Capítulo 2

As luzes do hospital eram muito fortes, piorando a dor latejante na minha cabeça. Um médico deu três pontos no meu couro cabeludo e me diagnosticou com uma concussão leve. Ele me disse para descansar.

Saí da emergência, minha mão pressionada contra o curativo na minha cabeça. Ao sair para o ar fresco da noite, eu os vi.

Caio estava parado perto de seu carro, com o braço protetoramente em volta de Carla Matos. O rosto dela estava enterrado em seu peito, seus ombros tremendo com soluços suaves.

"Sinto muito, Caio", ela chorou, sua voz abafada. "Eu nunca deveria ter ido embora. Eu só estava com medo. Não sabia como lidar com isso. Mas nunca deixei de te amar."

Era uma mentira. Uma mentira linda e bem elaborada. Eu a tinha visto em festas ao longo dos anos, rindo e bebendo com outros homens, sem nunca perguntar sobre a condição de Caio.

Caio apenas a abraçou mais forte. "Está tudo bem, Carla. Isso está no passado."

Ele me viu então. Sua expressão vacilou com algo - culpa, talvez - mas desapareceu em um instante.

"Amanda", ele disse, sua voz tensa. "Você está bem?"

"Estou bem", eu disse, minha própria voz plana e vazia.

Carla espiou para mim por cima do ombro dele. "Oh, Amanda, sinto muito. Espero que você não esteja brava. Caio e eu... temos muita história." Ela olhou para ele com olhos grandes e inocentes. "Ele me disse que vocês são apenas amigos. Eu não gostaria de atrapalhar... nada."

Caio não a corrigiu. Ele não defendeu os três anos que eu lhe dei. Ele apenas ficou lá, em silêncio, seus braços ainda em volta da mulher que o havia abandonado.

Os lábios de Carla se curvaram em um pequeno sorriso triunfante, um sorriso que só eu podia ver.

Soltei uma risada curta e amarga. Era um som que parecia vir de outra pessoa.

"Não se preocupe", eu disse, olhando diretamente para Caio. "Você não precisa se preocupar comigo de forma alguma."

Virei-me e fui embora, sem olhar para trás.

Na manhã seguinte, fui ao escritório administrativo do hospital. Eu havia recebido uma oferta de emprego meses atrás, de uma prestigiosa clínica de reabilitação no exterior. Eu a recusei por Caio. Agora, eu a aceitei formalmente.

Meu voo era em dois dias.

Voltei para a cobertura que Caio possuía, o lugar que chamei de lar por três anos. Estava cheio de memórias, cada canto guardando um eco do nosso tempo juntos. Os corrimãos especiais no banheiro, a rampa na porta da frente, o elevador de cadeira nas escadas. Todas as coisas que eu instalei.

Metodicamente, comecei a me apagar. Embalei minhas roupas, meus livros, meus produtos de higiene pessoal. Tirei as fotos do quadro de cortiça na cozinha - fotos de seu progresso, de nós rindo, de seus primeiros passos com o andador.

Meus dedos roçaram uma foto em particular. Era de um ano atrás, no aniversário dele. Ele ainda estava na cadeira de rodas, mas eu tinha feito um bolo para ele, e seus amigos tinham vindo. Na foto, eu estava me inclinando para acender as velas, e ele estava olhando para mim, um sorriso genuíno e feliz em seu rosto. Foi o sorriso que me fez apaixonar.

Com uma respiração profunda, peguei a foto e a rasguei em pedacinhos. Deixei-os cair na lixeira como confete.

Tinha acabado. Eu tinha que aceitar isso.

Meu telefone tocou. Era Caio.

"Ei, onde você está?", ele perguntou, sua voz casual, como se nada tivesse acontecido. "Acordei e a casa está vazia. É estranho."

Fechei os olhos. "Eu tinha algumas coisas para fazer."

"Bem, você pode passar no escritório mais tarde? Tenho uma reunião do conselho e quero que você verifique minha postura. Para ter certeza de que pareço confiante."

O pedido era tão normal, tão típico dos últimos três anos. Eu era sua fisioterapeuta, seu sistema de apoio. Sua muleta.

"Ok", eu disse, minha voz mal um sussurro.

Fui para a empresa dele, a Barreto Tech. O prédio elegante e moderno parecia estranho para mim agora. Encontrei-o em seu escritório de canto, olhando para o horizonte da cidade.

Carla estava lá, é claro. Ela estava empoleirada na beirada de sua mesa, parecendo a dona do lugar.

"Ah, Amanda, você está aqui", disse ela, seu tom doce e meloso. "Eu trouxe almoço para o Caio. É o favorito dele, daquele restaurante italiano na Vila Madalena que costumávamos ir." Ela gesticulou para um recipiente de massa rica e cremosa em sua mesa.

Meu estômago se contraiu. Passei anos planejando meticulosamente sua dieta, garantindo que ele comesse alimentos saudáveis e de baixa inflamação para ajudar em sua recuperação. Aquela massa estava cheia de tudo que ele não deveria comer.

"Caio, você não deveria comer isso", eu disse, meus instintos profissionais assumindo o controle. "É muito pesado. Vai causar inflamação nas suas articulações."

Ele acenou com a mão, desdenhoso. "Estou bem, Amanda. Não sou mais um inválido. Posso comer o que eu quiser."

Ele deu uma grande garfada na massa, gemendo de prazer. "Nossa, Carla, senti falta disso."

A dor começou em seu estômago cerca de vinte minutos depois. Ele agarrou o lado, seu rosto ficando pálido e suado. A comida rica era demais para um sistema acostumado a uma dieta limpa.

Eu não disse nada. Apenas coloquei silenciosamente um frasco de enzimas digestivas e analgésicos em sua mesa.

Então, virei-me e saí do escritório.

Quando a porta se fechou atrás de mim, ouvi a voz de Carla, afiada e zombeteira.

"Ela é apenas uma enfermeira de luxo, Caio. Não deixe ela mandar em você. Ela deveria ser grata por você ter deixado ela ficar tanto tempo."

Encostei-me na parede do corredor, o som de suas palavras ecoando em meus ouvidos. Mas o que doeu mais foi o que eu não ouvi. Não ouvi Caio me defender. Não o ouvi dizer uma única palavra.

Foi quando eu soube, com certeza absoluta, que ele a amava. Ele a amava o suficiente para deixá-la envenená-lo, para deixá-la insultar a mulher que salvou sua vida. E eu tinha sido uma tola por pensar o contrário.

Capítulo 3

O rosto de Caio estava pálido quando o vi mais tarde naquela noite. Ele estava sentado no sofá, agarrando uma almofada contra o estômago.

"Você tomou o remédio que eu deixei?", perguntei, mantendo minha voz neutra.

Ele assentiu fracamente. "Sim. Eu... eu tive que fazer uma lavagem estomacal."

As palavras pairaram no ar. Ele tinha ido ao hospital, passado por um procedimento invasivo, tudo porque não queria chatear Carla recusando a comida que ela trouxe. A profundidade de seu sentimento por ela foi um golpe físico.

Ajoelhei-me para verificar o suporte em seu tornozelo, uma rotina que eu havia feito mil vezes. Enquanto ajustava as tiras, as costas da minha mão roçaram na borda afiada da mesa de centro, arranhando a pele. Uma fina linha de sangue surgiu. Foi um ferimento pequeno e estúpido, mas ele nem percebeu. Seu foco estava inteiramente em seu próprio desconforto.

Terminei com o suporte e me levantei. Ele se inclinou em mim, descansando a cabeça no meu ombro. Seu corpo estava tenso de dor.

"Apenas massageie minhas têmporas", ele murmurou. "Como você costumava fazer."

Fiz o que ele pediu, meus dedos se movendo em círculos lentos e familiares. Ele suspirou, seu corpo relaxando contra o meu. Por um momento, foi como nos velhos tempos. Por um momento, eu era seu conforto, seu lugar seguro.

Mas o sentimento se foi. Eu não desejava mais essa proximidade. Eu não sentia nada além de uma dor oca.

Ele adormeceu, sua respiração se acalmando. Cuidadosamente, eu o ajeitei contra as almofadas do sofá, puxando um cobertor sobre ele.

Então, sem um segundo olhar, saí do quarto.

No dia seguinte, ele parecia ter esquecido todo o incidente. Ele me encontrou guardando as últimas coisas em uma mala.

"O que você está fazendo?", ele perguntou, uma carranca vincando sua testa.

"Fazendo as malas", eu disse simplesmente.

Ele não pareceu processar a finalidade daquilo. "Ah. Bem, escute, preciso de um favor. A Carla tem uma pequena inauguração de galeria para sua fotografia hoje à noite. Preciso que você venha comigo."

Eu o encarei. "Por quê?"

"Ela acabou de voltar para o país, sabe? Ela não tem muitos amigos aqui ainda. Quero ter certeza de que ela tenha uma boa presença, fazê-la se sentir apoiada." Ele olhou para mim, sua expressão séria. "Significaria muito para mim."

Eu era apenas um adereço. Alguém para preencher um assento e fazer sua ex-namorada parecer popular. A ironia era sufocante.

Mas eu concordei. Uma última noite. Então eu iria embora.

Na galeria, Carla estava em seu elemento. Ela se agarrou ao braço de Caio, um sorriso radiante no rosto enquanto o apresentava a todos. Ele parecia orgulhoso, banhando-se em sua glória refletida. Ele comprou cada uma de suas fotografias, um grande gesto que fez a pequena multidão sussurrar.

Carla se aproximou de mim, uma taça de champanhe na mão. "Viu?", ela ronronou, seus olhos brilhando com malícia. "Ele é meu. Sempre foi meu. Você foi apenas um quebra-galho. Um substituto."

Eu não disse nada. Não havia mais nada a dizer.

De repente, um alarme de incêndio soou, seu grito cortando a conversa educada. Um fio de fumaça saiu de uma sala dos fundos. O pânico explodiu. As pessoas começaram a empurrar em direção à saída.

No caos, alguém me empurrou, e eu torci o tornozelo, uma dor aguda e lancinante subindo pela minha perna. Gritei, tropeçando contra uma parede.

Procurei por Caio. Ele estava a apenas alguns metros de distância. Nossos olhos se encontraram por uma fração de segundo.

Então ele se virou e correu, empurrando contra a maré de pessoas, de volta para a galeria.

"Carla!", ele gritou, sua voz rouca de terror. "Carla, onde você está?"

Ele a encontrou encolhida em um canto, tossindo por causa da fumaça. Ele a pegou nos braços e a carregou em direção à saída, seu rosto uma máscara de determinação obstinada.

Ele passou correndo por mim. Ele não me viu caída contra a parede, meu rosto pálido de dor. Ele não me viu de forma alguma.

Enquanto a fumaça engrossava, minha visão começou a embaçar. A dor no meu tornozelo era excruciante. Tentei me levantar, mas a perna não aguentava meu peso. Caí no chão, minha cabeça girando. A última coisa que me lembro foi o som de sirenes distantes.

Acordei em uma cama de hospital. Danilo e Isaac estavam sentados ao meu lado, seus rostos sombrios.

"Ele nem perguntou por você, Amanda", disse Danilo, sua voz baixa e irritada. "Os paramédicos te trouxeram, e nós ligamos para ele. Ele disse que estava ocupado garantindo que a Carla estivesse bem. O vestido impecável dela ficou com uma pequena mancha de fuligem."

Isaac balançou a cabeça em desgosto. "Ele perdeu a cabeça. Este não é o homem que conhecemos."

"Você precisa deixá-lo", disse Danilo, seus olhos suplicantes. "Por favor. Você merece muito melhor."

Olhei para o gesso no meu tornozelo. Uma fratura limpa, o médico disse.

"Eu vou", sussurrei. "Estou indo embora."

A porta do quarto do hospital se abriu. Caio estava lá, seu cabelo desgrenhado, seus olhos selvagens.

"Indo embora?", ele disse, sua voz perigosamente quieta. "Aonde você pensa que vai?"

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