O rosto de Fernando era uma máscara de terror. "A Helena está no hospital. Ela começou a ter uma hemorragia. Eles precisam de sangue. Muito sangue."
Ele desligou e agarrou o braço de Clara, seu aperto como um torno. "Temos que ir. Agora."
"O quê? Por que eu?" Clara tentou se livrar do braço dele, a violência súbita de seu aperto a chocando. Este não era o homem de luto e arrependido de um momento atrás; era alguém desesperado e implacável.
"O tipo sanguíneo dela," ele disse, arrastando-a em direção à porta. "É raro. AB negativo. Igual ao seu. O banco de sangue do hospital está baixo. Você é a única que pode doar a tempo. Você tem que salvá-la, Clara."
A audácia de sua exigência era estonteante. Ele queria que ela salvasse a mulher que acabara de destruir sua vida. Ele não estava pedindo; estava ordenando.
"Não," disse Clara, fincando os pés no chão. "Me solta, Fernando. Eu não vou a lugar nenhum."
"Deixa de ser egoísta!" ele rugiu, o rosto contorcido de fúria. "Estamos falando da vida de uma pessoa! O que quer que tenha acontecido entre nós, você não pode deixá-la morrer!"
Ele a estava arrastando para fora de casa agora, seus dedos cravando dolorosamente em sua pele. A pesada aliança em seu dedo, aquela que deveria simbolizar seu amor eterno por ela, pressionava sua carne.
"Ela é uma mulher morrendo, Clara! Você é tão sem coração a ponto de ver alguém morrer por despeito?" ele gritou enquanto a empurrava e puxava para dentro de seu carro.
As palavras eram uma forma brutal de chantagem moral. Ele estava transformando a compaixão dela em uma arma contra ela. No turbilhão caótico de dor e confusão, uma pequena e exausta parte dela cedeu. Uma vida era uma vida. Mesmo a de Helena.
O hospital era um borrão de luzes fluorescentes e o cheiro antisséptico de medo. Fernando não soltou seu braço por um segundo, puxando-a pelos corredores até chegarem ao centro de transfusão.
"Ela precisa de sangue, agora!" ele gritou para uma enfermeira assustada. "O nome dela é Helena Corrêa. Esta é a doadora."
Uma enfermeira rapidamente preparou o braço de Clara. Enquanto ela se sentava na cadeira fria, a mente de Clara estava em parafuso. Ela estava prestes a dar seu próprio sangue, sua força vital, para a mulher que roubou seu noivo e a humilhou na frente de todos que ela conhecia. O absurdo era tão profundo que beirava a loucura.
Ela tentou puxar o braço de volta uma última vez. "Fernando, eu não consigo fazer isso."
"Você vai," ele disse, sua voz baixa e ameaçadora. Ele se moveu para trás da cadeira dela, colocando as mãos firmemente em seus ombros, prendendo-a no lugar. "Faça," ele ordenou à enfermeira.
A agulha foi uma picada fria e aguda. Clara se encolheu, uma lágrima de pura e absoluta humilhação escorrendo por sua bochecha. Ela observou, entorpecida, enquanto seu sangue vermelho escuro fluía pelo tubo transparente, deixando seu corpo para ir salvar sua rival. As mãos de Fernando nunca deixaram seus ombros, um peso pesado e possessivo que parecia mais uma jaula do que um conforto.
O mundo começou a girar enquanto a bolsa enchia. 450 mililitros. Uma doação padrão, mas após a devastação emocional do dia, seu corpo se sentia esgotado, esvaziado. Pontos pretos dançavam diante de seus olhos.
"Pronto," disse a enfermeira, colando um algodão em seu braço.
No segundo em que a agulha saiu, Fernando a soltou. "Graças a Deus," ele suspirou, seu alívio palpável. Nesse momento, um médico saiu correndo de uma sala de cirurgia próxima.
"Sr. Ferraz! Nós a estabilizamos, mas ela está perguntando por você."
Fernando não hesitou. Ele nem mesmo olhou para trás, para Clara. Ele correu em direção à sala de cirurgia, seu foco inteiramente em Helena.
Enquanto ele corria, Clara tentou se levantar. Suas pernas fraquejaram. O mundo inclinou-se para o lado, e ela desabou, sua cabeça batendo com força na quina de um carrinho de suprimentos médicos de metal.
O carrinho balançou, e uma pesada bandeja de instrumentos de aço inoxidável caiu, atingindo-a na cabeça e nos ombros. Uma dor aguda e ofuscante explodiu atrás de seus olhos, e então, tudo ficou preto.
A última coisa que ela viu foi as costas de Fernando enquanto ele desaparecia pelas portas da sala de cirurgia, um ato final e definitivo de abandono.
...
Quando Clara acordou, a primeira coisa que registrou foi a dor surda e latejante em sua cabeça. Ela estava em um quarto de hospital particular. Fernando estava sentado em uma cadeira ao lado de sua cama, a cabeça entre as mãos. Ele olhou para cima quando ela se mexeu, seus olhos vermelhos e cheios de uma espécie de culpa cansada.
"Clara, você acordou," ele disse, sua voz rouca. "Me desculpe. Eu não vi você cair. Eu estava tão preocupado com a Helena..."
Ela apenas o encarou, seus olhos vazios. O pedido de desculpas parecia um eco oco no quarto estéril. Desculpe por não tê-la visto se machucar, não por ser a causa disso.
"Não fale," ela disse, sua voz um sussurro seco. Sua garganta estava dolorida.
"Eu fui tão estúpido e rude com você," ele continuou, ignorando-a. Ele estendeu a mão para pegar a dela, mas ela a puxou para longe. "Eu prometo, Clara. Eu nunca, nunca mais vou te tratar assim. Assim que a Helena... se for... tudo vai voltar a ser como era. Você e eu. Eu prometo."
Uma risada fria e amarga ameaçou borbulhar de seu peito. Voltar a ser como era? Ele havia estilhaçado o mundo deles e agora estava prometendo colar os pedaços com palavras vazias. Ele estava tão consumido por seu papel de nobre salvador de Helena que não conseguia ver a destruição que deixara para trás.
Ele tentou cuidar dela. Trazia suas refeições, afofava seus travesseiros e falava com ela em um tom suave e apaziguador. Mas sua atenção estava fraturada. Seu celular vibrava constantemente com atualizações do quarto de Helena. Ele estaria no meio de dar a Clara uma colherada de sopa, então seus olhos se desviavam para a tela, sua expressão se suavizando com uma ternura que não era mais para ela.
Uma tarde, enquanto tentava ajudá-la a se sentar, o celular dele tocou. Ele atendeu, seu foco mudando imediatamente. "Ela acordou? Está pedindo alguma coisa?"
Distraído, ele soltou o braço de Clara cedo demais. Ela escorregou de forma desajeitada, seu ombro machucado torcendo ao bater na grade da cama. Um grito agudo de dor escapou de seus lábios.
Fernando encerrou a ligação abruptamente, seu rosto uma confusão de culpa e frustração. "Me desculpe, me desculpe mesmo, Clara."
"Saia," ela disse, sua voz perigosamente quieta. "Apenas saia, Fernando. Vá ficar com ela. Você não me serve para nada aqui."
"Clara, eu posso te compensar," ele implorou, sua voz falhando. "Vou passar o resto da minha vida te compensando."
Mas as promessas dele eram como cinzas em sua boca. Ela fechou os olhos, excluindo-o. Não havia mais nada a dizer. Ele era um estranho agora, um homem cujo coração batia por outra pessoa. O futuro deles, aquele que ela havia projetado com tanto cuidado, fora demolido, e ele estava de pé nos escombros, pedindo a ela para admirar a vista.
Fernando finalmente saiu, seus passos ecoando sua relutância, mas a atração pelo leito de Helena era mais forte do que qualquer culpa que sentia por Clara. Ele contratou uma enfermeira particular e garantiu que todas as necessidades materiais de Clara fossem atendidas, um substituto insignificante para sua presença e um sinal claro de suas prioridades.
No dia em que Clara recebeu alta, ela voltou para a casa que haviam construído juntos. Parecia estranha, fria. O ar estava denso com o fantasma de seu relacionamento morto. Sem uma palavra para os funcionários, ela começou a purgar sua vida dele. Tirou as fotos deles, guardando-as em uma caixa que rotulou "Erros". Jogou fora as velas com cheiro de gardênia que ele sempre comprava para ela. Apagou o número dele do celular, embora o soubesse de cor. Cada item descartado era uma pequena e satisfatória ruptura.
Ela estava no meio de ensacar a coleção de ingressos de cinema que guardavam desde o primeiro encontro quando a porta da frente se abriu. Fernando estava de volta. E ele não estava sozinho.
Helena Corrêa estava apoiada nele, parecendo pálida e frágil. Ela usava um delicado roupão de seda, e seu cabelo estava artisticamente despenteado. Quando viu Clara cercada por caixas e sacos de lixo, seus olhos, longe de serem fracos ou doentios, continham uma centelha de triunfo indisfarçado.
"O que você está fazendo?" Fernando perguntou, a testa franzida em confusão ao olhar para os restos desmontados de sua vida juntos.
"Limpando," Clara respondeu, sua voz monótona. "Me livrando de coisas que não preciso mais."
Fernando não insistiu no assunto, sua atenção já se voltando para a mulher agarrada ao seu braço. "Helena precisa de um lugar tranquilo para se recuperar," ele anunciou, não pediu. "Os médicos disseram que o estresse é a pior coisa para a condição dela. Ela vai ficar aqui."
Ele levou Helena até o sofá, acomodando-a contra as almofadas como se ela fosse feita de vidro. Helena olhou para Clara, sua expressão uma mistura perfeita de desculpa e desamparo, mas seus olhos eram afiados e desafiadores. Era uma declaração de posse. Esta era a casa dela agora. O homem dela.
Clara não sentiu nada. A raiva e a dor haviam se esgotado, deixando para trás uma calma congelada. "Tudo bem," ela disse, voltando-se para suas caixas. "A casa é sua."
Fernando pareceu aliviado com sua falta de protesto. "Obrigado, Clara. Eu sabia que você entenderia." Ele então se virou para a governanta. "Maria, por favor, prepare o quarto de hóspedes no andar de baixo para a Sra. Corrêa. Deixe-o confortável."
Clara não os observou. Ela continuou seu trabalho calmamente, movendo-se pela casa como um fantasma, apagando sistematicamente sua própria existência de suas paredes. Os dias seguintes foram um tipo especial de tortura. Ela se tornou uma espectadora invisível em sua própria casa, observando o homem com quem deveria ter se casado mimar outra mulher.
Ele descascava frutas para Helena, certificando-se de cortá-las em pedaços pequenos e fáceis de manusear. Lia para ela por horas, sua voz um murmúrio baixo e calmante que costumava ser reservado para as noites insones de Clara. Ele monitorava sua medicação, se preocupava com suas refeições e a abraçava quando ela fingia um momento de fraqueza. A ternura que antes fora exclusivamente dela agora estava em exibição pública, prodigalizada em sua substituta. Era um envenenamento lento e deliberado de cada boa memória que eles já haviam compartilhado.
Enquanto arrumava as coisas, ela encontrou uma pequena almofada bordada. "F + C Para Sempre." Um presente de sua avó. Ela a segurou por um momento, depois a jogou em um saco de lixo sem pensar duas vezes. O para sempre durou dez anos.
Seu único consolo era Marmelada, o gato laranja fofo que Fernando lhe dera de aniversário cinco anos atrás. Ele era sua sombra, uma presença quente e ronronante na casa fria e vazia. Quando ela chorava, ele roçava a cabeça em sua mão. Quando ela não conseguia dormir, ele se aninhava em seu peito, uma âncora peluda na tempestade.
Uma tarde, um pacote chegou. Era Marmelada, finalmente de volta do veterinário após uma limpeza dentária de rotina. Ver seu rosto familiar, ouvir seu miado feliz, foi o primeiro calor genuíno que Clara sentiu em semanas. Ela o pegou nos braços, enterrando o rosto em seu pelo macio. Por um momento, ela sentiu um lampejo da mulher que costumava ser.
Andando pelo corredor com Marmelada nos braços, ela encontrou Helena, que estava a caminho da cozinha. Os olhos de Helena imediatamente se fixaram no gato.
"Oh, que coisinha fofa," Helena arrulhou, sua voz doentiamente doce. "Posso segurá-lo?"
"Não," Clara disse secamente, segurando Marmelada com mais força. "Ele não gosta de estranhos."
Um lampejo de irritação cruzou o rosto de Helena antes de ser substituído por um beicinho. "Ah, por favor? Estou tão sozinha e triste. Uma bolinha de pelos me animaria." Ela estendeu as mãos.
Clara deu um passo para trás. "Eu disse não."
O beicinho de Helena se transformou em um escárnio. Ela avançou, tentando arrancar o gato dos braços de Clara. Marmelada, assustado e com medo, sibilou e deu uma patada, arranhando a mão de Helena com suas garras. Foi um arranhão superficial, mal quebrando a pele.
"Ai!" Helena gritou, cambaleando para trás como se tivesse levado um tiro. Ela agarrou a mão, seu rosto se contorcendo em uma máscara de dor e terror.
Fernando veio correndo ao som de seu grito. "O que aconteceu? Helena, você está bem?"
"O gato!" Helena soluçou, mostrando a mão, onde uma pequena gota de sangue estava se formando. "Ele me atacou! Ele simplesmente pulou em mim sem motivo!"
"Isso é mentira!" Clara exclamou. "Você tentou agarrá-lo!"
O olhar de Fernando endureceu enquanto olhava do rosto banhado em lágrimas de Helena para o rosto desafiador de Clara. Seus olhos pousaram no pequeno arranhão na mão de Helena.
"Ela está doente, Clara," ele disse, sua voz perigosamente baixa. "O sistema imunológico dela está comprometido. Qualquer infecção pode ser fatal." Ele pegou gentilmente a mão de Helena, examinando a ferida minúscula como se fosse um ferimento mortal. "Não podemos ter um animal feroz nesta casa."
"Ele não é feroz! Ela o provocou!" Clara implorou, seu coração afundando.
Helena soltou outro soluço. "Eu só queria fazer carinho nele, Fernando. Eu pensei... pensei que talvez ele pudesse ser meu amigo, já que não me resta muito tempo." Ela olhou para o gato com terror fingido. "Estou com medo dele agora."
Isso foi tudo o que precisou.
"É só um gato, Clara," Fernando disse, seu tom desdenhoso e frio. "O bem-estar da Helena é mais importante. Ela quer o gato. Será seu companheiro pelo tempo que lhe resta." Ele se aproximou e, antes que Clara pudesse reagir, arrancou Marmelada de seus braços.
"Não!" Clara gritou, avançando para ele.
Ele entregou o gato assustado e se contorcendo para uma Helena triunfante. "Pronto, pronto, garotinho," Helena arrulhou, sua voz pingando falsa doçura enquanto acariciava seu pelo.
"Me devolva ele, Fernando! Ele é meu!" Clara chorou, sua voz falhando.
"Não seja infantil," Fernando retrucou, parando entre ela e Helena. "É para o bem de todos. Realizar um de seus últimos desejos é o mínimo que podemos fazer."
Ele se virou e começou a levar Helena embora, que agora abraçava Marmelada com força, um sorriso cruel e vitorioso no rosto que apenas Clara podia ver. O gato se debatia em seu aperto, soltando um miado angustiado.
Clara sentiu um pavor gelado tomar conta dela. Ela não podia deixar isso acontecer. Esperou até que Fernando estivesse no banho naquela noite. A casa estava silenciosa. Ela foi sorrateiramente até o quarto de Helena, o coração batendo forte. Ela tinha que pegar seu gato de volta.
A porta estava entreaberta. Ela espiou para dentro, e o que viu fez seu sangue gelar.