Capítulo 2

O bar de jazz no Lower East Side era uma caverna de luzes fracas e madeira escura, com cheiro de bourbon derramado e velhos arrependimentos. Era o lugar perfeito para desaparecer. Hayley estava em seu terceiro Manhattan, a cereja no fundo do copo como um pequeno coração ensanguentado.

Ela encarava o celular. A captura de tela do documento do fundo fiduciário brilhava de volta para ela. "...deve estar legalmente casada na data do desembolso..." Um relógio digital no canto da tela fazia a contagem regressiva. 71 horas e 28 minutos.

O sino acima da porta tocou suavemente. Um homem entrou. Ele não era chamativo, mas o casaco se ajustava perfeitamente aos seus ombros largos, um detalhe que denotava uma qualidade discreta. Ele se sentou no bar, deixando um banco vazio entre eles.

"Apenas uma club soda com limão", ele disse ao bartender.

Hayley o observava pelo espelho atrás do bar. Maxilar barbeado, cabelo escuro, olhos que pareciam absorver tudo sem se mover. Ele parecia... calmo. Estável. E, pelo relógio simples em seu pulso e a ausência de logotipos de grife, não era rico. Perfeito.

O uísque havia queimado suas inibições, deixando apenas um núcleo de desespero frio e duro. Ela pegou seu copo e deslizou para o banco ao lado dele.

"Você é solteiro?"

Ele virou a cabeça lentamente, o olhar firme. Um leve indício de sorriso tocou o canto de sua boca. Ele não parecia surpreso, nem ofendido. "Essa é uma abordagem bem direta."

"Não tenho tempo para outra coisa", disse ela, com a voz rouca. "Você precisa de dinheiro?"

Ele girou o gelo em seu copo, o tilintar soando alto no silêncio momentâneo entre as músicas. "Depende", disse ele, sua voz um murmúrio grave. "Qual é o trabalho?"

O desespero de Hayley a tornou direta. "É uma proposta de negócios. Um contrato."

Seus olhos encontraram os dela no espelho, um brilho de compreensão em sua profundidade. "Isso parece mais sério do que um acordo de negócios típico", disse ele, seu tom tingido com uma diversão seca que, de alguma forma, a deixou à vontade. "Você está contratando um marido, por acaso?"

O ar saiu de seus pulmões de uma vez. Ele a decifrou completamente. Ótimo. Isso poupava tempo.

"Sim", disse ela, encontrando o olhar dele. "Estou. Um contrato de um ano. Compensação generosa. Sem amarras, sem expectativas. No final do ano, cada um segue seu caminho. Um rompimento limpo."

Ele enfiou a mão no bolso interno do casaco e tirou um simples cartão de visita cor de creme. Ele o deslizou pela madeira polida do bar.

Kieran Mccall. Associado de Vendas. McCall Insurance.

"Eu vendo seguros", disse ele, sua voz um barítono grave e suave. "Meu aluguel está vencido. Um bônus de assinatura viria a calhar."

Ela pegou o cartão. McCall Insurance. Um nome sólido, comum. Um associado de vendas. Era perfeito. Eles eram do mesmo mundo — o mundo de pessoas que trabalhavam para viver, que entendiam de transações. Não haveria desequilíbrio de poder, nenhum babaca de uma família dinástica pensando que era dono dela.

"Os termos são simples", disse ela, sua voz ganhando força. "Não interferimos na vida pessoal um do outro. Apresentamos uma frente unida quando necessário. Após 365 dias, pedimos o divórcio consensual."

Ele assentiu lentamente, seus olhos perscrutando os dela. "E a compensação?"

"O suficiente para cobrir seu aluguel por muito mais tempo do que um ano."

Ele olhou para o relógio acima do bar. "A prefeitura fecha em uma hora para licenças de casamento."

O coração de Hayley martelava contra suas costelas. "Deveríamos ir agora."

"Gosto de uma mulher que sabe o que quer", disse ele, um sorriso genuíno finalmente aparecendo. Ele se levantou, jogando uma nota de vinte no bar. "Vamos nos casar."

Eles saíram do calor do bar para o vento cortante. Hayley estremeceu, a seda fina de sua blusa não era páreo para o frio. Sem uma palavra, Kieran tirou seu sobretudo e o colocou sobre os ombros dela. Estava quente com o calor do corpo dele e tinha um leve cheiro de cedro e algodão limpo.

Eles pararam na esquina, esperando por um táxi. Um sinal vermelho parou o trânsito, e o ronco gutural e familiar de um motor fez o sangue de Hayley gelar. O Porsche de Brad.

A janela do passageiro desceu. Brad estava ao volante, seu rosto uma máscara de incredulidade. Jenna, ao lado dele, soltou um suspiro teatral.

"Ora, ora", disse Jenna, sua voz afiada o suficiente para cortar vidro. "Parece que alguém não perdeu tempo para encontrar um substituto."

O rosto de Brad se contorceu de raiva. Ele colocou o carro em "park", ignorando as buzinas estridentes atrás dele, e abriu a porta com um empurrão. Ele marchou na direção deles, o rosto vermelho de fúria.

Ele agarrou o braço de Hayley, seus dedos cravando na carne acima do cotovelo dela. "Quem diabos é esse?"

Capítulo 3

Antes que Hayley pudesse responder, a mão de Kieran disparou, agarrando o antebraço de Brad com uma força surpreendente e empurrando-o para longe de Hayley. A força foi brusca, e Brad tropeçou um passo para trás, seus olhos se arregalando de surpresa com a constituição sólida do outro homem. Seu aperto em Hayley afrouxou instantaneamente.

Brad recuou, esfregando o pulso, com uma expressão de choque no rosto. Ele não esperava que o homem quieto no casaco simples fosse tão forte.

Kieran se moveu, colocando-se diretamente entre Hayley e seu ex-marido. Sua expressão não era mais calma ou divertida. Era glacial.

O sinal ficou verde. Uma sinfonia de buzinas raivosas irrompeu dos carros presos atrás do Porsche.

Brad apontou um dedo trêmulo para Kieran. "Você não tem ideia com quem está se metendo."

Kieran nem sequer olhou para ele. Ele colocou uma mão firme e estabilizadora nas costas de Hayley e a guiou em direção a um táxi que acabara de parar. Ele abriu a porta para ela, seu corpo a protegendo do olhar tóxico de Brad.

O corredor do lado de fora do cartório de licenças de casamento na Prefeitura era pintado de um tom deprimente de bege e cheirava a café velho e burocracia. Brad irrompeu pelas portas principais como um linebacker, com Jenna se esforçando para acompanhá-lo.

"Um maldito gigolô!" A voz de Brad ecoou no corredor silencioso. Ele apontou um dedo trêmulo para Kieran. "É isso que você é? Um lixo qualquer que ela pegou em um bar?"

Kieran estava de pé com as mãos nos bolsos da calça, sua postura relaxada, quase preguiçosa. Ele parecia completamente impassível, como um homem observando uma criança fazer birra.

Hayley deu um passo à frente, com a intenção de dizer algo, qualquer coisa, para fazer aquilo parar. Mas Kieran colocou uma mão gentil em seu ombro e a moveu para trás dele novamente.

"Na verdade," disse Kieran, com a voz calma e uniforme, "eu sou o noivo dela."

Brad soltou uma risada áspera e ruidosa. "Noivo? Você acabou de conhecê-la! Ela era minha esposa ontem, seu sanguessuga patético!"

Jenna, sempre a líder de torcida leal, interveio. "Hayley nunca foi de ficar sozinha por muito tempo. Ela sempre precisou de um homem para cuidar dela."

O olhar de Kieran desviou do rosto furioso de Brad para Jenna. Pousou no colar de diamantes que brilhava em seu pescoço. Ele inclinou a cabeça, com uma expressão pensativa no rosto.

"É uma peça adorável," ele disse em tom de conversa. "Parece muito com uma que vi em destaque em uma revista sobre o Met Gala. Uma réplica impressionante."

O rosto de Jenna ficou branco. Sua mão voou para o pescoço, um gesto reflexivo e protetor.

O rosto de Brad escureceu. Ser exposto por dar uma falsificação à sua amante foi um golpe direto em seu ego. Ele avançou, seu punho balançando descontroladamente em direção ao rosto de Kieran.

Kieran se moveu com uma graça fluida que era surpreendente. Ele não bloqueou o soco; ele simplesmente se esquivou. Brad, impulsionado por sua própria raiva e ímpeto, tropeçou passando por ele e colidiu diretamente com um grande bebedouro contra a parede.

O galão de plástico explodiu com o impacto. Água e copos de papel frágeis voaram para todos os lados. Brad caiu com força de bunda no meio da poça que se espalhava, seu terno caro instantaneamente encharcado.

Algumas pessoas na fila deram risadinhas.

Jenna gritou e correu para ajudá-lo, seus saltos escorregando no linóleo molhado, espirrando água suja em seu próprio vestido.

Kieran olhou para a figura patética e engasgada no chão. "Você realmente deveria aprender a se controlar," ele disse, sua voz desprovida de qualquer emoção. "E a sua mulher. Pega mal ser tão mesquinho a ponto de não comprar a joia verdadeira para ela."

Um brilho assassino lampejou nos olhos de Brad. Ele se levantou desajeitadamente, pingando e humilhado.

"Sra. Warner?" Uma funcionária de aparência cansada chamada Mildred colocou a cabeça para fora da porta de um escritório. "Estamos prontos para a senhora."

Kieran se virou da bagunça como se ela não existisse mais. O tom frio e perigoso dele desapareceu, substituído por um calor suave. Ele alcançou a mão de Hayley, seus dedos se entrelaçando nos dela. Seu toque era quente e sólido, uma âncora no caos.

Seu coração deu um pequeno salto estranho no peito.

Eles entraram no escritório pequeno e bagunçado, deixando Brad e Jenna parados em uma poça que eles mesmos criaram.

"Eu vou destruí-lo," Brad rosnou, afastando as mãos de Jenna que tentavam ajudá-lo. "Vou garantir que ele nunca mais trabalhe nesta cidade."

"Ele é apenas um vendedor de seguros, Brad," disse Jenna, tentando acalmar seu orgulho ferido. "O que ele pode fazer?"

"Vou fazer com que ele seja demitido até de manhã," Brad prometeu, sua voz um rosnado baixo.

Dentro do escritório, a mão de Hayley tremia enquanto ela assinava seu nome na certidão de casamento. Um novo nome. Uma nova vida. Uma nova mentira.

A mão de Kieran cobriu suavemente a dela, firmando-a. "Está tudo bem," ele sussurrou, sua voz apenas para os ouvidos dela. "Eu estou aqui com você."

Mildred carimbou o documento com uma batida forte. "Parabéns, Sr. e Sra. Mccall."

Kieran sorriu educadamente e agradeceu.

Quando eles saíram para a noite de New York City, o ar parecia diferente. Mais fresco. Kieran pegou a bolsa do ombro dela sem pedir, seus movimentos fáceis e naturais. Eles desceram os degraus da Prefeitura, lado a lado, parecendo para o mundo inteiro como qualquer outro casal recém-casado.

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