A ligação terminou e, quando ergui os olhos, encontrei o olhar da minha mãe fixo em mim. Havia esperança misturada com medo em seus olhos.
"Outro casamento?", ela murmurou, quase sem voz. "Alana, tem certeza de que vai dar certo desta vez?"
Me limitei a assentir, exausta demais para explicar qualquer coisa. Além disso, ainda não havia revelado todo o plano para ela.
Nesse instante, a porta do quarto se abriu.
Damião surgiu ali, segurando um buquê com meus lírios preferidos.
Meu coração disparou e um pavor gelado tomou conta de mim — ele não podia estar ali, não agora!
Olhei desesperada para minha mãe, que entendeu no mesmo momento e se posicionou entre mim e a porta, como se quisesse me proteger.
"Ele não pode descobrir meu casamento", pensei, com o pânico crescendo. "Se descobrir, nunca vai me deixar partir. Vai me prender a ele para sempre. Esse era o seu modo de amar."
Damião entrou mais um passo no quarto, seus os olhos carregados de uma tristeza encenada, e disse com voz macia, quase suplicante: "Alana, minha querida, preciso te pedir algo."
Meu corpo ficou rígido, enquanto o encarava.
"Evelyn e eu... vamos nos casar. Amanhã."
As palavras me atingiram como uma pancada no estômago.
"Mas é só fachada", ele continuou apressado, notando minha expressão. "O terapeuta dela sugeriu. É uma forma de dar segurança a Evelyn, para que ela possa se recuperar. Depois, eu me divorcio e ficamos juntos. De verdade. Vou te dar tudo o que você sempre sonhou."
Seus olhos imploravam que eu acreditasse quando ele completou: "Eu só preciso que você esteja lá, Alana, como madrinha da Evelyn."
A ironia disso quase me fez rir. Madrinha? No casamento da mulher que me destruiu e do homem que deveria ser meu noivo?
Meu coração, já tão machucado, se contraiu de dor. Para ele, o que eu era? Um brinquedo descartável? Um animal de estimação que podia ser ferido e depois acalmado com promessas ocas?
Lembrei-me das palavras que tantas vezes ouvi dele: "Alana, você é o meu mundo, minha única."
Mentira! Uma raiva quente percorreu minhas veias, e peguei o copo de água da mesa de cabeceira, arremessando contra ele.
"Saia daqui!"
Ele desviou com facilidade e o copo se espatifou contra a parede, espalhando estilhaços pelo chão.
"Alana, por favor, seja razoável", disse ele, irritantemente calmo, como se nada tivesse acontecido. "Haverá um casamento simples é amanhã. Vou mandar alguém te buscar. E a grande festa será na próxima semana."
Ele queria legitimar seu relacionamento com Evelyn enquanto me mantinha sob controle? Queria que o mundo visse que eu, sua verdadeira noiva, aprovava a união deles? Era a humilhação máxima.
"Vocês dois são doentes", esbravejei cuspindo, com a voz trêmula de ódio. "Você e ela são loucos. E eu não sou a cura de vocês."
Agarrei o travesseiro e joguei nele com toda a força.
Dessa vez, ele não desviou. O objeto bateu em seu peito e deslizou para o chão sem impacto.
"Vai chegar para você um vestido lindo", ele disse, imperturbável. "Lilás, a sua cor favorita."
Ele deu alguns passos em minha direção. "Quando tudo terminar, eu vou compensar você. Juro que vou."
"Saia daqui!", gritei de novo, a voz rasgando minha garganta e ecoando pelos corredores do hospital.
Nas horas seguintes, meu quarto se transformou num palco para a peça doentia que eles encenavam — Evelyn e Damião apareciam juntos, quase diariamente, e se sentavam perto da minha cama, de mãos dadas, falando de seus planos e implorando para que eu aceitasse participar da cerimônia.
Evelyn fingia fragilidade, com os olhos cheios de uma inocência falsa. "Alana, por favor. Eu tenho tanto medo. Se você estivesse lá, eu teria mais segurança."
E logo encenava uma crise, levando a mão ao peito, arfando, como se fosse desmaiar.
As enfermeiras e pacientes me olhavam com reprovação e cochichavam: "Aquela pobre moça... E a noiva dele é tão cruel com ela."
Eu era a vilã da história que eles tinham inventado.
Durante uma visita, não aguentando mais, encarei Evelyn e disse, com a voz baixa e envenenada: "Espero que você morra."
Seu rosto se desfez em lágrimas instantâneas. "Eu não posso, Damião! Não consigo me casar com você se ela me odeia tanto! Vamos cancelar tudo!"
Então, ela saiu correndo do quarto, chorando alto.
Damião se virou para mim, seu rosto distorcido de raiva, e agarrou meus ombros com força.
"Por que você precisa ser tão difícil?", rugiu ele. "Não pode simplesmente aguentar por um tempo? Por mim?"
Com seus olhos selvagens e desesperados, ele continuou: "Estou fazendo isso por nós dois! Assim que ela melhorar, tudo volta ao normal, eu prometo!"
"E se ela nunca melhorar?", perguntei, fria.
Ele hesitou por um instante. "Ela vai. Ela tem que melhorar."
Eu estava cansada, cansada demais de lutar. "Vai atrás dela, Damião, antes que ela se jogue na frente de um carro e eu seja acusada pela morte dela."
Isso foi suficiente para ele me soltar e sair correndo, gritando o nome de Evelyn pelos corredores.
Olhei para a porta aberta, sentindo meu peito vazio, pesado.
Eu não suportava mais ficar ali, então, decidi pedir alta. Arrumei minhas poucas coisas, com minhas mãos firmes e uma determinação nova.
Enquanto caminhava pelo saguão do hospital, vi Damião, que estava parado próximo ao balcão de informações, sorridente, distribuindo pequenas caixas de lembrancinhas de casamento às enfermeiras.
"Parabéns pelo casamento, senhor Ávila!", disse uma delas, sorrindo.
Meu estômago gelou, e logo peguei o celular. Havia uma mensagem nova, de Evelyn.
Ela havia mandado uma foto: duas mãos entrelaçadas, cada uma exibindo uma aliança dourada.
Logo abaixo, outra imagem: a certidão de casamento oficial, datada daquele mesmo dia.
O casamento não seria amanhã, mas era hoje. Ele havia mentido mais uma vez!
Uma risada seca escapou dos meus lábios, e segurei firme a alça da minha mala de mão, os dedos tão tensos que quase perdi a cor.
Do outro lado do saguão, estava o homem que deveria ser meu marido, celebrando o casamento com outra.
Lembrei-me da mãe dele, rígida e sempre prática, o pressionando para apressar o matrimônio. "Casamento também é negócio, Damião. Uma fusão de famílias significa uma fusão de empresas."
Naquele dia, ele segurou minhas mãos com tanta ternura e fitou meus olhos com tanta devoção. "Não, mãe, vou me casar com a Alana porque a amo. Quero que tudo seja perfeito para nós dois. Dia vinte de maio, esse será o nosso dia."
Perguntei por que essa data, e ele apenas sorriu, enigmático. "Vai ser uma surpresa."
Eu esperei, acreditando como uma tola ingênua, mas no tão esperado dia, quem subiu ao altar com ele foi Evelyn Bastos.
Curiosamente, desta vez, a memória não trouxe dor, mas sim um estranho alívio.
Nesse momento, uma enfermeira passou diante de mim, mastigando com gosto um bombom delicado. "O senhor Ávila é mesmo generoso. São chocolates suíços personalizados. Imagine o preço."
Quando me viu parada ali, sorriu com gentileza e me estendeu um pedaço: "Pegue, é um dia de comemoração."
Não aceitei, apenas olhando.
Meu olhar voltou a Damião, que ria, encantado, sem perceber minha presença.
Então Evelyn surgiu ao lado, radiante em seu vestido branco simples, se esticou na ponta dos pés e depositou um beijo tímido na bochecha dele.
Ele passou o braço pela cintura dela com naturalidade, exibindo aquele sorriso carinhoso e tão convincente.
A chefe das enfermeiras se aproximou, curiosa. "E quando será a grande festa? Queremos ver a noiva deslumbrante no vestido."
Damião respondeu com segurança: "Na próxima semana. Será uma celebração enorme, transmitida para o mundo inteiro. Quero que todos saibam o quanto amo minha esposa."
Ele segurou a mão de Evelyn como se fosse o retrato perfeito do marido devotado.
Então, virei as costas e deixei o hospital.
Em casa, sobre a cama, o vestido lilás me esperava, o mesmo que ele havia escolhido para que eu usasse no casamento deles.
Imediatamente, o peguei e levei até a lareira para queimá-lo. Vi as chamas engolirem o vestido, transformando cada detalhe delicado em cinza escuro. Não chorei, nem sorri, apenas assistindo.
Logo depois, subi ao quarto e arrastei do fundo do armário uma caixa pesada. Dentro, estavam todos os presentes que ele já tinha me dado, embalados no mesmo papel azul profundo, salpicado de pequenas estrelas prateadas.
"Por que essa cor?", perguntei uma vez, passando os dedos pelo desenho.
Ele me beijou e respondeu: "Porque você é o meu céu, Alana. Meu tudo."
As lembranças vieram como um golpe no peito — olhos apaixonados, promessas doces, mãos quentes segurando as minhas... Tudo parecia uma vida que não era mais minha.
Levei a caixa até a lareira e atirei tudo no fogo. As chamas rugiram, consumindo não só os presentes, mas também a história que eles carregavam.
O passado virou cinza.
Peguei o celular e fiz duas ligações. A primeira para um corretor: "Quero vender a casa. Preciso que seja imediato."
A segunda foi para o jardineiro: "Arranque todas as hortênsias azuis. Cada uma. Não quero vê-las mais."
Damião tinha plantado aquelas flores com cuidado, sujando as mãos de terra. "São da cor dos seus olhos quando você sorri."
Eu não precisava mais daquelas flores, nem dele.
Quando tudo terminou, um cansaço pesado me dominou, deitei na cama vazia e adormeci num sono agitado.
Acordei com a estranha sensação de estar sendo observada. Uma mão percorria meu cabelo.
Abri os olhos num sobressalto.
Damião estava ali, inclinado sobre mim, com o rosto tão próximo que pude sentir o cheiro de champanhe caro em seu hálito.
O empurrei com força, arrastando meu corpo para o outro lado da cama.
"O que pensa que está fazendo aqui?", sibilei. "Você é um homem casado agora. Isso é absurdo."
Um aperto atravessou meu estômago ao perceber que ele ainda tinha uma chave da casa, então, fiz uma anotação mental para trocar as fechaduras ao amanhecer.
Damião se ergueu, fingindo mágoa. "Alana, não seja assim."
Ele estendeu a mão, tentando tocar meu cabelo de novo. "Só peço mais um pouco de paciência. Eu vou me divorciar dela, eu juro. E então você terá o casamento mais grandioso que já existiu."
Seus olhos brilhavam com a mesma intensidade de sempre. Uma atuação impecável!
"Você ficou ferida", disse ele baixinho. "Eu sei que ficou."
De repente, um grito atravessou a casa. "Damião! Onde você está? Você prometeu que não me deixaria!"
A voz era de Evelyn, que devia ter seguido seus passos e ouvido tudo.
Houve um silêncio breve, depois um pranto desesperado. "Se você voltar para ela, eu me mato! Faço isso agora mesmo!"
Escutamos a porta bater e, em seguida, o som dos pneus arrancando na rua.
Meus pais, despertados pelo barulho, entraram no quarto às pressas, viram as duas figuras correndo lá fora e depois olharam para mim, o rosto carregado de preocupação.
Eu estava exausta demais para qualquer explicação.
"Troquem as fechaduras", pedi, com a voz neutra.
Eles se entreolharam, inquietos, mas não questionaram, apenas se retirando em silêncio.
Puxei as cobertas até a cabeça e desejei, do fundo da alma, que o mundo simplesmente desaparecesse.