deslocando para um ponto neutro na parede. "Vou tirar férias", eu disse, minha voz deliberadamente leve. "Uma pequena viagem de compras a Paris. Você sabe como eu sou."

Os olhos de Caio se estreitaram. Ele conhecia meus padrões. Ele conhecia meus sinais. Mas esta nova versão de mim, desapegada, era uma variável desconhecida. Ele ainda acreditava que minha vida girava em torno dele, que qualquer comportamento estranho era um estratagema para chamar sua atenção.

"Tudo bem", disse ele, sua voz seca. Ele entrou no apartamento, Fernanda o seguindo como uma sombra. Ele a guiou para o pequeno sofá, efetivamente me empurrando para a periferia da sala. Eu era, como sempre, a estranha em seu pequeno mundo aconchegante.

"Ah, Vó", Fernanda chilreou, sua voz escorrendo uma doçura fabricada. "O Caio estava tão preocupado com a senhora, ele insistiu que viéssemos logo. Ele mal dormiu a noite toda."

A expressão de Caio se suavizou ao olhar para ela. "Não seja dramática, Fê." Mas seus olhos estavam cheios de uma ternura que ele nunca me mostrou. Ele estava completamente cativado, uma marionete voluntária para a heroína da história.

Eles se encaixavam perfeitamente. O herói bonito e taciturno e a garota doce e vulnerável que ele jurou proteger. Eu os observei, um muro invisível entre nós.

Um sorriso amargo tocou meus lábios. Era estranho. Vê-los juntos assim costumava parecer um golpe físico. Agora, parecia apenas... distante. Uma cena de um filme do qual eu não fazia mais parte. Eu já havia me desapegado.

Sua avó, no entanto, notou meu isolamento. "Júlia, por que você e o Caio não vão lavar umas frutas para nós?", disse ela, tentando preencher a lacuna. "Tem uns morangos bons na cozinha."

Caio e eu concordamos, o hábito de obedecer à avó dele estava enraizado em nós. Saímos da sala de estar e entramos na cozinha pequena e estreita.

No momento em que estávamos fora de vista, seu comportamento mudou. Ele agarrou meu braço, seu aperto surpreendentemente forte.

Minha respiração falhou. Em três anos, ele raramente iniciava contato físico, a menos que fosse para uma aparição pública.

"O que você quer, Júlia?", ele sibilou, seu rosto perto do meu. Seus olhos eram de aço frio. "Não se atreva a tentar magoar a Fernanda. Ela já passou por muita coisa."

Magoá-la? A ironia era tão espessa que eu poderia ter engasgado. Ela era quem me atormentava sistematicamente, me incriminando por ofensas e erros, sempre se fazendo de vítima para ganhar a simpatia dele.

A antiga eu teria se defendido. Teria discutido, chorado, implorado para que ele visse a verdade. Teria apontado que ele passou a noite com ela, não comigo, sua suposta namorada.

Mas eu não era mais a antiga eu.

Eu apenas olhei para ele, minha expressão calma. "Ok", eu disse.

Minha simples concordância pareceu desarmá-lo. Ele me encarou, procurando em meu rosto a raiva ou as lágrimas de sempre. Ele não encontrou nada.

Puxei meu braço de seu aperto e passei por ele até a pia. Abri a torneira e comecei a lavar os morangos, meus movimentos calmos e medidos.

Atrás de mim, eu podia sentir sua confusão. Um silêncio estranho encheu a pequena cozinha, quebrado apenas pelo som da água correndo. Ele estava começando a perceber que algo estava diferente. Algo havia mudado. E ele não gostou.

Essa mudança em mim, esse desapego, havia começado após o meu acidente. Ele simplesmente não estava prestando atenção suficiente para notar até agora.

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