Kênia Ayres POV
A liberdade teve um gosto doce por exatas quarenta e oito horas antes de virar cinzas.
Eu estava em um motel caindo aos pedaços na Baixada, tentando descobrir como desaparecer com apenas cinquenta reais no bolso.
O celular pré-pago que comprei com dinheiro vibrou contra o criado-mudo de laminado barato.
Não era um número.
Era apenas a palavra CORRA.
Antes que eu pudesse processar, a porta se estilhaçou.
Dois homens de touca ninja preencheram o vão, bloqueando a luz do corredor.
Eles não falaram.
Eles avançaram.
Eu lutei, minhas unhas arranhando inutilmente jaquetas de couro grossas, minhas botas acertando canelas.
Um deles me deu um tapa de mão aberta.
Minha cabeça estalou para trás, e o mundo ficou embaçado nas bordas.
Eles me arrastaram para uma van antes que eu pudesse gritar.
Um saco preto foi colocado sobre minha cabeça, me mergulhando na escuridão.
O ar lá dentro era denso, com o cheiro enjoativo de gasolina e suor velho.
Dirigimos por quase uma hora.
Quando a van parou, eles me puxaram para fora e me fizeram andar sobre o cascalho que rangia.
Eu podia ouvir o rugido do oceano.
O saco foi arrancado.
Estávamos na Mansão da Joatinga.
A propriedade particular de Heitor.
Mas não era uma escapada romântica.
Era um palco.
Fui empurrada para uma cadeira no centro do pátio.
As abraçadeiras de plástico cortavam a pele sensível dos meus pulsos.
Na minha frente, amarrada a outra cadeira, estava Estela.
Ela parecia perfeita, mesmo em perigo.
Seu cabelo estava bagunçado na medida certa.
Sua maquiagem estava intacta.
"Socorro!", ela gritou, seus olhos se movendo para uma câmera montada em um tripé. "Heitor, por favor!"
Heitor saiu das sombras como um príncipe das trevas entrando em sua corte.
Ele segurava uma arma.
Parecia um deus da vingança, com o maxilar cerrado e os olhos escuros.
"Soltem elas", ele rosnou para os homens mascarados.
"Você só pode salvar uma, Chefão", disse um dos homens, sua voz distorcida por um modulador.
"A outra vai para o penhasco."
Ele apontou para o penhasco atrás de nós.
Era uma queda livre direto para as rochas pontiagudas e a água agitada.
Heitor olhou para mim.
Depois olhou para Estela.
Por uma fração de segundo, a máscara caiu.
Vi o brilho de diversão em seus olhos.
Isso não era um sequestro.
Isso era a Pegadinha nº 98.
Eu tinha visto a lista em seu iPad uma vez.
Experimentos sociais.
Testes de lealdade.
Jogos doentios para psicopatas ricos.
"Eu escolho...", Heitor fez uma pausa para efeito dramático, olhando diretamente para a lente da câmera. "Estela."
Ele correu até ela, cortando suas amarras com uma faca que tirou da bota.
Ele a puxou para um beijo apaixonado e cinematográfico.
Os homens mascarados agarraram minha cadeira.
"Não!", gritei, o terror real mesmo que o cenário não fosse. "Heitor!"
Ele nem olhou para trás.
Estava ocupado demais bancando o herói para sua futura esposa.
Os homens empurraram.
Eu tombei para trás.
A gravidade me arrebatou.
Eu caí.
O vento assobiava em meus ouvidos como um grito.
Fechei os olhos com força, esperando o impacto das rochas.
Esperando a morte.
Em vez disso, atingi algo macio.
O ar sibilou violentamente ao meu redor.
Eu quiquei.
Abri os olhos.
Eu estava deitada em um colchão de ar de dublê amarelo gigante no deck inferior da mansão.
Acima de mim, na varanda, Heitor e Estela olhavam para baixo, rindo.
Estela segurava uma taça de champanhe.
"Você tinha que ver a sua cara!", ela gritou.
Heitor se inclinou sobre o parapeito.
"É só um jogo, Kênia", ele gritou, sua voz se espalhando sem esforço pelo vento. "Não seja tão dramática. O colchão de ar custou vinte mil reais."
Fiquei ali, olhando para o céu cinzento.
Meu corpo doía.
Meu coração era uma cratera.
Ele não tinha apenas partido meu coração.
Ele tinha transformado meu terror em conteúdo para sua diversão.
Eu não era uma pessoa para ele.
Eu era um objeto.
E objetos não podem simplesmente ir embora.
Kênia Ayres POV
Arrastei-me para longe da mansão, os sons estridentes de sua celebração ainda flutuando das janelas do andar de cima como uma provocação cruel.
Meu tornozelo estava torcido, latejando no ritmo do meu coração.
Minha dignidade estava em frangalhos.
Cheguei à estrada principal quando o sol começou a se pôr, manchando o horizonte com tons violentos de roxo e preto.
Eu tinha uma última carta para jogar.
Uma carta que eu havia jurado nunca tocar.
Aproximando-me de um orelhão do lado de fora de um posto de gasolina fechado, meus dedos tremeram enquanto eu discava o número gravado em minha memória de três anos atrás.
Tocou uma vez.
"Fale."
A voz era baixa. Rouca. Carregada de uma violência adormecida.
"É a Kênia Ayres", sussurrei, agarrando o fone como se minha vida dependesse disso. "Estou cobrando a dívida."
Houve um silêncio do outro lado.
Pesado. Denso. Sufocante.
"Onde você está?"
"Estrada das Paineiras, perto dos penhascos dos Dantas."
"Fique nas sombras. Não se mova. Se um carro passar, se esconda."
A linha ficou muda.
Gael Sampaio.
O Dono do clã Sampaio.
A família rival.
Ele era o monstro debaixo da cama que Heitor sempre me disse para temer.
Mas Heitor foi quem acabou de me jogar de um penhasco por diversão.
Vinte minutos depois, um SUV preto parou, com os faróis apagados.
A porta de trás se abriu.
Mal registrei a sombra de um motorista na frente.
Eu só o vi.
Gael.
Ele estava sentado no banco de trás, vestido com um terno que custava mais do que minha vida inteira.
Ele não sorriu.
Ele não ofereceu a mão.
Ele apenas me olhou com olhos como aço polido.
"Entre", ele ordenou.
Eu entrei, gemendo ao puxar minha perna ferida para dentro.
O interior cheirava a couro caro e uísque de primeira.
"Ele te quebrou", Gael afirmou.
Não era uma pergunta.
"Sim", eu disse, minha voz oca.
"Então o contrato começa", ele disse, seu tom finalizando meu destino. "Três meses. Você me pertence."
"Eu sei."
Minha cabeça girava. A adrenalina estava desaparecendo, deixando para trás um choque frio e trêmulo.
"Eu preciso... preciso de um hospital", murmurei, a visão embaçando.
"Artur", Gael disse para a silhueta no banco do motorista. "Hospital Samaritano. A ala particular."
A escuridão me levou antes mesmo de chegarmos à rodovia.
*
Acordei em um quarto branco.
O *bip-bip-bip* constante de um monitor era o único som.
Uma TV estava montada na parede, passando o noticiário sem som.
Pisquei, tentando focar através da névoa da medicação.
Vi o rosto de Heitor na tela.
Ele estava em um pódio, com uma expressão solene.
Estela estava ao seu lado, enxugando os olhos secos com um lenço.
Tateei em busca do controle remoto na mesa de cabeceira e liguei o som.
"...um trágico mal-entendido", dizia Heitor, sua voz suave como mel envenenado. "Kênia estava instável. Ela estava com ciúmes do meu noivado com Estela. Ela se jogou da varanda em uma tentativa de chamar a atenção. Estamos gratos por ela ter sobrevivido."
Mentiroso.
"Estamos rezando por sua recuperação", acrescentou Estela, sua voz tremendo com uma dor ensaiada. "Ela precisa de ajuda."
A porta do meu quarto de hospital se abriu.
Heitor entrou.
Ele usava o mesmo terno da coletiva de imprensa, recém-saído de sua performance.
Ele segurava um buquê de lírios.
"Você acordou", ele disse, fechando a porta com um clique suave.
Ele jogou as flores no pé da cama.
"Lírios", eu murmurei, minha garganta se apertando. "Eu sou alérgica a lírios."
Heitor parou.
Ele franziu a testa, uma confusão genuína vincando sua testa.
"É mesmo?", ele perguntou. "Eu não sabia disso."
Três anos.
Ele não sabia que eu era alérgica a lírios.
Ele não sabia nada sobre mim.
"Saia", eu disse.
"Não seja assim, meu bem", ele arrulhou, aproximando-se. "A imprensa engoliu tudo. Você é a ex trágica. Eu sou o salvador benevolente. É bom para o preço das ações."
Ele estendeu a mão para tocar meu rosto.
Eu recuei violentamente.
"Não me toque."
"Você ainda é minha, Kênia", ele sussurrou, seus olhos escurecendo em dois poços de obsessão. "Você vive na minha cidade. Você respira o meu ar. Não pense por um segundo que pode ir embora."
Ele não sabia quem me trouxe aqui.
Ele achava que seus homens me encontraram.
Ele não sabia que o lobo já estava dentro de casa.