O mundo era um borrão de neon e ruído. Não me lembro como cheguei do bar da cobertura à rua abaixo. Minhas pernas simplesmente se moveram, me levando para longe do som de suas risadas.
Uma mão agarrou meu braço, com força. Eu me encolhi, virando-me para ver Caio. Seu sorriso encantador havia desaparecido, substituído por uma máscara tensa e irritada.
"Onde você vai?", ele exigiu.
Atrás dele, Bruna e seus amigos saíam do elevador, seus rostos uma mistura de diversão e desprezo.
"Caio, não perca seu tempo", um deles arrastou as palavras, passando o braço pelo ombro de Bruna. "Vamos. Você ainda tem que dar a ela o presente de boas-vindas 'de verdade'."
Bruna sorriu com malícia. "Sim, Caio. Você prometeu. Uma proposta que ela nunca esquecerá."
O grupo explodiu em gargalhadas. Meu estômago se revirou.
"Do que vocês estão falando?", perguntei, minha voz mal um sussurro.
Caio me ignorou. Ele apertou seu aperto em meu braço, seus dedos cravando em minha pele. "Entre no carro."
Não era um pedido. Era uma ordem. Eu estava fraca demais, atordoada demais para lutar. Ele me empurrou para o banco de trás de seu carro, e seus amigos se amontoaram em outro. As luzes da cidade passavam velozmente. Eu sentia como se estivesse assistindo à minha vida de fora do meu próprio corpo.
Paramos em frente à Prefeitura. Uma multidão de repórteres já estava lá, os flashes das câmeras como um enxame de vaga-lumes raivosos. Eles haviam sido avisados. Esta era outra parte do show.
"O que é isso?", sussurrei, encolhendo-me no assento.
"Nosso futuro, querida", disse Caio, sua voz pingando sarcasmo. Ele me arrastou para fora do carro e para o centro do circo da mídia.
"Caio! É verdade que você vai pedir Alana Viana em casamento esta noite?", gritou um repórter.
Caio sorriu para as câmeras, puxando-me para mais perto. "Ela sacrificou tudo por mim. É o mínimo que posso fazer."
Seu amigo, aquele que estava com Bruna, deu um passo à frente, segurando uma pequena caixa de veludo. Mas ele não a entregou a Caio. Em vez disso, ele assobiou.
Um homem trouxe um cachorro vira-lata de aparência desgrenhada. Tinha um anel de plástico barato amarrado em sua coleira com uma fita suja.
A multidão ofegou, depois explodiu em gargalhadas. A humilhação, quente e sufocante, me envolveu. Eles não estavam me pedindo em casamento. Estavam propondo que eu me casasse com um cachorro.
"Vá em frente, Alana", Bruna cantarolou, seus olhos dançando com um prazer perverso. "Ele é todo seu. Uma combinação perfeita para uma vadia presidiária como você."
O mundo começou a girar. As luzes piscando, os rostos zombeteiros, o cachorro latindo — era demais. Minhas pernas cederam e eu desabei no chão.
O concreto frio e duro contra minha bochecha foi um choque de realidade brutal. A dor na minha cabeça explodiu, uma luz branca e ofuscante atrás dos meus olhos. Lembrei-me das surras na prisão, da solidão, do medo. Mas nada disso, nada disso, se comparava a isto.
"Por favor", implorei, olhando para Caio, minha visão turva de lágrimas. "Por favor, pare."
Bruna zombou. "Parar? Mas a diversão está apenas começando. Levante-se. As câmeras estão esperando."
Caio olhou para mim, sua expressão tão fria e implacável quanto um bloco de gelo. "Não seja estraga-prazeres, Alana."
Dois de seus amigos agarraram meus braços, me levantando. Eu lutei, uma tentativa patética e fraca de resistência.
"Me soltem!"
"Não até você dizer sim para o vira-lata", um deles grunhiu, seu aperto como ferro.
Tentei me libertar, correr, escapar deste pesadelo acordado. Meu pé escorregou e eu caí de novo, desta vez batendo a cabeça no meio-fio. Uma onda de náusea e tontura me envolveu.
De repente, Caio estava lá, agachado na minha frente. Ele agarrou meu queixo, forçando-me a olhá-lo. Seus olhos, antes tão cheios do que eu pensava ser amor, agora estavam cheios de um vazio arrepiante.
"Sabe", disse ele, sua voz um murmúrio baixo e perigoso que só eu podia ouvir. "Eu quase senti pena de você por um segundo."
Ele fez uma pausa, um sorriso cruel brincando em seus lábios. "Quase. Agora, você vai se comportar, ou teremos que tornar isso ainda mais desagradável?"
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e silenciosas. Eu não conseguia falar, não conseguia me mover.
Caio suspirou, um som exagerado e teatral para os repórteres. Ele me pegou nos braços como se eu fosse uma amante querida e desmaiada. "Ela está apenas sobrecarregada", anunciou ele à multidão. "Foi um dia longo."
As câmeras piscaram furiosamente enquanto ele me levava de volta para o carro. A viagem foi silenciosa. Eu olhava pela janela, vendo a cidade se transformar em um borrão, minha mente uma concha vazia.
Ele não me levou de volta ao meu antigo apartamento. Em vez disso, dirigimos para uma mansão moderna e sprawling, empoleirada em um penhasco com vista para o oceano. Sua nova casa. Minha nova prisão.
Ele me carregou para dentro e me colocou na sala de estar grandiosa e estéril.
"Eu quero ir para casa", eu disse, minha voz sem emoção.
"Esta é a sua casa agora", ele respondeu, afrouxando a gravata. "O lugar antigo foi vendido. Não se preocupe, suas coisas estão aqui."
"Meu pai", engasguei. "Como ele está?"
A expressão de Caio suavizou por uma fração de segundo. "Ele está estável. Os melhores médicos estão cuidando dele. Estou cuidando de tudo."
Outra mentira. Mas eu estava exausta demais para confrontá-lo.
"Eu sei que isso é muito, Alana", disse ele, ajoelhando-se na minha frente, pegando minhas mãos. Seu toque parecia uma marca de ferro. "Eu fui um canalha lá atrás. Foi um show. Para a mídia, para os investidores. Para finalmente matar aquele velho boato com o qual a Bruna era tão obcecada. Agora que acabou, podemos ser nós mesmos de novo."
Ele me prometeu um futuro, uma vida tranquila, uma compensação pelo meu sofrimento. Era o mesmo roteiro, as mesmas palavras vazias. Meu coração parecia uma coisa murcha e morta no meu peito. O que ele poderia me devolver? Minha reputação? A empresa do meu pai? Minha vida?
"Como você vai me compensar, Caio?", perguntei, minha voz desprovida de emoção.
Ele acariciou minha bochecha. "Qualquer coisa que você quiser. Assim que nos casarmos, tudo o que eu tenho será seu."
Eu quase ri. "E quando será isso?"
"Em breve", disse ele, sua voz um bálsamo calmante de puro veneno. "Muito em breve, meu amor."
Ele se inclinou para me beijar, mas um zumbido urgente de seu telefone o deteve. Ele o pegou, sua expressão mudando enquanto lia a tela.
"É sobre a aquisição", disse ele, levantando-se abruptamente. "Preciso atender. Já volto."
Ele saiu correndo da sala, deixando seu tablet na mesa de centro.
Estava desbloqueado.
Minhas mãos tremeram enquanto eu o pegava. Uma janela de bate-papo estava aberta. A conversa era entre ele e Bruna. Meus olhos percorreram as mensagens, cada palavra mais uma torção da faca.
Bruna: Você viu a cara dela? Impagável. Ela está tão arrasada.
Caio: Ela é mais forte do que parece. Mas não por muito tempo.
Bruna: A situação do velho está resolvida? Os médicos estão ficando impacientes.
Caio: Não se preocupe. Instruí os médicos a mantê-lo confortável, mas a retirar qualquer medida 'agressiva' para salvar a vida dele. Um pouco de negligência médica faz milagres. Ele se irá em breve, e a Viana Inovações será completamente nossa.
Bruna: Perfeito. E quando você terminar de brincar com sua presidiária, finalmente será todo meu.
Caio: Sempre fui, B. Sempre.
Um calafrio profundo e gelado se instalou em mim. Não era apenas traição. Era assassinato. Eles estavam matando meu pai.
Deixei o tablet cair como se estivesse em chamas. Tropecei pela casa até encontrar o quarto que ele havia preparado para mim. Era uma réplica perfeita do meu antigo quarto, cheio de meus materiais de arte, meus livros, minha vida. Era uma zombaria.
Vi a foto emoldurada na minha mesa de cabeceira. Uma foto minha e de Caio, tirada em nosso primeiro aniversário. Estávamos sorrindo, felizes. Apaixonados. Uma mentira.
Com um soluço engasgado, peguei a moldura e a espatifei contra a parede. O vidro se estilhaçou.
Eu rasguei o quarto como uma tempestade, destruindo tudo que me lembrava dele, de nós. Quebrei minhas canetas de arte digital, as ferramentas do meu ofício, a mesma coisa que Bruna invejava em mim. Rasguei as cartas de amor que ele me enviou na prisão, cada palavra de afeto uma piada cruel.
A porta se abriu com violência. Caio estava lá, seu rosto furioso. "Que diabos você está fazendo?"
Virei-me para encará-lo, meu peito arfando. "Me livrando do lixo."
"Você está louca?"
"Talvez", eu disse, uma calma estranha me invadindo. "Os médicos da prisão disseram que o câncer no meu cérebro pode causar alterações de humor."
Sua raiva vacilou, substituída por um lampejo de... algo. Não era preocupação. Era aborrecimento. Outra complicação em seu plano perfeito.
Ele tentou me puxar para seus braços. "Alana, querida..."
Eu o empurrei. "Não me toque."
Seu telefone tocou novamente. Ele olhou para o identificador de chamadas, depois de volta para mim, sua mandíbula tensa de irritação. Era Bruna. Claro que era Bruna.
"Fique aqui", ele ordenou, e saiu, fechando a porta atrás de si.
Afundei no chão em meio aos destroços do meu passado. Um alerta de notícias iluminou a tela de seu tablet esquecido. Era uma transmissão ao vivo de um evento de tapete vermelho. E lá estava Caio, sorrindo para as câmeras, com Bruna Queiroz em seu braço. A manchete dizia: "Magnata da Tecnologia Caio Esteves e Artista Bruna Queiroz: O Casal Poderoso Definitivo?"
Eles nem estavam tentando esconder. Eu era apenas um fantasma em sua história triunfante.