Capítulo 2

- Uau! Até que enfim. - Antony abriu os braços ao ver-me entrando na cozinha.

- Quanto tempo, cidadão. - O abracei forte.

Tony era amigo do meu irmão desde sempre. Morou na nossa rua, estudaram juntos; e assim como o André, ele também tinha um instinto protetor e se julgava meu irmão.

- Você sempre foi linda, Chloe, no entanto os cinco anos na Itália transformaram-na em uma mulher extremamente exuberante.

- Obrigada. - O abracei novamente. E só aí me dei conta de que, além do André e do Tony, havia outro homem que eu nunca tinha visto. Mesmo porque, se tivesse, dificilmente teria esquecido. Ele era lindo, alto, cabelos castanho-escuros até a altura do pescoço, pele bronzeada e os olhos pretos e expressivos. Os italianos eram homens belíssimos, galanteadores. E esse não perdia em nada; pelo contrário, era um páreo duro.

- Esse é o Roger, é com ele que você vai trabalhar - André nos apresentou. - Roger, essa é a minha irmãzinha, Chloe.

- Oi! Prazer - cumprimentei-o com dois beijos no rosto.

- Prazer, Chloe. Vai ser muito bom ter você na nossa equipe. - Sua voz soou como um acorde de violino nos meus ouvidos.

- Fico feliz - retribuí a recepção com um discreto sorriso.

Eu não contava que, ao voltar e assumir um cargo na metalúrgica do meu pai, eu teria essa surpresa. Trabalhar ao lado de um homem cujo olhar era fascinante.

- Nos conte, Chloe. Como foi a experiência de viver cinco anos longe do seu irmão? - perguntou Tony, em tom de brincadeira.

- Uma maravilha, eu diria mais... uma bênção. - Caminhei rindo até a geladeira e peguei uma cerveja.

- Você bebendo cerveja? - meu irmão indagou com sua velha conhecida cara de espanto.

- André! Acorda. - Encostei minha latinha na dele. - Fratello salute.

- Saúde - responderam Tony e Roger em uníssono.

- Está com uma carinha ótima, filha - comentou minha mãe, assim que entrou na cozinha acompanhada do meu pai.

- Obrigada, umas horinhas de sono me caíram muito bem. - Sorvi um pouco da cerveja estudando o meu futuro colega de trabalho.

- A Chloe tornou-se uma linda mulher - reafirmou Tony.

Sorri agradecida e troquei olhares com Roger, que estava totalmente à vontade com no meu seio familiar.

- Tony, cai fora! Você é dez anos mais velho que a minha irmã, se enxerga.

- Eu não ligo para a idade, Tony. - Pisquei para ele, brincando. Eu adorava irritar o André, assim como ele amava me infernizar; já estava com saudades de seus devaneios em relação aos homens e seus galanteios. Isso sempre o tirou do sério, deixando-o puto da vida a ponto de querer me trancar dentro de casa, como acontecera certa vez.

Quanto ao Tony, ele era muito bonito, loiro, cabelos bem curtos e lisos, olhos castanhos, esguio e extremamente educado, sabia exatamente dizer as palavras certas no momento certo. Sempre foi tranquilo, caseiro e por isso acabou se casando com uma golpista que soube direitinho se aproveitar das qualidades dele.

Ele era dono de uma rede de lavanderias, herdou o negócio do pai e multiplicou sua herança ao longo dos anos. Com seu coração grande, não percebeu que estava caindo em uma cilada e acabou se casando com uma mulher, que dois anos mais tarde enfiou uma faca em seu peito ao trocá-lo por outro. E se não bastasse levou também uma fortuna junto com ela. Eu não presenciei a história toda, pois já havia me mudado para a Itália. Fiquei sabendo, porque meus pais e irmão me colocaram a par da situação e mesmo de longe demonstrei minha solicitude.

- Nem de brincadeira - meu irmão insistiu, dando um ligeiro soco no braço do Tony, que correspondeu rindo.

- Que tal minha famosa caipirinha? - perguntei já separando os ingredientes.

- Roger vai provar a melhor caipirinha do mundo - Tony caminhou em minha direção, pronto para me auxiliar como sempre fizera.

- Então, vamos lá! - Empolgada com toda a situação, principalmente pelo estimulante amigo novo do meu irmão, preparamos dois litros de caipirinha.

- Aceita, Roger? - inquiri erguendo um copo.

- Por favor - ele anuiu e eu o servi.

Roger bebeu um generoso gole e lançou seu olhar desestabilizante em minha direção. Aquele capaz de fazer qualquer mulher existente na face Terra, aquecer-se como se estivesse em pleno climatério.

- Perfeita, Chloe. - O atraente amigo do meu irmão virou o copo na boca, olhando-me com curiosidade, como se estivesse me estudando e seu potente olhar, esquentou-me ainda mais.

- Obrigada. - balbuciei

Nossos olhares foram interrompidos pelo som da campainha. André retirou-se e voltou acompanhado por duas mulheres. Uma loira abraçada a ele e uma morena, que tascou um beijo na boca do Roger assim que o viu. Caramba! Por essa eu não esperava. Sem graça diante da revelação desestimulante murchei como uma flor sedenta por míseras gotas de chuva em um verão escaldante.

- Olá! - disse a loira.

- Dafne? Essa é a Chloe, minha irmã.

- Oi! Prazer - cumprimentei-a com um beijo.

- Que legal! Até que enfim estou conhecendo a irmã do André, ele fala muito em você.

- Espero que bem. - Pisquei para o meu irmão e sua simpática namorada sorriu.

- Ah! Essa é a Kelly, namorada do Roger.

- Oi, Kelly. Prazer - cumprimentei-a também.

- Prazer o meu - retribuiu com extrema polidez.

- Estão servidas? - ofereci a caipirinha, tentando disfarçar o meu desapontamento.

Se toca, Chloe, você acabou de conhecer o cara. - Minha voz interna tentou me chamar à razão, no entanto, parte de mim não estava disposta a cooperar.

- Meninas, não bebam demais, isso sobe que é uma beleza - meu pai recomendou e saiu para a área da churrasqueira, eu quase o segui se não fosse pela curiosidade da Dafne.

- E aí? Me conta, cunhada, como está sendo a sua volta? - questionou esticando o braço para pegar o copo e se servir da bebida.

- Por enquanto ótima. - Ri. - Eu amava o meu emprego, minha casa, os amigos que fiz por lá, mas já era hora de voltar. Estava com muita saudade de todos e de tudo. Sabem como é... "Um bom filho à casa torna". - Sorri novamente e sorvi minha caipirinha.

— Deixou algum gato italiano por lá? — Kelly perguntou bebendo seu segundo copo.

— Não. Já havíamos terminado há quase quatro meses. Viramos grandes amigos.

— Tinha namorado? Como nunca nos disse? — André franziu o cenho ao me indagar.

— Se liga, André! Belíssima como a Chloe é, acha que ela ficaria esses anos todos solteira? — frisou Tony.

— Acho que o Tony respondeu. — Tilintei no copo do meu amigo. André era tão protetor, que chegava a ser hilário.

— Chloe! — André beliscou meu braço. — O que aconteceu com a minha irmã?

— Não faço a mínima ideia. — Devolvi o beliscão. — Provavelmente ela se livrou das amarras e foi ser feliz por aí?!

— Poderíamos sair nós seis para dançar. O que acham? — sugeriu Kelly.

— Não é uma má ideia, o Tony está sozinho e a Chloe também — comentou Dafne.

— Estou gostando da ideia. — Tony aproximou-se e envolveu minha cintura.

— Pois eu não. Tira suas patas da minha irmã. Já disse é muito velho pra ela.

— Você também é oito anos mais velho do que eu, assim como o Roger é sete mais velho que a Kelly — protestou Dafne. — O que tem de errado nisso?

— Viu? — Beijei o rosto do Tony entrando na brincadeira e observei que o Roger só me fitava calado, com sua namorada gostosona a tiracolo.

— Posso me servir? Sua caipirinha é divina — perguntou Kelly, no seu quarto copo.

— Claro! — respondi ao ajudá-la.

Capítulo 3

Meu celular vibrou e fui atendê-lo na sala. Fugir mesmo que por alguns minutos da tensão era bom. Sentei-me no sofá e Fog, como se me conhecesse a vida toda, colocou sua cabeça no meu colo. Acariciando meu recente amigo peludo conversei por quase meia hora com Enrico, um amigo da Itália. Quando encerramos a conversa e eu voltava para a cozinha esbarrei acidentalmente em Roger, que saía do banheiro.

- Ai, desculpa. - Afastei-me por conta do susto.

- Imagina! Eu assustei você. - Roger afirmou, apertou meu ombro com delicadeza e ao sentir seu toque quente na minha pele por ora fria, fez-me querer correr dali antes que não conseguisse sequer afastar-me da presença enigmática dele.

- Tudo bem! - Vislumbrei seu rosto quadrado, másculo e um convite ao pecado. - Estava distraída, não descansei o suficiente, quando cair na cama tenho certeza que vou desmaiar. - Trocamos um sorriso e até isso nele era tentador.

O moreno charmoso se afastou, deu-me passagem e caminhando a passos lentos atrás de mim seguimos em direção à cozinha.

- Vamos ao jantar? - minha mãe perguntou e soltei uma piada um tanto sem graça, eu diria:

- Ué! Pensei que o caldeirão fosse ferver - brinquei.

- Te enganei! Bobinha. - confirmou, André sugando com exagero os lábios da namorada e cheios de chamego rumaram para o quintal.

Meus pais prepararam comida para um batalhão, nós nos sentamos e entre uma garfada e outra conversamos sobre tudo, minha estadia em Pádua, amizades, namoros e, claro, meu regresso para a metalúrgica dos meus pais. Eu descobri que o Roger na verdade era amigo do Tony antes de ser do meu irmão. Eles estudaram juntos na faculdade e haviam perdido o contato, mas há quatro anos se reencontraram. Tony o apresentou ao André e, pronto, estava formado o trio de gostosões, para o terror da mulherada. E desde então ele trabalhava na empresa da minha família. Acabei descobrindo também que namoravam as garotas, que eram amigas há menos de seis meses. A Kelly bebeu tanto, que nem se deu conta das olhadas furtivas do namorado direcionadas a mim, deixando-me desconfortável.

Terminamos o jantar e nos sentamos na área onde ficava o jardim da casa. A lua estava linda, exuberante e eu não sabia se contemplava o céu estrelado ou o Roger me encarando com suas pupilas escuras num tom incomum. Quanto a namorada dele, a moça se amontoou em uma das cadeiras e adormeceu totalmente embriagada, não só pela caipirinha, mas por toda bebida

alcoólica que fora servida. Ela literalmente apagou.

- Ela bebe, né? - sussurrei no ouvido do Tony, mostrando a Kelly discretamente com a cabeça.

- Não sei o que o meu amigo viu nela - Ele balbuciou dando um meneio de cabeça.

- Ela é linda. - eu disse por fim.

- Você é linda e não bebe feito um gambá - brincando, Tony me empurrou com o ombro e devido ao impacto acabei me desestabilizando.

- E você continua um gato. - Rindo, baguncei o cabelo dele e não pude deixar de notar os olhares de Roger sobre nós.

- Estão cheios de graça, hein? - André debochou do amigo.

- Não enche, André, por favor, acabei de retornar, deixa para pegar no meu pé nas próximas semanas, preciso de folga, pelo menos da sua atenção excessiva. - retruquei, rindo. - Sabe que não curto microgerenciamento da minha vida, menos ainda feito por você, maninho.

Achando graça da briguinha entre irmãos, meus pais se despediram e sonolentos se recolheram.

Tony e eu lavamos a louça e limpamos a churrasqueira. Enquanto André engolia a boca da Dafne, Kelly dormia amontoada na cadeira como um saco de batatas e Roger apenas observava tudo calado, inclusive minha intimidade com o Tony.

- Acho que vou decolar também. Estou morta de cansaço e sono - comentei. - E amanhã... quer dizer mais tarde, porque já são três da manhã, preciso desfazer as malas. Buona notte pra quem fica. Trouxe um presente pra você, gatão. - Apontei para o Tony.

- Não precisava. - Ele se aproximou. - Aliás, sábado tem uma festa beneficente. Tanto seu pai quanto eu apoiamos a causa. Quer me acompanhar? - sussurrou. - Seria uma grande honra levá-la, serei o homem mais sortudo do local.

- Awn... Você continua um fofo e eu nem fazia ideia dessa tal festa. - Sorri para ele. - Eu vou sim, aceito ser sua acompanhante. Trouxe um vestido novinho de grife, ótima ocasião para vesti-lo - murmurei imitando-o, como se precisássemos esconder algo de alguém. - Até mais, gatão. - Dei um beijo e ele retribuiu. - Tchau, Roger, foi um prazer. Dafne também e a Kelly... - Olhamos para ela, que continuava apagada. - Enfim, um prazer geral reencontrar velhos e novos amigos. - Acenei.

- Até segunda, Chloe. - Roger se levantou e caminhou em minha direção. - Temos muito para conversar, trabalharemos juntos. Bem-vinda à equipe. - Sorriu discretamente e minhas pernas bambearam. - Precisamos alinhar algumas questões, mas tenho plena convicção que tirará tudo de letra. - Ele proferiu cada palavra me sorvendo com os olhos como se eu fosse a mais saborosa das bebidas.

- Ah! Claro. - O encarei. - Obrigada e até segunda. - Virei-me rapidamente, pois não queria que percebessem o quanto meu rosto estava ruborizado, era corajosa e às vezes ousada, entretanto, um pouco de prudência não fazia mal a ninguém.

Antes de sair da presença deles, Roger e eu trocamos um último olhar, um com uma energia quase tangível, ainda confusa com tudo que sentira, subi para o meu quarto e tomei outro banho, desta vez um gelado, somente a gélida água seria capaz de me fazer sair do transe, eu estava num misto de sono e alteração da consciência. Entorpecida, rolei de um lado ao outro da cama até sentir minhas forças se esvaindo.

- Socorro, no que eu estou me metendo?! Acabei de chegar e me deparo com o amigo gostosão do meu irmão, tão atraente e charmoso quanto desafiador. Roger... Roger, espero ter uma noite de sono reparador atrelado a bons sonhos, só espero que você não os invada também.

Sorrindo como uma boba, bocejei, ajeitei-me e adormeci.

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