Ayla sentiu uma sensação de libertação que Aurora nunca conhecera. O peso da traição, a culpa esmagadora - tudo se foi. Substituído por um propósito frio e claro. Aurora lhe dera as chaves. Agora, era hora de dirigir.
Ela voltou à Dra. Sharma no dia seguinte.
"A Aurora se foi", afirmou Ayla, sua voz neutra.
A calma profissional da Dra. Sharma não vacilou. Ela apenas a observou, seus olhos perspicazes. "O que você quer dizer com 'se foi'?"
"Ela desistiu. Pediu para eu assumir. Então eu assumi."
"Isso é comum em sistemas de TDI", explicou a Dra. Sharma. "Chama-se integração, ou às vezes, um alter se torna dominante para lidar com o mundo exterior. O hospedeiro original pode se tornar dormente. Podemos trabalhar para trazê-la de volta, para a cura."
Ayla balançou a cabeça. "Não. A cura não é o objetivo. A justiça é. Aurora está descansando. Ela merece a paz. Eu cuido do resto."
Ela sentiu um estranho cronômetro em sua mente. Aurora não estava morta, mas estava adormecida. Ayla tinha uma janela limitada antes que o mundo, ou talvez Alexandre, tentasse forçar a mulher quebrada e gentil a vir à tona novamente. Ela não podia deixar isso acontecer.
Alguns dias depois, seu telefone tocou. Era Alexandre.
"Aurora? Onde você está? Fiquei preocupado."
Ayla quase riu da falsa preocupação em sua voz. Ela concordou em encontrá-lo em um pequeno café, um terreno neutro.
Ele já estava lá quando ela chegou, parecendo agitado. Ele se levantou e tentou abraçá-la, mas ela o desviou e se sentou.
Seus braços caíram desajeitadamente ao lado do corpo. "Aurora, eu..."
Ele olhou em seus olhos e, pela primeira vez, pareceu ver que algo estava diferente. Um lampejo de confusão cruzou seu rosto.
"Você parece... diferente."
"A prisão muda uma pessoa", disse Ayla, sua voz fria.
Ele se sentou, inclinando-se para a frente, as mãos entrelaçadas na mesa. Ele começou um discurso bem ensaiado sobre a história deles, o amor deles, a empresa que construíram juntos desde o dormitório da faculdade. Ele a lembrou de como ela havia abandonado sua própria promissora carreira acadêmica para apoiar o sonho dele.
"Eu nunca esqueci isso, Aurora. Tudo o que eu fiz... eu fiz pensando em você."
Ayla ouviu, sua expressão indecifrável. Ela se lembrava das memórias de Aurora sobre este homem - o calor de sua mão, a risada fácil. Mas tudo o que Ayla sentia era a realidade fria e dura de sua traição. O homem que Aurora amava era uma fantasia. Esta criatura sentada à sua frente era a verdade.
"Eu tenho uma condição", disse Ayla, cortando-o.
Ele piscou. "Uma condição?"
"TDI. Transtorno Dissociativo de Identidade. Os médicos na prisão diagnosticaram. O trauma... me dividiu."
Alexandre a encarou. Então ele jogou a cabeça para trás e riu. Foi um som condescendente e desdenhoso.
"Ah, Aurora. Isso é alguma nova tática? Algum novo jogo para me fazer sentir culpado? Você não está louca. Você está apenas sendo dramática."
"Eu não sou a Aurora", disse Ayla em voz baixa.
"Eu te amo", ele insistiu, ignorando-a. "Eu sempre te amei. Catarina... ela foi um erro. Um momento de fraqueza. Ela não significa nada."
"Você me deixou ir para a prisão por um ano como uma 'lição'", Ayla o lembrou, sua voz como gelo.
"Foi um erro!", ele disse, sua voz se elevando. "Eu estava errado. Eu admito. Mas podemos superar isso. Nós temos que superar. Eu preciso de você."
Ele queria que ela cedesse. Que aceitasse a presença de Catarina em suas vidas, pelo menos por enquanto. Ele falou sobre Catarina ser "vulnerável" e "dependente" dele. Ele teceu uma história de obrigação e responsabilidade.
"Nós fizemos um juramento, Alexandre", disse Ayla, citando as palavras pelas quais Aurora chorou por três anos. "Na saúde e na doença. Na alegria e na tristeza."
Ele teve a audácia de parecer desconfortável. "Isso é diferente."
"É mesmo?"
"Catarina irá embora em breve", ele prometeu, seus olhos suplicantes. "Eu só preciso de um tempo para resolver isso, para arrumar um lugar para ela. Então seremos só nós de novo. Eu juro."
Ele estendeu a mão sobre a mesa, pegando a dela. Aurora teria derretido. Ayla não sentiu nada além do toque úmido de um mentiroso.
"Você vai ver", ele disse, interpretando mal o silêncio dela como aquiescência. "Tudo vai voltar a ser como era."
Ayla puxou a mão lentamente. Como algo poderia voltar? O homem que Aurora amava nunca existiu. Ele vinha mudando há anos, seu sucesso alimentando um narcisismo que consumia tudo em seu caminho. Aurora apenas se recusou a ver.
Ela se lembrou da primeira suspeita de Aurora. Uma mensagem de texto tarde da noite. O cheiro do perfume de outra mulher em sua camisa. Quando ela o confrontou, ele a manipulou, a chamou de paranoica, a fez sentir como se ela fosse o problema.
Ele a havia quebrado muito antes de Catarina sequer pisar naquele penhasco.
"Eu quero o divórcio, Alexandre", disse Ayla.
A máscara confiante caiu. O pânico brilhou em seus olhos. "Não. Não diga isso. Podemos consertar isso. Eu faço qualquer coisa."
Qualquer coisa, exceto a única coisa que importava. Ele nunca teve a intenção de deixar Catarina. Ele queria as duas. A esposa respeitável e solidária e a amante excitante e ilícita. Ele era um rei que acreditava ter direito a todo o seu reino.
"Eu vou consertar isso", ele disse novamente, sua voz recuperando o comando. "Eu vou me livrar dela. Eu te prometo, Aurora. Apenas me dê um pouco de tempo."
Ayla olhou para ele, para a sinceridade desesperada que ele estava tentando projetar. Era uma performance magistral. Mas ela não era a plateia a que ele estava acostumado.
"Você promete?", perguntou Ayla, seu tom indecifrável.
"Eu prometo."
Uma semana depois, Alexandre fez um show para manter sua promessa. Ayla observou da janela do andar de cima enquanto ele colocava as malas de grife de Catarina no porta-malas de seu carro. Catarina estava chorando, uma exibição teatral de coração partido.
Mas enquanto eles se afastavam, Ayla notou uma pequena caixa de veludo para joias deixada intencionalmente no corrimão da varanda. Um marcador. Um sinal de que aquilo não era um fim, mas um intervalo.
Alexandre voltou naquela noite, parecendo cansado, mas triunfante.
"Ela se foi", ele anunciou. "Para sempre."
Ele tentou esconder a caixa de joias, mas Ayla viu o movimento desajeitado enquanto ele a deslizava no bolso. Ele então a presenteou com presentes que supostamente vinha acumulando por três anos - um colar de diamantes, um relógio de grife, um livro raro de primeira edição que ela sempre quis. Desculpas materiais por um crime espiritual.
Ele queria comemorar.
"Minha empresa está lançando uma nova linha de produtos", disse ele. "Há uma festa hoje à noite. Quero você ao meu lado. Mostrar a todos que estamos de volta. Mais fortes do que nunca."
Ayla sentiu um nó frio no estômago, mas concordou. Fazia parte do jogo. Deixá-lo pensar que estava ganhando.
A festa era um evento brilhante, cheio da elite da cidade. Por um tempo, funcionou. Alexandre era charmoso, atencioso, o marido perfeito fazendo um grande retorno com sua esposa injustiçada. As pessoas sorriam, sussurravam e a recebiam de volta ao rebanho.
Então o celular dele vibrou. Ele olhou para a tela e seu rosto se contraiu.
"É uma emergência no laboratório", disse ele, a voz tensa de aborrecimento. "Eu tenho que ir. Volto em uma hora, no máximo. Não saia daqui."
Ele beijou sua bochecha e desapareceu na multidão.
Ayla ficou sozinha. No momento em que a presença protetora de Alexandre desapareceu, a atmosfera mudou. Os sussurros mudaram. Os sorrisos se tornaram zombarias.
"É ela", disse uma mulher, sem se preocupar em baixar a voz. "Aquela que matou a amante dele."
"Ouvi dizer que ela foi inocentada por um detalhe técnico", acrescentou outra. "Mas todo mundo sabe que foi ela."
Ayla tentou ignorá-los, virando-se para o bar. Mas eles a seguiram, um bando de hienas sentindo fraqueza.
"Assassina", alguém sibilou.
"Eu não sou uma assassina", disse Ayla, a voz firme, mas um tremor do antigo medo de Aurora percorreu seu corpo.
A multidão ficou mais ousada, pressionando-a. "Você se safou, mas nós sabemos. Você é um monstro."
Uma mão a empurrou por trás. Ela tropeçou, segurando-se no bar. A memória de uma briga no pátio da prisão passou por sua mente - o cheiro de suor e medo, o baque surdo de um punho atingindo a carne. Ela instintivamente se agachou, seu corpo se preparando para um golpe.
"Olha pra ela", zombou um homem. "Encolhida como o animal que é."
Alguém jogou uma bebida. O líquido frio encharcou a frente de seu vestido, pingando no chão. A humilhação era uma coisa física, quente e sufocante.
Justo quando um homem se lançou sobre ela, Alexandre reapareceu.
Ele se moveu pela multidão como uma força da natureza, seu rosto uma máscara de trovão. "Fiquem longe da minha esposa!", ele rugiu.
Ele envolveu um braço protetor em volta de Ayla, puxando-a para seu lado. Ele encarou os espectadores atônitos, sua voz pingando ameaça.
"A próxima pessoa que disser uma palavra para ela terá que lidar comigo. E eu prometo a vocês, vocês não querem isso."
A multidão se calou, intimidada por seu poder e riqueza. Alexandre Rocha não era um homem que se devia cruzar.
Ayla se apoiou nele, um lampejo da antiga confiança de Aurora surgindo. Por um único e traiçoeiro momento, ela se sentiu segura.
Então uma nova voz cortou o silêncio.
"Alex, você prometeu que voltaria logo."
Catarina.
Ela estava na beira da multidão, vestida com um deslumbrante vestido vermelho, a mão repousando delicadamente em sua barriga ligeiramente arredondada.
"Eu estava esperando no carro", disse ela, a voz tremendo com uma dor fabricada. "Você disse que ia só buscar sua esposa e então iríamos embora."
Alexandre congelou. Seu corpo inteiro ficou rígido.
Ayla olhou de seu rosto atônito para o triunfante de Catarina. A emergência no laboratório. O retorno rápido. Era tudo outra mentira. Ele não havia mandado Catarina embora. Ele apenas a escondeu no carro, planejando deixar Aurora em casa e voltar para sua amante.
Catarina caminhou em direção a eles, seus olhos se fixando nos de Alexandre. "Você vem, ou vai ficar com... ela?"
Ayla podia sentir a guerra travada dentro dele. A atração de seu dever para com a mulher em seu braço, e a atração de seu desejo pela mulher de vermelho.
Ela sentiu a antiga fraqueza de Aurora se aproximando, a tontura, a náusea. Ela balançou nos pés.
Catarina viu sua chance. Ela soltou um soluço suave, virou-se e fugiu.
Sem hesitar por um segundo, Alexandre soltou Ayla e correu atrás dela.
"Cat, espere!"
Ayla foi deixada sozinha novamente, em uma poça de champanhe derramado, os olhos de toda a festa sobre ela. A pena. O desprezo. O julgamento.
Era tudo um jogo. Um jogo doentio e distorcido onde ela era o peão. Aquele lampejo de esperança, de segurança em seus braços, era apenas mais uma ilusão.
Ela saiu da festa, de cabeça erguida, e pegou um táxi de volta para a casa vazia e silenciosa.
Ele não voltou para casa naquela noite.
Ayla ficou acordada, olhando para o teto, a última esperança frágil de Aurora se transformando em pó.
Na manhã seguinte, ela ouviu a porta da frente se abrir. Não era Alexandre.
Era Catarina. Ela entrou, carregando uma bolsa de grife, e deu a Ayla um sorriso preguiçoso e triunfante.
"Ele se sentiu mal por te deixar ontem à noite", disse Catarina, sua voz pingando falsa simpatia. "Mas eu precisava dele."
Ela deu um tapinha na barriga. "O bebê e eu precisávamos dele."