Capítulo 2

Ava

Quando fecho os olhos, ainda posso sentir o perfume dela-doce e suave. Suas mãos deslizavam pelos meus cabelos, brincando com os meus cachos, como ela adorava fazer. Ela cantava e contava histórias que me distraíam da nossa dura realidade. Morávamos em uma mansão luxuosa, cercadas por empregados e seguranças, mas sabíamos muito bem quem realmente éramos. Na nossa família, existiam apenas dois sentimentos. Um era a lealdade-o mais perigoso, pois significava que lutariam por Logan até a morte. O outro era o medo. Todos temíamos o que aconteceria se ele chegasse em casa com raiva. Eu, especialmente, temia por minha mãe. 

Ela era quem mais sofria. Ainda me impressionava o quanto ela conseguia ser amorosa e doce, mesmo sendo tão maltratada por ele.

**Lembranças:**

- Logan, por favor, deixe ela em paz! - Ouço minha mãe implorar, sua voz trêmula. Estou escondida dentro do guarda-roupa, encolhida, tomada pelo medo. Ele penetra minha pele como gelo. Escuto os gritos e soluços dela. Mesmo sem entender o motivo de sua fúria, sei que, se eu me mexer, ele vai me encontrar e me machucar. Através das brechas, vejo tudo: minha mãe no chão, chorando, enquanto ele chuta sua barriga sem piedade. Ela já não aguenta mais, mas ele não se importa com seu sofrimento.

- Você deveria ter me dado um filho homem! - Ele grita, e sinto meu sangue gelar. Não era a primeira vez que ouvia isso. Cada palavra era como uma faca que me cortava por dentro, principalmente ao ver o que ele fazia com minha mãe. 

Com as mãos nos ouvidos, tento abafar as vozes, mas meus olhos permanecem fixos na figura dela, caindo ao chão, com sangue escorrendo da boca. Ele não parava de bater nela. Incapaz de me conter, saí de onde estava e corri até ele, que estava de costas para mim. Com os punhos fechados, bati em suas pernas.

- Pare de machucar minha mãe! - Gritei, enquanto o golpeava com todas as forças que tinha, embora fosse pequena e frágil.

Ele se virou para mim, com os olhos cheios de fúria, e agarrou meus cabelos, jogando-me contra a parede com brutalidade. A dor me fez chorar.

- Seu verme, tudo isso é por sua culpa! - Ele gritou.

- Não! - Minha mãe, usando as últimas forças, correu até mim e se colocou entre nós. - Faça o que quiser comigo, mas deixe ela em paz.

Não entendia por que ela sempre fazia isso, sempre se colocava no meu lugar para ser machucada no meu lugar.

**Ava abre os olhos, afastando as lembranças dolorosas.**

- Por isso eu te odeio tanto. - Murmurei, sentindo o ódio me sufocar. Olhei para a figura dele à distância, sorrindo como se não tivesse acabado de enterrar seu esposo. Ninguém podia me ouvir. O dia parecia escuro demais, e meus olhos doíam de tanto chorar. As poucas pessoas que vieram ao velório já se dispersavam. Os leais ao meu pai se espalharam para proteger o perímetro. Logan já estava de olho em outra mulher, que ingenuamente achava que seduzir meu pai lhe traria sorte. Mal sabia ela que estava prestes a cair nas mãos de um monstro.

- Vou te fazer pagar por tudo o que fez. - Sussurrei, com os punhos cerrados. - Você vai se arrepender do que fez com minha mãe.

Senti alguém se aproximando e me calei. Não demorou muito para que eu ouvisse a voz insuportável de Jason. Ele era uma cópia exata de Logan, não apenas na personalidade perversa, mas também na aparência. Claro, ele era mais um dos bastardos de meu pai. Só de pensar nisso, sentia náuseas. Jason parecia um urubu, esperando para me atacar, já que Logan planejava que eu me casasse com ele, mesmo sendo meu meio-irmão. Essa era minha punição por ser mulher-casar com um dos bastardos que sucederia meu pai no comando.

- Sinto muito pela sua perda. - Disse ele, com uma falsa simpatia.

Soltei o ar preso nos pulmões e dei um sorriso sarcástico.

- Poupe-me da sua falsidade, Jason. - Retruquei, encarando-o. - Sei bem que você não se importa com a situação ou com minha dor.

O desgraçado riu.

- Sua língua solta ainda vai te prejudicar, Ava.

- Querido Jason - Andei até ele, o homem de olhos azuis me observando com desejo, algo que ele não se preocupava em esconder. - Sei muito bem qual será o meu fim. Mas não ache que vou baixar a cabeça ou ter medo de você.

- Isso me excita, sabia?

- Você me enoja. - Respondi.

Enfrentá-lo não era a decisão mais inteligente. Jason ainda não tinha poder sobre mim, mas era os olhos e ouvidos de meu pai. Ele até era bonito, com olhos claros e penetrantes, ombros largos, tatuagens pelo corpo, e uma presença intimidadora. Mas, no fim, não passava de um pau mandado de Logan, focado em tomar o controle do Sul da cidade.

- Vou adorar cortar essa sua língua fora quando nos casarmos.

Já ouvi essa ameaça algumas vezes.

- Sabe, Jason - Encarei-o, ficando a centímetros do seu rosto. - Nunca vou me casar com você. - Vi uma veia pulsar em sua testa. - E você nunca vai sentar naquela cadeira.

- Está me fazendo perder a paciência.

- Me desculpe, não era minha intenção.

- Vou te ensinar a me respeitar. - Ameaçou. - Aproveite a liberdade enquanto a tem.

***

Entrar nessa casa sabendo que ela não estará mais aqui me causa uma angústia sem fim. Ela era a luz na escuridão. Agora estou sozinha. Me tranquei no quarto e chorei toda a minha dor. Ela sempre dizia que chorar na frente deles só os fazia se sentir mais poderosos. Homens como Logan e Jason não se importam com sentimentos; eles usam nossas fraquezas para nos destruir. E eu não darei isso a eles. Por isso, quando as lágrimas secaram, levantei-me e me preparei para o jantar. Eu tinha que ir, ou ele bateria na porta e me arrastaria até a mesa. Apesar de minha mãe ter sido submissa e doce, ela me criou para ser bem diferente dela.

Olhei-me no espelho e mal me reconheci. Passei um pouco de maquiagem para dar vida ao meu rosto. Vesti uma blusa branca de manga longa, um macacão que ia até os joelhos, e botas de cano longo. Deixei os cabelos soltos. Logan tirou tudo de mim, e isso me transformou. Agora usarei minha dureza e inteligência para destruí-lo. 

Quando estava pronta, saí do quarto. A casa era enorme, uma mansão afastada do centro da cidade, fortemente protegida. Havia um complexo não muito longe, que servia como QG do exército de Logan. Enquanto caminhava pelo corredor de mármore branco, com paredes da mesma tonalidade, decorado com vasos, quadros, mobílias, e um grande espelho, desci as escadas e ouvi as vozes de Logan e Jason.

Jason estava alterado, sua voz cheia de ódio.

- Eles querem o nosso território, você sabe que temos uma brecha. - Disse ele.

Meu pai, quase gritando, respondeu:

- Seu dever é proteger nosso império. Se Dante conseguir aliados desse lado da cidade, poderá ameaçar nossos negócios.

Então, eles têm uma fraqueza? Essa notícia me agrada, mesmo sabendo que será arriscado buscar uma aliança com o inimigo do meu pai.

Capítulo 3

Eu estava no meu bordel, afundado em um sofá de couro preto, com um cigarro entre os dedos e uma expressão que misturava cansaço, preocupação e fúria. O dia havia sido exaustivo, cheio de tensões ligadas ao controle do lado Norte da cidade, território que eu dominava com meu cartel. Como um dos líderes mais poderosos da região, minhas responsabilidades eram imensas, e lidar com os constantes ataques dos meus inimigos era apenas uma delas. Eles sempre estavam tentando me derrubar.

Desta vez, conseguiram me atingir em cheio. Roubaram metade da minha carga de drogas, causando um prejuízo de cinco milhões de reais. Para piorar, tive que desembolsar uma boa quantia para subornar os federais, apenas para descobrir que a carga recuperada estava pela metade.

Enquanto observava uma mulher bonita e atraente dançando no pole dance, o ambiente ao meu redor parecia perder importância. O bordel era grande, iluminado por luzes neon brilhantes que destacavam as dançarinas sensuais. Alguns clientes estavam espalhados pelo local, mas meus pensamentos estavam presos nos meus problemas.

Meu irmão, Elijah, estava ao meu lado, completamente imerso na atmosfera do lugar. Ele ria e conversava animadamente com uma das dançarinas, enquanto eu não conseguia afastar da mente os eventos do dia. O peso das responsabilidades e o cansaço acumulado me consumiam.

Dei uma tragada no cigarro, sentindo a fumaça invadir meus pulmões, e tomei um gole da minha bebida, tentando afastar a preocupação que me dominava. Mas era inútil. Minha cabeça estava cheia de estratégias para recuperar o prejuízo e proteger meu território. Observava o ambiente ao meu redor em busca de pistas ou possíveis traidores.

A música alta, as risadas e os sussurros ao fundo soavam como um zumbido distante. Eu estava imerso em meus próprios pensamentos, tentando encontrar uma solução para os problemas que me afligiam. Nem mesmo o brilho e a sensualidade do bordel conseguiam me distrair. A perda que sofri e o desafio à frente tornavam tudo ao redor indiferente.

Dei mais uma tragada no cigarro, sentindo a fumaça queimar na garganta, e suspirei profundamente. Lutava contra um turbilhão interno, em busca de clareza em meio ao caos. Mas a sombra da perda e a batalha iminente continuavam pairando sobre mim, aumentando a tensão no meu rosto.

- Você está com aquela cara de novo - ouvi meu irmão dizer. Olhei para ele, irritado por ter meus pensamentos interrompidos. - Pensando em Logan e na carga.

- Você deveria estar tão preocupado quanto eu - rebati. - Afinal, faz parte deste negócio, assim como eu.

- Irmão, eu fico com a parte mais divertida - ele riu, quase debochando.

O olhar que lancei a ele, depois de largar o copo com álcool, fez uma das garotas temer que eu fosse matar o idiota, de tanto ódio que fervia em minhas veias.

- Cuida dos negócios dos bordéis e boates, mas não foge do risco de perder a cabeça - eu o encarei, fixando meus olhos nos dele. - Saiba que se uma coisa cair, o resto desaba. Se me pegarem, pegam você também. Então, deixe de ser um idiota que só pensa com a cabeça de baixo e cuide dos negócios e dos homens que vigiam este lugar, porque Logan pode muito bem atravessar a cidade e te matar.

Dessa vez, ele captou a seriedade da situação, e o sorriso desapareceu de seu rosto, o que me deixou mais satisfeito.

Levantei-me do sofá com uma expressão determinada, decidido a me afastar do frenesi do bordel e buscar algum descanso nas salas particulares. Enquanto caminhava pelo corredor, passei pelas portas das salas onde as mulheres levavam os clientes para vender seus corpos sem pudor. Era um ambiente controverso, mas onde eu encontrava algum alívio em meio às minhas preocupações.

Tinha uma sala particular reservada para mim, onde planejava descansar um pouco antes de voltar para casa. Vivíamos isolados em um complexo, protegidos pelos meus homens, e aquele bordel era um refúgio onde eu podia relaxar e, se quisesse, desfrutar da companhia de uma mulher. No entanto, ultimamente, eu preferia a solidão.

Ao chegar à porta do meu espaço privado, estava prestes a fechá-la quando Olivia apareceu, com um sorriso malicioso no rosto. Eu não estava no clima, mas decidi deixá-la ficar. Fechei a porta, e ela se aproximou, mas eu a afastei, surpreendendo-a com minha atitude.

Olivia franziu o cenho, confusa. Ela estava acostumada com minha companhia e talvez esperasse um encontro íntimo naquela noite. Mas minha mente estava cheia de problemas, e a presença dela não era capaz de me distrair ou aliviar o peso em meus ombros.

- O que está acontecendo com você, ultimamente? - ela perguntou.

- Já ouviu falar em cansaço? - respondi com ironia, cerrando os olhos. - O que você quer?

Fui direto, não estava no clima para rodeios, e nunca me importei com os sentimentos alheios.

- O que eu quero? - Ela tentou se aproximar novamente, com aquele corpo sensual no qual eu já havia me perdido tantas vezes. Mas o que eu realmente desejava naquele momento era a cabeça de Logan. - Não está claro?

- Está, e vou adiantar que não estou no clima - respondi secamente, afastando-me.

- Poxa, Dante, você desaparece e, quando volta, está de mau humor. O que aconteceu?

- Quer realmente saber? - Virei-me, cerrando os olhos. - Estou de saco cheio. Quero matar alguém. Perdi milhões, acha pouco ou quer que eu continue?

Ela fechou a cara, irritada.

- Você sempre teve problemas, mas nunca deixou de lado a nossa diversão.

- Tem muitos clientes hoje, Olivia. Que tal fazer dinheiro? - respondi, dispensando-a.

- É assim que você vai me tratar?

- Desde quando fui educado com uma puta?

Ela pareceu ofendida, mas finalmente saiu. Quando fiquei sozinho, respirei fundo, passei a mão pela têmpora e tentei me acalmar. Logan não podia me descontrolar desse jeito. Seria dar vantagem a um babaca como ele.

- Vou acabar com você, Logan Ford, e não terei piedade quando colocar as mãos em você.

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