Capítulo 2

Amanda Paiva POV:

Observei Kloe, envolta em seu cobertor, seus olhos dardejando entre Gonçalo e eu. A maneira como ela se fazia de vítima, a cordeirinha inocente, revirava meu estômago. Ela era uma manipuladora mestre, e Gonçalo, meu brilhante marido doutorando em História da Arte, estava caindo direitinho na armadilha dela.

"Sabe, Kloe", eu disse, minha voz deliberadamente calma, "esta casa na verdade tem um sistema de segurança de última geração. Câmeras por toda parte. Dentro e fora."

O rosto pálido de Kloe ficou ainda mais pálido. Seus olhos se arregalaram, e ela olhou para Gonçalo, um lampejo de pânico substituindo sua inocência fingida.

"Câmeras? Dentro de casa?"

Gonçalo me fuzilou com o olhar.

"Amanda, do que você está falando? Por que você mencionaria isso?"

Dei de ombros, um sorriso pequeno e insincero tocando meus lábios.

"Apenas um lembrete amigável. Para a paz de espírito de todos, sabe? É bom estar ciente do seu entorno. Especialmente em um lugar novo."

Meu olhar demorou em Kloe.

"Não queremos que nada... inesperado... seja gravado, certo?"

Os lábios de Kloe se contraíram. Ela desviou o olhar, sua compostura de "influenciadora de bem-estar" perfeitamente estilizada finalmente rachando. Gonçalo, sentindo a tensão, se interpôs entre nós.

"Tudo bem, tudo bem", ele disse, esfregando as têmporas. "Isso é ridículo. Kloe, a Amanda está apenas sendo... a Amanda. Ela tem boas intenções."

Ele se virou para mim, a voz tensa.

"Amanda, não precisamos discutir o sistema de segurança da casa agora."

Eu apenas assenti, ainda mantendo o olhar de Kloe. A mensagem era clara. Qualquer comportamento "imprevisível" seria capturado em vídeo.

Gonçalo suspirou, um som longo e sofrido.

"Olha. Nenhuma de vocês precisa trocar de quarto. Eu durmo no chão entre as duas portas, ok? Assim, a Kloe não ficará sozinha, e você ainda terá seu quarto, Amanda. Todos felizes?"

Bati palmas lentamente, de forma sarcástica.

"Brilhante, Gonçalo. Verdadeiramente brilhante."

Kloe murmurou algo em voz baixa, uma concordância relutante. Ela ainda parecia abalada.

Então, Gonçalo acabou estirado em um colchão de ar no corredor estreito, uma barreira frágil entre sua esposa e sua 'protegida'. Eu o ouvi se virando e revirando por um longo tempo naquela noite. Eu também não dormi muito. Minha mente estava a mil, repassando sete anos da minha vida, pagando por sua educação, seu estilo de vida, sua própria existência. E esta era a minha recompensa.

Na manhã seguinte, o sol entrava pela janela do meu quarto, zombando do frio que ainda tomava meu coração. Uma batida. Era Gonçalo.

"Amanda? Você está acordada?", ele chamou, sua voz abafada pela porta.

"Agora estou", murmurei, levantando-me da cama.

Ele abriu a porta, um sorriso hesitante no rosto machucado de dormir no chão.

"Bom dia, Capitã. Você poderia... fazer um café da manhã para nós? A Kloe precisa comer algo leve por causa da condição dela."

Minha sobrancelha se contraiu, mas não disse nada. Fui para a cozinha, o ar ainda desconfortavelmente quente apesar da hora matinal. Fiz aveia, uma escolha simples e saudável. Coloquei três tigelas na mesa.

Kloe apareceu momentos depois, vestida com um robe de seda, cheirando levemente a perfume caro. Ela olhou para a aveia. Seu nariz se enrugou quase imperceptivelmente.

"Ah", ela disse, a voz um pouco alta demais, "aveia. Não estou muito acostumada com... cafés da manhã salgados."

Peguei minha colher, mexendo minha tigela.

"Salgados?", perguntei, olhando para ela. "É aveia pura. Com um pouco de mel. A que tipo de café da manhã você está acostumada, Kloe? Miojo e energéticos lá na sua cidadezinha?"

O rosto dela, geralmente tão cuidadosamente composto, ficou vermelho escuro.

"Eu... eu só quis dizer que prefiro coisas mais leves, mais frescas. Não estou muito acostumada com... comida mais pesada."

Comi uma colherada lenta da minha aveia, saboreando o calor sem graça.

"Certo. Da sua cidadezinha em, onde era mesmo, no interior de Minas? Lembro-me distintamente de você me dizendo que cresceu comendo pêssego em calda e purê instantâneo. Engraçado como as pessoas esquecem rapidamente suas raízes quando começam a construir uma marca de 'bem-estar'."

"Você está sendo grosseira, Amanda!", Kloe retrucou, sua voz suave desaparecendo. "Você está sempre tentando me fazer sentir pequena!"

Levantei uma sobrancelha.

"É isso que estou fazendo? Pensei que estava apenas constatando fatos. E por falar em pequena, não é interessante como as pessoas que afirmam ter condições delicadas sempre conseguem ser tão... barulhentas?"

A campainha tocou, uma interrupção bem-vinda. Gonçalo praticamente saltou para atender. Ele voltou um momento depois, segurando uma grande sacola de delivery.

"Surpresa, Kloe", ele disse, a voz transbordando de uma falsa alegria. "Pedi para você uma torrada com abacate e um suco verde. Espero que seja leve o suficiente para sua constituição delicada."

O rosto de Kloe se iluminou, e ela me lançou um sorriso triunfante.

"Ah, Gonçalo, você é o melhor! Você simplesmente sabe do que eu gosto."

Ela pegou a sacola, tirando a comida cara e recém-feita.

"Viu, Amanda? O Gonçalo realmente cuida de mim."

Depois do café da manhã, Kloe começou a tirar roupas para nossa viagem de esqui planejada para Campos do Jordão. Ela segurou uma jaqueta de esqui fina e colorida. Era claramente mais moda do que funcional.

"O que você acha, Gonçalo?", ela perguntou, girando na frente dele. "É tão chique, não é? Perfeita para as fotos."

Ele franziu a testa.

"É linda, Kloe, mas parece um pouco fina. Tem certeza de que vai ser quente o suficiente? Você sente frio com tanta facilidade."

"Ah, eu vou ficar bem", ela dispensou, depois me lançou um olhar de soslaio. "É tudo pela estética, Amanda. Não se pode sacrificar o estilo pela praticidade, não é?"

Eu apenas murmurei um som não comprometedor. Ela estava usando de propósito um casaco impraticável, sabendo muito bem que inevitavelmente 'sentiria frio'. Este era mais um de seus jogos. Decidi ali mesmo que apenas os observaria. Deixaria que eles encenassem sua pequena farsa.

Arrumamos o carro. Apesar da jaqueta fina de Kloe, ela insistiu em ir no banco da frente.

"Ah, eu fico tão enjoada no banco de trás", ela choramingou, já a meio caminho do assento do passageiro.

Gonçalo, é claro, a apoiou.

"Amanda, você não se importa, não é? A Kloe precisa ficar confortável. A condição dela, sabe."

Kloe se inclinou para fora da janela, um sorriso doce como açúcar no rosto.

"E o banco da frente do Gonçalo é sempre só para mim. É a nossa pequena tradição, não é, Gonçalo?"

Eu apenas soltei uma risada suave e sem humor.

"O que te fizer feliz, Kloe."

Entrei no banco de trás, afivelando o cinto. Meu olhar demorou em seus reflexos no espelho retrovisor. Eu só precisava observá-los. Observá-los de verdade.

Capítulo 3

Amanda Paiva POV:

O ar de Campos do Jordão nos atingiu como um tapa. Fresco, cortante e inegavelmente frio. Saímos do carro e Kloe, previsivelmente, começou a tremer. Sua jaqueta de esqui da moda, fina, claramente não era páreo para o clima da montanha. Ela se abraçou, os dentes batendo.

"Nossa, está tão frio!", ela choramingou, a voz minúscula e patética.

Gonçalo estava instantaneamente ao seu lado, tirando seu próprio casaco grosso e acolchoado. Ele o colocou sobre os ombros dela.

"Eu te disse que aquela jaqueta não era quente o suficiente", ele disse, mas seu tom era gentil, cheio de preocupação. "Por que você sempre faz isso consigo mesma?"

Kloe se aninhou no casaco dele, a cabeça erguida para olhá-lo com adoração.

"Mas é tão linda, Gonçalo! E vai ficar incrível nas fotos. Você sabe como minha estética é importante para minha marca."

Ela então olhou para o casaco que ele lhe dera, uma pequena carranca no rosto.

"Mas este... é apenas um casaco comum."

"É prático, Kloe", insistiu Gonçalo.

"Eu tenho algo muito melhor para você."

Ela tirou uma pequena e requintada bolsa de couro de sua bagagem.

"Gonçalo, querido, você esqueceu de me dar minha bolsa nova! É o acessório perfeito para o meu look."

Meus olhos se arregalaram. Era uma bolsa de grife de R$ 40.000, uma edição limitada de uma marca que eu reconheci. Gonçalo tinha acabado de comprar para Kloe uma bolsa de grife de R$ 40.000? Meu sangue gelou, mais frio que o ar de Campos do Jordão.

"Gonçalo", eu disse, minha voz perigosamente suave, "onde você conseguiu o dinheiro para essa bolsa?"

Ele se encolheu, virando-se para mim, o rosto pálido.

"Amanda! É só... um pequeno presente. Pelo trabalho duro dela, sabe. Mentoria."

"Um pequeno presente?", zombei. "Quarenta mil reais não é um pequeno presente. É mais do que você gastou comigo nos últimos cinco anos somados."

Ele se irritou.

"É o meu dinheiro, Amanda! O que você tem a ver com isso?"

"Seu dinheiro?", praticamente cuspi as palavras. "Não existe 'seu dinheiro', Gonçalo. Só existe o meu dinheiro. O dinheiro que eu ganho como engenheira de software, o dinheiro que eu ganho como Capitã da Reserva do Exército. O dinheiro com que paguei seu doutorado por sete anos! Você usou o meu dinheiro para comprar uma bolsa de R$ 40.000 para ela?"

"Nós somos casados, Amanda!", ele gritou, o rosto contorcido de raiva. "É o nosso dinheiro! Comunhão de bens!"

"Comunhão de bens para o meu dinheiro suado financiar os acessórios de grife da sua amante?"

Minha voz atingiu um tom que eu não reconheci.

"Você tem muita coragem, Gonçalo! Eu te implorei por uma jaqueta de esqui decente para mim no ano passado, e você disse que não podíamos pagar. Você disse que precisávamos economizar para suas conferências acadêmicas."

Lembrei-me da jaqueta barata e mal ajustada que comprei em uma loja de descontos, me virando. Ele sempre fora tão cuidadoso com "nosso" dinheiro quando se tratava de mim. Sempre tão "frugal". Agora eu sabia por quê. Ele era frugal comigo porque estava economizando para ela.

Kloe, vendo sua deixa, tentou entrar na cena.

"Ah, Amanda, se isso te faz sentir melhor, você pode ficar com ela. Tenho certeza de que posso encontrar outra bolsa."

Ela começou a soltar a alça, oferecendo-a para mim. Seus olhos, no entanto, continham um brilho de desafio.

Olhei para ela, depois de volta para a bolsa.

"Fique com suas coisas de segunda mão, Kloe. Não quero nada que tenha tocado suas mãos imundas."

Os lábios de Kloe tremeram, e ela olhou para Gonçalo, seus olhos se enchendo de lágrimas falsas.

"Ela está sendo má, Gonçalo."

O rosto de Gonçalo endureceu.

"Amanda, já chega! Você está estragando o clima. Apenas pare."

Kloe estendeu a mão, tocando suavemente sua bochecha.

"Está tudo bem, Gonçalo. Não deixe que ela te aborreça."

Ela se inclinou, soprando em suas mãos nuas.

"Você está ficando com tanto frio. Deixe-me aquecê-lo."

Gonçalo suspirou, um som suave e satisfeito. Ele olhou para Kloe, uma ternura em seus olhos que fez meu sangue gelar. Ela o tinha completamente enrolado em seu dedo.

"Você deveria realmente colocar seu casaco de volta, Gonçalo", disse Kloe, ainda soprando em suas mãos. "Não quero que você fique doente. Sei que você está tão preocupado comigo, mas precisa se cuidar também."

Ela fez um show de tentar colocar o casaco dele de volta nele.

Ele gentilmente afastou as mãos dela.

"Não, Kloe. Você precisa mais. Você é tão delicada."

"Mas você também está com frio!", ela insistiu, a voz cheia de falsa preocupação. "Se você não usar, eu também não vou."

Eles foram e voltaram, uma ridícula luta de poder disfarçada de preocupação. Finalmente, Gonçalo, exasperado, vestiu seu casaco de volta. Kloe, ainda tremendo dramaticamente, insistiu que não era o suficiente.

"Ainda estou congelando, Gonçalo", disse ela, os dentes batendo tanto que eu quase podia ouvi-los. "Mas não quero que você sofra por minha causa."

Ela olhou para ele com olhos grandes e inocentes, uma aula magistral de manipulação emocional.

Então, ele se virou para mim. Seus olhos pousaram na minha jaqueta de esqui novinha em folha, cara, de alta performance, aquela que eu comprei para mim mesma com meu próprio dinheiro, aquela pela qual economizei por meses. Minha jaqueta tática do Exército, projetada para frio extremo.

"Amanda", ele disse, a voz sem emoção, "tire sua jaqueta."

Eu o encarei. Tinha ouvido direito?

"O quê?"

"Dê sua jaqueta para a Kloe", ele repetiu, a voz firme. "Você não é tão sensível ao frio quanto ela."

"Eu não sou sensível ao frio?", zombei. "Gonçalo, eu só tenho sangue quente. Isso não significa que eu queira congelar minha bunda em uma montanha."

Ele deu um passo em minha direção, os olhos em chamas.

"Apenas tire, Amanda!"

Ele alcançou o zíper da minha jaqueta. Eu instintivamente recuei, tentando me afastar.

"Saia de perto de mim, Gonçalo! O que você está fazendo?"

Ele ignorou meus protestos, suas mãos desajeitadas com o zíper. Lutei, tentando empurrá-lo, mas ele era mais forte que eu. Estávamos em uma placa de gelo perto dos teleféricos. Meus pés escorregaram. Perdi o equilíbrio. Nós dois caímos. Minha cabeça bateu no chão com um baque surdo. Felizmente, meu capacete absorveu a maior parte do impacto, mas estrelas ainda explodiram atrás dos meus olhos. O mundo girou.

Fiquei ali, atordoada, minha visão embaçada. Minha jaqueta cara foi arrancada do meu corpo. Vi Kloe, o rosto uma máscara de falsa preocupação, rapidamente vestindo a jaqueta, fechando o zíper até o fim.

"Ah, Amanda, você está bem?", Kloe perguntou, a voz trêmula, embora eu pudesse ouvir o triunfo por baixo.

Gonçalo olhou para mim, seus olhos desprovidos de qualquer calor.

"Ela está bem", ele retrucou, dispensando a pergunta de Kloe. "Sempre tão dramática."

Ele ajudou Kloe a se levantar, ajustando minha jaqueta em seus ombros.

"Vá na frente, Kloe. Eu cuido da Amanda."

Ele se virou para mim.

"Amanda, você pode simplesmente... voltar para o hotel. Nós te encontramos mais tarde."

Ele não ofereceu a mão. Ele nem mesmo verificou se eu estava machucada. Ele apenas me deu as costas, para sua esposa, e começou a caminhar em direção ao teleférico com Kloe, minha jaqueta enrolada nela.

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