A sala de espera do escritório de advocacia cheirava a cera de limão e a dinheiro antigo.
Jocelyn alisou o tecido da saia pela décima vez. Ela estava sentada na beirada de uma luxuosa poltrona de couro, com a coluna rígida. O corretor tinha sido eficiente. *O Sr. Vincent está procurando uma candidata hoje. Esteja lá às 9.*
Ela checou o relógio. 8h58.
A pesada porta de carvalho se abriu.
Jocelyn se levantou instintivamente.
Um homem entrou.
Ele não era o que ela esperava. Os tabloides geralmente mostravam Babe Vincent saindo cambaleando de boates, com a camisa desabotoada, um borrão de movimento e vício.
Este homem era a quietude em pessoa.
Ele era alto, de ombros largos, e usava um terno de cor carvão feito sob medida que lhe caía com precisão arquitetônica. Seu cabelo escuro estava penteado de forma impecável, nem um fio fora do lugar. Ele carregava um ar de autoridade que fazia o ar na sala parecer mais rarefeito.
A respiração de Jocelyn falhou. Ele era muito mais bonito pessoalmente. As fotos borradas não faziam jus à linha nítida de sua mandíbula ou à intensidade de seus olhos escuros.
O homem parou quando a viu. Sua mão congelou na maçaneta por uma fração de segundo.
Gaston Collins encarou a mulher de pé ao lado da poltrona.
*É ela.*
A constatação o atingiu como um golpe físico. A garota do baile de gala de três anos atrás. Aquela com o vestido azul que se escondera na biblioteca para ler enquanto todos os outros bebiam champanhe. Ele a observara da sacada, cativado, mas nunca se aproximara. Ela estava com Douglas.
Agora, ela estava aqui. Em um escritório de advocacia conhecido por arranjar casamentos de fachada.
Jocelyn estendeu a mão, com os dedos tremendo levemente. "Sr. Vincent? Sou Jocelyn Wolfe."
Gaston olhou para a mão dela. Depois, olhou para o rosto dela. Ela pensava que ele era Babe.
Ele ergueu uma sobrancelha. Poderia corrigi-la. Poderia dizer a ela que era Gaston Collins, o herdeiro do império bancário Collins, e que estava ali apenas para demitir seu incompetente advogado de sucessões.
Mas, se fizesse isso, ela pediria desculpas e iria embora.
"Por favor", disse Gaston. Sua voz era grave, um barítono suave que parecia vibrar através do assoalho. Ele pegou a mão dela. Seu aperto era quente, firme e seco. "Vamos pular as formalidades."
Ele decidiu naquela fração de segundo. Se ser 'Babe' lhe rendesse uma conversa, ele seria Babe.
Eles se sentaram à mesa de mogno. Jocelyn deslizou uma pasta azul pela superfície.
"Minha proposta", disse ela. Sua voz estava firme, mas ele viu o pulso saltar em seu pescoço. "Um ano. Estritamente platônico. Separação de bens."
Gaston abriu a pasta. O cabeçalho dizia Contrato de Casamento.
Ele lutou contra a vontade de sorrir. Ela queria um acordo de negócios. Ele podia trabalhar com isso.
"Preciso de acesso ao meu fundo fiduciário", explicou Jocelyn, em um tom direto. "E você precisa de... respeitabilidade? Ou de uma fachada?"
Ela olhou para ele, seus olhos perscrutando o rosto dele. Estava tentando ser educada sobre os rumores. Ela achava que ele era gay. Achava que ele precisava de uma mulher para exibir por aí a fim de apaziguar uma família conservadora.
"Uma fachada", concordou Gaston, entrando no jogo. Ele se recostou na cadeira, estudando-a. "Minha família é... exigente."
"Não exijo amor", acrescentou Jocelyn. Sua voz vacilou na palavra amor, uma rachadura em sua armadura. "Apenas uma assinatura."
Gaston olhou para ela. Ele viu a exaustão em seus olhos, a maneira como ela se portava, como se estivesse se preparando para um impacto. Alguém a tinha machucado. Gravemente.
Ele destampou uma caneta-tinteiro do bolso. Era uma Montblanc, pesada e preta.
"Feito", disse ele.
Jocelyn piscou, atônita. "Você não discutiu o pagamento. Nem os termos."
"Não preciso do seu dinheiro, Srta. Wolfe." Gaston assinou o papel com um floreio. Ele fez a assinatura ilegível, um rabisco afiado e irregular que poderia ser qualquer coisa.
Ele se levantou, abotoando o paletó. "Vamos para a prefeitura agora."
Jocelyn o encarou. "Agora mesmo?"
"A menos que queira esperar?", ele a desafiou, com um brilho de divertimento em seus olhos escuros. "Presumo que o tempo seja crucial."
Jocelyn pegou a bolsa. "Vamos."
Eles saíram do prédio e deram de cara com o vento cortante de New York. Um sedã preto estava parado no meio-fio com o motor ligado.
O motorista, um homem chamado Henri que estava com a família Collins há trinta anos, saiu e abriu a porta de trás. Ele olhou para Gaston, depois para Jocelyn, a confusão transparecendo em seu rosto.
Gaston lhe lançou um olhar. Um olhar agudo, de aviso. *Não fale.*
Ele gesticulou para que Jocelyn entrasse primeiro.
Jocelyn deslizou para o assento de couro. O interior cheirava a sândalo e a condicionador caro. Não cheirava a cigarro velho ou a colônia barata, que era como ela imaginava que Babe Vincent cheiraria.
*Ele é surpreendentemente cavalheiro para um playboy degenerado*, ela pensou.
Gaston entrou ao lado dela. A porta se fechou com um clique, selando-os lá dentro.
"Para a prefeitura, Henri", disse Gaston.
O carro entrou suavemente no trânsito caótico da manhã de Manhattan, levando-os em direção a uma união legal e vinculativa construída inteiramente sobre uma mentira.
O sol de inverno refletia no pavimento cinzento do lado de fora do Marriage Bureau, fazendo Jocelyn semicerrar os olhos.
Estava feito.
Ela segurava a certidão de casamento na mão como uma arma. O papel era frágil, mas o poder que continha era imenso. Era sua chave. Seu escudo. Seus olhos percorreram o documento, mas as palavras estavam borradas. Tudo em que conseguia focar era o selo oficial e a única e bela palavra no topo: CASADA. Os detalhes, os nomes... eram apenas estática. O objetivo fora alcançado.
"Está feito", disse ela, meio para si mesma.
Gaston estava ao seu lado nos degraus de concreto. Ele checou o celular, uma ruga vincando sua testa.
"Tenho que me encontrar com meus advogados", disse ele. "Vou mandar entregar uma chave para você."
Jocelyn olhou para ele. "Ainda não vou me mudar. Tenho coisas para resolver. Preciso fazer as malas."
Gaston assentiu. Ele não insistiu. Parecia entender que ela precisava de espaço para desmontar sua vida antiga antes que pudesse entrar nesta nova e estranha vida.
"Como desejar", disse ele. Ele enfiou a mão no bolso e tirou um cartão de visita elegante, preto fosco. Não tinha nome de empresa, nem cargo. Apenas um número de telefone em relevo prateado e um monograma no centro: GC.
Jocelyn franziu a testa, pegando o cartão. "GC? De... Babe?"
Gaston não piscou. "É um nome de família", mentiu ele com suavidade. "Gaston. 'Babe' é um apelido do qual estou tentando me livrar."
Ela aceitou. Fazia sentido. Se ele estava tentando limpar sua imagem, abandonar o apelido ridículo era o primeiro passo.
"Ok, Gaston."
Ele levantou a mão, e um táxi amarelo parou instantaneamente, como se invocado apenas por sua vontade. Ele abriu a porta para ela.
"Me ligue", disse ele. Soou como uma ordem, mas seus olhos estavam suaves.
Jocelyn assentiu e entrou no táxi. Ela o observou pela janela traseira enquanto o táxi se afastava. Ele ficou lá, uma estátua escura contra a agitação da cidade, observando-a até que ela virou a esquina.
Ela se virou para frente, o coração acelerado.
Primeiro passo: Concluído.
Segundo passo: Terra arrasada.
Ela pegou o celular. Abriu o Instagram. Bloquear. Abriu o WhatsApp. Bloquear. Abriu o iMessage. Bloquear.
Ela apagou Kieran Douglas de sua existência digital.
Então, ela discou.
Elouise atendeu no segundo toque.
"E então?" A voz de sua mãe era presunçosa. "Está pronta para aceitar o convite do Sr. Henderson? Ele está bastante ansioso para conhecê-la."
"Estou casada", anunciou Jocelyn. Sua voz estava calma, firme, desprovida do medo trêmulo que costumava sentir ao falar com a mãe.
Silêncio. Silêncio absoluto e atônito do outro lado da linha.
Então, "O quê? Com quem?"
"Um empresário", disse Jocelyn. "A certidão está registrada. Libere o fundo fiduciário."
"Sua pirralha ingrata!" Elouise gritou. A compostura se quebrou. "Quem é ele? Você arranjou algum garçom? Vou anular isso!"
"Alguém com ativos suficientes para que eu não precise dos seus", Jocelyn blefou. Ela esperava que Babe tivesse dinheiro sobrando. "Quero a escritura da propriedade Wolfe Hamptons transferida até amanhã."
"Aquela casa é da Aspen para o verão!" Elouise protestou. "Ela já está planejando a festa de noivado dela lá!"
"Era do meu pai", Jocelyn a interrompeu. "Está no fundo fiduciário. Transfira, ou meus advogados auditarão as contas dos Schneider."
A linha ficou em silêncio novamente. A ameaça pairava pesada no ar. Os Schneider viviam luxuosamente, mas todos sabiam que sua liquidez era questionável. Uma auditoria seria catastrófica.
"Certo", Elouise cuspiu a palavra como veneno. "Pegue a maldita casa. Mas não espere mais um centavo de mim."
"Não quero o seu dinheiro, mãe. Só quero o que é meu."
Jocelyn desligou.
Uma onda de adrenalina inundou suas veias. Parecia oxigênio. Pela primeira vez em anos, ela conseguia respirar.
"Para onde, moça?" o taxista perguntou, observando-a pelo espelho retrovisor.
"Upper West Side", disse Jocelyn. "The Penthouse on 72nd."
Ela tinha que voltar. Tinha que fazer as malas.
Quando chegou ao prédio de Kieran, o porteiro, um senhor gentil chamado Ralph, inclinou o chapéu. Ele a olhou com olhos tristes. Provavelmente também tinha visto o artigo do Page Six.
"Bom dia, Srta. Wolfe", disse ele gentilmente.
"Bom dia, Ralph."
Ela pegou o elevador, os números subindo firmemente. 10... 20... 30...
Ela entrou na cobertura. Estava silencioso. Kieran ainda não havia voltado.
Ela foi para o quarto de hóspedes. Não chorou. Não gritou. Apenas trabalhou.
Ela tirou as malas do armário. Embalou suas roupas, seus livros, seus produtos caros de cuidados com a pele. Tirou os lençóis que havia comprado com seu próprio dinheiro. Era mesquinho, mas ela não se importava. Não ia deixar nada para ele.
Ela foi para a cozinha. Colocou a chave na bancada de mármore, bem ao lado de uma caneca de café pela metade que Kieran havia deixado dias atrás. Mofo começava a crescer na superfície do líquido.
Ela olhou para a mão esquerda. Estava nua.
Ela percebeu que havia se esquecido de arranjar um anel.
"Marido de mentira, casamento de mentira", murmurou para si mesma.
Ela arrastou as malas até o elevador. As rodinhas fizeram um barulho alto no chão, um som de finalidade.