Capítulo 2

Julliete.

Slapt! O forte tapa causou um zumbido no meu ouvido. 

— Cala a boca, puttana. — Irritado, Gaspar mandou.

Toquei a minha face, que ainda queimava, evitando olhar diretamente pra ele.

— Me ajuda... — Desta vez, falei fracamente.

A mão de Gaspar cobriu a minha boca, sufocando os meus berros.

— Relaxe, vai doer um pouco no começo... — disse ele, roucamente —, mas depois, você vai gostar.

 Logo, o som da fivela do cinto e do zíper se abrindo entrou nos meus ouvidos enquanto ele tentava se colocar no meio das minhas pernas. Num acesso de desespero, eu me debati. Ele era grande demais, mas estava lento e embrutecido devido à bebida alcoólica.

Apavorada pra me livrar do peso daquele homem, eu mordi o ombro dele com toda força até sentir o gosto do sangue. 

— Figlia di una puttana! — Gaspar soltou um rugido. 

Ele me ergueu e atirou-me contra a parede. O impacto fez minha cabeça girar. Por um segundo, senti a vertigem tentando derrubar os meus sentidos. Não sei por quanto tempo fiquei zonza, mas despertei assim que senti o peso do corpo dele sobre o meu outra vez.

— Seja boazinha, não vou te machucar! — Gaspar chamou rispidamente. — Vem cá! Você vai gostar disso. — Ele empunhou aquela coisa grande, nojenta e dura. — Relaxa, você vai se acostumar.

De repente, três batidas secas vieram da porta da frente.

Gaspar paralisou. A luz que entrava pela janela expôs o semblante cavernoso do meu padrasto. 

— Abra essa porta ou vamos queimar sua casa com você dentro, Gaspar! — O homem ameaçou. — Viemos em nome de Vito Lucchese.

Aquele homem era um dos maiores chefes da máfia de San Luca, um pequeno vilarejo nas montanhas da Calábria, que era conhecido como o local de origem e um reduto chave da 'Ndrangheta.

— Merda! — Gaspar cuspiu. — Fique aqui... já volto para continuarmos brincando de gato e rato. — Falou maliciosamente e saiu, deixando a porta entreaberta.

Eu me arrastei para o canto, chorando.

Tentei me acalmar enquanto meus olhos passeavam por cada canto, pensando numa forma de escapar. 

— Signor Gaspar, non abbiamo tempo per i tuoi giochi! — O sotaque napolitano veio lá debaixo.  

"Ah, não!" Era a voz de um dos capangas do Don Vito.

— O meu chefe exige que pague sua dívida hoje! — A voz grave cortou o ar.

— Ainda não consegui o dinheiro, mas vou arrumar amanhã. — Gaspar tentou ludibriar.

Ouvi um barulho de algo pesado caindo no chão, seguido do gemido patético de Gaspar. Eu sabia que eles estavam batendo nele.

— Tenho uma oferta pra fazer pro Don Lucchese! — A voz do meu padrasto estava mais desesperada.

Houve um silêncio até que Gaspar começou a propor:

— A minha enteada é uma linda francesa, tem olhos azuis da cor do céu, cabelos pretos e uma pele de porcelana. Ela acabou de fazer dezoito anos e ainda é virgem! — Gaspar estava me oferecendo para aqueles mafiosos como se fosse uma mercadoria. 

Ainda lembro quando minha mãe segurou a mão do Gaspar há três semanas e pediu que ele cuidasse de mim e me protegesse. Não precisou de muito tempo pra aquele verme asqueroso quebrar a promessa.

— Ela pode trabalhar no clube do Vito! — Gaspar continuou. — Muitos vão querer pagar um bom dinheiro por uma garota virgem.

A raiva me queimou, superando o medo. Minha mãe prometeu uma vida nova na Itália, e eu me tornei mercadoria. Não podia aceitar aquilo.

— Você, vá até o carro e chame o chefe! — O mafioso falou com outro capanga.

— Leve essa foto dela. — Foi Gaspar quem falou. 

Deve ter pegado o único porta-retratos com a última fotografia que tirei com minha mãe.

Tudo o que ouvi depois foi o som de passos, risadas e alguns cochichos em napolitano que eu não entendi muito bem. 

— Don Vito aceitou, mas quer que levem a ragazza virgem pra casa dele — disse o outro capanga.

Com a roupa rasgada e os pés descalços, eu deslizei para fora do quarto. 

— Traga a ragazza, Gaspar!

— Ela não está em casa, Gianni! — O meu padrasto mentiu. — Foi passar alguns dias na casa da avó doente.

"Que sacana!" Franzi o cenho. Nasci e morei na França por anos e nunca conheci minha avó.

— Amanhã, voltarei para buscar a garota... — desta vez, ouvi a voz do tal do Gianni. — Tenho certeza de que o Don Vito vai querer conferir o selo da ragazza. Torça para que ela realmente seja virgem, caspita! 

— Ela é! — Gaspar assegurou.

— Andiamo... — Gianni chamou os outros homens. 

Antes que o meu padrasto retornasse ao quarto, fui correndo para o banheiro, onde fechei o trinco.

— Apareça, ratinha! — O berro dele ecoou. — Vou te ensinar a fazer algumas coisas com a boca que o Don Vito vai gostar.

Sentada no chão do banheiro, chorava e usava a minha mão para sufocar meus soluços.  Tinha que dar um jeito de fugir dali. 

— Abra essa porta, ratinha! — A voz veio junto aos socos que ele dava na madeira.

____________________________

Don Vito Lucchese.

O gelo estalou no meu copo de whisky. 

Estava sentado, olhando para a cidade lá embaixo, uma colcha de retalhos de luzes que, para mim, era apenas território. 

Por uma fração de segundos, reparei na cicatriz em meu rosto e baixei o olhar para a tatuagem que cobria os meus antebraços, escondendo algumas marcas de queimaduras de cigarro.

— Chefe! — Gianni chamou do outro lado.

— Caspita, entre logo... — mandei sem me virar.

A porta abriu. Gianni não faz barulho quando entra, ele surge. Aquele cara era um dos meus melhores capangas.

— O velho Gaspar cedeu, chefe — Gianni deixou um envelope sobre a mesa de mogno. — A dívida será quitada com a ragazza virgem.

A ragazza virgem era um investimento. Não para o Clube, mas para mim. 

— Ela é bonita? — perguntei, dando uma golada no uísque em seguida.

— Veja, senhor! 

Devagar, virei no segundo em que Gianni veio, trazendo consigo um porta-retratos.

— Inclusive, o Ricardo e Miguel já viram ela... — comentou.

Dei um sorriso contido quando reconheci a ragazza que roubou remédio na farmácia dias atrás. Na foto, ela estava num campo de lavanda ao lado de uma mulher mais velha que tinha a mesma cor dos olhos dela.

— A mãe dela concorda? — Olhei de esguelha para Gianni.

— Parece que morreu há alguns dias. — A voz de Gianni é direta, sem floreios. — Como sempre, o Gaspar estava bêbado, com cheiro de esgoto. 

— Trouxe a ragazza? — perguntei.

Deixei o porta-retratos sobre a mesa e peguei meu copo e sorvi um gole do whisky.

— O Gaspar disse que ela estava na casa da avó doente — Gianni mencionou.

Continuei focado naquela fotografia sobre a minha mesa. Aquelas pupilas da ragazza virgem tinham um tom azul que parecia roubado do céu, contrastando com os cabelos escuros. 

Era o tipo de beleza que não se via diariamente pela cidade. Simples, sem as maquiagens pesadas das garotas da boate. Ela parecia ser pura.

— Nunca vi essa ragazza pela cidade — comentei, avaliando o ativo.

— É francesa.

— Quantos anos? — Encarei Gianni.

— Acabou de fazer 18.

Terminei o whisky e deixei o copo na mesa antes de dizer:

— Voltem à casa do Gaspar e tragam a ragazza virgem imediatamente. 

— Mas ela está com a nonna dela!

— Pegue o Gaspar e obrigue-o a mostrar o local.

— Sim, chefe!

— E garanta que todos os envolvidos entendam que a ragazza é minha e eu não permito que ninguém toque no que é meu. — O aviso não era para Gianni, mas para os outros descarados do meu bando. 

— Entendido, chefe.

Eu o dispensei com um aceno. Olhei para a foto, ansiando ser o primeiro a marcar aquela ragazza.

Capítulo 3

Juliette

Olhei para a janela e, apressadamente, corri antes que o Gaspar arrombasse aquela porta. Não me importava para onde eu iria, só queria encontrar um lugar onde o destino não fosse mais cruel do que o meu padrasto ou o Don Vito Lucchese.

Mesmo descalça e com a roupa rasgada, consegui pular a janela enquanto Gaspar tentava abrir a porta do banheiro.

Eu estava correndo. Não sabia por quanto tempo, mas a adrenalina me impulsionava. O ar gelado chicoteava minha pele, mas o frio não era tão grande quanto o medo de meu padrasto fazer o que queria e, depois, me entregar para o Don. 

Virei uma esquina, tropeçando na calçada irregular, e tentei desesperadamente me fundir à escuridão. A aldeia pobre, escura e familiar parecia um labirinto projetado para me aprisionar.

Foi então que a luz de um farol potente pairou sobre mim.

Quatro silhuetas saíram dele quase simultaneamente. Tornei a correr para o lado oposto quando reconheci os dois capangas de Don Vito; mas eles eram rápidos. 

Um deles me interceptou sem esforço. Seu aperto em meu braço causava dor em meu osso.

— Ferma, ragazza — ele disse, a voz baixa.

A violência de Gaspar vinha do álcool e do descontrole; a violência daqueles homens era profissional e sem emoção. 

— Adeus, ratinha! — Meu padrasto bêbado sorriu.

— Farabutto! — Revoltada, cuspi em Gaspar enquanto falava em italiano. — Va al diavolo!

Eles me forçaram a entrar no carro como fizeram na vez em que tentei roubar o remédio na farmácia. Eu caí no banco de couro, esmagada entre duas capangas que já conhecia. A diferença era que, desta vez, o Don Vito não estava ali pra evitar que me ferissem.

— Bienvenida, ragazza! — O mais baixo tocou em meu rosto.

— Miguel, vou queimar seus dedos se tocar nela outra vez… — disse o homem mais velho, que estava olhando pelo retrovisor.

— Ah, Gianni, deixa a gente brincar só um pouquinho com ela… — O mais alto falou, estendendo a mão pra me tocar.

Cruzei os braços, puxando o tecido pra cobrir a curva dos meus seios. Antes que o outro pudesse me tocar, o carro freou bruscamente. O tal Gianni virou para trás e desferiu dois socos no grandalhão.

— Calma, o Ricardo só estava brincando… — Miguel tentou interceder pelo comparsa.

Quando Gianni se acalmou, saiu do veículo e tirou Ricardo, jogando-o no meio da estrada. Voltou, jogando-se no banco atrás do volante.

— Não toque na ragazza! — Gianni cuspiu as palavras para o homem ao meu lado.

O carro acelerou. Eu vi a aldeia desaparecer. Fui levada de um cativeiro para outro que era infinitamente mais poderoso.

A viagem terminou em uma garagem subterrânea.

Eles me fizeram sair. Gianni segurou o meu braço e me conduziu até um elevador espelhado. Olhei meu reflexo com a roupa rasgada, os olhos injetados. 

Quando as portas do elevador abriram, o Gianni me guiou através de um corredor silencioso, cheio de janelas enormes com vista panorâmica para a cidade. 

Fui guiada através de um corredor silencioso até que ele abriu uma das portas, revelando uma sala imensa.

Meus olhos foram imediatamente para a janela, onde vi uma silhueta alta. A camisa de seda preta definia os ombros largos.

— A ragazza virgem está aqui, senhor — Gianni anunciou.

Vito não se virou imediatamente. Ele terminou de olhar para a cidade, como se estivesse fechando um contrato com o mundo, antes de lentamente mover a cabeça.

Embora tivesse uma cicatriz no rosto, ele era dono de uma beleza imponente. Baixei o olhar, reparando nas mangas arregaçadas que revelavam as tatuagens nos antebraços que não tinha visto da última vez.

Seus olhos cinzas, que pareciam absorver a pouca luz do ambiente, avaliaram o meu corpo, da blusa rasgada e suja até os meus pés descalços. Estava me inspecionando como se fosse uma mercadoria.

Os olhos dele, antes vazios, estreitaram-se levemente. Ele fez um aceno de cabeça, e Gianni se retirou, fechando a porta.

— Venha até aqui, piccina — Don Vito Lucchese ordenou.

— Não!

Ele se aproximou, aprumando-se em toda a sua altura.

— Você está na minha casa, ragazza. Sua vida agora é definida pelas minhas regras. E a primeira é a obediência.

— Regras? — Eu senti o calor da raiva se misturar ao medo. — Eu não assinei nada com o senhor. Fui negociada feito uma mercadoria por um bêbado. O senhor não tem direitos sobre mim.

— Seu padre me devia.

— Je ne suis pas à toi. … — Nervosa, gritei em francês.

Ele caminhou até mim. Eu me encolhi, preparando-me para o tapa, para o grito, para a fúria cega que eu conhecia tão bem. Meu corpo se tensionou.

— Tu m'appartiens. — Vito fez beicinho ao responder também em francês.

— O senhor é um monstro igual ao Gaspar! — Gritei no instante em que o meu trauma me deu uma coragem estúpida. 

— Sou bem pior do que você imagina! — Ao dizer, aproximou-se mais.

Ele estendeu a mão e, por instinto, eu fechei os olhos com força, esperando o impacto. Meu corpo inteiro se preparou para a dor familiar.

Mas o toque veio suave. Seus dedos envolveram meu queixo, levantando-o lentamente. A palma dele estava fria e áspera. Meu corpo tremeu incontrolavelmente sob seu toque.

— Abra os olhos, ragazza! — Ele falou num tom autoritário.

______________________

Don Vito Lucchese.

“O Dio mio!”

O pavor estava estampado em seu formoso rosto com um grande hematoma. Soltei o seu queixo ao ver um ferimento em seu ombro, e a perda repentina do contato a fez cambalear.

— Gianni! — Chamei o homem que aguardava lá fora.

— Sim, chefe — respondeu ao surgir.

— Quem machucou o rosto e o ombro dela? — Apontei para a ragazza.

— Ela já estava com esses hematomas quando a encontrei na rua.

— O seu pai fez isso ? — Voltei a interrogá-la.

— Gaspar é meu padrasto.

— Que seja — soquei a mesa, já perdendo a paciência. — Foi ele quem fez isso?

A garota não falava, mas as lágrimas que escorriam por seu rosto já me revelavam tudo o que eu precisava saber.

— Traga o Gaspar — mandei. — Quero ele vivo.

— Sim, chefe! — Acatando minha ordem, Gianni se foi.

Aquela sala gigantesca com uma exorbitante decoração não era tão interessante quanto a francesa baixinha que cruzava os braços, tentando esconder o sutiã preto.

— Não ouse me desafiar outra vez, garota! — Enquanto falava, eu seguia na direção da porta. — O jantar será servido aqui. Coma e durma!

Cruzei a porta, deixando ela sozinha. Fechei a mão com tanta força que prendi minha circulação. 

“E se essa garota não for virgem?” O pensamento me ocorreu: “Será que o Gaspar…” Silenciei este pensamento assim que olhei a francesa sobre o ombro. A garota estava machucada. Era muito bonita e não tinha ninguém pra proteger. “E se…” Não, não! Gaspar sabia que eu caçaria ele até o inferno e acabaria com ele se tivesse mentido pra mim.

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