Liliana POV:
Não havia sono para mim. Apenas a observação gélida. Eu os segui até o quarto principal, o quarto que Rodolfo e eu compartilhávamos. Minha alma pairava perto do teto, observando a cena desenrolar-se. A cama king-size, coberta com edredons de seda que eu escolhera, agora abrigava Maísa. Ela parecia tão pequena e frágil ali, quase uma criança.
Rodolfo sentou-se na beira da cama, acariciando o cabelo dela. O mesmo gesto que, há tanto tempo, ele usava para me acalmar. Mas para mim, sempre com uma ponta de impaciência. Para Maísa, era pura devoção.
"Está com frio, meu amor?" ele perguntou, a voz suave, preocupada.
"Um pouco," ela murmurou, os olhos marejados se abrindo lentamente. "O vento... o vento me assusta. Me lembra de quando eu era pequena e a tempestade abria a janela do meu quarto."
Ah, o velho truque do vento. Maísa sabia exatamente como apertar os botões de Rodolfo. Uma tempestade? Não havia tempestade. Apenas uma brisa suave que entrava pela janela que Rodolfo havia fechado.
Ele a puxou para perto, abraçando-a com força. Seus braços, que nunca me apertaram com tanta desespero, a envolveram como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo.
"Está tudo bem, Maísa. Eu estou aqui. Não vou deixar nada te acontecer," ele prometeu, beijando-lhe a testa.
Eu me senti como uma intrusa em meu próprio lar, em minha própria vida. Meu fantasma, observando a farsa se desdobrar. Eu queria gritar, queria correr, mas não havia para onde ir. Uma força invisível me prendia ali, àquela cena de falsa intimidade e traição.
Lembrei-me das minhas próprias noites de medo. Uma vez, houve uma forte tempestade. Os trovões faziam a mansão tremer. Eu tinha medo de raios desde criança. Rodolfo estava no escritório, trabalhando. Fui até ele, tremendo, pedindo para ele ficar comigo.
"Liliana, por favor, não seja infantil," ele disse, sem sequer levantar os olhos dos papéis. "É só uma tempestade. Você é uma mulher adulta, uma arquiteta. Não pode ter medo de um pouco de vento."
Ele me mandou de volta para o quarto, sozinha. Eu me encolhi debaixo das cobertas, chorando em silêncio, tentando me convencer de que tudo ficaria bem. Eu sempre tive que me consolar sozinha.
Mas Maísa... para Maísa, ele era o porto seguro.
Um desejo ardente de escapar tomou conta de mim. Eu não queria ver mais. Não queria sentir mais aquela dor fria de realidade. Mas a força invisível me mantinha presa. Eu estava condenada a testemunhar a consequência de minha própria morte.
Rodolfo esperou até Maísa adormecer, com um sorriso satisfeito nos lábios. Ele a deitou com cuidado e saiu do quarto, fechando a porta suavemente.
Maísa abriu os olhos no segundo em que ele saiu. Um sorriso malicioso se espalhou por seu rosto.
"Tão fácil," ela sussurrou para o quarto vazio. "Ele é tão previsível. Sempre foi. E ela? Tão tola em pensar que tinha uma chance. Apenas mais uma pedra no meu caminho."
Minha alma gelou. Não de frio, mas de horror. Ela não era apenas manipuladora. Ela era cruel. Ela era pura maldade.
A força me moveu novamente. Desta vez, para o escritório de Rodolfo. Ele estava sentado à sua enorme mesa de mogno, a luz fraca de um abajur iluminando seu rosto pensativo. Em suas mãos, ele segurava um pequeno objeto.
Um pássaro de madeira.
O pássaro que eu havia esculpido para ele há anos, quando nos conhecemos. O pássaro que ele disse que havia perdido.
Ele o alisava com o polegar, perdido em pensamentos.
"Tão teimosa, Liliana," ele murmurou, a voz baixa. "Tão infantil. Por que você não podia simplesmente ceder? Pedir desculpas?"
Eu queria gritar. Queria dizer a ele que nunca fui teimosa, apenas não mentia. Que nunca fui infantil, apenas não jogava os jogos sujos dela.
Ele nunca me deu a chance de explicar. Nunca procurou a verdade. Ele sempre acreditou na versão da história que Maísa contava, convenientemente moldada para me pintar como a vilã ciumenta e irracional. Como ele podia ser tão cego?
Rodolfo Lobo, o CEO carismático que controlava um império de construção, que tomava decisões de bilhões de dólares com uma mente afiada e implacável, era um tolo cego quando se tratava de suas próprias emoções. Ele era um gigante no mundo dos negócios e um pigmeu na compreensão humana. Sua arrogância era sua ruína. E a minha.
A porta do escritório se abriu. Jaime Portela, seu assistente executivo, entrou, parecendo mais pálido do que o normal.
"Senhor Lobo," Jaime disse, a voz hesitante. "Os guardas relataram que a Senhora Moreno não fez nenhum movimento há horas no cofre. Não responde às chamadas. Eles estão preocupados."
Rodolfo levantou os olhos, irritado. "Ela está se fazendo de difícil. Apenas mais um de seus truques para chamar a atenção. Ela vai ceder quando sentir fome ou frio o suficiente."
"Mas senhor, o sistema de climatização... os guardas disseram que ouviram um barulho. E a temperatura está caindo rapidamente lá dentro," Jaime insistiu, seus olhos fixos nos de Rodolfo.
Um arrepio percorreu minha alma. Jaime. Ele estava preocupado. Ele era um dos poucos que realmente se importava.
Rodolfo suspirou, esfregando as têmporas. "Eu já disse. Deixe-a lá. Ela vai aprender. E quando ela pedir desculpas à Maísa, e a mim, então eu a libero."
Ele bateu com o punho na mesa, fazendo o pássaro de madeira saltar levemente. "Ela tem que entender que eu sou o cabeça desta casa! Minha palavra é lei! Ela não pode me desafiar, não pode desrespeitar Maísa, que é como uma irmã para mim!"
Jaime abaixou a cabeça, derrotado. "Sim, senhor."
Mas quando ele se virou para sair, Maísa estava parada na porta. Seus olhos, antes cheios de falsa inocência, agora carregavam uma sombra de triunfo.
"Rodolfo, meu amor, não perca seu sono por causa dela," Maísa disse, sua voz melíflua. "Ela vai ficar bem. Não é a primeira vez que ela faz um drama. Ela só quer que você se preocupe."
Rodolfo olhou para ela, o rosto suavizando. "Você tem razão, Maísa. Eu não deveria me estressar com isso."
Ele se levantou, caminhou até ela e a abraçou. Ela sorriu vitoriosamente por cima do ombro dele, diretamente para Jaime, que a olhou com uma expressão ilegível.
"Venha, meu amor," Maísa disse, puxando Rodolfo. "Vamos descansar. Você precisa de paz."
Rodolfo assentiu, deixando o pássaro de madeira sobre a mesa. Ele nem sequer olhou para trás. Enquanto eles se afastavam, a força invisível me puxou para longe novamente, para um lugar vazio, onde eu podia apenas observar a escuridão que se tornara minha vida.
Ele me abandonou novamente. E desta vez, foi para sempre.
Liliana POV:
A noite se arrastou, uma eternidade de observação silenciosa. Eu estava condenada a flutuar, um fantasma em minha própria casa, testemunhando a felicidade artificial construída sobre minha sepultura gelada.
"Rodolfo, você não acha que já é o suficiente?"
A voz de Maísa me tirou do torpor. Ela estava sentada na cama, no quarto principal, olhando para Rodolfo com uma falsa preocupação. O sol já havia nascido, lançando raios dourados pelo quarto.
Ele estava se vestindo, o rosto marcado pela insônia, mas ainda exalando a aura de poder que sempre o definira.
"Suficiente para quê, Maísa?" ele respondeu, a voz arrastada.
"Para a Liliana. Ela já deve ter aprendido a lição, não acha? Ela é orgulhosa, mas não é má."
A bile subiu em minha garganta fantasma. Orgulhosa, sim. Mas não má. E ela, a encarnação da maldade, estava ali, jogando o papel da pacificadora.
"Ela não é má, Maísa. Ela é teimosa. É a única maneira de ela entender que não pode me desafiar. Não pode desrespeitar você."
Maísa suspirou, um som melodramático. "Eu só não quero que você se arrependa, Rodolfo. E se algo acontecer a ela lá dentro? O ar condicionado..."
O ar condicionado! Ela estava jogando com ele. Semeando a dúvida, mas de uma forma que o faria pensar que a ideia era dele.
"Não seja boba, Maísa," Rodolfo disse, mas uma pontada de incerteza atravessou sua voz. "Aquele sistema está quebrado há anos. É impossível que esteja funcionando." Ele se virou, parecendo mais ansioso do que antes. "Mas... talvez seja bom levarmos um médico. Apenas para me certificar de que ela está bem. Para evitar que ela faça mais drama."
Aha. Eu sabia. Ele não estava preocupado comigo. Estava preocupado com a "cena" que eu faria quando saísse. Preocupado em manter sua imagem de protetor, mesmo quando o lobo era ele mesmo.
Minha alma riu, um som sem alegria. Tão previsível. Tão egoísta. Ele queria um médico para ter controle sobre a situação, para me fazer parecer uma histérica que precisava de "ajuda" depois de sua "punição".
Eu me perguntei. Como ele reagiria quando encontrasse meu corpo? O choque, a negação, a culpa. Queria ver isso. Queria vê-lo quebrar. Não por vingança, mas por justiça poética. Ele tinha que sentir a dor que me causou.
"Ela só quer chamar a atenção, Rodolfo," Maísa disse, interrompendo meus pensamentos sombrios. Ela o puxou para perto, os olhos marejados. "Você sabe como ela é. Sempre me odiou, desde que éramos crianças. Ela sempre foi ciumenta de mim, da nossa amizade."
Rodolfo beijou a testa dela. "Eu sei, meu amor. Eu sei. Mas não se preocupe com ela. Ela vai aprender a me valorizar. A valorizar o que tem."
Valorizar o que eu tinha? Eu tinha um marido cego, uma rival dissimulada e uma vida que se desintegrava. Eu não tinha nada para valorizar.
Lembrei-me de como eu tentava explicar a Rodolfo que Maísa não era quem ele pensava. Eu o avisava, sutilmente a princípio, depois mais diretamente. Mas ele nunca ouvia. Ele via Maísa como a vítima eterna, a pobre amiga de infância que eu, a "forasteira", estava tentando afastar.
Eu nunca competi com Maísa pelo amor dele. Eu competi com a ideia dele de Maísa. E com a versão que ela construiu de mim em sua mente. Eu estava exausta. Exausta de lutar por um amor que não era reciproco, por uma verdade que ele se recusava a ver.
Mesmo antes de ser trancada no cofre, eu já estava planejando minha saída. Eu estava juntando meus documentos, contatando um advogado. Eu queria o divórcio. Eu queria minha liberdade. Mas ele me roubou até isso.
Rodolfo voltou para o escritório, seus pensamentos visivelmente atormentados. Ele parou diante da janela, olhando para o vasto jardim, mas sem realmente ver. Ele pegou o telefone.
"Jaime," ele disse, a voz tensa. "Alguma notícia da Liliana? Ela está se comunicando?"
"Não, senhor," Jaime respondeu, a voz distante. "Os guardas disseram que está tudo em silêncio por lá. Nenhuma resposta."
Rodolfo respirou fundo. "Tudo bem. Eu estou indo até lá. Diga aos guardas para abrirem o cofre. E prepare um médico para ir conosco. Preciso ter certeza de que ela está bem."
Um nó de esperança, tão ridículo quanto inútil, se formou em minha alma. Um lampejo de humanidade? Um vislumbre de preocupação?
Maísa surgiu no corredor, seus olhos brilhando com uma satisfação disfarçada. Ela sabia que ele iria. Ela sabia o que ele encontraria.
Rodolfo desligou o telefone. "Eu vou até lá, Maísa. Não se preocupe. Talvez ela esteja apenas... dormindo."
Ele se virou para sair. Maísa hesitou por um momento, então soltou um gemido.
"Ai, Rodolfo... minha cabeça... de repente me sinto tonta."
Ela cambaleou, as mãos no peito, os olhos revirando. Rodolfo correu até ela, a expressão ansiosa.
"Maísa! O que houve? Você está bem?"
Ele a segurou antes que ela caísse, o rosto pálido de preocupação.
"Eu... eu não sei," ela sussurrou, os olhos fixos nele. "Acho que a emoção de ontem... e o frio... me sinto tão fraca."
Rodolfo a pegou nos braços, ignorando completamente o cofre, o médico, e, é claro, a mim.
"Não se preocupe, meu amor. Eu vou te levar para a cama. Você precisa descansar."
Ele a levou de volta para o quarto, com todo o cuidado e ternura que ele nunca me dedicou. Passou a manhã e a tarde ao lado dela, ignorando as chamadas de Jaime, os relatórios dos guardas. Eu era, mais uma vez, uma inconveniência esquecida.
Minha alma, em vez de raiva, sentiu uma estranha serenidade. Ele não merecia minhas lágrimas. Ele não merecia minha raiva. Ele merecia a verdade.
E a verdade, eu sabia, o encontraria.