Capítulo 2

Eliza POV:

Eu me arrastei para fora da mansão, o frio da noite cortando minha pele como mil facas. Cada passo era uma tortura, mas eu me recusava a olhar para trás. Não havia mais nada para mim ali. Eu estava livre, mas a liberdade vinha com um preço: a solidão e a certeza da morte iminente. Meu corpo tremia incontrolavelmente, não apenas pelo frio, mas pela exaustão e pela dor.

Eu me joguei em um táxi, dando o endereço de uma pousada barata que eu havia pesquisado em segredo. O motorista me olhou pelo retrovisor, a preocupação em seus olhos. Eu apenas balancei a cabeça, indicando que estava tudo bem. Mas não estava. Eu nunca estive tão longe de estar bem.

Cheguei à pousada, um lugar decrépito com cheiro de mofo e cigarro velho. As paredes descascadas, o carpete manchado. Não era o que eu estava acostumada, mas era um abrigo. E, pela primeira vez em muito tempo, era meu. Eu paguei em dinheiro, sem dar meu nome verdadeiro. Não queria ser encontrada.

Naquele quarto, eu desabei. Eu me olhei no espelho, e a mulher que me encarava de volta era um fantasma. Pálida, com olhos afundados e sem brilho. Seus lábios manchados de sangue seco. Eu ri, uma risada sem humor, rouca e amarga. Eles nunca acreditaram em mim. Lorenzo, meus pais, Bruna. Ninguém. Eu era fraca demais para ser levada a sério, doente demais para ser amada.

Agora, vendo meu reflexo, eu entendi. Eles realmente nunca me viram. Nunca. Para eles, eu era apenas um fardo, uma noiva problemática para os negócios e uma filha que não se encaixava em seus planos ambiciosos. Lorenzo, o homem com quem eu estava prometida desde a infância, nunca me amou. Ele apenas me suportou por causa do contrato, por causa das empresas de nossas famílias. E agora, nem isso.

Eu me recompus, a dor lancinante em meu corpo sendo ofuscada pela raiva fria que começava a borbulhar dentro de mim. Eu não morreria em silêncio. Eles me subestimaram. Eles iriam se arrepender.

Eu tinha que resolver o contrato. A dor em meu peito intensificou, mas eu respirei fundo, puxando forças de alguma reserva profunda. Eu me recusei a ser um fardo até o fim. Mesmo que eu estivesse morrendo, eu faria isso sozinha. Não precisava da assinatura de Lorenzo, mas eu tinha que formalizar o processo para que, após minha morte, não houvesse pontas soltas, não houvesse mais nada que me ligasse a ele. Eu o queria completamente fora da minha vida, para sempre.

Naquela noite, enquanto Lorenzo brindava com Bruna, alheio à minha dor e à minha decisão, eu preenchi os papéis da dissolução do noivado. A caneta parecia pesada em minha mão trêmula, mas eu escrevi meu nome com uma determinação feroza. Eu não estava apenas rasgando um contrato; eu estava rasgando a última esperança de amor e aceitação que eu tinha, e me entregando à verdade cruel. Era um ato de autodeterminação, de libertação final.

No dia seguinte, reuni minhas últimas forças para enviar os papéis. Na rua, o sol parecia um insulto, brilhando indiferente à escuridão que me consumia. Eu sabia que minha vida estava se esvaecendo, mas havia uma estranha paz em tomar as rédeas do meu próprio destino, mesmo que fosse apenas para dar um fim digno à minha existência.

Voltei para casa, para a mansão Covilhã, um lugar que um dia chamei de lar, agora apenas um mausoléu de memórias dolorosas. Eu precisava pegar minhas poucas coisas. A porta estava destrancada, como se eles esperassem que eu voltasse, rastejando, como um cão abandonado. Mas eu não o faria.

O corredor que levava ao meu quarto estava escuro e silencioso. O ar estava pesado, como se a própria casa soubesse que eu estava ali para me despedir. Eu abri a porta do que costumava ser meu santuário. Mas não era mais meu.

Meu quarto, que um dia foi meu refúgio, havia sido transformado em um depósito. Caixas empilhadas, móveis cobertos com lençóis empoeirados. Minhas memórias jogadas de qualquer jeito. Minhas roupas, minhas fotos, meus livros... tudo estava coberto por uma fina camada de poeira. Era como se tivessem tentado apagar minha existência, remover qualquer vestígio de que eu um dia estive ali.

Eu caminhei entre as caixas, meu coração apertado. Eu encontrei um pequeno álbum de fotos, um presente que Lorenzo me deu quando éramos crianças. Ele estava amassado e sujo. Eu o abri, e a poeira que me cobria o rosto, embaçando minha visão. Uma foto minha, aos dezoito anos, sorrindo, cheia de esperança. Meus olhos brilhavam, meu cabelo estava sedoso. Eu era tão ingênua. Eu era tão cheia de vida.

Eu me olhei no espelho novamente, o contraste brutal. Meu rosto estava pálido, sem vida, os olhos vazios. Eu tinha a mesma idade da foto de Bruna que Lorenzo guardava em seu escritório, mas parecia ter envelhecido décadas. Bruna havia roubado não apenas meu noivo e meu status, mas minha juventude, minha imagem, minha própria essência.

Enquanto eu observava a foto, uma ligação inesperada tocou. Era do crematório que eu havia contatado dias atrás. "Senhorita Covilhã? Sua solicitação foi aprovada. O custo é de dez mil reais."

Dez mil reais. Eu não tinha esse dinheiro. Não mais. Eu havia gastado quase tudo que tinha em médicos e remédios. A família havia cortado meus cartões após eu ser considerada "incapaz". Eu estava sem um centavo. Eu não teria um lugar para descansar, nem mesmo depois da morte.

Eu desliguei o telefone, a risada amarga subindo à garganta novamente. Nem a morte me daria paz. Eu não podia me dar ao luxo de morrer com dignidade. Patético. Tudo em minha vida era patético.

O som de passos no corredor me alertou. Eu congelei. A porta se abriu, e Lorenzo entrou. Ele parecia irritado, os olhos varrendo o cômodo e parando em mim, encolhida entre minhas caixas empoeiradas.

"Que cheiro é esse?" ele perguntou, o nariz enrugado em desgosto. "Cheira a doença, a mofo. É por isso que você está aqui? Para cheirar a doença em um quarto empoeirado?" Ele tossiu, cobrindo a boca.

Ele parecia procurar algo, talvez o cheiro de um perfume que ele esperava encontrar, mas não encontrou. Aquele quarto, uma vez meu, não carregava mais nenhum vestígio do meu cheiro. Não havia nada ali que o lembrasse de mim, da mulher que uma vez dormiu naquela cama.

"O que você está fazendo aqui, Eliza?" ele perguntou, sua voz fria. "Eu te disse para não voltar. E o que era aquela ligação? Sobre um crematório? Ele me olhou com desconfiança, como se eu estivesse tramando algo. "Mais uma de suas tentativas de chamar atenção? Fingir que está morrendo de verdade?"

Eu queria gritar, queria dizer a ele a verdade, mas as palavras ficaram presas em minha garganta. Minha fraqueza me impedia de me defender. Eu já estava morrendo, e ele ainda me acusava de mentir.

"Não há nada para dizer," eu murmurei, minha voz quase inaudível.

"Exatamente," ele disse, me interrompendo. "Porque não há nada para você aqui. Nunca houve." Seu olhar era gelado, cada palavra um golpe. "Você nunca pertenceu a este lugar, a esta família. Você nunca foi boa o suficiente para ser minha noiva. Você era apenas um contrato, um fardo."

Eu senti as lágrimas escorrerem novamente, quentes e dolorosas. Ele tinha arrancado a minha dignidade, a minha esperança, a minha vida. E agora, ele estava me negando até mesmo o direito de me lamentar. Eu era um nada para ele.

Mas, ao invés de chorar, eu me levantei, a raiva me dando forças. Eu não seria mais uma vítima. Eu não seria mais um fantasma. Eu o olhei nos olhos, e pela primeira vez, vi um brilho de algo neles. Talvez arrependimento, talvez culpa. Mas era tarde demais. Eu não era mais a Eliza que ele conhecia. Aquela Eliza havia morrido.

Eu não disse uma palavra. Apenas o olhei, o vazio em meus olhos refletindo o vazio em sua alma. Eu sabia que ele se arrependeria. Não pela minha morte, mas pela verdade que viria à tona. E eu estaria assistindo, de onde quer que eu estivesse.

Capítulo 3

Eliza POV:

O vazio no olhar de Lorenzo era um espelho daquele em meu próprio coração. Ele se virou, a rigidez em seus ombros evidenciando sua tentativa de manter a compostura. Seus olhos, por um breve instante, desviaram-se para o chão, onde os pedaços do meu relatório médico ainda jaziam, rasgados. Um músculo em sua mandíbula tremeu.

"Eliza, você... você precisa parar com isso," ele disse, sua voz um pouco menos controlada do que antes, um leve tremor que só eu, que o conhecia tão bem, pude perceber.

"Parar com o quê, Lorenzo?" Minha voz era um sussurro, quase inaudível, mas cheia de uma amargura que vinha das profundezas da minha alma. "De lembrar você das promessas que fez? Das palavras de amor que sussurrava quando éramos crianças?"

Ele franziu o cenho. "As promessas de infância não significam nada agora, Eliza. Cresça."

"Crescer?" Eu ri, uma risada sem alegria. "Você se esqueceu do meu último aniversário, Lorenzo? Do penúltimo? De todos os meus aniversários desde que Bruna chegou? Você sempre se lembra do aniversário dela. Mas do meu?" O silêncio era a resposta mais cruel. "Você nunca se lembrou."

Ele explodiu. A contenção se quebrou. "Chega, Eliza! Eu não aguento mais os seus dramas! Você sempre foi assim, fazendo-se de vítima, sempre fraca, sempre precisando de atenção. É exaustivo! Sua fragilidade me exausta!" Ele gesticulou, a raiva em seus olhos. "Você acha que eu gosto de ser o vilão? Suas fraquezas, suas doenças, sua sensibilidade... tudo isso me transformou no homem que sou forçado a ser!"

Eu o encarei. Seus olhos negros me pressionavam, me esmagavam. Eu sabia que, para ele, eu era apenas um erro, um fardo que ele desejava desesperadamente se livrar. Eu era a mulher que ele não conseguia amar, a que o envergonhava, a que o impedia de ser o homem perfeito ao lado da mulher perfeita, Bruna.

"Você está certo," eu disse, a voz vazia. "Eu não sou boa o suficiente. Eu nunca fui." A dor em meu peito era uma ferida aberta, mas a aceitação dessa verdade trouxe uma estranha sensação de paz. Eu não lutaria mais. Não havia mais nada para lutar.

Eu me virei, o rosto impassível, e comecei a arrumar meus poucos pertences. "Os papéis para a dissolução do nosso noivado estão sobre a mesa na sala de estar. Eu os enviei para a formalização. Você pode abri-los em três dias. Não antes." Minha voz era calma, sem emoção. Eu não queria mais olhá-lo, não queria mais sentir a dor que seu olhar me trazia.

Ele não respondeu. Eu senti seu olhar nas minhas costas, a confusão misturada com a raiva. Ele saiu do quarto tão abruptamente quanto entrou, deixando-me sozinha com o silêncio e a escuridão.

A meia-noite chegou, e o som do relógio batendo as doze badaladas ecoou pela mansão vazia. Eu me encolhi na cama empoeirada, abraçando o pequeno álbum de fotos, o único vestígio da minha vida antiga que eu ainda tinha. O corpo doía, a cada respiração era uma pontada aguda. Eu calculei o tempo que me restava. Menos de três dias. Eu não dormi.

Ao amanhecer, o som de carros se aproximando. As vozes de meus pais, Antonina e Vicente, e a risada doce de Bruna. Eles haviam voltado da festa. E eu sabia que a tormenta estava apenas começando.

A porta do meu quarto se abriu com um estrondo, revelando Antonina e Vicente, os rostos contorcidos em raiva. Bruna estava atrás deles, seu rosto inchado de lágrimas, mas seus olhos brilhavam com um triunfo secreto.

"Eliza! Como você pôde?" Antonina gritou, sua voz aguda. "Você estragou a festa de Bruna! Ela está devastada! Você a fez chorar! De novo!"

Vicente se aproximou, o rosto vermelho. "Peça desculpas a ela, Eliza! Agora!"

Eu fechei os olhos, respirando fundo. Resisti à vontade de desabar. Três dias. Apenas três dias. Aquela certeza era a única coisa que me mantinha de pé. Eu me lembrava de quando eu era pequena, quando Antonina me abraçava e me protegia. "Você é minha guerreira, Eliza," ela dizia, sua voz suave. Ela me ensinou a lutar, a ser forte. Ela me ensinou a defender a honra da nossa família.

Mas Bruna havia mudado tudo.

Bruna era a estrela. Desde que ela chegou, perfeita, linda, inteligente, eu me tornei a sombra. Aos dez anos, Bruna já era uma prodígio. Ela dominava as artes, as línguas, os negócios. Eu, por outro lado, comecei a ficar doente. Comecei a ter resfriados, tonturas, febres. Eu era a "fraca", a "sensível".

"Eliza é delicada," a médica dizia, após inúmeros exames que nunca encontravam nada. "Ela tem uma fraqueza congênita. Precisa ser protegida."

Mas Bruna, ela era forte. Ela era a herdeira perfeita, a noiva perfeita para Lorenzo, mesmo que o contrato fosse meu. Eu tentava, eu juro que tentava. Eu me arrastava para as aulas de esgrima, para as aulas de piano, mas meu corpo não respondia. Eu caía, eu errava, eu ficava tonta.

Meus pais me olhavam com desapontamento crescente. "Por que você não pode ser como Bruna?" Vicente perguntava, a voz carregada de frustração. "Ela é tão talentosa, tão forte. Você deveria se casar com Lorenzo, mas como você vai liderar ao lado dele se é tão fraca?"

A decepção deles se transformou em vergonha. Eu me tornei a mancha na reputação da família Covilhã. Bruna, por outro lado, era o orgulho deles, a joia que brilhava mais a cada dia. E eu? Eu era a fraqueza, a doença, a vergonha. Eu era a que estava morrendo, lenta e silenciosamente.

"Eliza! Você ouviu o que seu pai disse? Peça desculpas a Bruna!" Antonina me tirou das minhas lembranças.

Eu a olhei, então olhei para Bruna, que desviava o olhar, fingindo tristeza. A verdade começou a se encaixar, como peças de um quebra-cabeça macabro.

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