Safira permaneceu imóvel.
Seu coração martelava tão forte dentro do peito que parecia impossível aquele homem não ouvir.
O carro preto ainda estava parado atrás dele, chamando atenção no meio da rua movimentada.
Tudo naquele homem gritava perigo.
Desde o terno impecável até o olhar frio e calculista.
Safira apertou a mochila contra o corpo.
- Eu não vou entrar em lugar nenhum com você.
Matteo Castellani arqueou uma sobrancelha, como se já esperasse aquela resposta.
- Inteligente.
A resposta a pegou desprevenida.
Safira franziu a testa.
- Então sabe que isso parece completamente suspeito?
Um pequeno sorriso surgiu nos lábios dele.
- Sim.
A calma dele era irritante.
Como alguém podia estar tão tranquilo enquanto praticamente sequestrava uma desconhecida?
Safira deu mais um passo para trás.
- Eu não conheço você.
- Mas eu conheço você.
O ar pareceu desaparecer ao redor dela.
Safira sentiu um arrepio subir por sua nuca.
- Como assim?
Matteo não respondeu imediatamente.
Seus olhos escuros analisavam cada detalhe dela.
As roupas gastas.
Os cabelos bagunçados.
As olheiras profundas.
O estado frágil em que ela se encontrava.
Por algum motivo, aquilo pareceu incomodá-lo.
- Você está pior do que imaginei - ele disse, quase para si mesmo.
Safira sentiu a irritação crescer.
- Olha, seja lá quem você for, eu não preciso da sua pena.
Ela se virou para ir embora.
- Seu dinheiro está acabando.
Safira congelou.
Virou-se lentamente.
- O quê?
Matteo colocou as mãos nos bolsos do sobretudo.
- Você recebeu três mil reais há seis anos.
O sangue dela gelou.
Ninguém sabia daquilo.
Ninguém.
Seu rosto perdeu a cor.
- Como você sabe disso?
Pela primeira vez, Matteo pareceu satisfeito por finalmente ter sua atenção.
- Entre no carro e eu explico.
Safira engoliu em seco.
Sua mente gritava para correr.
Mas outra parte dela estava desesperada por respostas.
Quem era aquele homem?
Como sabia detalhes tão específicos sobre sua vida?
Por que parecia procurá-la?
- Eu deveria chamar a polícia - ela murmurou, embora soubesse que não faria isso.
Matteo soltou um suspiro quase impaciente.
- Você realmente acha que eu estaria aqui se minhas intenções fossem te prejudicar?
Safira cruzou os braços.
- Não sei. Psicopatas existem.
Para sua surpresa, Matteo soltou uma breve risada.
Curta.
Baixa.
Quase imperceptível.
Mas real.
Aquilo a confundiu ainda mais.
Um homem como ele não parecia do tipo que ria.
- Você é mais interessante do que imaginei - ele comentou.
- E você continua parecendo suspeito.
O motorista, parado ao lado do carro, tentou esconder um sorriso.
Matteo lançou um olhar para ele, e o homem imediatamente voltou à postura séria.
Safira percebeu aquilo.
Ele claramente estava acostumado a ser obedecido.
Muito obedecido.
- Última vez que vou perguntar - Matteo disse. - Você vem comigo ou prefere continuar dormindo na rua?
A pergunta a atingiu como um tapa.
Seu orgulho se revoltou imediatamente.
Mas sua realidade era cruel demais para ser ignorada.
Ela estava cansada.
Faminta.
Sem dinheiro suficiente.
Sem opções.
Safira apertou a mochila ainda mais.
- Se eu entrar nesse carro e você tentar qualquer coisa estranha, eu juro que-
- Vai fazer o quê? - Matteo interrompeu.
Ela abriu a boca.
Fechou.
Não tinha resposta.
Ele inclinou levemente a cabeça.
- Exatamente.
Safira odiou admitir, mas ele tinha razão.
Com um suspiro derrotado, caminhou até o carro.
O motorista abriu a porta traseira.
O interior era absurdamente luxuoso.
Bancos de couro escuro.
Iluminação suave.
Cheiro leve de perfume caro.
Parecia outro universo.
Outro mundo.
Definitivamente não o dela.
Safira entrou com hesitação.
Matteo entrou logo depois.
A porta se fechou.
O carro voltou a se mover.
Safira ficou rigidamente encostada na porta oposta, mantendo a maior distância possível.
Matteo parecia completamente confortável.
Como se aquela situação fosse normal.
- Para onde estamos indo? - ela perguntou.
- Para um lugar seguro.
- Isso não responde minha pergunta.
- Eu sei.
Safira revirou os olhos.
Homem insuportável.
O silêncio pairou por alguns minutos.
Até que ela não aguentou mais.
- Quem é você de verdade?
Matteo virou o rosto lentamente para ela.
- Já disse meu nome.
- Nome não significa nada.
Ele a observou por alguns segundos.
Como se estivesse decidindo quanto revelar.
- Sou presidente do Grupo Castellani.
Safira piscou.
Não fazia ideia do que era isso.
Ao notar sua expressão vazia, Matteo pareceu ligeiramente surpreso.
- Você nunca ouviu falar de mim?
- Deveria?
Aquilo pareceu quase ofendê-lo.
Quase.
- Não importa.
Safira cruzou os braços.
- Para mim importa.
Matteo ignorou.
- O que importa é que você está segura agora.
A frase deveria confortá-la.
Mas não confortou.
Nada naquilo parecia seguro.
Nada fazia sentido.
Após alguns minutos, o carro desacelerou diante de um enorme portão de ferro.
Safira arregalou os olhos.
O portão se abriu automaticamente.
Uma propriedade gigantesca surgiu diante dela.
Jardins impecáveis.
Fonte iluminada.
Uma mansão tão grande que parecia saída de filme.
- Meu Deus... - ela sussurrou.
O carro parou diante da entrada principal.
Antes mesmo que pudesse reagir, funcionários já aguardavam na porta.
Como se soubessem exatamente quem chegaria.
Safira ficou desconfortável.
- Por que parece que estavam me esperando?
Matteo saiu do carro primeiro.
- Porque estavam.
Aquilo não ajudou em nada.
Safira saiu devagar.
Observou a casa.
Depois Matteo.
Depois a casa novamente.
- Isso está ficando cada vez mais assustador.
Matteo ignorou o comentário.
Começou a subir as escadas.
- Venha.
Safira hesitou.
- Ainda não respondeu minha principal pergunta.
Ele parou.
Virou-se lentamente.
O vento noturno bagunçou levemente seus cabelos escuros.
Seu olhar ficou mais sério do que antes.
Mais pesado.
- Eu trouxe você até aqui porque sua vida corre perigo, Safira.
Ela sentiu o chão sumir sob seus pés.
- O quê?
Matteo sustentou seu olhar.
- E o motivo está diretamente ligado ao verdadeiro motivo pelo qual sua família te abandonou.
Safira parou de respirar.
Seu coração disparou.
- Do que você está falando?
Matteo a encarou por alguns segundos.
Então disse, calmamente:
- Entre. Está na hora de descobrir quem você realmente é.
Safira ficou parada na entrada da mansão.
As palavras de Matteo ainda ecoavam em sua mente.
Sua vida corre perigo.
Sua família te abandonou por um motivo.
Nada fazia sentido.
Nada.
Ela apertou as alças da mochila como se aquilo fosse a única coisa familiar em todo aquele lugar.
- Isso é algum tipo de brincadeira cruel? - perguntou, desconfiada.
Matteo a observou em silêncio.
Seu rosto permanecia frio, quase ilegível.
- Eu não costumo brincar.
Safira soltou uma risada nervosa.
- Ótimo. Isso definitivamente não me tranquiliza.
O comentário arrancou um olhar quase divertido dele.
Quase.
Matteo virou-se e entrou na mansão.
Sem muitas opções, Safira o seguiu.
Assim que cruzou a porta, quase perdeu o fôlego.
O interior era ainda mais impressionante.
Lustres enormes.
Escadarias curvas.
Piso brilhante.
Quadros sofisticados.
Tudo parecia absurdamente caro.
Safira sentiu vergonha ao olhar para suas próprias roupas desgastadas.
Parecia sujeira naquele ambiente.
Uma mulher elegante surgiu imediatamente.
Devia ter cerca de cinquenta anos, postura impecável e expressão gentil.
- Senhor Castellani - cumprimentou ela.
Então seus olhos pousaram sobre Safira.
Por um segundo, algo mudou em sua expressão.
Choque.
Surpresa.
Como se tivesse visto um fantasma.
- Meu Deus... - murmurou a mulher.
Safira franziu a testa.
- O quê?
A mulher rapidamente recuperou a postura.
- Desculpe. Nada.
Nada?
Claramente não era nada.
Safira lançou um olhar desconfiado para Matteo.
- Todo mundo aqui age como se me conhecesse.
- Porque conhecem.
Ela ficou irritada.
- Pode parar de falar em enigmas?
Matteo ignorou.
- Helena, prepare um quarto para ela.
A mulher assentiu.
- Sim, senhor.
- Espera aí - Safira interrompeu. - Eu não vou subir para quarto nenhum antes de receber respostas.
Matteo suspirou lentamente.
Como se sua paciência estivesse sendo testada.
- Você receberá respostas.
- Quando?
- Agora.
Safira sentiu o coração acelerar.
Matteo caminhou até um escritório no fim do corredor e abriu a porta.
Fez sinal para que ela entrasse.
O ambiente era amplo, sofisticado e dominado por tons escuros.
Uma enorme mesa de madeira ocupava o centro.
Estantes cheias de livros cobriam as paredes.
Matteo fechou a porta atrás deles.
Safira imediatamente ficou alerta.
- Relaxe. Eu não vou te atacar.
- Que bom, porque isso seria péssimo para sua reputação.
Matteo soltou um breve suspiro pelo nariz.
Talvez uma tentativa de não rir.
Safira ainda não entendia como aquele homem conseguia parecer tão intimidador até respirando.
Ele caminhou até uma gaveta.
Retirou uma pasta preta.
Colocou sobre a mesa.
- Sente-se.
Safira permaneceu em pé.
- Prefiro ficar assim.
Matteo não insistiu.
Abriu a pasta lentamente.
Dentro havia documentos.
Fotos.
Papéis antigos.
Safira sentiu um frio percorrer sua espinha.
- O que é isso?
Matteo ergueu uma fotografia e a colocou diante dela.
Safira congelou.
Era uma foto antiga.
Muito antiga.
Nela, havia uma mulher sorridente segurando um bebê.
Ao lado dela, um homem elegante.
Os dois pareciam felizes.
Ricos.
Importantes.
Mas não era isso que importava.
O que importava era o bebê.
Safira sentiu o ar faltar.
Porque aquele bebê usava no pescoço um colar pequeno.
Um colar em formato de lua.
Exatamente igual ao dela.
Ela levou a mão ao próprio pescoço instantaneamente.
O pequeno pingente sempre esteve com ela.
Sempre.
Desde que se lembrava.
- Como conseguiu isso? - sua voz saiu quase falhando.
Matteo a observou cuidadosamente.
- Esse colar nunca pertenceu à sua mãe adotiva.
Safira arregalou os olhos.
Seu cérebro demorou a processar.
- Minha... mãe adotiva?
Silêncio.
Pesado.
Sufocante.
Ela riu sem humor.
- Não. Não.
Deu um passo para trás.
- Não, você está mentindo.
Matteo permaneceu imóvel.
- Sua mãe nunca foi sua mãe biológica.
Safira balançou a cabeça.
- Para.
Seu peito começou a subir e descer rápido demais.
Ansiedade.
Medo.
Pânico.
- Para agora.
Matteo continuou, implacável.
- Você foi entregue ainda bebê.
Criada por aquela mulher em circunstâncias que ainda estamos investigando.
Safira sentiu as pernas enfraquecerem.
Segurou a borda da cadeira para não cair.
- Isso é impossível.
- Infelizmente, não é.
Lágrimas começaram a se formar em seus olhos.
Sua vida inteira parecia desmoronar pela segunda vez.
Primeiro: abandono.
Agora: mentira.
- Então... eu nem fui abandonada pela minha família de verdade? - perguntou em voz baixa.
Matteo a observou.
Havia algo diferente em seu olhar agora.
Menos frieza.
Quase compaixão.
- Não.
Safira deixou escapar uma risada quebrada.
Quase histérica.
- Isso é ridículo.
Ela passou a mão no rosto.
Tentando pensar.
Respirar.
Existir.
- Quem são eles?
Matteo fechou a pasta.
- Ainda não posso te contar tudo.
Safira arregalou os olhos, indignada.
- Você só pode estar brincando comigo.
- Há pessoas observando seus passos há anos.
O sangue dela gelou.
- O quê?
- Se descobrirem que você sabe da verdade antes da hora, tudo pode dar errado.
Safira sentiu um nó no estômago.
- Quem está me observando?
Matteo demorou alguns segundos para responder.
Então falou:
- As mesmas pessoas responsáveis pelo desaparecimento da sua verdadeira família.
O mundo pareceu parar.
Safira perdeu completamente a capacidade de formular qualquer pensamento lógico.
- Desaparecimento?
Matteo assentiu.
- Sua família não sumiu por acaso.
O coração dela disparou ainda mais.
- Você está dizendo que minha família-
Antes que pudesse terminar, uma batida forte ecoou na porta.
TOC. TOC. TOC.
Os dois olharam imediatamente para a entrada.
Helena abriu a porta apenas o suficiente para aparecer.
Seu rosto estava tenso.
Diferente de antes.
Preocupado.
- Senhor Castellani... temos um problema.
Matteo estreitou os olhos.
- O que aconteceu?
Helena engoliu em seco.
- Tem alguém no portão pedindo para ver a senhorita Safira.
Safira franziu a testa.
- A mim?
Helena assentiu lentamente.
- E disse que é da sua família.
Safira sentiu o coração parar.
Impossível.
Sua família tinha ido embora.
Então... quem estava lá fora?