Anabela Matos POV:
Eles me achavam infantil. Acreditavam que o trabalho da minha vida, o ápice de anos de noites sem dormir e dedicação implacável, era uma "feirinha de ciências".
Eu havia dito a eles, semanas atrás, que deveriam ir à festa da Karina. Eu sabia o quanto a persona online dela, sua marca, significava para eles. Era chamativo, fotogênico, algo sobre o qual eles poderiam se gabar nos jantares do clube. Meu trabalho era... silencioso. Acontecia em laboratórios estéreis, na linguagem silenciosa de células e dados. Não rendia uma boa postagem no Instagram.
"Vocês todos deveriam ir apoiar a Karina", eu disse durante o jantar. "É a grande noite dela." Eu nunca pedi que eles escolhessem. Eu nunca quis ser um fardo. Eu só queria, por uma vez, que eles me vissem sem que eu precisasse gritar por sua atenção.
Esse foi o meu erro. Presumi que eles sabiam sobre o prêmio Capes. Presumi que tinham lido o convite que deixei no balcão da cozinha. Presumi que, mesmo que escolhessem a Karina, eles pelo menos reconheciam o que eu havia conquistado.
Mas eles não reconheceram. Para eles, eu estava apenas fazendo birra.
A memória do que aconteceu em seguida era um filme que eu era forçada a rever da minha nova perspectiva etérea. Desdobrou-se em minha mente com uma clareza aterrorizante.
Eu estava no porão, meu laboratório improvisado em casa, fazendo os ajustes finais nos slides da minha apresentação. A casa estava silenciosa. Pensei que eles já tivessem saído.
Então ouvi a porta dos fundos ranger ao abrir. Não o estrondo alto da minha família, mas um gemido metálico e furtivo.
Dois homens que eu nunca tinha visto antes entraram. Eram grandes, vestidos com roupas escuras, seus rostos obscurecidos por sombras e gorros.
"Quem são vocês?", eu perguntei, minha voz tremendo enquanto me levantava da minha mesa. "Como entraram aqui?"
Eles não responderam. Apenas se moveram em minha direção, sua presença preenchendo o pequeno espaço, sugando todo o ar. Um deles ergueu uma chave. Uma chave que reconheci na hora. Era a cópia que eu tinha dado para a Karina, para emergências.
Um pavor gelado, mais frio que a própria morte, me invadiu.
"A patroa só quer que a gente te dê um susto", rosnou o homem com a chave. "Garantir que você perca sua festinha hoje à noite. Fique aqui embaixo, quieta, e não vai se machucar."
"Por favor", implorei, minha mente a mil. "Por favor, apenas vão embora. Não vou contar a ninguém. Eu prometo."
Minhas súplicas não eram nada para eles. Eram apenas ruído. O primeiro homem me agarrou, sua mão como um torno no meu braço. Ele foi rude, me empurrando de volta para a parede de concreto. Ele pegou o celular.
"A chefe quer uma prova", disse ele ao parceiro. "Uma foto. Algo para fazê-la parecer patética."
Eles riram. O som era feio, cheio de malícia. Eles estavam gostando daquilo. Meu terror era o entretenimento deles.
"Fiquem longe de mim", gritei, uma onda de adrenalina cortando o medo. Eu lutei. Chutei, arranhei, fiz tudo o que pude para escapar.
Foi um erro.
Na luta, o segundo homem me empurrou com força. Força demais. Meus pés se enroscaram e eu caí para trás. A parte de trás da minha cabeça bateu na quina afiada de uma prateleira de metal com um estalo doentio.
Uma explosão de dor branca e quente explodiu atrás dos meus olhos. Então, um calor que se espalhava pelo meu cabelo, descendo pelo pescoço. Eu podia sentir a vida se esvaindo de mim, uma torrente pintando o chão de vermelho.
Os homens congelaram. A risada morreu em suas gargantas, substituída por um pânico de olhos arregalados.
"Merda", um deles sussurrou. "Não era para isso acontecer."
Eles não me socorreram. Não chamaram ajuda. Apenas correram. Saíram apressados pela porta dos fundos e desapareceram na noite, me deixando sozinha na escuridão que se espalhava.
Com a última gota de minha força, rastejei em direção à minha mesa de trabalho. Meu celular estava lá. Minha visão estava embaçada, o quarto girando violentamente, mas consegui pegá-lo. Meus dedos, escorregadios com meu próprio sangue, atrapalharam-se com a tela.
Disquei o número da minha mãe na discagem rápida. Chamou uma, duas vezes, e caiu na caixa postal. Tentei de novo. Recusado.
Uma mensagem de texto iluminou a tela. Era do Thiago.
Para de ligar. Já entendemos. Você está com raiva. Cresce.
Lágrimas de puro desespero escorreram pelo meu rosto. Eles achavam que isso era um jogo. Estavam bloqueando minhas ligações, ignorando minha tentativa desesperada de me agarrar à vida.
Meus dedos tremeram enquanto eu discava o último número em que conseguia pensar. Daniel. Meu noivo. O homem que deveria me amar, me proteger.
Ele atendeu no segundo toque.
"Bela?" Sua voz estava distante, distraída. Eu podia ouvir o baixo pulsante da música ao fundo. Ele já estava na festa.
"Daniel", eu ofeguei, a palavra um som úmido e borbulhante. "Me ajuda... estou ferida. Estou sangrando."
Houve uma pausa. Eu o ouvi suspirar, um som de exaustão cansada que estilhaçou o último fragmento do meu coração.
"Anabela, isso pode esperar?", ele disse, sua voz carregada de impaciência. "Você não pode fazer isso hoje à noite. Não na grande noite da Karina. Você está sendo dramática."
"Não... por favor...", solucei. "É grave, Daniel. Eu acho... acho que estou morrendo."
"Não diga isso", ele retrucou, embora não houvesse preocupação em seu tom, apenas irritação. "Olha, eu te levo para um jantar legal amanhã para compensar, ok? Vamos àquele lugar que você gosta. Só... seja adulta por uma noite. Por favor."
A linha ficou muda.
Ele tinha desligado na minha cara.
Deitada ali, na escuridão fria com cheiro de metal, eu finalmente entendi. Não haveria jantar legal amanhã. Não haveria amanhã nenhum. Meu corpo seria encontrado, eventualmente. Um trágico acidente.
E enquanto o último resquício de calor me deixava, um único e arrepiante pensamento ecoou no silêncio da minha mente. Era algo que a Karina havia gritado para mim durante uma briga anos atrás, uma discussão boba e infantil.
Eu queria que você simplesmente desaparecesse! Queria que você estivesse morta!
Bem, Karina, pensei, enquanto meu mundo se apagava.
Você conseguiu o que queria.
---
Anabela Matos POV:
Meu espírito estava acorrentado a esta casa, uma prisioneira silenciosa forçada a assistir a vida que perdi ser apagada. Eu não podia sair. Estava presa à sala de estar, um espaço que nunca pareceu verdadeiramente meu, agora um palco para um retrato de família do qual eu não fazia mais parte.
Eles estavam todos lá, reunidos em torno da Karina como se ela fosse uma rainha em sua corte. Ela estava sentada no meu sofá branco, um trono que ela mesma criou, desembrulhando uma bolsa de grife caríssima — um presente de nossos pais.
Meu pai, Roberto, um homem que geralmente passava as noites absorto em notícias financeiras, estava inclinado para a frente, um sorriso raro e genuíno no rosto. "Você merece, querida. Tudo isso."
"Depois disso, vamos te levar para fazer compras na Rua Oscar Freire na semana que vem", acrescentou minha mãe, seus olhos brilhando de orgulho. "E precisamos começar a planejar aquela viagem a Paris para o seu aniversário."
Karina fingiu humildade, um rubor cobrindo suas bochechas. "Ah, gente, vocês não precisam fazer tudo isso. É demais."
"Besteira", minha mãe acenou com a mão de forma desdenhosa. Ela então olhou ao redor da minha sala, seu olhar crítico. "Sabe, quando a Anabela finalmente se mudar para ficar com o Daniel, deveríamos transformar este lugar em um estúdio adequado para você. Ela mal usa o espaço de qualquer maneira, sempre enfurnada naquele laboratório sombrio dela."
Os olhos de Karina se arregalaram em uma performance de preocupação fraternal. "Oh, mãe, não podemos fazer isso. O que a Bela diria?"
"O que importa o que ela diz?", minha mãe zombou. "Ela escolheu o caminho dela. É dever dela como sua irmã mais velha te apoiar."
Thiago, sempre o servo leal da filha de ouro da família, apareceu com uma taça de champanhe para Karina. "Aqui está, Ka. Tudo pela estrela da noite."
Eu pairava perto do teto, um nó frio e invisível de luto. Observei o calor e as risadas fluírem entre eles, uma corrente de afeto da qual eu nunca fizera parte. Era uma dor física, essa dor fantasma no meu coração espectral. Eles eram uma unidade familiar completa, e eu sempre fui a peça extra, aquela que não se encaixava direito.
Karina tomou um gole delicado de seu champanhe, seus olhos brilhando com algo mais do que apenas bolhas. "Eu só queria que a Bela estivesse aqui para comemorar conosco", disse ela, sua voz escorrendo uma tristeza falsificada. "Não entendo por que ela ainda está tão brava."
Suas palavras, perfeitamente cronometradas, mudaram a energia da sala. O calor recuou, substituído por um frio familiar direcionado à minha memória.
"Não se preocupe com ela", meu pai resmungou, seu bom humor evaporando. "Ela só está sendo egoísta, como sempre. Não suporta quando os holofotes não estão nela por cinco minutos."
"Sinceramente", minha mãe concordou, balançando a cabeça em desapontamento. "Você pensaria que uma mulher da idade dela já teria superado essas birras infantis." Ela olhou para Karina, sua expressão suavizando. "É preciso um talento único na vida para alcançar o que você alcançou, meu amor. A Anabela ganha um daqueles prêmios bobinhos a cada dois anos."
Ela fez parecer que minha pesquisa era um hobby, um troféu de participação que eu colecionava por pena.
"Ela só está tentando estragar sua noite, Ka", ela continuou, sua voz endurecendo. "Não deixe."
Karina fez um biquinho brincalhão. "Mãe, não seja má. Tenho certeza de que o prêmio dela é... legal." A condescendência em sua voz era tão sutil, tão habilmente tecida, que apenas eu podia ouvir. Vi o brilho de satisfação em seus olhos enquanto ela me pintava com sucesso como a vilã, a irmã mais velha ciumenta e mesquinha.
Eu conhecia aquele olhar. Eu o vi a vida inteira. O sorriso silencioso e triunfante de uma manipuladora que sabia exatamente como jogar com sua plateia. Lembrei-me dela no ensino médio, lutando com as notas enquanto minhas próprias conquistas passavam despercebidas. Nossos pais investiram recursos em tutores para ela, comemorando seus seis como vitórias monumentais, enquanto meus dez eram recebidos com um aceno distraído.
Uma vez, ela roubou meu trabalho de pesquisa para uma aula de história e o entregou como se fosse dela. Quando o professor, reconhecendo meu trabalho, ligou para nossos pais, Karina caiu em prantos, alegando que eu a forcei a fazer isso por ciúmes. Fui eu quem ficou de castigo por um mês. Fui eu quem teve que suportar a desaprovação fria e silenciosa.
Tudo o que eu sempre quis foi uma lasca do amor incondicional que eles derramavam sobre ela. Apenas uma fração. Eu esperava encontrá-lo com Daniel, construir uma vida onde eu finalmente fosse a primeira escolha de alguém.
Mas até ele foi atraído para a órbita de Karina, hipnotizado por seu charme brilhante e sem esforço. Ele começou a priorizar os eventos sociais dela em vez de nossas noites tranquilas, descartando meus sentimentos como insegurança. O amor que eu pensei que tínhamos era apenas mais uma coisa que Karina, lenta e metodicamente, tirou de mim.
Agora, como um fantasma, a dor se foi. Não havia aperto no peito, nem ardência de lágrimas nos olhos. Havia apenas um vazio profundo e sem fundo. Eu estava entorpecida. O espírito não pode sentir dor, afinal. Ele só pode se lembrar dela.
---