Capítulo 2

As sirenes da ambulância desapareceram ao longe, levando Caio, Alice e a criança.

Fiquei nos destroços da boutique, cercada pelo silêncio atordoado dos clientes restantes e pelos flashes das câmeras dos paparazzi.

O ar ainda vibrava com os tremores secundários do confronto, mas para mim, um tipo diferente de silêncio havia se instalado.

Era o silêncio de um fim, um corte definitivo do passado.

Caio Ferraz. O próprio nome parecia uma cicatriz.

Ele era o herdeiro de uma dinastia tradicional de São Paulo, um legado no qual nasceu e que tinha pavor de perder.

Sua família, os Ferraz, era um nome sussurrado com reverência em certos círculos, sinônimo de poder, riqueza e um senso de tradição quase sufocante.

A riqueza deles não era apenas dinheiro; era história, uma narrativa cuidadosamente curada de sucesso e superioridade.

Caio fora preparado desde o nascimento para sustentá-la, para encarnar sua força.

Ele sempre fora ferozmente protetor, quase ao extremo.

Quando adolescente, fora sequestrado, um evento traumático que moldou toda a sua visão de mundo.

Ele sempre acreditou que Alice, minha irmã adotiva, o salvara durante aquele calvário.

Ela chegara à cena, sem fôlego e chorosa, logo quando a polícia o resgatou, segurando a mão dele e tecendo um conto de heroísmo no qual todos, especialmente Caio, acreditaram implicitamente.

Eu também estava lá, escondida, ferida, vendo-a levar o crédito pelas minhas ações.

Mas eu era apenas a garota quieta e desajeitada, e Alice era a deslumbrante e frágil.

Anos depois, uma gravidez repentina e inconveniente forçou o avô de Caio a pressionar pelo nosso casamento.

Era uma aliança pragmática, projetada para fundir duas famílias proeminentes, mas Caio ressentia-se de mim por isso.

Ele me via como um dever, um compromisso, nunca o verdadeiro objeto de seu afeto.

Eu, por outro lado, o amava com uma devoção feroz e inabalável por quinze anos, uma devoção nascida daquele momento secreto de heroísmo, aquele que só eu lembrava.

Acreditei, tolamente, que meu amor poderia eventualmente romper sua fachada fria.

Quando entrei em trabalho de parto em nossa casa de campo em Campos do Jordão, tudo saiu do controle.

A clínica particular, a interferência de Alice, o equipamento "defeituoso".

Meu bebê. Nosso filho recém-nascido, tirado de mim antes que eu pudesse segurá-lo adequadamente.

Alice, consumida por seu ciúme e obsessão por Caio, sabotou o equipamento de ressuscitação neonatal, garantindo que nosso filho asfixiasse.

Ela alegou que ele "nasceu morto", uma consequência trágica do meu suposto uso de drogas, uma mentira avidamente abraçada por Caio e meus próprios pais, que sempre favoreceram Alice.

Eles me manipularam psicologicamente, convencendo-me de que eu estava alucinando, que meu luto me levara à loucura.

Então, eles me trancaram.

Três anos. Três anos de medicação forçada, de terapeutas ecoando as mentiras deles, de ouvir que minhas memórias eram delírios.

Três anos sendo despida da minha sanidade, da minha maternidade, da minha própria identidade.

O mundo lá fora acreditava que eu era uma herdeira viciada, instável e perigosa.

A família Rodrigues, meu próprio sangue, me deserdou, ficando do lado de Alice e Caio, protegendo a imagem deles.

Meus pais amavam a ideia de uma filha adotiva perfeita e grata mais do que a própria filha.

Mas dentro das paredes brancas e estéreis daquela clínica no interior, algo mudou.

A Camila gentil e de fala mansa morreu. Em seu lugar, emergiu uma mulher mais fria e afiada.

Aprendi a sobreviver, a criar estratégias.

Encontrei um aliado improvável em Jonas Carvalho, um investidor de risco implacável internado por seus próprios motivos.

Ele viu o fogo nos meus olhos, a injustiça na minha história.

Eu o salvei de um ataque particularmente cruel lá dentro, e ele, em troca, prometeu-me seus recursos, seu poder, quando saíssemos.

Ele se tornou meu sócio silencioso, meu cavaleiro das trevas.

Meu retorno a São Paulo não foi um capricho. Foi uma execução.

Meu jato particular pousou em Congonhas, as luzes da cidade uma tapeçaria brilhante abaixo.

Jonas já estava lá, uma sentinela silenciosa esperando no carro preto blindado.

Ele não perguntou sobre o incidente na boutique; apenas assentiu, a expressão ilegível, reconhecendo o primeiro ataque.

"Para Campos do Jordão," instruí o motorista. "Tenho assuntos pendentes na mansão."

Os portões familiares da propriedade Ferraz surgiram, um monumento a uma vida que perdi.

A longa entrada serpenteava por gramados bem cuidados, passando por cercas vivas que pareciam sussurrar velhos segredos.

A casa em si, uma estrutura grandiosa e imponente, permanecia silenciosa e sombria sob o luar.

Foi aqui que meu pesadelo começou. E era aqui que eu desmontaria o deles.

Assim que pisei no cascalho da entrada, um rosnado baixo rasgou a noite.

Um Doberman enorme, "Duque", o cão de exposição premiado de Alice, uma criatura de músculos elegantes e dentes afiados, saltou das sombras.

Ele latiu, um som cruel e gutural, os dentes à mostra.

"Duque!" ouvi uma voz estridente. Alice, claro.

O cachorro saltou, um borrão preto mirando minha garganta.

Não recuei. Três anos no manicômio me ensinaram a prever a violência, a reagir sem hesitação.

Movi-me, um passo lateral rápido e praticado, girando meu corpo o suficiente para evitar o impacto total do ataque.

Os dentes dele ainda rasparam no meu antebraço, rasgando o tecido da minha manga e abrindo um corte profundo na minha pele.

A dor foi imediata, lancinante, mas amortecida pela adrenalina.

"Sua monstra! O que você fez com meu Duque?!" Alice gritou, correndo para frente, não para mim, mas para o cachorro.

Ela se ajoelhou, segurando a cabeça dele, a voz um soluço teatral.

"Meu pobre bebê! Ela o atacou!"

Uma enxurrada de jardineiros e funcionários da casa apareceu das sombras, os rostos uma mistura de choque e medo.

Eles cercaram Alice e o cachorro, os olhos alternando entre meu braço sangrando e o rosto manchado de lágrimas de Alice.

Eles eram gente de Caio, leais a Alice por extensão, e a suspeita deles pairava pesada no ar.

"Ele me atacou," declarei, minha voz calma, plana.

O sangue brotava, uma mancha escura contra minha pele pálida. "Eu me defendi."

Alice soltou outro lamento.

"Ela está mentindo! Duque é um gigante gentil! Você o provocou, Camila! Você sempre provoca tudo!"

Ela acariciou a cabeça do cachorro, me fuzilando com olhos venenosos.

"Você provavelmente se machucou só para fazê-lo parecer mau!"

Os funcionários assentiram, os rostos sombrios.

Eles lembravam da velha Camila, a instável, aquela que supostamente imaginava coisas.

A lealdade deles era inabalável, comprada e paga.

Ninguém ofereceu ajuda. Ninguém sequer reconheceu meu braço sangrando.

A preocupação deles era unicamente com o "pobre Duque" de Alice.

A injustiça era uma dor fria e familiar. Era exatamente como antes.

Enfiei a mão no bolso, meus dedos fechando em torno de um objeto pequeno e afiado.

Não era uma arma, não no sentido tradicional, mas uma ferramenta dos meus dias de isolamento, um pedaço pequeno e cego de metal que afiei contra o chão de concreto.

Era para proteção, para fuga, para esculpir uma lasca de controle em um mundo que tentava me negar qualquer um.

Esta noite, serviria a um propósito diferente.

Duque, ainda agitado, avançou novamente, um rosnado baixo retumbando em seu peito.

Desta vez, não me esquivei.

Encarei-o de frente, minha mão movendo-se com uma velocidade nascida do desespero e da intenção calculada.

O metal encontrou seu alvo, fundo atrás da orelha dele, cortando um nervo crítico.

Ele desabou instantaneamente, um peso morto e silencioso no gramado bem cuidado.

A vida drenou de seus olhos, deixando-os opacos e vagos.

Silêncio. Absoluto e aterrorizante silêncio.

Alice olhou, a boca aberta.

Seus olhos, arregalados e horrorizados, fixaram-se no cachorro, depois em mim.

A cor sumiu de seu rosto, deixando-o cinzento.

"Duque?" ela sussurrou, a voz quase inaudível. "Meu Duque... você... você o matou!"

Fiquei de pé sobre o Doberman caído, meu peito arfando, meu braço latejando.

Sangue pingava dos meus dedos, misturando-se com o do cachorro na grama imaculada.

"Ele estava me atacando," repeti, minha voz firme, inflexível.

Meus olhos varreram os rostos chocados dos funcionários, depois pousaram em Alice, cuja fachada cuidadosamente construída estava agora estilhaçada, revelando o ódio cru e não adulterado por baixo.

"Você é louca!" ela gritou, pulando de pé, a voz falhando de fúria e luto genuíno por seu animal de estimação.

"Você é um monstro! Você matou meu cachorro! Caio vai destruir você!"

As palavras dela, as ameaças, a histeria, lavaram sobre mim.

Não senti nada além de uma satisfação silenciosa.

Esta era a verdadeira Alice, não a vítima inocente. E todos estavam assistindo.

Ninguém se moveu. Ninguém correu para o meu lado, apesar do meu ferimento sangrando.

Eles ficaram congelados, olhando para o Doberman morto, depois para mim.

Seus rostos continham uma mistura de medo e nojo. O julgamento deles era algo palpável.

Que julguem, pensei. Eles ainda não viram nada.

Virei as costas para Alice, para os funcionários boquiabertos, para o animal morto.

Meu braço latejava, uma dor quente e insistente.

Caminhei em direção à casa, em direção à mansão que um dia fora meu lar, agora um túmulo de memórias perdidas.

Eu sabia que ninguém me ajudaria. Nunca ajudaram.

Encontrando o banheiro principal, tranquei a porta atrás de mim.

O mármore frio e o cromo brilhante pareciam antissépticos.

Tirei minha manga rasgada, revelando o ferimento profundo e irregular.

Deixaria cicatriz. Outro lembrete.

Limpei-o meticulosamente, derramando antisséptico sobre a carne viva, estremecendo, mas sem recuar.

A dor era uma força de ancoragem, um lembrete de que eu era real, de que estava viva, de que estava lutando.

Eu precisava de atendimento médico externo, uma sutura adequada, mas isso significaria um hospital, perguntas e mais atrasos.

Não podia arriscar. Não agora. Não quando o jogo tinha apenas começado.

Enfaixei o melhor que pude, apertando bem para estancar o sangramento.

Assim que terminei, batidas frenéticas irromperam na porta.

"Camila! Abra esta porta! Caio está aqui! Ele está furioso!"

Era Alice, a voz uma mistura de terror e malícia triunfante.

"Você vai pagar por isso, sua vagabunda!"

Meu coração começou a bater forte, não de medo, mas de uma antecipação fria e estimulante.

Caio. Ele estaria aqui. Agora.

E ele veria sua "salvadora" em lágrimas, lamentando seu cachorro morto, enquanto a "louca" permanecia desafiadora.

Ele me culparia. Ele sempre culpava.

Mas desta vez, a culpa dele seria um passo no meu plano.

A maçaneta chacoalhou violentamente.

"Camila! Abra essa maldita porta!" A voz de Caio, espessa de raiva, trovejou através da madeira. "O que você fez?!"

Respirei fundo, ajeitei meu vestido e então, com um movimento lento e deliberado, destranquei a porta.

Ele estava lá, uma figura formidável, o rosto contorcido de fúria.

Ao lado dele, Alice agarrava-se ao braço dele, o rosto inchado de chorar, os olhos vermelhos, mas um brilho triunfante reluzia através das lágrimas.

Ela gesticulava loucamente para o chão, onde uma poça de sangue se espalhava lentamente do corpo imóvel de Duque.

"Ela o matou, Caio! Ela assassinou o Duque! Meu pobre e inocente Duque!" Alice gemia, enterrando o rosto no peito dele.

O olhar de Caio, queimando com uma intensidade quase animalesca, varreu o cachorro morto, depois meu braço enfaixado, finalmente pousando no meu rosto impassível.

"O que você fez, Camila?" A voz dele era um rosnado baixo, mal controlado.

"Por que você faria isso? Você tem ideia do quanto o Duque significava para a Alice? Para mim?"

Ele falava do significado do cachorro para ele.

Não do meu braço sangrando, não do meu trauma, não do fato de que fui atacada.

Minha mente voltou ao passado, a incontáveis momentos da minha dor sendo descartada, ofuscada pelo sofrimento fabricado de Alice.

Ele uma vez me comprou um colar de pérolas, um gesto de paz após uma de nossas discussões silenciosas. Eu o valorizava.

Até que Alice alegou que lhe dava reação alérgica e ele o pegou de volta, pedindo desculpas a ela profusamente.

Meus sentimentos não importavam. Nunca importaram.

Ele valorizava a vida de um animal mais do que valorizava a minha.

Ele valorizava as lágrimas de Alice mais do que meu sangue.

"Ele me atacou," repeti, minha voz calma como uma pedra. "Eu me defendi."

"Ele estava apenas ansioso!" Caio rugiu, o rosto escurecendo.

"Um cachorro gentil! Você deve tê-lo provocado! Você sempre fazia isso, quando estava aqui antes, sempre espreitando, deixando-o nervoso!"

Ele olhou para Alice, a raiva suavizando em preocupação.

"Você está bem, querida? Isso deve ser aterrorizante para você."

Alice fungou, agarrando-se a ele.

"É, Caio. Ela é tão cruel. Ela sabia o quanto eu o amava."

Meu olhar permaneceu fixo em Caio.

Lembrei da lealdade protetora feroz que um dia senti por ele, como eu teria dado qualquer coisa por sua aprovação, seu amor.

Lembrei de como um dia desejei que ele visse Alice como ela realmente era, que me visse.

Mas aquela Camila estava morta, substituída por esta mulher que entendia que o desejo era uma fraqueza, e a autoestima era uma arma afiada na solidão.

"Seu amor por aquele cachorro, Caio," eu disse, minha voz cortando a raiva dele, "sempre foi mais profundo do que qualquer amor que você já mostrou por mim. Ou pelo nosso filho."

As últimas palavras foram um sussurro, uma dor fantasma no meu peito.

"Estou indo embora."

"Você não vai a lugar nenhum!" Alice gritou, afastando-se de Caio, os olhos flamejando de malícia.

"Você acha que pode simplesmente matar meu cachorro e ir embora?! Não enquanto eu estiver aqui!"

Encontrei o olhar dela, um desafio frio e inabalável em meus olhos.

"Apenas observe."

Virei-me e passei por Caio, pelos funcionários atordoados, pelo cheiro persistente de sangue e medo.

Cada passo era um ato deliberado de libertação, um rompimento das correntes que me prenderam por tanto tempo.

Ouvi Caio chamar meu nome, uma ordem aguda e irritada, mas não parei.

Saí da mansão, da vida à qual um dia me agarrei desesperadamente, e entrei na noite fria e silenciosa.

A propriedade em Campos do Jordão estava agora atrás de mim, uma pira ardente de memórias dolorosas.

Amanhã, o verdadeiro incêndio começaria.

Capítulo 3

A limusine preta blindada que Jonas providenciou deslizava silenciosamente pela noite de Campos do Jordão, um contraste gritante com o caos que deixei para trás.

Meu braço pulsava com uma dor surda, um lembrete constante do custo físico do meu retorno.

Recostei-me nos assentos de couro macio, minha mente já dissecando o encontro, calculando o próximo movimento.

O ódio cru de Alice, a raiva cega de Caio — tudo estava indo conforme o planejado.

De repente, o carro deu um solavanco violento, depois parou de forma abrupta e chocante.

Minha cabeça foi jogada para frente, batendo contra o encosto.

Uma dor aguda disparou pelo meu pescoço. O cinto de segurança, projetado para segurança, cravou no meu ombro.

O zumbido silencioso da eletricidade morreu, substituído por uma quietude sinistra.

"O que está acontecendo?" exigi, minha voz afiada, a adrenalina disparando.

Tentei a maçaneta da porta. Trancada.

Tentei a janela. Não se mexia. A trava de segurança infantil estava acionada.

O carro estava selado, uma gaiola de luxo em um trecho deserto da estrada.

Um zumbido baixo e metálico encheu o carro, então a voz de Caio, fria e desencarnada, preencheu a cabine através do sistema Bluetooth.

"Gostando do passeio, Camila? Você não deveria ter voltado. E certamente não deveria ter tocado no cachorro da Alice."

A voz dele era desprovida de emoção, um tom monótono e arrepiante.

"Você acha que pode simplesmente fazer o que quiser agora? Ir embora? Não é assim que funciona."

Meu coração batia forte, um tambor frenético contra minhas costelas.

Ele não estava apenas me ameaçando; estava decretando uma punição.

Isso não foi um colapso repentino; foi premeditado.

A raiva fria que senti antes solidificou-se em uma determinação dura como diamante.

Ele ia tentar me quebrar de novo.

Soquei as janelas, as portas, inutilmente. O vidro era grosso, à prova de balas.

O carro era uma fortaleza, impenetrável por dentro.

Tentei meu celular. Sem sinal. Ele tinha pensado em tudo. Ele orquestrou isso.

Então, a temperatura no carro começou a cair.

Uma rajada de ar gélido, depois outra, encheu a cabine.

O controle climático, ajustado para congelar, mordia minha pele.

Minha respiração formava nuvens no ar frio.

O ferimento no meu braço latejava, uma nova onda de dor me invadindo.

Ele ia me congelar, literalmente.

Queria me lembrar da minha impotência, do poder absoluto dele sobre minha vida.

Encolhi-me contra o assento, tentando conservar calor, tentando ignorar o frio cortante que se infiltrava nos meus ossos.

Meu corpo, já machucado e surrado pelo manicômio, pelo ataque do Duque, começou a tremer incontrolavelmente.

Isso era um novo nível de crueldade, calculado e preciso.

Minha mente, apesar da dor e do medo, vagou de volta.

Lembrei de um carro diferente, um tempo diferente.

Anos atrás, antes da amargura, antes da traição.

Caio e eu, dirigindo pela cidade numa noite fresca de outono.

Tínhamos acabado de começar a namorar, um romance turbulento após o "resgate" dele por Alice.

Ele tinha sido tão charmoso, tão atencioso.

Ele me puxava para perto, o braço um peso quente e protetor em volta dos meus ombros.

Ele costumava dizer: "Você está segura comigo, Camila. Sempre."

Aquelas palavras, um dia um bálsamo para minha alma, agora pareciam uma piada cruel.

Ele prometeu segurança, depois entregou uma prisão.

Ele prometeu amor, depois ofereceu apenas manipulação e traição.

Minha mente repassou o rosto dele enquanto segurava Alice, enquanto corria para a criança engasgada.

Ele olhou para eles com uma intensidade que um dia fora reservada para mim, naqueles breves e preciosos momentos em que acreditei que ele realmente me via.

As memórias, afiadas e dolorosas, eram um contraste gritante com a realidade gélida da limusine.

Ele não era o homem que eu amei. Aquele homem, se é que existiu, estava morto há muito tempo.

Este Caio, este homem frio, calculista e faminto por poder, era um estranho.

Não havia volta, nem reacendimento, nem esperança para o que fomos um dia, ou o que eu esperava que pudéssemos ser.

O amor que um dia senti, uma coisa frágil e trêmula, finalmente congelou, estilhaçado pela crueldade deliberada dele.

Minha visão embaçou.

O frio, combinado com a perda de sangue e a exaustão, estava cobrando seu preço.

Minhas pálpebras ficaram pesadas.

Lutei contra isso, lutei contra a escuridão rastejando nas bordas da minha visão, mas meu corpo estava falhando.

O último pensamento antes que a escuridão me consumisse foi no meu filho, um grito silencioso de desafio contra o homem que roubou tudo.

Ele pagaria. Todos eles pagariam.

Um jato de água gelada me chocou, me acordando.

Meus olhos se abriram, meu corpo convulsionando em um tremor violento.

Minha cabeça latejava, meu braço gritava em protesto.

Arfei, sugando o ar gélido, desorientada e com dor.

"Levante-se, Camila. Você tem plateia."

A voz de Caio, agora ao vivo e direta, cortou a névoa.

Ele estava de pé sobre mim, o rosto sombrio, um balde na mão.

Alice estava ao lado dele, envolta em um casaco de pele grosso, um sorriso presunçoso e venenoso nos lábios.

Eu não estava mais na limusine.

Estava do lado de fora, no frio cortante, ajoelhada no chão duro e congelado.

Meu corpo doía, cada músculo gritando em protesto. Desorientada, olhei em volta.

Meu sangue gelou.

Eu estava no Mausoléu da Família Ferraz.

Uma estrutura gótica grandiosa, esculpida em pedra escura e imponente, repousava solenemente em meio a árvores antigas e despidas pelo inverno.

Era aqui que os mortos da família Ferraz dormiam.

Era aqui que as cinzas do meu filho estavam trancadas, atrás de uma porta pesada de bronze, acessível apenas pela leitura biométrica de Caio.

Meu objetivo final. Minha razão para suportar isso.

E agora, o mausoléu, o local de descanso sagrado do meu filho, estava profanado.

Uma casinha de cachorro tosca e colorida montava guarda na entrada, um insulto berrante contra a pedra sombria.

No telhado dela, uma foto pequena em moldura prateada de Duque, o Doberman morto de Alice, estava apoiada, cercada por flores murchas.

Era um insulto cruel e calculado.

O local de descanso do meu filho havia sido transformado em um santuário para o cachorro dela.

Uma nova onda de luto, afiada e potente, rasgou-me por dentro.

Era crua, não convidada, do tipo que rouba seu fôlego e paralisa sua alma.

Eles fizeram isso.

Tiraram cada pedaço da minha vida, cada memória, cada fragmento de dignidade, e agora estavam me provocando com a profanação da memória do meu filho.

"Saiam de perto daí!" grasnei, minha voz crua, minha garganta queimando.

Tentei me levantar, tentei correr em direção ao mausoléu, em direção à casinha de cachorro, para derrubá-la, para reivindicar a paz do meu filho.

Mas mãos fortes, pertencentes a dois seguranças corpulentos, agarraram meus braços, segurando-me firmemente no lugar.

Eles estavam esperando. Eles sempre estavam esperando.

"Ah, o instinto materno," Alice ronronou, a voz pingando falsa simpatia.

Ela se aproximou, a respiração formando nuvens no ar frio, os olhos brilhando de malícia.

"Ainda agarrada a essa fantasia, Camila? Não tem nada aí para você. Apenas... cinzas."

Ela deu de ombros, um gesto desdenhoso.

"E o Duque. Meu lindo e leal Duque. Ele merecia um memorial adequado, ao contrário de... alguns."

O olhar dela piscou para o meu rosto, uma zombaria cruel de um sorriso.

"Me dê as cinzas do meu filho," exigi, as palavras arrancadas do meu peito. "Devolva ele!"

Alice riu, um som alto e quebradiço.

"Nunca. Ele está exatamente onde pertence. Com os Ferraz. Ele é um Ferraz, afinal. Ou pelo menos, teria sido, se você não tivesse sido tão... descuidada."

Ela se virou para Caio, um suspiro dramático escapando de seus lábios.

"Ela é tão volátil, Caio. Sempre foi. Lembra o que aconteceu da última vez? Como ela se recusou a admitir o vício?"

Caio deu um passo à frente, o rosto sombrio.

Ele pegou uma pequena urna elegante de um pedestal próximo, um belo vaso de porcelana.

Meu coração saltou. Seria...?

Não. O pequeno nome gravado na lateral, 'Duque Ferraz', esmagou minha esperança.

"Nós só queremos que você peça desculpas, Camila," disse Caio, a voz plana, desprovida de calor.

"Por tudo. Por machucar a Alice. Por matar o cachorro dela. Por perturbar nossas vidas. Um pedido de desculpas público. Um vídeo para as redes sociais. Apenas admita que estava errada, e podemos seguir em frente. Pelo bem do nome Ferraz. Pelo bem do preço das ações da empresa."

Ele gesticulou para a casinha de cachorro, para o mausoléu.

"Ou este será o local de descanso permanente do seu filho. Para sempre ofuscado pelo cachorro que você assassinou."

As palavras me atingiram como um golpe físico.

Ele estava mantendo a memória do meu filho como refém, explorando meu luto, transformando-o em uma arma contra mim.

Ele queria que eu rastejasse, que me humilhasse publicamente, que confessasse as mentiras dele, tudo para proteger sua imagem, sua empresa, sua nova vida com Alice.

Ele ainda era o mesmo homem, ainda tentando me controlar, me quebrar.

Ele ainda me via como uma coisa quebrada que precisava ser gerenciada.

Meu corpo tremia, não de frio, mas de uma onda de fúria incandescente que ameaçava me consumir.

Era isso. A profanação final. O insulto definitivo.

"Pedir desculpas?"

Cuspi a palavra, minha voz crua e quebrada, a fachada cuidadosamente construída rachando sob o peso desse novo ultraje.

"Pedir desculpas por me defender? Pedir desculpas por lembrar a verdade? Nunca."

Meus olhos, queimando com lágrimas não derramadas, fixaram-se nele.

"Você quer que eu implore, Caio? Quer que eu faça o papel de louca de novo? Tudo bem."

Afundei de joelhos, não em submissão, mas em desafio.

O frio infiltrou-se no meu vestido fino, gelando-me até os ossos. Meu braço latejava, uma dor surda e insistente.

"Você quer que eu rasteje pelas ações da sua preciosa empresa, pelo nome da sua família? Pelo cachorro dela?"

Gesticulei loucamente para Alice, que assistia com um sorriso triunfante.

"Você destruiu minha vida. Roubou meu filho. Me trancou."

Lágrimas, quentes e reais desta vez, escorreram pelo meu rosto.

"E agora você mantém as cinzas dele como reféns."

Minha voz quebrou, um som cru e atormentado que rasgou o ar frio da noite.

"Eu vou te dar seu pedido de desculpas, Caio. Vou te dar seu maldito vídeo. Mas saiba disto."

Meus olhos, injetados e desesperados, encontraram os dele.

"Você vai se arrepender disso mais do que qualquer coisa que já fez. Eu juro. Pelo túmulo do meu filho. Você vai se arrepender de cada segundo que desperdiçou amando ela."

Apontei um dedo trêmulo para Alice.

"Nós acabamos. E você vai perder tudo."

O maxilar dele trincou, os olhos se estreitando.

Ele ainda acreditava que tinha vencido, que eu estava quebrada.

Mas algo nos meus olhos, na força pura do meu desespero, pareceu fazê-lo hesitar. Um lampejo de dúvida, uma pitada de desconforto.

Alice, sentindo a hesitação dele, deu um passo à frente.

"Não dê ouvidos a ela, Caio! Ela só está tentando te manipular! Ela sempre foi louca! Lembra das drogas? Das alucinações?"

Ela puxou o braço dele, a voz estridente.

"Faça ela fazer o vídeo agora! Antes que ela mude de ideia!"

Caio olhou de Alice para mim, depois de volta para o mausoléu, para a casinha de cachorro berrante.

O conflito interno dele, por mais breve que fosse, era claro.

A imagem, a família, a percepção pública. Ele fez sua escolha.

"Pegue a câmera," ele ordenou a um dos seguranças, a voz dura, definitiva.

Ele se virou para mim, o rosto desprovido de misericórdia.

"Você vai dizer o que eu mandar você dizer, Camila. Ou nunca mais verá essas cinzas. Entendeu?"

Encontrei o olhar dele, minhas lágrimas agora secas, meu rosto uma máscara de fúria fria.

"Eu entendo, Caio," sussurrei, as palavras carregando uma promessa de devastação. "Ah, eu entendo perfeitamente."

O segurança voltou, segurando uma câmera profissional, a lente fria e indiferente.

Caio me observava, a expressão inflexível.

Alice pairava ao lado dele, uma predadora saboreando sua presa.

Este era o momento de triunfo deles. Eles pensavam que eu estava derrotada.

Estavam errados. Isso era apenas o começo.

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