As lâmpadas fluorescentes no teto zumbiam com uma frequência que perfurava direto minhas têmporas, a luz crua e desfavorável enquanto eu encarava meu reflexo no espelho manchado de sujeira.
Segurei a agulha firme, minhas mãos tremendo apenas um pouco enquanto eu forçava a ponta através da pele da minha própria testa.
Eu não tinha plano de saúde.
E não podia usar o médico da família Moretti.
Esse privilégio era reservado para a família. Não para a amante.
Então, eu costurei o ferimento que Dante me deu com um kit de costura que comprei em uma farmácia 24 horas.
Cada puxão do fio era um lembrete agudo e ardente de quem eu era agora.
Eu não era a amante querida.
Eu era o dano colateral.
O gosto metálico de sangue na minha boca desencadeou uma memória, puxando minha mente de volta para o Mercado Municipal, três anos atrás.
O ar cheirava a salmoura e facas de evisceração naquela época, um contraste gritante com o cheiro de seda italiana e pólvora que sempre seguia Dante Moretti.
Ele havia caminhado pelo sangue e pela sujeira do chão do mercado em um terno de vinte mil reais apenas para me perguntar meu nome.
Ele não se importava com a imundície.
Ele só via a mim.
Lembrei-me do dia em que a gangue rival bombardeou as barracas.
A explosão nos jogou no chão, o mundo se transformando em fogo e barulho.
Dante cobriu meu corpo com o seu, me protegendo dos estilhaços e do calor.
Suas costas ficaram queimadas, seu terno arruinado, mas ele olhou para mim com um sorriso que ofuscava o sol.
"Uma vida por uma vida, Elena", ele sussurrou, limpando a fuligem da minha bochecha. "Você me deve. Para sempre."
Cortei o fio com os dentes, o gosto de ferro cobrindo minha língua.
O homem que levou uma bomba por mim estava morto.
O homem que acabara de me empurrar contra uma lareira de mármore estava vivo e bem, provavelmente segurando a mão de Sofia na suíte VIP lá em cima.
Saí do banheiro, segurando meu lado onde o frio do freezer industrial ainda doía em meus ossos.
Dante estava esperando no corredor.
Ele parecia impecável, nem um fio de cabelo fora do lugar, intocado pelo caos que ele havia orquestrado.
Ele viu o curativo novo na minha cabeça e, por um segundo, sua máscara caiu.
Arrependimento brilhou em seus olhos, mas ele o piscou instantaneamente, substituindo-o por uma muralha de gelo.
"Você não deveria ter tocado nela", ele disse, sua voz baixa e perigosa.
Eu ri, um som seco e sem humor que arranhou minha garganta.
"Eu toquei no pulso dela, Dante. Você rachou meu crânio."
"Ela está sob muito estresse", ele disse, aproximando-se, fechando a distância entre nós até que eu pudesse sentir seu perfume.
"O estresse afeta o leite. Afeta o herdeiro. Você conhece as regras."
"O Plano", eu disse, zombando da palavra que ele usava para justificar cada traição.
"Me empurrar faz parte do Plano também?"
Ele agarrou meus ombros, seu aperto firme, possessivo.
"Não faça isso, Elena. Não me transforme no vilão."
"Você já é o vilão", sussurrei.
Ele me puxou contra si, enterrando o rosto na curva do meu pescoço.
"É só você", ele soprou contra minha pele. "Sempre foi você. Apenas espere um pouco mais."
Eu fiquei rígida em seus braços.
O calor de seu corpo costumava ser meu santuário.
Agora, parecia uma jaula.
"Logo, seremos apenas nós", ele prometeu, afastando-se para me olhar nos olhos.
Ele passou o polegar sobre o curativo na minha testa, um gesto terno que pareceu uma mentira.
"Eu tenho que voltar para ela. Ela está histérica."
"Claro", eu disse, saindo de seu alcance.
"Vá para sua esposa."
Ele hesitou, me olhando como se quisesse dizer mais, como se palavras pudessem consertar o buraco na minha cabeça ou o buraco no meu coração.
"Vou mandar um guarda te levar para casa", ele disse finalmente.
Ele se virou e se afastou, indo em direção aos elevadores que levavam ao andar VIP.
Ele não olhou para trás.
Ele nunca mais olhava para trás.
Eu o observei ir, sentindo o peso fantasma de seu corpo me protegendo de uma bomba, e percebi que essa era a verdadeira tragédia.
Ele havia salvado minha vida naquela época apenas para destruí-la lentamente agora.
"Eu não acredito mais no seu código, Dante", sussurrei para o corredor vazio.
Caminhei em direção à saída, deixando o hospital — e o homem que me quebrou — para trás.
Meu celular vibrou na mesa de cabeceira, vibrando contra a madeira escura como um sinal de alerta.
Eu não precisava olhar para saber quem era.
Sofia.
Toda manhã às 9h, como um relógio, ela enviava uma foto.
Dante servindo café. Dante amarrando a gravata. Dante beijando a testa do bebê.
Eram instantâneos digitais da vida que me foi negada — evidências de tudo que ela havia roubado.
Hoje, no entanto, a foto era diferente.
Era um close-up de seu pulso, adornado com a pulseira de esmeraldas da minha mãe.
A legenda dizia: Venha buscar se quiser.
Eu encarei a tela até minha visão embaçar e meu aperto no celular deixar meus nós dos dedos brancos.
Eu deveria ter ignorado.
Eu deveria ter ficado no meu quarto e feito minhas malas para o exílio que o Don havia me prometido.
Mas aquela pulseira era a única coisa que minha mãe me deixou antes que o câncer a levasse.
Era minha história, meu último elo com um mundo onde eu era amada, e Sofia a estava usando como um troféu de guerra.
Caminhei até a suíte VIP na mansão principal, minhas pernas pesadas como chumbo.
Os guardas me deixaram entrar sem uma palavra. Eles conheciam a hierarquia e sabiam que eu estava na base dela.
Sofia estava sentada na chaise longue, parecendo uma rainha em sua corte.
Ela sorriu quando me viu, tocando a pulseira com um dedo perfeitamente cuidado.
"Olha só a vira-lata, vindo implorar na mesa", ela zombou.
"Devolva, Sofia", eu disse, minha voz firme apesar da batida violenta no meu peito. "Não pertence a você."
Ela se levantou, alisando a frente de seu vestido de seda.
"Tudo que Dante toca me pertence agora. Incluindo isso."
Ela abriu o fecho da pulseira e a segurou, balançando-a sobre o chão de mármore.
"Ajoelhe-se", ela disse.
Eu congelei.
"Ajoelhe-se e admita que você não é nada, e eu te darei."
Eu olhei para as esmeraldas captando a luz.
Pensei no sorriso cansado da minha mãe em seus últimos dias.
Lentamente, dolorosamente, eu me ajoelhei.
Engoli meu orgulho, sentindo o gosto de bile na garganta.
"Por favor", sussurrei.
Sofia riu, seus olhos brilhando com pura malícia.
"Ops."
Ela abriu a mão.
A pulseira bateu no chão.
O som do ouro quebrando e das esmeraldas se estilhaçando ecoou como um tiro na sala silenciosa.
Eu encarei as ruínas da minha herança, paralisada.
Antes que eu pudesse me mover, a pesada porta de carvalho se abriu.
Dante entrou, seguido de perto por seus pais, Don Lorenzo e Isabella.
Sofia instantaneamente se jogou no chão, explodindo em lágrimas teatrais.
Ela agarrou o próprio braço, onde um hematoma novo e raivoso estava se formando — provavelmente autoinfligido momentos antes.
"Ela machucou ele!", ela gritou, apontando um dedo trêmulo para mim.
"Ela tentou pegar o bebê! Eu tentei impedi-la e ela torceu meu braço!"
Eu olhei para cima, dos restos quebrados da pulseira da minha mãe, atordoada.
Eu não tinha chegado a três metros da criança.
Dante olhou para Sofia, depois para mim.
Ele viu sua esposa chorando. Ele viu o hematoma.
Então, seu olhar desceu.
Ele viu a herança quebrada no chão.
Ele a reconheceu. Eu vi o lampejo de reconhecimento em seus olhos.
"Levantem-na", Don Lorenzo latiu.
Dois guardas me ergueram.
"Eu não fiz isso", eu disse, fixando os olhos em Dante. "Dante, olhe para mim. Eu não toquei nele. Eu vim pela pulseira."
Dante desviou o olhar.
Ele encarou a parede, a mandíbula tão cerrada que pensei que seus dentes iriam quebrar.
Ele sabia.
No fundo, ele tinha que saber.
Mas admitir que eu era inocente significava admitir que sua esposa era um monstro, e isso desestabilizaria a aliança familiar.
"O chicote", disse Isabella, sua voz fria e absoluta.
"Vinte chibatadas. Por ferir a linhagem."
"Não", eu ofeguei, o ar saindo dos meus pulmões. "Dante, por favor."
Dante fechou os olhos.
Ele não deu um passo à frente.
Ele não falou em minha defesa.
"Prossigam", ele disse suavemente.
A palavra me quebrou mais do que o chicote jamais poderia.
Ele havia sancionado minha tortura.
Eu ri então.
Borbulhou do meu peito, um som histérico e quebrado.
Eu ri da minha própria estupidez por acreditar que o amor importava em uma sala cheia de monstros.
Os guardas me arrastaram para o pátio.
Eles amarraram meus pulsos ao poste de ferro, me esticando.
Ouvi o estalo do couro cortando o ar antes de senti-lo.
A primeira chibatada rasgou minha camisa e mordeu minha pele como um ferro em brasa.
Eu gritei.
Eu gritei o nome de Dante.
Mas enquanto a segunda, terceira e quarta chibatada caíam, meus gritos se transformaram em silêncio.
Eu não o procurei mais.
Fechei os olhos e deixei a escuridão me levar, rezando para que, quando acordasse, não sentisse mais nada.