Capítulo 2

Apesar de ainda querer ficar na aldeia, aquele lugar não mais pertencia a sua morada. Queria viajar pelo mundo conhecer novos lugares, mares e pessoas. Esse era seu maior desejo desde que nasceu, e agora sem as honras de sua família ou alguém para obrigá-lo a casar com qualquer outra mulher, ele estava livre para viver sua vida mais livre que pudesse. E não foi sozinho. Junto dos amigos ele subiu naquele barco com seu nome e gritou para todos que estava indo, e que não havia chances de voltar... Mas ele voltaria, cedo ou tarde, justamente para os braços daquela mulher mesmo que não acreditasse.

Sua vida seguiu regada de riquezas e mulheres todas as noites em cidades diferentes ou seu barco e quando achava que estavam tranquilas, as palavras de Amice, se tornaram verídicas a cada abrir e fechar de seus olhos dentro do navio. Não houve mulher, não houve carinho porre, cerveja, outros piratas ou ouro que o pudesse fazer esquecer aquela deusa que o chamava para mais intenso prazer.

Ouvia seus gemidos quando estava sozinho. Sonhou com ela todas as noites em que esteve em alto mar. Via seu rosto em cada mulher que levou para a cama, e todas elas estava ali para dar tudo de si, e parecia que nenhuma era capaz de fazê-lo esquecer da cena de uma garota virgem de masturbando sob a luz da lua num quarto sujo e abandonado.

"- Me ame."

Não.

"- Eu estou tão excitada. Estou molhada".

Não.

"- Porque me rejeita? Eu sei que você me deseja"

Sim. Muito.

"- Então venha. Toque-me, meu Lorde. Eu sou toda sua. Não podes ver? Não acreditas?".

Sim. Eu acredito.

"- Então me torne sua. Até não lembrar-me que houve outro homem ao meu lado".

Farei isso. E apenas por isso, irei voltar.

Seus olhos abriram como brasa em meio ao fogo que nunca termina.

Seu peito subia e descia, o movimento do barco fazia seu corpo ir e vir em cima da cama escondida pelos lençóis azuis espalhados e amarrotados. Com uma leve respirada ele encarou a janela de seu quarto, o coração batia forte desejando pular para fora e cair no mar nadando por conta própria até a dona d'ele tê-lo, e nunca mais soltar.

Com o pensamento ele ergueu o corpo grande cambaleando para o lado. A noite passada foi tão vantajosa quanto às garotas que deitaram em sua cama. Elas nunca conseguiriam ir até o final de sua libido para acabar com toda sua vontade de foder uma linda bunda. Isso o irritava, o estressava tanto.

Abrindo a porta deu de cara com o mar. Se apoiou nas barras trazendo o aroma da água para suas narinas recuperando o fôlego que foi perdido novamente em um sonho que custou toda sua noite. Era ela novamente, fodendo sua mente, os pensamentos, acabando com as chances de encontrar prazer em outro lugar, com outra mulher. Ah, como se arrependia de não a ter trazido, mas ela não merecia aquele lugar, não pertencia, era linda demais, perfeita demais, os deuses o condenariam se a trouxesse para seu ninho de selvageria, a fodendo com tanta força que ela não levantaria de sua cama nem mesmo para tomar banho e deitar para começar novamente.

Essa era sua vontade, desde o momento em que levou prostitutas para seu quarto de baixo, onde desfrutou uma noite inteira de duas a três e nada conseguiu fazer a imagem daquela mulher se masturbando dissipar de sua mente perturbada.

Ouvindo passos calmos e quase silenciosos ele mexeu o pescoço para o lado assistindo seu amigo parar diante de si e fazer uma cara de nojo. Sua expressão não era das melhores, ele sabia, mas quem iria contra seu comando dentro daquele imenso e belo navio?

- Bebeu demais? Ou foram as mulheres? - Sua voz soou com brincadeira e logo colocou as mãos na cintura - Estou brincando. A cidade era produtiva e quente, o bordel era bom. Mas acho que não foi o suficiente para você.

- Eu sonhei com ela de novo - Disse em sussurro e seu amigo riu de canto se aproximando mais. - Maldita mulher.

- Maldita mulher. - Repetiu imitando seu comandante - Porque está voltando para Milianas? É por ela?

- Não sei ao certo. - Respirando fundo, tomando sua pose intimidadora diante do seu marinheiro, o lembrou: - Alexandre, Alexandre Brodonmor quer comprar as terras da minha família. Esse é um bom motivo para voltar depois de treze anos para Milianas.

- Eu não me admiro tanto. Não sei como demorou tudo isso para alguém se interessar e fazer de tudo para lhe trazer de volta - Confidenciou o homem de cabelos dourados e um olhar gélido. - Tem mais alguma coisa que não estou sabendo?

- Como irei saber? Foi você quem recebeu a carta. Ele dizia que queria ter um encontro comigo, as terras dos meus pais lhe interessavam, e ele estava disposto a pagar o quanto eu pedisse por elas.

- E tu vai mesmo vender as terras da tua família? - Jasper riu de canto voltando ao seu quarto. A calça folgada lhe caia bem, prendendo na cintura e deixando seu troco libidinoso desnudo e desejoso. Suado e molhado, ele desfilou pelo quarto estreito, mas espaçoso o suficiente para o capitão daquele navio.

- Claro que não. - Com uma dose de uísque pela manhã, ele gemeu jogando para dentro o líquido quente e balançou a cabeça fazendo uma careta deixando novamente a jarra perto da cama. - Eu deixei as terras da minha família para as pessoas que não tinham onde morar. O cultivo das terras que atravessam o Norte chega a dar mais lucro que um dos meus quadros - Os dois olharam para a parede. - Eu não piso em Milianas há muito tempo, mas todo o dinheiro que é tirado do gado e das plantações vai para as famílias necessitadas, nunca precisei do dinheiro, mas elas precisam.

- Talvez o novo dono ajude as famílias também. - Jasper encarou o outro com certo receio. Nunca tinha ouvido falar deste nome quando morou em Milianas, então se era novo na aldeia, provavelmente não sabia do que as pessoas precisavam. Então não, ninguém ia ajudar aquelas pessoas de verdade.

- Não venderei minha herança. Minhas terras são a única lembrança que eu tenho da minha família, meus pais, meus antepassados trabalharam dia e noite para ter tudo aquilo, metade de Milianas pertence aos Dickson, a mim, e eu não sei serei tolo para vender o que é meu. O que é meu é meu.

- Então admita que esta voltando por causa da sua deusa pervertida.

Ele riu de canto.

Capítulo 3

- Então admita que esta voltando por causa da deusa pervertida - Jasper riu de canto passando a mão pelo cabelo. - Quem garante que depois de treze anos ela ainda te espera? Era uma bela mulher, uma mulher jovem, virgem... - Jasper parou o riso. Voltou para ver o mar do lado de fora, era seu lugar preferido.

- Ela não é mais virgem. Com todo aquele fogo. - Riu com escárnio - Talvez tenha me esquecido. Suas promessas eram fortes, seus dedos, suas investidas, tudo nela era intenso, mas eu nunca quis me envolver, a achava tão nova para mim, tão limpa para um homem corrompido como eu. Mas ainda assim, ela desejava me ter, que eu a tocasse, que eu a penetrasse com toda força.

Riu de canto. Aquela mulher nunca o deixou de todo jeito. Sempre esteve presente em seus pensamentos e sonhos, tudo.

- Talvez eu esteja voltando para ela, prometi encontrá-la, e a farei minha de qualquer forma, a tomarei em meus braços e a arrastarei para minha cama, para meu barco, a levarei para o alto mar a amarei com todo meu coração. Eu prometi que voltaria, demorou, mas eu voltei, e se ela me espera, ela prometeu que me esperaria, estou voltando para ter o que é meu.

- Ela ainda deverá acreditar em tuas palavras depois de treze anos? - Eliott voltou a repetir agora chamando atenção de seu capitão. - E se já houver se casado? Tido filhos? Morrido.

- Ela não morreu. Se tiver casado não vou me importar, ela escolheu sua própria vida, quem seria eu para dizer algo? Mas daria tudo para vê-la ao menos outra vez, lembro-me de seu rosto meigo e safado. Quero a ver tão crescida e mulher, de verdade. - Riu de canto. - Me excita apenas em pensar nisso.

- Tudo certo. - Eliott assentiu - Estaremos em Milianas depois da meia noite. Aguente firme - Avisou e saiu deixando o capitão sozinho. Jasper olhou ao redor, encarou um quadro pintado por suas mãos, depois outro, riu de lado.

- Estou voltando deusa da minha alma. Espero que ainda esteja de pernas abertas, vou me afundar tão forte em você que nunca mais vai esquecer de que eu estive dentro.

_-_

Nas margens de um rio iluminado pela luz da lua a gente pode pensar e pensar no quanto a nossa vida vale. Se tu tens crenças nos deuses passados, deve ter certeza de onde a tua alma irá pousar, qual deus irá lhe levar para os mais profundos segredos da vida após a morte.

Teus feitos são seus advogados perante a casa do julgamento e somente eles poderão ordenar e dizer a qual caminho deve seguir. Se forem ruins, terás vida dentro de uma brasa de fogo queimando e chorando, se fez coisas boas, terás o mesmo destino porque o deus a quem segue não é tão divino tão pouco aquele que acredita nas bondades e atitudes boas sendo que teu coração está carregado de egoísmo e maldade. As atitudes não valem nada se seu peito carrega um coração que bate em maldição.

O purgatório é o êxtase de qualquer ser iluminado, ou das trevas mais obscuras.

Ao longo do mar escuro onde era possível ver somente o brilho da lua refletido, ele conseguia enxergar o mundo em cada onda, o caminho que trilharia a cada subir e levantar. Era um pirata com desejos proibidos, carregava no peito largo um coração cheio de promessas e uma mulher vedada pelos deuses a sua capacidade de agir. Como um anjo cheio de graça e luz, ela veio para a terra foder à cabeça de um homem que nunca quis ser corrompido. Seria essa a maldição da sua família? Sempre se envolver com mulheres belas e morrer por elas? Ele decidiu não o fazer, mas o matou por dentro.

Naquela época ele a rejeitou, mas amava vê-la enfiar os dedos naquela carne virgem e molhada, era intensamente gostosa ao seu ponto de vista, carregava em seu corpo o mel a qual ele queria tomar, mas também trazia desgraça para seu ser, pois ele não defloraria uma deusa, não importava a quão safada era.

O tempo passou, sim, e ele ainda a deseja, sempre a desejou, a deixou para que pudesse encontrar outro homem a quem pudesse pensar duas vezes antes de chamar para o escuro. Suas ações não eram discutidas e ele não queria ser contrariado. Trazê-la para seu barco não o faria feliz, nem mesmo Amice; navegar ao redor de homens e somente água, no meio de uma guerra por barcos, dinheiro, mais mulheres, cerveja e ilha? Oh não, não era vida para uma deusa, e ele jamais a deixaria em meio ao tiroteio para que não houvesse possibilidades de morte a sua deusa da noite.

A noite estava se intensificando naquele mar aberto, as luzes de seu navio estavam se apagando a cada raio de luz da lua. Era magnífica a paisagem que os deuses lhe enviavam. Apesar de anos, foi apenas ver o primeiro vislumbre de luz de Milianas que a saudade o abateu. Ele cresceu naquela aldeia pequena, repleto de pessoas felizes mesmo tão humildes. Ainda era um Lorde, o Lorde de seu clã, mas o título lhe trouxe desgraça e mil mulheres para casar. Nunca houve alguma que pudesse escolher para ter uma família, não até conhecer a deusa órfã que fodeu seus pensamentos, mas assim como o desejo de uma família sua veio ela se foi para longe ao lembrar-se do destino dos Dickson. Ele nunca soube como, ou o porquê, mas o castigo cai para todos, e seus antepassados não eram pessoas boas.

A cada minuto que passava chegando mais perto de Milianas, Jasper sentia o coração bater contra o peito, o frio percorrer cada pedaço do corpo, era tão gélido e intenso, mais intenso que o chuvisco fraco que caia sobre o barco. Olhando de cima, ele encarou a cidade que crescia a cada piscar de olhos, e como Eliott disse, a meia noite eles estavam diante da cidade que hoje possui casas maiores, o porto estava aberto, poucas pessoas. Jasper deu um riso pequeno ao ver além do porto, a casa mais esperada a visitada daquela cidade, o bordel.

Ele fora escolhido à beira da água por causa dos marinheiros, quem visitava a cidade passava ali primeiro, e quem não se aprofundava nos conceitos da aldeia, penetravam em uma boa prostituta que sabia todos os costumes, conceitos, regras e posições que levariam um homem a ficar naquela maldita cidade. O medo se alastrou pelo corpo do capitão. Será mesmo que ela estaria casada e com filhos? Teria morrido? Ainda o esperava?

Treze anos se passou desde aquela promessa onde alimentou as esperanças dela, e ela as dele, pois se fora capaz de o amor, um ser tão puro e virgem foi capaz de amá-lo, é porque ele não era tão ruim, poderia ter salvação quem sabe..., mas... Será?

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