Eu não fui para casa. Não conseguia. Em vez disso, fui para o único lugar que sabia que eles estariam. O velho jequitibá na beira do Parque Ibirapuera, o lugar que Dante uma vez me disse ser o ponto de encontro de infância dele e de Kíria. Ele disse isso com desdém, como se fosse uma memória boba. Agora eu sabia a verdade.
A chuva começou a cair, uma garoa fria e miserável que encharcou meu vestido fino. Eu os vi à distância. Kíria Bittencourt chorava em seus braços, seu corpo tremendo com soluços dramáticos.
Dante a segurava como se ela fosse feita de cristal, sua expressão terna e cheia de um amor que ele nunca me mostrou.
"Ela descobriu", Kíria lamentou. "A Elisa sabe que é a verdadeira herdeira dos Bittencourt. Ela foi até a mansão. Ela vai tirar tudo de mim!"
Parei, escondida pelas sombras das árvores. Outra mentira. Outra peça do quebra-cabeça que eu nunca soube que existia. Eu era uma Bittencourt? A filha do magnata hoteleiro, Beto Bittencourt? Era impossível. Eu cresci em um orfanato.
"Shh, está tudo bem", Dante a acalmou. "Eu vou resolver isso. Eu te disse que resolveria."
"Mas como, Dante?", ela chorou. "E o bebê? Você me prometeu um bebê!"
O bebê. Nosso bebê. Aquele que eu perdi em um aborto espontâneo há três meses. A perda que me quebrou, aquela pela qual Dante me abraçou, sussurrando que tentaríamos de novo.
"Kíria, me escute", disse ele, a voz baixa e intensa. "Eu nunca amei a Elisa. Eu a conquistei por você. Eu precisava que ela gerasse nosso filho para que você não precisasse pausar sua carreira."
O mundo girou. Meu estômago se revirou violentamente.
Não era nosso bebê. Era o bebê deles.
Eu fui apenas o recipiente. Uma barriga de aluguel involuntária.
"Tudo foi por você", ele sussurrou, acariciando o cabelo dela. "Tudo."
Um soluço estrangulado escapou dos meus lábios. Lembrei-me das flores que ele me trazia toda semana, das conversas tarde da noite, do jeito que ele segurava minha mão. Lembrei-me dele massageando minha barriga inchada, conversando com o bebê lá dentro, nosso bebê.
Era tudo falso. Uma decepção calculada e cruel.
"Mas e a criança?", Kíria insistiu, afastando-se para olhá-lo. "Ela se foi."
"Podemos ter outra", disse Dante, a voz dura. "Mas há algo que você não sabe. O aborto não foi um acidente. A transferência de embriões... era o seu óvulo, mas não era o meu sêmen. Era de um doador. Eu não suportava a ideia do nosso filho crescendo dentro dela."
A chuva se intensificou, caindo em lençóis, grudando meu cabelo no rosto. O frio penetrou em meus ossos, mas eu não o senti. Tudo o que senti foi um horror oco e retumbante. Ele não apenas me usou. Ele me violou da maneira mais profunda imaginável. A criança pela qual eu chorei, a criança que eu acreditava ser um pedaço dele e de mim, era filha de um completo estranho.
Meus joelhos cederam e eu caí no chão molhado, minhas mãos afundando na lama. Lembrei-me de como ele cuidou de mim durante a gravidez. Ele cozinhava para mim, garantia que eu tomasse minhas vitaminas, me proibia de dançar. Não era por amor a mim. Era pela carga preciosa que eu carregava para outra mulher.
Uma onda de náusea me atingiu e eu vomitei, o gosto amargo da traição enchendo minha boca. Tossi, cuspindo bile e lágrimas.
Através da chuva, eu o vi se ajoelhar.
Ele tirou uma caixa de veludo.
"Kíria Bittencourt", disse ele, a voz ressoando com sinceridade. "Eu te amei a vida inteira."
"Mas o que as pessoas vão dizer?", ela sussurrou, suas lágrimas subitamente desaparecidas, substituídas por um olhar calculista. "Sobre a Elisa..."
"Não dirão nada", declarou Dante. "Porque ninguém nunca saberá. Beto Bittencourt já concordou. Ele precisa da aliança com o Grupo Lobo de Mídia mais do que precisa de uma filha perdida. Você continuará sendo a herdeira Bittencourt. E Elisa Castro... ela vai desaparecer."
Ele abriu a caixa, revelando um anel de diamante que brilhava mesmo na luz fraca e chuvosa. "Eu cuidei de tudo. Ela não é nada. Você é tudo. Case-se comigo."
O rosto de Kíria se abriu em um sorriso triunfante. Ela jogou os braços ao redor do pescoço dele e o beijou.
Não foi um beijo gentil. Foi uma reivindicação faminta e possessiva. Eles se agarraram na tempestade, uma imagem perfeita de amor e vitória.
Eles finalmente se separaram, rindo, e foram embora, me deixando sozinha na lama e na chuva.
O som que saiu da minha garganta não foi um soluço. Foi uma risada. Um som quebrado e histérico que ecoou no parque vazio.
Minha vida inteira era uma piada. Uma tragédia escrita e dirigida por eles.
Eu fui uma tola. Uma peça de xadrez. Uma barriga de aluguel. Um fantasma.
Mas enquanto eu estava ali, algo dentro de mim mudou. O desespero começou a se transformar em uma raiva fria e dura.
Eles tiraram tudo de mim. Meu amor, meu corpo, meu filho, minha carreira, minha própria identidade.
Peguei meu celular, meus dedos tremendo, mas determinados. Encontrei o e-mail do Teatro Municipal, aquele que me oferecia uma posição de primeira bailarina, aquele que eu ignorei por Dante.
Meu polegar pairou sobre o botão de resposta.
Eles achavam que eu ia desaparecer. Eles achavam que eu não era nada.
Eu lhes mostraria. Eu faria Dante Lobo assistir enquanto eu renascia das cinzas em que ele me deixou. Eu pegaria de volta tudo o que ele e Kíria roubaram.
Eu o faria se arrepender do dia em que ouviu o nome Elisa Castro.
Digitei minha resposta. "Eu aceito."
Então me levantei, a lama e a chuva escorrendo de mim, e saí do parque, deixando a garota que amava Dante Lobo para trás para sempre.
A chuva era implacável, transformando as ruas da cidade em espelhos escuros e escorregadios. Meu vestido de grife estava arruinado, grudado na minha pele como uma mortalha. Um táxi que passava jogou uma onda de água suja sobre mim, e o salto do meu sapato quebrou, me fazendo tropeçar. Tirei o outro, o cascalho afiado da calçada cravando em meus pés descalços. Eu não me importava.
Passava da meia-noite quando finalmente cheguei à cobertura. A festa havia acabado. O silêncio era pesado, opressor.
Dante estava na sala de estar, um copo de uísque na mão. Ele ergueu os olhos quando entrei, seus olhos se arregalando em choque com o meu estado.
"Elisa? O que aconteceu com você?", ele perguntou, correndo em minha direção.
Ele observou minhas roupas encharcadas, meus pés descalços e sangrando. Imediatamente envolveu meus ombros trêmulos com seu casaco grande e seco. "Meu Deus, você está congelando."
Sua voz estava cheia de uma preocupação que, horas atrás, teria derretido meu coração. Agora, era apenas mais uma camada de sua performance doentia.
Ele se ajoelhou, sua expressão cheia do que parecia dor ao ver os cortes em meus pés. "Sua tola. Por que não me ligou?"
Ele limpou gentilmente as feridas com um lenço antisséptico do kit de primeiros socorros, seu toque tão cuidadoso como se eu fosse uma boneca preciosa. A ardência do lenço era real, mas a gentileza de suas mãos era a mentira mais cruel de todas.
"Você precisa de um banho quente", disse ele, a voz um murmúrio baixo. Ele preparou a banheira, enchendo-a com água fumegante e óleos perfumados, do jeito que eu gostava.
Enquanto ele se virava, uma única lágrima escapou e traçou um caminho pelo meu rosto. Eu a enxuguei, meu maxilar tenso. Eu não choraria por ele. Não mais.
O amor desse homem era um veneno, e eu o bebia há dois anos.
Enquanto caminhava para o banheiro, meus olhos captaram uma pequena caixa elegantemente embrulhada na mesa de centro. Era o presente que eu trouxera para ele de Belo Horizonte. Uma rara caneta-tinteiro vintage que ele mencionara querer meses atrás.
Ele notou meu olhar e a pegou, um ar de surpresa genuína em seu rosto. "O que é isso?"
Ele a abriu, e seus olhos se iluminaram. "Elisa... isso é incrível. Como você encontrou?"
Ele me puxou para um abraço, enterrando o rosto em meu cabelo. "Obrigado."
Fiquei rígida em seus braços, cada músculo tenso. Afastei-me gentilmente. "Não foi nada. Vi em uma loja e pensei em você."
"Vou tomar um banho", eu disse, minha voz neutra. Eu precisava me afastar dele antes de me despedaçar completamente.
Ele me soltou, seus olhos ainda brilhando de prazer com o presente. Ele não notou a frieza em meus olhos ou o tremor em minhas mãos. Estava absorto demais em sua própria satisfação.
No banheiro, tranquei a porta e deslizei contra ela. Não entrei na banheira. Apenas sentei no chão frio, o vapor enchendo o ambiente como uma névoa. O celular dele, que ele deixara na penteadeira, vibrou.
Uma mensagem de texto iluminou a tela. Era de Kíria.
"Você pegou a caneta? Mal posso esperar para vê-la. É o presente perfeito para o nosso anúncio de noivado."
Meu coração, que eu pensei que não poderia se quebrar mais, partiu-se em mil pedaços minúsculos.
A caneta não era para ele. Era para ela. Eu fui apenas a garota de recados, pegando um presente para a celebração deles.
Uma dor aguda e lancinante atravessou meu peito. Esta não era minha casa. Esta era a casa deles. Eu era apenas uma hóspede temporária, uma cuidadora de longa data que havia ficado mais do que o bem-vindo.
Lembrei-me das palavras que ouvi. *Elisa sabe que é a verdadeira herdeira dos Bittencourt.*
Era a única verdade em um mar de mentiras. A única coisa que me restava.
Uma nova determinação endureceu em meu olhar. Eu não seria um fantasma. Eu não desapareceria.
Eu encontraria minha família. Eu reivindicaria meu direito de nascença.
E eu começaria amanhã.