Liv fez uma única mala. Roupas, artigos de higiene. Nada mais importava.
Ela estava deixando seu apartamento perto da FAAP, indo para a casa de campo tranquila de seu pai por um tempo.
Enquanto esperava pelo carro, Marcos Torres saiu do elevador no prédio do escritório de seu pai.
Ele estava com Bela.
A mão de Bela estava em seu braço, possessiva.
Marcos usava um terno novo, caro, perfeitamente ajustado.
Uma leve marca de batom, um tom que Bela costumava usar, era visível em seu colarinho.
Os olhos de Liv piscaram sobre a marca, depois se desviaram rapidamente.
Uma dor surda, agora familiar.
"Olivia", disse Marcos. Sua voz era fria, formal.
Ele parou, bloqueando ligeiramente seu caminho. Bela ficou ao lado dele, um sorrisinho presunçoso brincando em seus lábios.
"Confio que você não vai causar mais... perturbações."
Suas palavras eram um aviso, afiado e claro.
Ele se referia à presença dela, à sua própria existência.
Liv olhou para baixo. "Não, Sr. Torres."
Ela usou o sobrenome dele. Parecia estranho, mas certo.
Ele enrijeceu. Um lampejo de algo – surpresa? Irritação? – cruzou seu rosto.
Ele estava acostumado com o "Marcos" adorador dela.
Bela escolheu aquele momento para dar um passo à frente, pressionando-se mais perto de Marcos.
Ele automaticamente colocou o braço em volta da cintura dela, puxando-a para perto.
Uma exibição pública. Uma reivindicação.
"Querido", disse Bela, sua voz doce como mel, "deveríamos ir. A reunião de planejamento para a nova ala."
Ela olhou para Liv, depois de volta para Marcos.
"Marcos está tão ocupado, sabe. Assumindo tanta responsabilidade na empresa agora."
Ela estava marcando seu território.
"A Bela será um grande trunfo", afirmou Marcos, seus olhos em Liv. "Ela tem um gosto impecável. Ela supervisionará todo o design de interiores dos meus projetos futuros. E, claro, da nossa casa."
A mensagem não dita: Bela era a dona da casa, a futura Sra. Torres, em tudo menos no nome.
Liv sentiu uma onda fria percorrer seu corpo. Diminuída. Irrelevante.
"Você é uma estranha aqui agora, Olivia", disse Marcos, sua voz desprovida de qualquer calor.
Não um tom cruel, apenas uma constatação de fato.
Como dizer a ela que o céu era azul.
Liv conseguiu um pequeno sorriso autodepreciativo. Não alcançou seus olhos.
"Eu entendo, Sr. Torres."
Ela iria embora. Não apenas da cidade por um tempo, mas de todo este mundo tóxico. Permanentemente.
O motorista de seu pai chegou. Ela acenou uma vez para Marcos e Bela, depois se afastou.
Ela não olhou para trás.
As semanas seguintes foram um borrão de silêncio forçado.
Seu pai tentou protegê-la.
Ela ficou na casa de campo, caminhando pela mata, tentando respirar.
Ela evitou notícias da cidade, mas trechos chegavam até ela.
Marcos e Bela eram inseparáveis.
Jantares luxuosos, eventos de caridade, festas do setor.
Ele estava, segundo relatos, mimando Bela, atento a todos os seus caprichos.
Novos brincos de diamante para Bela, "só porque sim".
Uma viagem de fim de semana a Paris para a "inspiração" de Bela.
Isso confirmava a profunda conexão deles, ou pelo menos, a conexão que Bela havia forjado com sucesso e que Marcos agora abraçava.
Liv sentiu um estranho distanciamento. Era como assistir a um filme sobre a vida de outras pessoas.
Uma tarde, Liv começou a limpar seu antigo quarto no apartamento da cidade de seu pai, para o qual ela havia retornado brevemente antes da decisão de ir para o campo.
Ela encontrou uma caixa de lembranças.
Desenhos de Marcos. Convites de galas antigas onde ela esperava que ele a notasse.
A pedra de granito.
Ela a pegou, depois a jogou em um saco de lixo com o resto.
Era hora de deixar ir.
Ela estava levando o saco para o duto de lixo do prédio quando as portas do elevador se abriram.
Marcos Torres saiu.
Ele estava visitando o pai dela.
Ele viu o saco em sua mão. Ele a viu.
"Olivia. Você tem estado... quieta."
Seu tom era indecifrável. Nem hostil, nem amigável. Apenas observador.
"Eu não estive te evitando, Sr. Torres", disse Liv, sua voz uniforme.
Ele ergueu uma sobrancelha. "Não? Você desapareceu. Sem ligações, sem mensagens. Depois do... incidente."
Seu olhar era perscrutador, intenso.
"Eu não te amo mais", afirmou Liv calmamente.
Era a verdade. A paixão havia se transformado em outra coisa – um entendimento amargo.
Um músculo se contraiu na mandíbula de Marcos. Irritação. Incredulidade.
"Não seja ridícula, Olivia."
Ele viu o saco de lixo que ela segurava. O canto de um esboço, o perfil dele, estava visível.
"Isso é mais um dos seus joguinhos?", ele acusou, sua voz endurecendo. "Tentando chamar minha atenção com drama?"
Ele ainda achava que ela era uma garota apaixonada fazendo jogos manipuladores.
Ele não conseguia conceber que ela pudesse genuinamente tê-lo superado.
Sua arrogância era espantosa.
"Eu não estou jogando, Sr. Torres."
A frustração de Liv era uma faixa apertada em volta do peito.
"Meus sentimentos eram genuínos. E agora, eles genuinamente se foram."
Ela enfiou a mão no saco, tirou um punhado de cartas antigas que havia escrito para ele, mas nunca enviado.
Confissões tolas e infantis de adoração.
Ela as rasgou ao meio, depois em quartos, e deixou os pedaços caírem no saco.
"Viu? Foram-se."
Marcos a observava, sua expressão indecifrável, mas tensa.
Ele provavelmente pensou que isso era apenas uma tática mais elaborada.
Sua mandíbula se contraiu. "Você está sendo infantil."
Ele não conseguia, ou não queria, ver a verdade.
Uma semana se passou. Silêncio.
Liv não tinha mais nada a dizer a ele.
Marcos, ela ouviu através das atualizações relutantes de seu pai, continuava convencido de que ela estava apenas fingindo.
Ele esperava que ela cedesse, que voltasse correndo, implorando por sua atenção.
Ele estava errado.
Um jantar de família foi organizado pelo lado da família de seu pai. O aniversário de uma tia.
Marcos estava lá, um convidado de seu pai. Bela estava, é claro, em seu braço.
Liv era uma figura secundária, a jovem prima "problemática".
Bela, no entanto, foi tratada como realeza.
A noiva não oficial de Marcos.
Uma tia-avó idosa até mesmo colocou uma joia de família, um delicado pingente de safira, na mão de Bela.
"Para quando você se juntar oficialmente à nossa família, querida. Pertenceu à minha avó."
Bela sorriu radiante, seus olhos se voltando para Liv por uma fração de segundo. Um pequeno brilho triunfante.
Liv não sentiu nada além de um cansaço maçante.
A conversa do jantar inevitavelmente se voltou para Marcos e Bela.
"Então, quando é o grande dia?", outro parente perguntou, piscando.
Marcos sorriu, um sorriso charmoso e praticado. "Estamos pensando na primavera. Bela adora as cerejeiras."
Bela encostou a cabeça no ombro dele. "Será perfeito."
A nova realidade estava se solidificando, se tornando oficial.
Liv se desculpou, alegando dor de cabeça.
Mais tarde naquela noite, enquanto Liv estava empacotando as últimas coisas do apartamento da cidade para se mudar para o campo mais permanentemente, a mãe de Marcos, uma mulher severa e consciente da sociedade chamada Eleonora Torres, a encurralou.
"Olivia", disse Eleonora, sua voz afiada. "Acho que é hora de você entender uma coisa."
Liv esperou.
"Marcos nunca foi para você. Ele precisa de uma mulher de substância, de sofisticação. Não de uma... garota volúvel."
Sua desaprovação pela paixão passada de Liv era clara. Sempre esteve lá, não dita.
"Você vai deixá-lo em paz. Você vai deixar esta família em paz."
As palavras eram duras, uma ordem clara.
Liv sentiu uma pontada distante de dor, um eco de mágoas passadas.
"Eu estou indo embora, Sra. Torres", disse Liv em voz baixa.
"Estou me mudando para o campo. E depois, pretendo estudar no exterior."
Ela já havia se candidatado, sido aceita em um programa de fotografia em Paris. Bem longe.
"Na verdade", acrescentou Liv, pegando algo em sua bolsa, "vou me casar."
Ela tirou um e-mail impresso. Uma aceitação muito recente e impulsiva de uma proposta de um jovem gentil e estável que seu pai havia discretamente apresentado a ela meses atrás, alguém que ela inicialmente descartou, mas com quem se reconectou recentemente online. Uma escolha segura. Um caminho diferente. O nome dele era Heitor.
Os olhos de Eleonora Torres se arregalaram ligeiramente, depois se estreitaram em suspeita. Mas o e-mail parecia legítimo.
Uma onda de alívio percorreu o rosto de Eleonora. "Bem. Isso é... sensato."
De repente, Marcos estava lá. Ele havia entrado na sala silenciosamente.
Ele tinha ouvido. Seu rosto era uma máscara de choque.
"Noiva?", ele disse, sua voz tensa.
Então, para o espanto de todos, especialmente de Liv, ele disse: "Olivia, se você precisar de alguma coisa... qualquer coisa... para sua nova vida, eu providenciarei. Considere um... presente de casamento. Sem limites."
Bela, que o havia seguido, ofegou. Seus olhos, fixos em Marcos, estavam arregalados de incredulidade e um lampejo de ciúme cru.
Liv encarou Marcos. Isso era outro jogo? Ou uma culpa estranha e possessiva?