Ponto de Vista de Elena Pace:
Eu não consegui assinar o papel. Minha mão, ainda manchada com a tinta invisível da exigência de Christian, se recusava a cooperar. Cada fibra do meu ser gritava em protesto. Como eu poderia deixar Bia Medeiros sair impune? Como eu poderia trair nosso filho?
Dias depois, Christian voltou para nossa cobertura. O ar na opulenta sala de estar estava denso com palavras não ditas, mais pesado que as cortinas de veludo. Ele não falou, não ofereceu conforto. Apenas ficou ali, perto da grande lareira de mármore, sua postura rígida.
"Lá em cima", ele ordenou, sua voz fria, desprovida de calor. "Agora."
Meu coração martelava contra minhas costelas. Eu sabia o que ele queria dizer. Ele esperava que eu o seguisse, que obedecesse. Como um cachorro. Uma parte de mim queria desafiá-lo, fincar o pé. Mas a ameaça daqueles vídeos, daqueles momentos íntimos transformados em arma, me mantinha cativa.
Caminhei em sua direção, cada passo pesado, arrastado. Meu corpo parecia pertencer a outra pessoa, machucado e esvaziado pelo luto. Eu ainda estava me recuperando do parto, do trauma físico e emocional. Minha guarda estava baixa, meu espírito estilhaçado.
Quando cheguei ao pé da imponente escadaria, Christian se moveu. Foi rápido, inesperado. Um empurrão. Um empurrão violento por trás que me fez rolar. Meus pés perderam o apoio no mármore polido.
Um grito rasgou minha garganta enquanto eu caía. Para baixo, para baixo, para baixo. O corrimão se tornou um borrão. Minha cabeça bateu em algo duro. A dor explodiu atrás dos meus olhos. Aterrissei em um monte no chão, meu corpo gritando em protesto. Um gosto metálico e forte encheu minha boca. Quando toquei minha têmpora, meus dedos voltaram grudentos de sangue.
Fiquei ali, atordoada, o lustre ornamentado acima de mim balançando loucamente. Minha visão nadava. A dor era excruciante, mas o choque era pior. Ele tinha me empurrado. Meu marido.
"Christian", ofeguei, a palavra arrancada dos meus pulmões. Minha voz era um sussurro rouco. "Você... você tentou me matar."
Ele desceu lentamente as escadas, os olhos fixos em mim, mas sem trair nenhuma emoção. Sem pânico, sem arrependimento. Apenas um olhar distante. Era como se ele estivesse observando um mecanismo defeituoso.
Meu coração sangrava, não pelo ferimento na minha cabeça, mas pelo abismo aberto em minha alma. Este era o homem que havia prometido me valorizar, me proteger. Este era o homem que me procurou, me perseguiu implacavelmente, apesar do meu passado.
Ele se ajoelhou ao meu lado, seu toque enviando arrepios de repulsa pela minha espinha. Sua mão, antes tão gentil, agora parecia uma marca de ferro em brasa. Ele afastou uma mecha de cabelo do meu rosto, seu polegar roçando minha têmpora ensanguentada. Por um segundo fugaz, vi um brilho de algo em seus olhos – preocupação? Irritação? Eu não sabia dizer.
"Você está sendo egoísta, Elena", ele disse, sua voz mais suave agora, quase persuasiva. Era uma manipulação arrepiante. "A Bia está muito chateada. Ela se sente péssima pelo bebê. Ela precisa que você assine esses papéis."
Minha mente não conseguia conciliar suas palavras com suas ações. Ele tinha acabado de me empurrar escada abaixo, e agora estava me culpando?
"Egoísta?", minha voz era fina, irregular. "Eu perdi nosso filho! E você protege a mulher que o matou! E ainda me empurra da escada?"
Ele ignorou minhas palavras, tirando o mesmo documento do bolso interno do paletó.
"Assine, Elena. Poupe-nos do trabalho. Ou o mundo inteiro vai ver o quão desesperada você era por mim."
A ameaça fria e dura novamente. Meu corpo estava em agonia, minha cabeça girando, mas minha mente estava clara em uma coisa: eu não lhe daria a satisfação de me ver quebrar completamente. Não assim.
Com cada grama de força que me restava, peguei a caneta, a prata fria contra meus dedos latejantes. Minha assinatura era um rabisco trêmulo, quase ilegível, mas estava lá. Meu nome, assinando a renúncia à justiça, assinando a renúncia à minha última gota de esperança.
"Está feliz agora?", perguntei, minha voz carregada de veneno.
Ele pegou o papel, um sorriso fraco, quase imperceptível, tocando seus lábios.
"Boa menina. Agora, tudo pode voltar ao normal." Ele se levantou, pairando sobre mim. "Eu volto hoje à noite. Podemos conversar."
Ele falou como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse acabado de me agredir. Fechei os olhos, uma risada amarga borbulhando em minha garganta. Voltar ao normal? Não havia mais normal.
Ele se virou e foi embora, me deixando caída no pé da escada. Enquanto seus passos se afastavam, um pensamento se cristalizou em minha mente, nítido e claro. Isso não era amor. Isso era crueldade. Isso era controle. E eu não seria mais controlada.
Meus dedos, ainda trêmulos, encontraram meu celular no bolso. Disquei um número que não ligava há anos. Geórgia Almeida Prado. A mãe de Christian. A mulher que me odiava, mas cuja mente fria e calculista eu sabia que agora poderia explorar.
O telefone tocou duas vezes antes que sua voz nítida atendesse.
"Elena. A que devo o desprazer?"
"Eu quero o divórcio", engasguei, as palavras com gosto de cinzas. "E quero sua ajuda."
Houve uma pausa do outro lado da linha, depois uma expiração lenta e satisfeita.
"Finalmente, você caiu em si, querida. Do que precisa?"
Minha jornada de sobrevivência, percebi, tinha acabado de começar.
Ponto de Vista de Elena Pace:
O vento gelado soprava ao meu redor, puxando meu cachecol, mas não conseguia penetrar o aço frio que se instalara em meu coração. Eu estava diante de uma pequena lápide recém-colocada em um canto tranquilo do cemitério mais antigo da cidade. O nome esculpido ali, "Bittencourt", era a única coisa que me conectava a Christian agora. O nome do nosso filho, um segredo compartilhado apenas entre nós, permanecia não dito, um luto privado.
Eu mesma comprei o jazigo. Christian não ofereceu. Ele nem mesmo perguntou onde nosso bebê descansaria. Sua apatia era uma ferida que se recusava a cicatrizar. Meus dedos traçaram a pedra lisa e fria, uma promessa silenciosa sussurrada para a terra abaixo. *Me desculpe, meu amor. Eu não consegui te proteger.*
Uma lembrança vívida me roubou o fôlego. Christian, com os olhos brilhando, desenhando círculos em minha barriga inchada. "Vamos chamá-lo de Alexandre", ele dissera, "um nome de guerreiro. Vou protegê-lo de tudo, Elena. Do mundo, de todo mal." Mentiras. Tudo. Ele havia protegido a própria pessoa que roubou o futuro do nosso filho.
Agora, parada aqui, o peso de sua traição me sufocava. Ele não apenas quebrou suas promessas para mim; ele as quebrou para nosso filho ainda não nascido. Ele escolheu Bia em vez da própria essência do nosso amor compartilhado.
De repente, um carro de luxo familiar deslizou silenciosamente para dentro do cemitério, estacionando a uma curta distância. Minha respiração falhou. Christian. E ao lado dele, ela. Bia Medeiros, parecendo recatada e inocente em um vestido branco esvoaçante, segurando um buquê de crisântemos brancos. Meu sangue gelou. Como eles ousam?
Eles caminharam em direção à fileira de túmulos, seus passos lentos e deliberados, uma paródia doentia de tristeza. Pararam, não no túmulo do meu bebê, mas em um jazigo genérico e sem marcação próximo, depositando as flores com uma solenidade exagerada. Era uma performance, uma zombaria grotesca do luto.
"O que vocês estão fazendo aqui?", exigi, minha voz afiada, cortando o silêncio.
Christian se virou, seu rosto uma máscara de surpresa. Bia, ao me ver, agarrou o braço de Christian, encolhendo-se atrás dele como uma corça assustada.
"Elena. Que coincidência", disse Christian, seu tom irritantemente plácido. "Estávamos apenas... prestando nossas homenagens."
"Homenagens?", zombei, uma risada amarga escapando dos meus lábios. "A quem? À sua consciência? Ou à mentira que você construiu?" Meu olhar se voltou para Bia. "Você. Você está aqui para lamentar a criança que matou?"
Bia se encolheu.
"Eu já te disse, Elena, foi um acidente! Eu não queria que nada acontecesse!" Ela começou a soluçar, enterrando o rosto no peito de Christian.
A mandíbula de Christian se contraiu. Ele puxou Bia para mais perto, seu braço envolvendo-a protetoramente.
"Chega, Elena. Você está a deixando nervosa."
"Nervosa?", minha voz se elevou, crua de incredulidade. "Ela assassinou nosso filho, Christian! E você ousa protegê-la?"
Seus olhos brilharam.
"Eu te disse, foi um erro! Bia confessou tudo. Ela é delicada, Elena. Não como você." Ele me empurrou bruscamente, fazendo-me tropeçar para trás, minha cabeça ferida latejando novamente. "Você é apenas uma mulher amarga e raivosa."
Minha cabeça bateu na casca áspera de uma árvore próxima. Estrelas explodiram atrás dos meus olhos. A dor era lancinante, mas as palavras cortaram mais fundo. Amarga. Raivosa. Ele tinha feito isso comigo.
"Nosso bebê foi um erro para você?", gritei, as palavras rasgando minha garganta. "Ele era uma vida, Christian! Meu filho!"
"Não se atreva a mencioná-lo!", Christian rugiu, seu rosto contorcido de raiva. Ele agarrou meus ombros, me sacudindo violentamente. "Ele foi um inconveniente! Um problema! E agora, graças à Bia, podemos começar de novo. Uma família pura, sem mácula!"
O mundo se turvou. Inconveniente? Problema? Meu filho, Alexandre, era um inconveniente? O homem que embalou minha barriga, que prometeu proteção feroz, agora chamava nosso filho de problema. Uma família pura, sem mácula. Com ela.
"Você a conheceu por causa do acidente, não foi?", cuspi, a percepção me atingindo como um golpe físico. "Você se apaixonou por ela enquanto eu estava perdendo nosso bebê! Você trocou meu luto pela inocência dela!"
O aperto de Christian se intensificou, seus dedos cravando em minha carne.
"Cale a boca, Elena! Você não sabe do que está falando!"
Ele apertou minha garganta, cortando meu ar. Minhas mãos arranharam as dele, mas ele era muito forte. Minha visão se afunilou. Pontos pretos dançaram diante dos meus olhos. Era isso. Ele ia me matar. Assim como ele matou a memória do nosso filho.
Por uma fração de segundo, enquanto a escuridão ameaçava me consumir, eu vi em seus olhos: um lampejo de pânico, um segundo fugaz de horror. Ele estava perdendo o controle. Então, tão rapidamente quanto apareceu, desapareceu, substituído por uma fúria fria.
Ele me soltou, e eu desabei no chão, ofegando por ar, agarrando minha garganta em chamas. Tossi, meus pulmões gritando por oxigênio.
Bia correu para frente, não para me ajudar, mas para Christian.
"Christian, querido, pare! Você vai se machucar!" Ela olhou para mim, um triunfo venenoso em seus olhos inocentes. "Ela só está tentando te irritar. Ela sempre foi ciumenta."
Ela então se virou para mim, sua voz pingando falsa pena.
"Elena, eu sei que você está triste com o... acidente. Mas você não pode culpar o Christian. Ele tem sido tão bom para mim, tentando me ajudar a superar meu trauma." Ela então olhou para Christian. "Oh, meu pobre amor, você está tremendo. Vamos embora."
Enquanto Bia falava, ela notou um pequeno papel intricadamente dobrado no chão ao meu lado. Era um "patuá de reencarnação", uma pequena oração simbólica que eu havia criado meticulosamente para meu bebê, na esperança de guiar sua alma para um renascimento pacífico. Era meu último e desesperado ato de amor materno.
Os olhos de Bia, grandes e inocentes, pousaram no papel. Um sorriso cruel brincou em seus lábios. Ela deliberadamente levantou seu pé elegante, pronta para pisar nele.
"Não se atreva!", gritei, um rugido primal arrancado do meu peito. Eu me lancei, uma onda de adrenalina correndo pelo meu corpo maltratado. Agarrei seu braço, impedindo que seu pé profanasse minha esperança.
Bia ofegou, recuando.
"O que foi isso? Algum tipo de ritual pagão? Você está tentando me amaldiçoar, Elena?" Ela tropeçou para trás, esbarrando deliberadamente na lápide do nosso bebê, fazendo um show de quase cair. "Oh! Minha cabeça!"
Então, com um estalo doentio, ela desceu o calcanhar diretamente sobre meu patuá dobrado, esmagando-o na terra.
"Ops", ela disse com uma voz cantada, um brilho triunfante em seus olhos. "Que desajeitada eu sou."
Uma névoa vermelha desceu. A última esperança do meu filho. Esmagada. Por ela.
Minha mão voou. TAPA! O som ecoou pelo cemitério silencioso, nítido e alto. A cabeça de Bia virou para o lado, uma marca carmesim florescendo em sua bochecha.
Ela me encarou, os olhos arregalados de choque fingido, depois desabou no chão, soluçando teatralmente.
"Ela me bateu! Christian, ela me bateu! E ela amaldiçoou nosso bebê! Ela disse que ele nasceu azarado! Ela disse que ele foi um erro!"
"Meu bebê não foi um erro!", gritei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Ele foi um presente! E você, você é uma maldição!"
Christian me puxou para trás, seu rosto contorcido de fúria.
"Saia de cima dela! Sua vadia louca! O que você está fazendo?" Ele me afastou, seu aperto machucando. "Você acha que pode simplesmente vir aqui e profanar este solo sagrado com sua amargura? Bia está esperando um filho meu! Nosso novo começo! E você... você é estéril. Você é tóxica. Você é uma maldição!"
Ele me olhou com tanto desprezo, tanto desdém absoluto, que pareceu mais frio do que qualquer golpe.
"Você se acha religiosa, Elena? Acha que seu Deus aprovaria isso? Você é uma megera patética e ciumenta. Uma divorciada raivosa que não consegue superar!"
As palavras, as acusações, a crueldade absoluta. Eram uma torrente, me afogando. Eu o encarei, o homem que um dia amei, o homem que agora era um estranho. Ele se foi. O Christian que eu conhecia, o Christian que eu pensava conhecer, era um fantasma.
Meu mundo, antes cheio de esperança e amor, era agora um deserto desolado.