Capítulo 2

Caio me encarou, o rosto uma máscara de confusão e traição enquanto seus pais se preocupavam com uma Bianca triunfante.

Virei as costas para ele e fui embora.

Os Monteiro partiram, levando Bianca com eles. Antes de entrar no carro de luxo, ela me lançou um olhar por cima do ombro. Era puro veneno, uma promessa silenciosa de problemas futuros. Não era apenas vitória; era posse. Ela não tinha apenas vencido; ela tinha tirado algo de mim.

Caio ficou para trás, preso na porta. Ele parecia perdido.

Ele viu a verdade naquele momento, eu acho. Ele viu o sorriso presunçoso de Bianca enquanto ela se acomodava no banco de couro, sua falsa lesão esquecida. Ele viu o lampejo de malícia em seus olhos. Ele deve ter sentido um pavor frio invadir seu coração, um sussurro do erro colossal que ele cometeu em nossa última vida, e que estava cometendo de novo.

Seus olhos encontraram os meus, uma súplica desesperada e silenciosa por ajuda. Por compreensão.

Eu lhe dei uma parede em branco para olhar. Apenas me virei e voltei para dentro do prédio cinza e sem esperança.

"Eva!" ele chamou, a voz falhando.

Eu não parei.

"Você... você é como eu?" ele perguntou, a voz mais baixa agora, cheia de uma admiração terrível. "Você se lembra?"

Parei, mas não me virei. Sua pergunta pairou no ar, um segredo que nos unia, uma corrente que eu estava determinada a quebrar.

Fui embora sem responder.

"Me desculpe, Eva", ele gritou atrás de mim, a voz embargada de culpa. "Ela só... ela passou por muita coisa. Ela não faz por mal." As velhas e cansadas desculpas. "Eu vou te tirar daqui. Eu juro. Só me dê alguns dias!"

Alguns dias. Um sorriso amargo tocou meus lábios. Da última vez que ele disse isso, levou vinte anos para voltar, e só para estourar os próprios miolos.

Quando a porta pesada do abrigo se fechou, permiti-me um sorriso pequeno e frio. Eu não estava esperando por um salvador desta vez.

A atitude de Dona Marta em relação a mim azedou no segundo em que o carro dos Monteiro desapareceu na rua. Minhas porções no jantar diminuíram. Fui designada para as piores tarefas, limpando vasos sanitários com uma escova de dentes enquanto as outras crianças assistiam.

Dias se transformaram em uma semana. Nenhuma palavra de Caio. Claro que não. Bianca provavelmente estava tendo um "pesadelo" ou "sentiu um calafrio", e ele estava ocupado demais bancando o herói para se lembrar da garota que deixou para trás no inferno.

Tudo bem. Eu me salvaria.

Eu sabia que Dona Marta estava roubando do fundo de doações do abrigo. Na minha primeira vida, levou anos para ela ser pega. Eu não tinha anos.

Durante minhas tarefas de limpeza noturnas, entrei furtivamente em seu escritório. Sob o pretexto de tirar o pó, encontrei seu livro-caixa, cheio de números fraudados, e um esconderijo de dinheiro em um duto de ventilação. Usei um celular contrabandeado que outra criança tinha, um lixo com a tela rachada, e tirei fotos de tudo.

Então liguei para um repórter de quem me lembrava da minha vida passada, um jovem jornalista faminto que pularia em uma história como essa.

O preço da minha liberdade foi um braço quebrado. Dona Marta me pegou fazendo a ligação. Ela ficou furiosa, agarrou meu braço e o torceu até eu ouvir um estalo medonho. A dor era lancinante, mas enquanto eu estava no chão, segurando meu membro inútil, eu sorri. Estava feito.

Duas horas depois, carros de polícia e vans de reportagem invadiram o São Judas. Enquanto arrastavam uma Dona Marta aos gritos para fora, algemada, um grupo de meninos mais velhos me encurralou no pátio.

"Sua desgraçada!" um deles rosnou. "Você arruinou tudo!"

Eu não fiquei surpresa. Eles eram os filhos dela. Ela os havia listado como órfãos para obter mais verbas, e eles viviam uma vida privilegiada dentro daquelas paredes, predando as outras crianças. Foram eles que empurraram Bianca.

Eles se aproximaram de mim, com os punhos cerrados. Protegi minha cabeça com meu braço bom, preparando-me para o impacto.

O líder, um garoto corpulento chamado Marcos, pegou uma pedra pontiaguda. "Isso é pela minha mãe", ele cuspiu.

Ele avançou.

De repente, uma figura se chocou contra ele, mandando-o pelos ares.

Era Caio.

Ele ficou sobre mim, me protegendo com seu corpo enquanto a pedra descia, atingindo o lado de sua cabeça.

Ele cambaleou, sangue escorrendo de um corte acima da têmpora, mas não caiu. Ele apenas se virou para mim, um olhar selvagem e triunfante em seus olhos sangrando. "Eu te disse, Eva", ele ofegou. "Eu te disse que ia te salvar."

Capítulo 3

Um lampejo de algo — alarme, talvez preocupação — agitou-se em mim ao ver o sangue escorrer pelo rosto de Caio. Ele balançou, mas seus olhos estavam fixos em mim, brilhando com uma perturbadora sensação de dever cumprido.

Ele limpou o sangue com as costas da mão, borrando-o na bochecha. "Eu cheguei", disse ele, um som ofegante e feliz. "Eu te salvei."

E assim, o lampejo de preocupação morreu, substituído por um nojo frio e familiar.

Suas palavras desencadearam uma avalanche de memórias, nítidas e brutais.

Uma estrada escura e congelada. O som do nosso bebê, tão pequeno, tão doente, seus choros ficando mais fracos no banco de trás. Eu estava no telefone, implorando. "Por favor, Caio, volte. Ele não está respirando direito."

A voz dele, distante, distraída. "Não posso, Eva. A Bianca disse que tem um homem seguindo ela. Ela está apavorada. Tenho que ter certeza de que ela está segura."

Ele desligou. Ele nos deixou lá. Nosso filho morreu em meus braços uma hora depois, seu corpinho esfriando contra o meu.

Outro acidente. O guincho de pneus. Ele estava me perseguindo depois de outra briga sobre Bianca. Ele desviou para evitar um cervo, jogando seu carro em um barranco para me salvar. Ele perdeu as duas pernas. A culpa disso me acorrentou a ele. Ele usava a cadeira de rodas como um trono de martírio, uma acusação constante e silenciosa. "Você me deve", seus olhos sempre diziam. E eu paguei, cumprindo minha sentença em um casamento sem amor até o dia em que ele finalmente acabou com tudo.

Agora, aqui estava ele, sangrando de um ferimento superficial, clamando vitória. Meu salvador.

O pensamento era tão repulsivo que me deu vontade de gritar.

Antes que eu pudesse, um grito diferente cortou o ar. "Caio!"

Bianca veio correndo, o rosto uma máscara perfeita de terror. Ela me empurrou de lado, fazendo-me tropeçar e cair no chão. Meu braço quebrado bateu no asfalto, e uma nova onda de agonia me atravessou.

"O que você fez com ele?" ela gritou, me dando um tapa no rosto, com força. E de novo. "Sua bruxa! Fique longe dele! Ele me pertence!"

Ela se virou para Caio, sua expressão derretendo-se em um cuidado terno enquanto ela gentilmente limpava o ferimento dele com a barra de seu suéter caro.

"Bianca, pare", Caio murmurou, os olhos em mim. "Peça desculpas para a Eva."

O lábio inferior de Bianca tremeu. Uma única lágrima rolou por sua bochecha. "Mas... ela te machucou."

Instantaneamente, a determinação de Caio desmoronou. "Eu sei, eu sei", ele a acalmou, puxando-a para um abraço. "Está tudo bem. Eu estou bem."

Observei a cena patética, meu rosto ainda ardendo. Levantei-me, ignorando a dor latejante no meu braço, e me preparei para sair. Este era o circo deles, e eu estava farta de ser uma das palhaças.

"Não se atreva a ir embora!" Bianca rosnou, a voz pingando triunfo. Ela se agarrou ao braço de Caio como um prêmio. "O Caio não vai deixar você me machucar nunca mais."

Quando me virei, vi Caio instintivamente se mover, colocando-se ligeiramente na frente de Bianca. Foi um movimento pequeno e inconsciente, mas que dizia muito. Depois de tudo, ele ainda me via como a ameaça, e ela como a que precisava de proteção.

Eu parei. Olhei-o diretamente nos olhos.

"Farias, Almeida e Sampaio", eu disse, minha voz neutra. "E os números são 40.7128 e 74.0060."

Bianca parecia confusa. "Do que você está falando, sua louca-"

Mas Caio empalideceu. Seu rosto ficou flácido de choque. Ele sabia exatamente do que eu estava falando. Farias, Almeida e Sampaio eram os nomes de três investidores-chave com quem seu pai estava prestes a fechar negócio, um acordo que, em nossa primeira vida, levou o Grupo Monteiro à falência. E os números, eram as coordenadas de GPS de um terreno pelo qual a empresa da família Monteiro estava prestes a pagar um preço exorbitante, com base em um laudo geológico fraudulento.

Era uma informação que eu passei anos da minha primeira vida desenterrando para tentar salvar nossa empresa, informação que ele ignorou porque estava ocupado demais lidando com um dos dramas de Bianca.

"Como...?" ele sussurrou, a voz trêmula.

"Considere um presente de agradecimento pela pedra na sua cabeça", eu disse friamente. "Agora estamos quites. Fique longe de mim."

Seu rosto se contraiu. O horror que surgia em seus olhos era absoluto. Não era apenas sobre a empresa. Ele finalmente, verdadeiramente, entendeu. Não era que eu precisava ser salva. Era que eu não o queria mais.

Eu só queria ir embora.

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