O sol da tarde banhava a propriedade com uma luz dourada, realçando o verde vibrante dos vinhedos e o marrom suave dos caminhos de terra. Ha-Jun conduziu os cavalos para fora do estábulo, suas crinas brilhando sob o céu claro. Ji-Hye observava, admirando a forma como ele se movia com confiança e facilidade.
— Vou ajudá-la a montar — disse Ha-Jun, estendendo a mão para Ji-Hye.
Ela aceitou a ajuda, sentindo a firmeza do aperto de Ha-Jun enquanto subia no cavalo. Uma vez acomodada, ela puxou as rédeas suavemente, e eles partiram para o passeio.
— Fizemos algumas mudanças nas técnicas de plantio este ano — começou Ha-Jun, apontando para as fileiras de videiras. — Estamos experimentando com novos padrões de poda para melhorar a qualidade das uvas.
— Parece promissor — respondeu Ji-Hye, impressionada com o conhecimento dele.
Eles continuaram a conversar, Ha-Jun compartilhando detalhes sobre os funcionários e as inovações na vinícola, enquanto Ji-Hye ouvia, aprendendo mais sobre a vida que pulsava naquelas terras.
— E você, Ji-Hye-ssi? Como é a vida de uma sommelier renomada? — perguntou Ha-Jun, lançando-lhe um olhar curioso.
— É uma vida de constante aprendizado e paixão pelo vinho — ela disse, sorrindo. — Mas também é bom estar de volta, sentir a terra sob meus pés novamente.
O passeio continuou, com os cavalos trotando lado a lado, e Ji-Hye sentiu uma paz que há muito não experimentava.
A casa dos pais de Ha-Jun emergia como um relicário de tempos mais simples, aninhada entre as montanhas que guardavam a vinícola. Era uma construção típica da Borgonha, com paredes de pedra rústica e telhado de telhas vermelhas que pareciam ter absorvido o calor do sol ao longo dos anos. O jardim era um mosaico de flores silvestres e ervas aromáticas, e uma pequena horta se estendia ao lado da casa, onde vegetais e verduras cresciam sob o cuidado atento de mãos experientes.
— Meus pais sempre viveram aqui — disse Ha-Jun, com um brilho de orgulho nos olhos. — Eles trabalham duro nos vinhedos, e graças ao seu pai, eu pude estudar e me tornar quem sou hoje.
Ji-Hye sentiu uma onda de respeito e admiração pelo jovem enólogo. Ele falava de sua família com tanto carinho e gratidão que era impossível não ser tocada por sua maturidade.
— É uma bela casa, Ha-Jun. Você tem muita sorte — comentou Ji-Hye, seu olhar percorrendo a paisagem que parecia saída de um cartão-postal.
— Sim, eu sou grato todos os dias — respondeu ele, com um sorriso sincero. — E espero que um dia eu possa contribuir tanto para esta terra quanto ela me deu.
Enquanto os cavalos pastavam tranquilamente, Ji-Hye refletia sobre as voltas que a vida dava. Ali, diante daquela casa simples e cheia de amor, ali sim era um lar, no passado ela sonhava em viver assim só que a vida tinha outros planos para ela.
A luz do entardecer dava um tom âmbar ao vinho que Ha-Jun servia com orgulho. Ji-Hye observava, fascinada, enquanto o líquido rubi preenchia a taça, liberando aromas de frutas maduras e terra molhada.
— Este é um dos nossos melhores vinhos da próxima estação — disse Ha-Jun, entregando-lhe a taça com um gesto elegante. — Espero que goste.
Ji-Hye levou a taça aos lábios, e o sabor era uma revelação. Era um vinho equilibrado, com notas de cereja e um toque sutil de carvalho, que dançavam na língua antes de se despedirem com um final longo e agradável.
— É incrível — murmurou ela, ainda saboreando a última gota. — Como vocês conseguiram essa qualidade?
Ha-Jun sorriu, claramente satisfeito com a reação dela.
— É o resultado de muita dedicação e inovação. Selecionamos cuidadosamente as uvas, ajustamos os tempos de fermentação e experimentamos com diferentes barris de envelhecimento. Tudo para garantir que cada garrafa conte a história de nossa terra.
Ji-Hye assentiu, impressionada. O vinho não era apenas uma bebida; era a expressão líquida da paixão e do conhecimento de Ha-Jun, uma homenagem à tradição e à inovação que definiam a vinícola de sua família.
A presença do pai trouxe uma nova onda de realidade para Ji-Hye, que até então se deixava levar pela tranquilidade dos vinhedos e pela companhia de Ha-Jun. A menção de Londres, uma cidade que agora carregava as sombras de seu passado, fez seu coração acelerar.
— Ji-Hye, no próximo mês, Ha-Jun irá a Londres para finalizar um contrato importante — disse o pai, com um tom de voz que indicava que não era apenas uma sugestão. — Seria bom se você o acompanhasse, já que conhece bem a cidade.
Ji-Hye sentiu um nó se formar em sua garganta. Londres era o palco de suas conquistas profissionais, mas também das memórias de um casamento desfeito e fracassado.
— Eu... eu não sei, Appa — gaguejou ela, tentando esconder sua hesitação. — Não fazia parte dos meus planos retornar tão cedo.
O pai a olhou com compreensão, mas havia uma firmeza em seu olhar que dizia que ele não aceitaria um não como resposta.
— Ji-Hye, você precisa cuidar do seu marido. E Ha-Jun se beneficiará muito da sua experiência.
Ha-Jun observava a troca silenciosa entre pai e filha, percebendo a tensão que crescia.
— Ji-Hye-ssi, eu realmente apreciaria sua ajuda — interveio ele, com gentileza. — Mas só se você se sentir confortável com isso.
Ji-Hye sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que enfrentar a situação m. Talvez essa fosse a chance de fechar um capítulo e começar outro, com novas esperanças e, quem sabe, novas alianças.
— Nesse meio tempo estudem o contrato, para mim está tudo em ordem, quero sua opinião Ji-Hye — Disse o senhor Kim já encerrando o assunto.
A atmosfera ao redor de Ji-Hye tornou-se densa com o peso de pensamentos não ditos. Ha-Jun, percebendo a mudança sutil em sua postura, escolheu não abordar o desconforto evidente, oferecendo-lhe um silêncio solidário. Ji-Hye, por sua vez, mergulhou em um mar de silêncio pelo resto da conversa, cada palavra não dita formando uma barreira entre ela e a possibilidade de retornar a Londres.
Ela carregava consigo segredos que sua família desconhecia, e a ideia de confrontar Marcel, seu ex-marido, drenava dela qualquer vestígio de força. Em sua mente, a simples menção de Londres evocava uma tempestade de emoções, cada uma batendo contra ela com a força de ondas em fúria. Era um confronto que ela não se sentia pronta para enfrentar, uma batalha interna que a deixava paralisada pela incerteza e pelo medo.
Ji-Hye deixou-se perder nos caminhos sinuosos da propriedade, ela precisava por a cabeça no lugar, a cada passo um eco de risadas e corridas de uma infância despreocupada. Os campos de uva se estendiam como um mar verdejante, onde ela outrora brincava de esconde-esconde entre os barris de carvalho, seu riso se misturando com o sussurro das folhas.
A Borgonha, com suas colinas suaves e céu que parecia pintado em tons de azul e laranja ao entardecer, era um quadro vivo da beleza rústica. As cachoeiras, escondidas como joias entre as dobras das montanhas, eram o refúgio secreto de Ji-Hye durante sua adolescência rebelde, apesar dos olhares reprovadores de sua mãe.
Era ali, naquela terra de vinhedos famosos e tradições ancestrais, que Ji-Hye encontrava conforto nas memórias de um tempo mais simples, um tempo de alegria pura e descobertas. A Borgonha não era apenas o lugar onde ela cresceu; era uma parte indelével de quem ela era, tecida em sua alma como as vinhas nas colinas.
A preocupação marcava o rosto de Ji-Hye enquanto ela observava o pai, o Sr. Kim, queixar-se de um mal-estar súbito. A robustez que sempre caracterizara o patriarca da família parecia ter cedido lugar a uma fragilidade inesperada, e isso enchia o coração de Ji-Hye de temor.
— Appa, você está bem? — perguntou ela, sua voz trêmula traía a ansiedade que sentia.
O Sr. Kim tentou sorrir, um gesto para tranquilizá-la, mas a palidez de seu rosto só intensificava a preocupação de Ji-Hye.
— Estou bem, minha filha. Só preciso descansar um pouco — respondeu ele, tentando minimizar a situação.
Quando o médico chegou, após um exame cuidadoso, confirmou a necessidade de repouso.
— Sr. Kim, você precisa de descanso e deve evitar qualquer esforço por um tempo — aconselhou o médico, com uma seriedade que fez Ji-Hye engolir em seco.
— Eu entendo, doutor. Vou cuidar dele — disse Ji-Hye, segurando a mão do pai com firmeza, como se pudesse transferir para ele parte de sua própria força.
Enquanto o médico partia, Ji-Hye sentia uma mistura de alívio e inquietação. O alívio por não ser nada grave, mas a inquietação pelo que isso significava para a viagem a Londres. Ela sabia que a saúde do pai vinha em primeiro lugar, mas também sabia que as responsabilidades não esperam. Em seu peito, o conflito de emoções formava um nó apertado, e Ji-Hye se perguntava como equilibrar o cuidado com o pai e as exigências da vida que continuava a girar fora das paredes daquela casa.
A noite havia se instalado suavemente sobre a vinícola quando o Sr. Kim convocou Ha-Jun para uma conversa urgente. Ji-Hye, observando de longe, sentiu uma pontada de curiosidade e preocupação. Ela foi chamada logo em seguida, e seu pai, com uma expressão séria, compartilhou as notícias.
— Ha-Jun, Ji-Hye, tenho uma tarefa importante para vocês — começou o Sr. Kim, sua voz carregada de uma mistura de autoridade e pesar. — Como sabem, eu deveria ir à Itália para a feira do vinho, mas o médico insistiu que eu fique e descanse.
Ji-Hye sentiu o coração apertar ao ver o pai naquele estado, mas sabia que a responsabilidade da vinícola agora recaía sobre seus ombros.
— Appa, não se preocupe. Nós cuidaremos de tudo — disse ela, tentando transmitir confiança.
— Ha-Jun , você conhece nossos vinhos tão bem quanto eu. E Ji-Hye, sua experiência será crucial lá — continuou o Sr. Kim, olhando alternadamente para os dois. — Vocês dois representarão a vinícola e apresentarão nossos novos produtos. É uma grande responsabilidade.
Ha-Jun acenou com a cabeça, aceitando o encargo com um respeito reverente.
— Faremos o nosso melhor, Sr. Kim — afirmou ele.
Ji-Hye, embora ainda abalada pela saúde do pai e pela perspectiva de estar tão perto de Londres, sabia que aquela viagem era uma oportunidade de honrar o legado da família e talvez, encontrar um novo caminho para si mesma.
Ji-Hye acompanhou Ha-Jun até a saída. A brisa noturna acariciava suavemente a varanda onde Ji-Hye e Ha-Jun se encontravam, o céu estrelado acima deles servindo como um manto de tranquilidade. Ji-Hye, com uma expressão de incerteza, voltou-se para Ha-Jun, buscando em seus olhos algum sinal de orientação.
— Ha-Jun-ssi, eu... estive fora por tanto tempo. Sinto que perdi o contato com os detalhes da vinícola — confessou ela, entrelaçando os dedos com nervosismo. — Você poderia me ajudar a entender melhor a situação atual? Não sabia nem mesmo dessa feira de vinhos.
Ha-Jun, percebendo a hesitação dela, aproximou-se e apoiou-se no corrimão da varanda, oferecendo um sorriso encorajador.
— Claro, Ji-Hye-ssi. Não se preocupe, eu estou aqui para ajudar — disse ele, com uma voz calma e firme. — Vamos começar pelo básico e avançar a partir daí. A feira é uma excelente oportunidade para expandirmos nossa presença no mercado internacional.
Ji-Hye assentiu, sentindo uma onda de gratidão pela disposição de Ha-Jun em auxiliá-la. Ela se aproximou, olhando para os vinhedos que se perdiam na escuridão, e então para Ha-Jun, pronta para aprender tudo o que fosse necessário para honrar o legado de sua família.
O jardim da propriedade era um refúgio de serenidade, onde as flores noturnas começavam a exalar seu perfume suave, misturando-se ao aroma das ervas aromáticas plantadas ali. Ji-Hye e Ha-Jun caminhavam lado a lado, os cascalhos sob seus pés sussurrando a cada passo que davam. As sombras das árvores dançavam ao sabor da brisa, e o céu acima deles estava salpicado de estrelas, cada uma brilhando como um farol de esperança.
— Ha-Jun-ssi, meu pai... ele já havia se sentido mal antes? — perguntou Ji-Hye, sua voz baixa carregada de preocupação.
Ha-Jun parou por um momento, olhando para o céu antes de responder.
— Sim, o Sr. Kim tem enfrentado alguns problemas de saúde ultimamente. Por isso, ele me confiou mais responsabilidades na vinícola — disse ele, com um tom de respeito. — Mas não se preocupe, Ji-Hye-ssi, ele é forte. Ele vai se recuperar.
Ji-Hye sentiu uma pontada de culpa, lamentando o tempo que passou longe de casa, longe do pai que agora precisava dela.
— Eu deveria ter estado aqui — murmurou ela, mais para si mesma do que para Ha-Jun, enquanto acariciava as pétalas de uma rosa que desabrochava, sua cor pálida um reflexo de seus próprios sentimentos.
Ha-Jun se aproximou, colocando uma mão reconfortante sobre o ombro dela.
— Você está aqui agora, Ji-Hye-ssi. E isso é o que importa — disse ele, oferecendo um sorriso gentil que buscava aliviar o peso que ela carregava no coração.
O calor suave da lareira envolvia Ji-Hye enquanto ela se aconchegava com sua xícara de chá de laranja, o aroma cítrico misturando-se ao cheiro reconfortante da madeira queimando. Sua mãe se juntou a ela, trazendo consigo uma quietude que preenchia o espaço entre elas.
— Omma, por que vocês não me contaram sobre a saúde do Appa? — Ji-Hye finalmente perguntou, a preocupação clara em sua voz.
A mãe suspirou, um som carregado de amor e proteção.
— Nós não queríamos que você se preocupasse, Ji-Hye-ya. Você já tinha suas próprias coisas para lidar — respondeu ela, com uma voz suave, mas firme.
Ji-Hye sentiu uma mistura de alívio e frustração. Ela estava grata pela intenção de sua mãe de protegê-la, mas também se sentia culpada por não estar presente quando talvez fosse mais necessária.
— Eu entendo, Omma, mas eu queria ter estado aqui. Queria ter ajudado — disse Ji-Hye, olhando para as chamas que dançavam à sua frente, refletindo sobre o tempo perdido e as responsabilidades que agora recaíam sobre seus ombros.
Ji-Hye estava diante de sua mala aberta, o quarto iluminado pela luz suave da tarde que se infiltrava pelas cortinas. Peças de roupa estavam espalhadas pela cama, cada uma escolhida com cuidado para a viagem à Itália. Ela dobrava cada item meticulosamente, pensando nas reuniões e nos eventos que a aguardavam.
Ela selecionou vestidos elegantes para os dias de feira, blusas confortáveis para as longas caminhadas pelos vinhedos, e não esqueceu um casaco mais pesado para as noites frescas da Toscana. Ao lado da mala, um par de sapatos confortáveis para o dia e outro de salto para as ocasiões formais já estavam alinhados.
Enquanto organizava sua mala, Ji-Hye refletia sobre as responsabilidades que a viagem implicava. Ela sentia uma mistura de excitação e nervosismo, consciente da importância de representar bem a vinícola da família. Com cada peça de roupa que colocava na mala, ela também empacotava um pouco da esperança e determinação que carregava consigo.
Na sala de estar da casa, onde as memórias da família Kim se entrelaçavam com cada móvel, o Sr. Kim convocou Ji-Hye e Ha-Jun para uma reunião pré-viagem. Ji-Hye sentou-se, absorvendo cada palavra do pai, enquanto Ha-Jun acenava em concordância, já familiarizado com os detalhes.
— Ji-Hye, esta feira é crucial para nós — começou o Sr. Kim, passando-lhe uma pasta repleta de documentos. — Aqui estão todas as informações que você precisa saber. Ha-Jun irá ajudá-la com qualquer dúvida.
Ji-Hye folheou os papéis, sentindo o peso da responsabilidade crescer.
— Eu vou me familiarizar com tudo, Appa — disse ela, determinada.
O Sr. Kim então voltou-se para Ha-Jun, com um olhar de confiança e um pedido paternal.
— Ha-Jun, confio em você para cuidar de Ji-Hye como se fosse sua própria irmã. Vocês dois são o futuro desta vinícola.
Ha-Jun assentiu, um gesto solene de aceitação.
— Pode contar comigo, Sr. Kim. Ji-Hye-ssi estará segura comigo — prometeu ele, olhando brevemente para Ji-Hye, que lhe ofereceu um sorriso agradecido.
Enquanto a reunião se encerrava, Ji-Hye sentia uma mistura de apreensão e gratidão. Ela estava prestes a embarcar em uma jornada que definiria não apenas o futuro da vinícola, mas também o seu próprio.