Capítulo 2

ATRAÇÃO FÍSICA É AMOR? – Capítulo XII

Renato não voltou mais até a hora do almoço e André começou a ficar preocupado, mas não sabia se devia procurar por ele ou não, nem onde poderia encontrá-lo, já que conhecia pouco a ilha. Estava na sala, quase resolvendo sair, quando a campainha tocou. Era Paula.

- Oi, ela falou. – Posso entrar?

- Claro, ele disse, dando-lhe passagem.

A moça entrou e ele fechou a porta.

- Meu irmão e o Renato foram de barco até a outra ponta da ilha...

- Ah, bom saber. Eu já estava ficando preocupado.

- Foram com a Marta e a Marisa...

André sentiu alguma coisa doer fundo no peito, mas respirou fundo e mostrou-se natural.

- Tudo bem. Você veio até aqui me dizer isso pra ver a minha reação? Ou foi só...

- Eu pensei bem durante a noite toda. Quase não consegui dormir... Pode até ser loucura minha, mas... acho que você tinha razão ontem quando comparou seu sentimento com o meu. Só queria te fazer uma pergunta...

- Faça.

- Se... o Renato aceitasse ter... alguma coisa com você, você teria?

André deu alguns passos pela sala e foi sentar-se no braço de uma poltrona.

- Não...

- Não? Mas você o ama...!

- Paula, eu nunca propus ter nada com o Renato e nunca vou propor. O que eu sinto por ele vai muito, mas muito além de sexo. E não é ele quem tem que mudar em relação a mim. Eu teria que ser uma mulher... Se isso acontecesse, aí sim eu faria alguma coisa... qualquer coisa para conquistá-lo.

- Você gostaria de ser uma mulher?

André sorriu.

- Poxa! Você consegue me enrolar.

- Responda.

- Eu gostaria que meus sentimentos correspondessem a minha anatomia. Não significa que eu necessariamente queira ser uma mulher ou um homem. Eu só queria não estar amando a pessoa errada ou não estar... com o corpo errado em relação a esse sentimento... Entendeu?

Paula sentou-se no sofá e sorriu.

- Acho que sim. Isso pelo menos não faz de você necessariamente um... “gay”.

André coçou a testa.

- Que bom que você pensa assim.

- Sua situação é bem mais delicada e complicada que a minha então.

- Sua situação?

- Meu sentimento em relação... a você.

André prendeu a respiração.

- Eu me apaixonei por você... e você é casado.

Ele levantou-se e afastou-se dela, nervoso.

- Você me conheceu ontem, Paula.

- Eu sei o que eu sinto.

- Capricho! É só um capricho de uma garota que acabou de sair da adolescência, se é que já saiu.

- Não é capricho! Você não pode saber o que eu sinto.

- Sei bem mais do que você imagina.

- E como você poder querer que eu acredite em você, se você não acredita em mim?

- Eu não estou te pedindo nada. Não estou querendo provar nada. Ninguém descobre que ama de um dia pro outro. Você nem me conhece!

- Saber do seu sentimento pelo Renato já me dá sua ficha completa. Acreditar que isso seja verdadeiro já me faz provar que eu aceitaria qualquer defeito seu.

- Atração física não é amor, Paula.

- Não é atração física! Eu te amo!

André foi até a porta e abriu.

- Sai daqui!

- Me dá uma chance de te provar!

- Sai!

- Você pode vir a se esquecer do Renato e...

- Por favor, Paula, sai...

Ela olhou para ele com raiva misturada com decepção e tristeza e passou pela porta correndo. André bateu a porta com força, furioso. Estava tão fora de si que bateu com o braço na estatueta sobre um móvel e ela se estilhaçou no chão.

- Droga!

ALÉM DE MIM

ATRAÇÃO FÍSICA É AMOR? - CAPÍTULO 12

Capítulo 3

BRIGA – Capítulo XIII

Cansado de ficar sozinho no apartamento, André saiu e pensou em andar um pouco pela ilha, mas, ao passar pelo restaurante, viu Renato com Tato e mais alguns rapazes. Pareciam estar se divertindo porque riam muito e alto. Quando ele se aproximou do grupo, Tato, já meio alto, falou:

- Oi, gracinha!

Renato não gostou daquela atitude e ficou sério, mas sabia exatamente o que fazer. Se fosse sua mulher, ele tomaria uma atitude drástica, mas André definitivamente não era sua mulher.

André não levou em conta o que Tato fez e olhou para Renato:

- Posso falar com você, Renato?

- Agora não dá... Renato respondeu, tentando parecer normal.

- Tudo bem.

- Uma perfeita Amélia, falou Tato. – Se conforma fácil, não?

- Tato, para com isso... Renato interferiu.

- Você está defendendo ele?

André afastou-se, mas Tato quis provocar ainda mais.

- Aonde você vai, bonequinha? Não vai dar satisfação ao seu amor, não?

O rapaz voltou-se lentamente e se aproximou dele. Olhou bem em seus olhos e lhe desferiu um forte soco no queixo.

A briga estava armada e iria longe, se alguns dos rapazes não tentassem apaziguar, separando Renato e André de Tato, que estava por baixo. Felizmente dois dos rapazes estavam do lado da dupla e tudo cessou em instantes, mas Tato esbravejava, seguro por um deles.

- Mariquinha de uma figa! - ele gritava, enquanto era levado para dentro do hotel. – Você me paga, bixinha!

- Você está legal, Renato? – perguntou outro rapaz que havia aparecido depois atraído pela confusão e conhecia os dois.

- Estou. Acho melhor a gente voltar pro quarto, André, ele falou, segurando o braço do rapaz.

André tirou o braço da mão dele e disse:

- Vá você. Eu já fiquei demais lá sozinho.

E afastou-se. Renato estranhou aquela reação, mas sabia que ele tinha razão de sobra para fazer aquilo. Novamente se sentiu culpado e percebeu que o melhor mesmo era aceitar as condições que a situação lhes impunha.

André andou pela praia por muito tempo e não conseguia parar de chorar. Ao mesmo tempo em que sentia raiva de Renato, sentia orgulho de si mesmo por ter podido se defender das ofensas de Tato com as próprias mãos. Ser homem tinha suas vantagens de vez em quando.

Quando se acalmou, voltou ao hotel, já ao anoitecer. Quando passou pela portaria, dois dos rapazes que haviam apartado a briga no restaurante vieram ao seu encontro e ele imaginou que fosse haver mais encrenca. Esperou.

- A gente queria falar com você.

- Olha, se é por causa da briga, eu...

- Não, não, a gente não veio brigar mais. Meu nome é Ricardo e esse é o Caio. Nós só queríamos dizer que estávamos com o Tato na hora da briga, mas não concordamos com o que ele fez com você. A gente aqui não costuma reprimir esse tipo de coisa. Nem sabemos por que ele fez aquilo. Ele devia estar um pouco alto e não mediu as palavras. Pela amizade que a gente tem pelo Renato e pelo seu irmão Lúcio... pedimos desculpas por ele. Desconsidera, tá?

André mal podia acreditar no que ouvia e sorriu.

- Obrigado. Não vou me esquecer disso... nem da briga.

Os rapazes riram.

- Você tem um bom soco, cara! – falou Caio. – Que punho! Quase tirou o queixo do Tato do lugar.

- Falta de prática... ele brincou. – Espero que ele não tenha ficado muito zangado.

- Está, mas passa. O Tato é gente boa. Quando ele acordar do porre, vai doer mais quando ele descobrir como estava errado. Ele realmente não estava em si. Bom, até mais então. A gente se vê por aí.

- Obrigado novamente.

Os rapazes afastaram-se. Ainda mais orgulhoso, embora abismado, André olhou para a própria mão e riu. Subiu para o quarto.

Quando entrou, Renato apareceu na porta da cozinha com uma pedra de gelo sobre o lábio inferior.

- Onde foi que você andou?

André riu do jeito dele, mas acabou aproximando-se dele, preocupado.

- Você está legal? Deixa eu ver isso...

- Ah, deixa! – Renato falou, afastando-se dele bruscamente.

André não ligou. Deu de ombros e foi para o quarto. Trouxe uma caixinha de primeiros socorros e falou, indicando o sofá.

- Senta aqui.

- Pra quê?

- Deixa eu ver isso aí. Pode infeccionar. Vem.

Renato sentou-se no sofá e André começou a fazer o curativo no corte que ele tinha debaixo do lábio.

- Você nem se machucou...

- Sorte de principiante, disse, colocando mercúrio no ferimento.

Renato sentiu dor.

- Ai! Cuidado!

- Desculpa.

- Andy...

- André! E fica quieto senão eu não posso botar o curativo.

Renato se calou, ainda olhando para o rapaz. Com cuidado, ele colocou o band-aid e concluiu seu trabalho.

- Pronto! Novo em folha! Pronto pra outra... ele disse, com uma risadinha sarcástica.

- Para um cara, você ainda tem a mão muito leve... observou Renato.

- Não enche! – ele disse, apanhado a caixinha de primeiros socorros e levando-a de volta ao quarto.

Renato o seguiu.

- Você ainda quer que eu volte pra São Paulo?

André pensou por um momento, respondendo:

- Não... Não necessariamente. Você faz o que você quiser. Depois dessa... confusão toda lá embaixo, acho que, pelo menos um pouco de respeito eu já conquistei... como André pelo menos. Eu sou um homossexual respeitado na ilha. O Ricardo e o Caio estão do meu lado. E o Tato vai acabar me aceitando.

- E a Paula?

- Que tem a Paula?

- Ela te aceita?

- Faz diferença?

- Claro que faz! Eu ainda prefiro que ela te ache afeminado ou coisa parecida.

- Eu cuido disso.

- Toma cuidado, And... dré...

- Você também. Vamos dormir? O dia hoje já deu o que tinha que dar.

ALÉM DE MIM

BRIGA - CAPÍTULO 13

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