Não acredito no que meu pai foi capaz de fazer. Ele assinou um contrato do meu casamento! Fico completamente nervosa ao ler a página inicial e ver que no final tem uma assinatura dele.
- Não! Não consigo acreditar que o senhor fez isso comigo?!
- Onde já se viu?!
- Não assinarei este contrato! É um total absurdo! - esbravejo
- Filha, filha… por favor.
Bufo de raiva e deixo os papéis fora de ordem em cima da mesa do escritório.
- Não tive escolhas, Angelina. Era a única saída.
- Sempre haverá uma solução para tudo! - digo ainda com o ar em plenos pulmões
- Para nós, não há filha - diz Cesare aborrecido
- As dívidas… ainda não conseguimos quitá-las? - pergunto aflita para meu pai.
- Não, filha. Vendemos tudo o que tínhamos de valor e o que não tínhamos também, mesmo assim não resolveu nossa situação.
"Não pode ser! Estou vivendo um pesadelo, só pode ser!" - Penso enquanto fico em pé de um lado para o outro no escritório.
- Filha, este casamento resolverá tudo - diz Cesare num tom amenizado
- Até parece, pai! Este casamento resolverá somente os seus problemas!
- Não fale assim, Angelina! Fiz o que foi preciso, possível e impossível, para ajudar sua mãe quando ela ficou muito doente!
- Só que o senhor não se importou comigo. Dito isso, saio depressa daquele ambiente pesado aos prantos.
Corro até meu quarto. Ao chegar lá, entro e tranco a porta. Sigo até minha cama e desabo de chorar. "Por quê? Por que isso está acontecendo comigo?" "Ah, mãe! Me perdoe por ficar tão nervosa... Como gostaria que a senhora estivesse aqui comigo. Só a senhora para encontrar uma solução em tudo" - Fico pensando em meio ao soluço de meu choro. As lembranças de sua mãe se fazem presentes. Ela faleceu há 13 anos e as saudades em tê-la ao seu lado permanecem até hoje.
O sono custa a vir naquela noite, porém quando me alcança, adormeço com a própria roupa que vestia no corpo.
Na manhã seguinte...
Meus olhos custam a abrirem, as memórias da noite anterior custam a deixar minha mente. Resolvo sair da cama e ir direto para um banho. Retiro minhas roupas e fico debaixo da água morna do chuveiro. Torcendo para que com aquela água, tudo de ruim que me aconteceu diminua a ponto de desaparecer. Ao sair do banho, sinto-me um tanto melhor e me arrumo.
Encontro com meu pai na mesa do café da manhã e o cumprimento séria.
- Bom dia, pai.
Percebo que os olhos dele se arregalam, provavelmente achava que nem falaria com ele, após tudo o que aconteceu.
- Bom dia, filha - responde Cesare num tom cuidadoso
Tomamos o café em silêncio e a todo momento noto meu pai disfarçando, mas me observando. Ao finalizarmos, inspiro profundamente, tomando toda a coragem do mundo para dizer as minhas próximas palavras:
- Vamos até seu escritório? Preciso ler com muita calma o contrato.
Os olhos de meu pai se suavizam e ele fornece um sorriso discreto.
- Vamos sim.
Assim que levantamos, os empregados arrumaram a mesa. Caminhamos juntos de volta ao escritório.
- Aqui estão todas as páginas do contrato. Se preferir, eu saio para lhe deixar mais a vontade.
- Não, pai. Fique, por favor - respondo-o sentada na poltrona e, lendo atentamente linha por linha daquele contrato.
- Está bem, filha.
"Quem redigiu o contrato é bem detalhista. Não deixando margens ou sobras para erros" - Confirmo para mim mesma o que observo em cada página e linha já lida.
Minutos mais tarde, pego a caneta e fecho meus olhos por breves segundos. Sei que estou sendo observada bem de perto pelo meu pai.
"Espero estar fazendo o que é certo" - penso segundos antes de deixar minha assinatura na última página.
- Pronto! Está feito, pai.
Um mês passa rapidamente e, com ele, chega o grande dia do casamento de Angelina Conti com Santino Ferrari.
Neste período, perdoei meu pai pelo que fez. Nossa relação de filha-pai voltou a ser como antes. Todavia, nos dias que antecederam a minha cerimônia, fiquei bastante triste. Afinal, no meu entendimento, um casamento ocorre entre duas pessoas que se amam muito.
E, esse fato, não houve comigo.
Escuto a voz do meu pai me chamar, assim que bate na porta do meu quarto. Isso me faz despertar naquela manhã.
- Filha? Já acordou?
Vestida com meu pijama preferido, levanto lentamente da cama e caminho em direção à porta para abri-la.
- Bom dia, pai. Sim, acabei de acordar.
Meu pai certamente notou que meus olhos estavam inchados de chorar e havia olheiras também.
- Não se preocupe comigo, ficarei bem - Falo tristemente
- Oh, minha filha. Sempre vou me preocupar com você.
Nos abraçamos naquele instante. Seguro com força algumas lágrimas que temiam em escorrer pelo meu rosto. Aquele dia, seria o último ao lado dele e na casa que morei desde a infância.
- Já arrumou suas coisas? O motorista está lá fora aguardando para levar tudo o que é seu.
Olho minhas poucas malas separadas no chão.
- Ali está tudo o que tenho, pai.
Seu pai acompanha seu olhar e lhe fornece um sorriso discreto.
- Vamos! Você precisa tomar seu último café da manhã, ao lado de seu velho pai.
- Com certeza!
- Descerei suas malas para entregá-las ao motorista.
- Está bem, pai.
Quando foi mais tarde, um motorista que presta serviço para meu futuro marido, levou-me para uma sessão de embelezamento. No trajeto, pensamentos surgem em minha mente: "Quem será meu noivo?" "Não faço ideia de quem ele seja" "No contrato, havia uma cláusula informando que tanto o noivo quanto a noiva só se conhecerão no dia do casamento" "Só espero que não me arrependa de ter assinado o contrato. Uma vez que agora, não há como retroceder..."
Vinte minutos depois, a limusine para. O motorista sai do veículo, abre a porta ao meu lado e fala somente o necessário comigo.
- Entregue esta carta para dona do estabelecimento. Retornarei pontualmente às 17:00 para levar a senhorita até seu casório.
Apenas balanço minha cabeça em afirmação. O motorista entra na limusine e parte dali. Em seguida, adentro no salão segurando a carta em minhas mãos. Percebo alguns vestidos lindos de noivas nos manequins.
Não demora muito e uma senhora de cabelos grisalhos, simpática, educada me recepciona.
- Boa tarde, minha jovem. Meu nome é Francesca, como posso ajudá-la?
- Boa tarde. Prazer, me chamo Angelina. Você que é a proprietária do salão?
- Sim, eu mesma - responde gentilmente
- Solicitaram para eu entregar esta carta para senhora - Entrego a carta timidamente e curiosa, pois não sei o conteúdo escrito nela.
Francesca pega a carta e comenta com uma risada.
- "Senhora" não, por favor! Não sou tão velha assim. Pode me chamar pelo nome mesmo.
- Combinado - respondo-a envergonhada.
A dona do estabelecimento, abre a carta e lê o conteúdo escrito somente para si.
Conteúdo da carta:
"Querida Francesca, quem acabara de entregar-lhe esta carta é minha noiva. Fazê-la sentir-se uma verdadeira princesa na data de hoje. Ajude-a no que for preciso, isso inclui na escolha do vestido de noiva.
Um pagamento generoso já foi dado aos seus serviços.
Assinado, Santino."
Observo Francesca sorrir com o que lê. Fico morrendo de curiosidade para saber o que há escrito. Ela guarda a carta no bolso da calça e, dirige a palavra para mim.
- Acompanhe-me, por gentileza, Angelina.
Concordo com o que ela diz e seguimos juntas até os fundos do local. Lá, havia o salão de cabeleireiro.
- Sente-se e fique a vontade. Seu dia de princesa só está começando.
No instante em que me sento, ela analisa meus cabelos com atenção.
- A senhorita possui um cabelo muito bonito, mas precisa renovar no corte e penteado. Pronta para uma mega transformação?
- Sim, estou mais do que pronta.
- Já gostei muito de você, diferente de outras clientes que costumo atender por aqui.
Ela prossegue dizendo:
- Têm clientes que vêm até aqui e mal querem cortar e renovar o visual. O que acha de um cabelo um pouco mais curto, porém bem espetacular?
- Concordo totalmente. Fazia um tempo que precisava mudar meu visual, agora é o momento certo para isso.
Passo horas naquele salão. Não imaginava que ser transformada numa linda noiva era um processo longo!
Mais tarde, Francesca levou-me até outro setor da loja contendo os vestidos de noiva. Foram mais alguns minutos até escolher meu vestido de noiva. Era lindo, parecido com vestido de princesa. Tinha um decote em V com mangas curtas, corpete adornado com apliques de renda schiffi com lantejoulas delicadas que continuam até a saia. O vestido é finalizado com a cauda comprida, é perfeito e romântico.
Saio dos provadores e Francesca me elogia.
- Que noiva mais linda! Está deslumbrante!
- Você tem certeza? - falo timidamente
- Claro, minha querida. Se olhe no espelho, e veja por si só o que falo.
Dou poucos passos e fico diante do espelho. Realmente, Francesca tinha razão. Meu novo corte de cabelo, maquiagem e o vestido estavam deixando-me deslumbrante. Seguro algumas lágrimas durante o processo. Infelizmente, as lágrimas não são de emoção com o momento.
Após Francesca dar mais alguns ajustes, estava pronta para seguir destino naquele dia. Às 17:00, em ponto como avisado, o motorista apareceu para buscar-me. Quando entro no carro, meu pai estava lá.
- Filha! Está muito bela, parece até uma princesa. Ele fica admirado ao ver-me vestida de noiva.
- Oh, pai, obrigada.
Mas, nem tudo são flores. A realidade em que estou não é perfeita.
- Seu noivo e poucos convidados aguardam sua chegada - Cesare fala seriamente
Respondo na mesma tonalidade.
- Imagino que sim. Não seria diferente.
No caminho, comento com meu pai sobre Francesca. Uma senhora muito simpática que amenizou meu nervosismo sem perceber.
Como houve trânsito no percurso, cheguei até o destino no anoitecer. Uma maneira de manter o costume, de que as noivas sempre atrasam no dia mais importantes delas. Desci da limusine e juntei meu braço com do meu pai.
A grandiosidade da catedral não se resumia apenas do lado de fora, por dentro ela era ainda mais majestosa. Não demora muito e a marcha nupcial começa a tocar. Ando ao lado de meu pai em direção ao altar.
Quando aproximo-me, fico pensativa e chocada ao descobrir quem é meu noivo.
"Não! Não pode ser! Meu noivo e futuro marido é Santino Ferrari!"